Notas iniciais
Oi, meus queridos. Bem, acho que esse capítulo é tipo que o fechamento de um arco. Eu particularmente gostei muito desse capítulo, pelas partes fofas e, por mais especial, colocar a minha banda favorita no capítulo. Amor eterno por Everlong s2s2s2

Enquanto Charmin arrumava a cama e retirava uma roupa do armário silenciosamente, Jack consultava um celular antigo e arranhado no canto do quarto. Olhou no relógio e eram quase quatro da manhã. Recolheu a adaga, colocou dentro do coturno esquerdo e sinalizou para Jack que era hora de ir.

Os dois saíram do quarto de Charmin, fazendo o mínimo de silêncio possível e praticamente deslizando os pés pelo chão, indo em direção às outras salas do exército. Havia guardas rondando o local, mas quase todos estavam sentados, quase pegando no sono, e foi fácil passar pelos mesmos ao misturarem-se às sombras.

Charmin tremia interiormente. A ansiedade estava deixando a visão entorpecida e a adrenalina de escapar dali tencionava seus músculos. Ela já podia sentir o aroma das folhas da floresta e da liberdade. Em poucos minutos, estaria fora, com Nick e logo depois, com todos os outros.

Silenciosamente, passou pela sala onde Charlie costumava ficar e, com o grampo roubado, destrancou a porta e deixou Jack de guarda, vigiando os corredores.

Adentrou a sala e a lembrança do almoço com o comandante a invadiu. O cheiro dos legumes e da carne, e do modo gentil e preocupado que o homem teve com ela. Era um tanto sujo invadir sua sala, destrancar o sistema de segurança e fugir, mas aquilo não servia para ela. Não entrou no exército para ajudar um país em caos, entrou no exército por tentar escapar do país em caos.

Passou pela mesa da sala e, num quadro pequeno, viu a foto de duas crianças no colo de uma mulher. Os três sorriam alegremente e o plano de fundo era um jardim ensolarado, iluminando os cabelos louros das crianças e o moreno da mulher. Charmin sorriu, pensando que nunca teve e nunca terá a chance de tirar uma foto daquelas com a própria mãe e o irmão.

Andou até a parede, onde o primeiro quadro ficava. Encostou a mão no quadro e, erguendo a moldura, localizou um cofre pequeno. Charmin estranhou, era tão clichê e inseguro aquele meio para esconder um cofre, mas, Charlie devia ter lá os seus truques. Colocou a mão sobre o teclado que havia ao lado e, digitando, descobriu que a senha tinha somente quatro dígitos.

Resolveu deixar o cofre e ir para a outra parede, não era daquilo que precisava agora. Erguendo a outra moldura, encontrou. Parecia um painel de energia, mas era muito mais sofisticado e complexo do que qualquer outro que já vira. Os botões eram pequenos e enfileirados por cores e códigos, os setores eram nomeados por alas que Charmin desconhecia e havia uma pequena tela para as câmeras, d’onde se viam guardas sentados em cadeiras, dormindo ou jogando conversa fora.

Lembrou-se do conselho de Dilan, quando a visitara horas atrás.

Seis horas antes...

Charmin conversava com Jenny em sua cama quando, repentinamente, Dilan abriu a porta. Jack estava atrás.

– Jack me disse que é sua última noite aqui.

Charmin assentiu. Fazia dois dias que tinha conversado com o rapaz, não achou que ele falaria algo depois daquele momento. Jack fechou a porta atrás de si enquanto Dilan caminhava para a cama de Jenny e sentava-se nela, ao lado da namorada. Charmin levantou, indo para sua cama e esperando que Jack se acomodasse num canto qualquer da parede.

– Sei que não podemos estar aqui e sei que eu não deveria falar disso com você em voz tão alta e clara. – Colocou a mão sobre a de Jenny. – Mas isso é importante para todos nós. Você, em poucos meses, se tornou importante para nós. Até para Jack, que finge não nos escutar nesse momento.

Charmin olhou o rapaz de cabelo comprido e sorriu ao perceber que ele a olhava dizendo “não me faça consentir”.

Então Jenny levantou-se, trazendo consigo uma sacola de plástico pequena, provavelmente de um mercado. Olhou para a morena e abriu o objeto, observando um par de brincos em formato de estrela prateados e envolto de pedras azuis.

– Meu brinco da sorte.

Em seguida, Rose saltou do colo de Sam e, saltitando, entregou um baralho azul enfeitado com dourado. Abraçou Charmin apertadamente e bagunçou seu cabelo enquanto fungava para conter o choro.

– Minhas cartas preferidas.

Sam levantou-se também, entregando à Charmin uma capa de vinil, toda prata com alguns abaixo e, no centro, um círculo preenchido com vermelho com dois F no centro, intercalados. Na capa estava escrito: “Foo Fighters: Greatest Hits”.

– Meu melhor vinil. Ainda funciona e tem uma das melhores bandas do rock antigo.

Charmin entendeu que, se Sam estava dando a ela seu melhor disco, ela tinha mesmo importância para aquelas pessoas. Observar o olhar doce e triste em cada rosto era devastador e confortante ao mesmo tempo. Ver que havia sim se envolvido com pessoas a magoava, mas a fazia feliz ao mesmo tempo.

Dilan aproximou-se de Charmin e, bagunçando os cabelos castanhos, entregou a ela um pequeno embrulho de papel toalha, provavelmente do refeitório. Charmin o desembrulhou, encontrando um bolinho igual ao do dia em que ele a salvou, curando suas feridas e servindo de apoio.

– Nunca mais te dei um desses. Então... É isso. Tenha uma boa viagem, Charmin.

– Obrigada, Dilly.

Dilan revirou os olhos.

– Sabe que odeio esse apelido.

– É. É por isso que eu adoro esse apelido.

Todos estavam em pé, frente a Charmin. Mas, de algum modo, estavam distantes na mente da garota. Faltavam poucas horas para partir e ela não conseguia parar de ficar tão ansiosa que estava. Sentia saudades de Nick, e como sentia. Sentia falta das provocações dele e, estranhamente, sentia falta dos beijos também. Sentia falta de James e de agarrar-se a ele na cama, estrangulando-o enquanto dormia. Sentia falta da timidez de Marc e Kyle, das mentes espertas e sagazes de ambos. Sentia falta de Will, que a confortava e fazia Charmin sentir-se em casa, sendo que a sua fora tomada há muitos anos. Sentia falta do companheirismo divertido de Josh. Sentia falta daquele lugar velho, da floresta e do lago. Sentia falta até do cheiro das folhas e da chuva.

– Bem... – Jack se pôs ao lado de Charmin, sentando-se na cama junto a ela. Ele fazia uma pressão no lugar e deixava Charmin um pouco menos baixa que o rapaz. – Eu não tinha nada pra te dar. Então...

Repentinamente, pôs a mão direita nos cabelos negros de Charmin, afagando-os lenta e carinhosamente. Jack sorriu enquanto fazia pequenos nós na franja da garota e riu fraco quando ela suplicou para que ele parasse.

– Sentirei falta da sua invisibilidade irritante, garota.

No fim da noite, Jack e Dilan compraram refrigerantes e todos se sentaram no chão, jogando cartas e rindo uns dos outros enquanto podiam ficar acordados. Jenny, depois de uma hora, despediu-se e adormeceu, enquanto Rose e Sam decidiram deitar para o treino de amanhã. Jack foi para seu dormitório e Dilan, ao sair, deu um bilhete a Charmin. Havia números e letras num conjunto estranhamente organizado, e Charmin não sabia se era um código ou uma embalagem que Dilan queria que ela jogasse fora.

– Desative essas áreas amanhã. – Sussurrou enquanto abria a porta. Depositou um beijo na bochecha de Charmin. – Boa sorte, Char.

No fim, lá estava ela, procurando todos os setores corretos, desligando-os e esperando que os guardas não prestassem atenção nas câmeras que estavam sendo desligadas. Ao acabar, voltou-se para a foto na mesa e pegou-a, virando-a para ver a data. Mas, coincidentemente, não havia somente uma data.

– Opa. – Murmurou. – Sério que colocou a senha no porta retratos, Charlie?

Digitando o número no cofre, Charmin abriu-o e encontrou uma pistola. Checou e viu que havia seis balas. Guardou-a junto da mochila onde estavam os presentes e, caminhando até a mesa novamente, escondeu-a no fundo da bolsa. Aquilo com certeza a ajudará.

Sobre um bloco que ficava no canto da mesa, Charmin escreveu um rápido bilhete.

Andando rapidamente, abriu a porta e encontrou Jack encostado na parede, meio acordado e meio dormindo. Chacoalhou os ombros do rapaz e o mesmo quase caiu, fazendo um pequeno barulho. Ele a advertiu e Charmin pediu desculpas, encaminhando-se para fora dos corredores.

Chegando ao campo de treinamento, ambos viram alguns guardas perto do portão, com armas do tamanho dos braços e coletes à prova de balas. Se aquilo não era um projeto de prisão, Charmin realmente não sabia que diabos era tudo aquilo.

Agachados, andaram até um canto, onde ficavam jipes para dirigir pela pista de corrida, e esconderam-se atrás de um. Jack jogou uma pedrinha do chão perto de alguns guardas e, ao ouvirem o som, todos empunharam as armas e começaram a caminhar para o interior do local. Jack levantou-se levemente, esperando um guarda que vinha em direção a eles e, quando o mesmo chegou, tampou a boca do homem com um pano e esperou que o mesmo desmaiasse.

Charmin o olhou, brava. Estava tão acostumada a matar pessoas que a importunassem que achou um tanto louco a técnica de Jack, eles poderiam acordar a qualquer momento e denunciá-los. Ele somente deu de ombros.

– Não uso violência.

Andaram até outro jipe, ficando próximos ao portão de entrada. Charmin olhou para uma cabine que ficava do lado oposto e sorriu ao observar que o homem dentro dela dormia. Mas havia mais seis guardas vigiando o local, olhando para todos os lados e atentos a cada movimento.

Jack sinalizou um guarda para Charmin e, contando até três com o dedo, levantou-se e atingiu outro, pressionando a garganta do mesmo e colocando o pano contra a boca, fazendo com que ele desmaiasse. Charmin levantou-se e, com um único movimento, empurrou o homem para o chão, socou sua garganta e deixou-o inconsciente com um golpe no rosto.

Três já foram. Faltavam mais cinco.

Rapidamente, Jack pegou mais dois e, com um chute em cada um, empurrou-os para o chão e desarmou-os, pegando as armas e jogando-as longe, deixando os dois indefesos. Pegou o pano novamente e esperou alguns segundos antes de levantar-se e encontrar Charmin passando a adaga no peito de um guarda, deixando-o caído no chão. Ela, assim como ele, deu de ombros.

– Gosto das coisas do meu jeito.

Um guarda começou a correr em direção a Charmin e, antes que Jack conseguisse avisar, ela fora derrubada. O homem estava sobre ela, pressionando-a e Jack estava longe demais para conseguir chegar até lá sem levar um tiro. Charmin bateu a cabeça no chão duro e sentiu uma dor no local atingido, as mãos estavam paralisadas e as pernas entrelaçadas não se movimentavam, a adaga estava longe.

– Você de novo... – Sussurrou o homem enquanto pressionava suas mãos ainda mais. – Nunca desiste, garotinha?

A voz dele soava familiar e, ao fitar os olhos gélidos e insensíveis do homem, reconheceu-o.

E era impossível que ele estivesse ali naquele momento.

– Você...

– Pois é. – Sorriu maldosamente. – Eu. Sempre soube que você iria fugir, e queria te matar com as próprias mãos. Agora, terei uma chance de sair como o herói desse local. Tudo, novamente, por sua causa.

Era impossível. Talvez fosse obra de um destino minucioso ao sempre colocá-lo nas piores situações de sua vida, Charmin pensava enquanto a garganta era enforcada. Ou, talvez, o destino não existisse e o acaso fosse tão preguiçoso que não se importava de colocar aquele homem em sua vida toda vez que ela estava conseguindo progredi-la.

Desde aquele dia na casa, quando fora brutalmente enxotada, Charmin quis vingança do homem. Então, quando ele apareceu na fila de transição, achou que fosse sua chance de mostrar a ele como era superior aos pensamentos dele. Mas, agora que estava mais forte e armada e preparada, não deixaria que a vida dela fosse tirada pelas mãos sujas dele.

A história mudaria dessa vez.

Com uma cabeçada dolorosa, Charmin livrou-se do homem e, num salto, levantou-se enquanto ele colocava as mãos sobre a testa. Puxando a adaga rapidamente com o pé, Charmin empunhou-a e esperou que ele virasse para matá-lo.

– Quer mesmo tentar me matar, garotinha? – Perguntou em desprezo enquanto tirava uma arma da cintura e puxava o gatilho. – Posso matar você como quase fiz naquele dia. Você sabe, foi muito azar seu ter ficado viva para parar nesse hospício. Eu me senti melhor quando soube que foi torturada. Sempre quis fazer você sangrar.

Charmin cuspiu um pouco de sangue que veio do provável aperto de sua garganta.

– Afinal, eu sou uma B inútil, certo?

– Exato. – Ele aproximou-se, a arma na mão estava posicionada. – E agora, será uma B inútil e morta.

O homem ergueu a arma.

– Suas últimas palavras.

Charmin tombou a cabeça, deixando os cabelos caírem no rosto. Ergueu a mão para o homem e, mostrando o dedo do meio para o mesmo, sorriu com todos os dentes.

– Cuidado.

Jack surgiu de trás do homem e chutou sua coluna e o estômago, deixando o homem cair no chão, contorcido de dor. Chutou a arma para longe das mãos do outro. Charmin correu até o amigo e, pedindo para que ele se afastasse, tirou a arma da mochila e esperou que o homem abrisse os olhos para vê-la. Não era uma pessoa vingativa, mas sempre há uma primeira vez para tudo na vida.

Jack correu até a cabine e cuidou do outro homem, ficando no controle do portão.

Os olhos vazios a fitaram e, ao ver a pistola em suas mãos, as pupilas pareceram contrair de medo. Ela sorriu do mesmo modo que ele, mas, à noite, os cabelos escuros e o olho azul claro a deixavam com um ar assombroso. Para ele, ao menos, aquilo parecia como uma assombração.

– Isso é por me expulsar de casa.

Atirou em sua perna. Ele gritou de dor quando o sangue começou a escorrer.

– Isso é por ser um filho da puta e não me deixar passar.

A barriga agora tinha uma mancha vermelha que contrastava com o cinza de sua roupa e dava um ar melodramático ao rosto do homem que estava paralisado.

– Isso é pela minha cicatriz, que eu odeio, aliás.

Pelo braço esquerdo, começou a escorrer sangue e Charmin conseguia enxergar o buraco da bala atravessada. O homem contorcia-se em dor e grunhia com um pouco de sangue escorrendo pela boca. Charmin empunhou a arma ainda mais e, com um olhar frio e quase assustador, caminhou até ficar praticamente em cima do corpo.

– Isso aqui e por ter tirado minha mãe de mim do modo mais cruel possível. – Atirou no braço direito. – Você é um merda mesmo.

– Por favor... – Suplicou. – Por...

– E isso é pela Zona B.

Um último tiro. Direto e certeiro na testa.

Charmin olhou o furo atravessado na testa do homem e guardou a arma na bolsa, pisoteando todo o corpo e rosto do outro. Havia sangue no seu sapato, ela esfregou-o no chão e, com um pigarro, cuspiu sangue no chão e revirou os olhos.

– Esses As inúteis.

Jack aproximou-se e arregalou os olhos ao perceber o homem todo baleado e morto a sua frente. Olhou para o corpo estático do defunto e em seguida, para Charmin novamente, que estava com um olhar horrorosamente despreocupado. Parecia que havia acabado de derrubar um papel, não matado um homem. O furo na testa do morto estava envolto de sangue que escorria pelos olhos abertos e vidrados no céu, parecendo empalhados e feitos de vidro.

– Charmin...

– Não me olhe assustado. Só abra o portão e me tire daqui, Jack.

– Tá. Mas, antes – Segurou sua mão e beijou sua bochecha, piscando para ela. Charmin estremeceu com o toque repentino. – Adeus, meu pesadelo favorito.

Jack demorou alguns segundos para parar de olhar o corpo morto, mas, assim que o fez, correu até a cabine de controle e, destrancando uma pequena portinhola no canto do local, abriu a porta para a Charmin e correu até ela, vendo-a desaparecer pelo local. Ela havia sumido de sua vista novamente.

***

Nick estava escondido atrás de uma grande árvore que ficava frente ao portão do exército. Desde as dez da noite de três dias atrás estava preparando-se para ir ali, ficar sentado atrás de uma tora de madeira e esperar que a hora chegasse e Charmin saísse pelo portão, pronta para voltar para o alojamento.

Sentia falta dela. Sentia tanta que o peito doía em pensar na voz dela.

Meses atrás, quando pensou que ela estivesse morta, o mundo de Nícolas esmigalhou-se em pedacinhos, como quando um giz é amassado e, após isso, chutado e jogado para todos os lados, nunca mais voltando a ser o original. Então, através de Will, soube que ela estava viva e estava sendo treinada do mesmo jeito que ele foi. Alguns pedaços do seu mundo de giz foram achados.

E pensar que, por algumas horas, pensou que nunca mais a veria novamente. Nunca mais ouviria o som de sua voz despreocupada e ao mesmo tempo atenciosa; Não mais sentiria as mãos dela em seu braço ou os cabelos negros emaranhados em seus dedos. A sensação de unir sua boca e dela nunca mais seriam provadas e, junto de tudo aquilo, apodreceria um coração acorrentado.

Mas agora lá estava ele, espiando entre os ramos verdes, esperando que o corpo esguio de Charmin aparecesse entre a escuridão da madrugada. Nícolas não havia dormido em nenhum daqueles dias e estava no nível de fechar os olhos por alguns simples segundos, simplesmente dormir e dar a si mesmo o luxo de sonhar coisas felizes.

Foi então que Charmin apareceu na visão do rapaz.

E ela estava tão diferente que Nick impressionou-se. Os cabelos estavam bem mais longos que da última vez e o corte mudou: estava raspado do lado. O corpo estava ao mesmo tempo mais fino e forte, com alguns músculos pequenos visíveis nos braços e os ombros pareciam mais largos. Estava mais bronzeada e os cabelos negros mais brilhosos reluziam à luz do luar. O rosto parecia mais frio e rígido que da última vez, quando ele a beijou no lago. Ela estava mais madura em todos os sentidos e Nícolas não sabia se temia ou amava aquilo.

Levantou-se dos arbustos e, silenciosamente, caminhou em direção a Charmin. Por um segundo, os olhos dela pareceram brilhar ao vê-lo, mas logo desapareceram quando ele abriu a boca para tentar falar alguma coisa que não citasse como sentia sua falta.

No fim, ele ergueu a mão e acenou desajeitadamente, como um adolescente normal.

– Oi.

Charmin pareceu rir da posição constrangida de Nick e, logo após isso, colocou a mão sobre os cachos finos do garoto. Ela afagou o cabelo dele lentamente enquanto sorria para as bochechas rubras do outro.

– Também é bom te ver, Nícolas.

Eu...

– Nós precisamos ir, não? – Ele não respondeu. – Então vamos.

Nick chacoalhou a cabeça como se estivesse espantando alguns pensamentos e seguiu a garota pela trilha escura. Era estranho ficar atrás dela, relatou, sempre esteve acostumado a guiá-la pelos lugares e, mesmo que Charmin não soubesse de todo o caminho, parecia entendê-lo melhor que ele.

Ele arriscou olhar para baixo. Sorriu. Aquela era sua namorada.

E, novamente, ela parecia tão... Ela não parecia ela, de qualquer forma. Parecia mais uma A que voltava de algum restaurante em algum compromisso e andava pela rua tranquilamente enquanto ouvia os passos. Não parecia Charmin. Não era Charmin. Não tinha mais aquele jeito leve de andar, ficou somente com o ágil e rápido. Os passos eram calculados e os braços não pendiam sobre o corpo, pareciam estátuas que ela segurava enquanto andava. A cabeça estava mais ereta e ela não parava para olhar a paisagem, somente o próprio caminho. E não olhava mais para trás para se certificar se Nick ainda estava ali. Estivesse ele ou não, aquilo não parecia ser problema dela. E novamente Nick discutia consigo mesmo se aquela Charmin era a mesma garota por quem se apaixonou.

– Então... Tudo bem com você? – Perguntou ele alguns passos distantes. Estava receoso de se aproximar dela.

– Não muito, como percebe e pensou. – Ela finalmente olhou para trás, mas até mesmo o olhar parecia diferente. – Você?

– Vou... Normal.

Ela virou-se para ele e começou a caminhar de costas, concentrada nos olhos de Nick. O garoto sentia o rosto queimar por um olhar tão sério sobre ele.

– Normal?

– É.

– Mesmo?

– Está preocupada comigo, Charmin? – Nick deu um tradicional sorriso de coiote e esperou por uma vergonha vinda dela. Ao contrário daquilo, a expressão da garota não mudou.

– Só acho que, se está buscando uma fugitiva do exército quando você também é um fugitivo, a situação não pode ser descrita como normal. – Deus de ombros e voltou a caminhar virada para frente, ignorando uma possível resposta. – Mas enfim.

–... É.

Voltaram ao silêncio e assim foi por quase uma hora. Só se ouvia as cigarras, o vento e os passos dos dois. Aquilo deixava Nick nervoso. Era para os dois estarem conversando alegremente, dando as mãos e contando sobre como as coisas estavam em cada lado. Ele deveria estar falando que o alojamento estava mais movimentado e estavam conseguindo novas e melhores peças pra outra pulseira. E Charmin falaria de Rose, Sam, Jenny, Dilan e Jack. Mas, ao invés de tudo isso, os dois ocupavam as mentes com vazios organizados.

Foi então que, num sussurro, Nick ouviu a voz dela. Mas não da nova Charmin, da mais madura e com um ar de A. Da antiga, friamente gentil e adoradora de palavras de baixo calão. Aquela que o batia e o xingava, mas quando era olhada por ele, deixava transparecer que, em suas mãos, era frágil como uma pétala de rosa.

– Senti sua falta, Nick.

Num disparo, Nick correu até ela e, sem mais nem menos, enlaçou seus dedos aos dela. Depois de uma hora achando que ela mudara, lá estava a original. Lá estava ela, mostrando-se somente para ele como sempre fez. E ninguém podia alterar isso.

Notas finais
Só declarando aqui que eu amo Foo Fighters. Neste momento, estou com uma blusa com imagens de todos os CDs deles :33 E sim, eu amo a blusa. Obrigada por ler. Tente deixar um comentário, um favorito e não se esqueça de acompanhar, mesmo eu postando todas as quartas. Se quiser recomendar, eu deixo, ok? :v Bjinhos s2