Notas iniciais
Muito obrigado aos trinta e poucos leitores. Vocês são muito esplêndidos! Sério, sabe a minha alegria ver que em dois dias, nesse site cheio de histórias que podem ser melhores que a minha, vocês escolheram a Zona B? Eu tô muito grata por isso. Obrigada

Meia noite em ponto ela acordou, andou até a cozinha e pegou o bolo que tinha comprado secretamente para James. Voltou novamente para seu quarto e colocou uma velinha que pegou de uma senhora em troca de algumas moedas antigas. Pegou a embalagem embaixo da cama e foi em direção à próxima porta.

Foi até o quarto do garoto que no momento, estava enrolado em cobertas rasgadas e abraçando um travesseiro. Aproximou-se da cama e agachou, de modo que seu rosto ficasse frente a frente com o de James.

– FELIZ ANIVERSÁRIO JAAAAMEEES! – Gritou no ouvido do garoto, fazendo o mesmo dar um salto na cama.

– Mas que merda é essa, Charmin?! – Esfregava os olhos, tentando tornar a visão clara.

Assim que o fez, viu Charmin agachada à sua frente, segurando um bolo com uma velinha em cima, a chama iluminando o local.

– Hoje é seu aniversário. Seu décimo oitavo ano. – Sorriu, levantando-se. – Nós temos que comemorar enquanto podemos.

James então sentou na cama, ajeitou os cabelos e empurrou a coberta, dando espaço para Charmin.

– Então vamos comemorar. – Apalpou a cama, indicando para a garota sentar ao seu lado. – Onde arranjou essa vela?

– Eu troquei umas moedas antigas por ela.

– Charmin!

– Era pro seu aniversário. Seu nascimento é muito mais importante do que qualquer dinheiro.

– Mas esse dinheiro nos ajuda a sobreviver! Prometa que não irá mais gastá-lo.

– Tá...

– Prometa!

– Eu prometo não trocar dinheiro ajudante por velas. – Levantou um dos braços. – Agora, vamos comer o bolo antes que endureça.

– Falando nele, onde arranjou? – Estreitou os olhos, em dúvida. – Você trocou mais dinheiro por ele?

– Não. Foi um cachecol velho que eu tinha. – Deu de ombros. – Nada importante.

– Você pode ter dezessete, mas age como se tivesse seus catorze ainda.

– E você briga comigo depois, mas agora nós vamos comer seu bolo.

Então com uma faquinha de plástico precária, Charmin cortou um pedaço do bolo e deu para James. Mesmo no frio, escuro e pobreza, Charmin era daquele tipo de garota que colocava as pessoas importantes acima de tudo. Até acima de proteger-se com o que sobrava.

– Então, você já arrumou suas coisas? – Perguntou James, engolindo a ultima parte da fatia. – Nós temos algumas horas até os soldados chegarem, e eu quero sair daqui e chegar à floresta antes que eles batam na porta.

– Falta só o cobertor que eu tirei para dormir. – Respondeu a garota, colocando o bolo no chão e pegando a embalagem que antes estava embaixo da cama. – Mas, antes de irmos. Um presente.

– Mas você já comprou o bolo e a vela.

– Mas você merece muito mais que um bolo e uma vela. Por me aturar nesses três longos anos e me acolher aqui sem perguntas e exigências. – Sorriu, entregando a caixinha e ao tocar os dedos do garoto, sentiu que estes estavam mais gelados que os próprios. – James, enrole-se na coberta. Você está muito frio.

– Tudo bem, eu não estou com tanto frio assim. Não se preocupe comigo.

– Mas...

– Mas nada. Eu vou abrir.

Dando por vencida, a garota bufou, revirou os olhos e concordou.

– Tudo bem, tomara que goste.

Uma fitinha branca de cetim velho prendia uma pequena caixinha de papelão caseira. No escuro era difícil retirar a fita, mas James possuía uma boa visão, o que facilitou o passo. Retirou a tampa da caixinha e conseguiu enxergar uma pedrinha, puxou a mesma e dela saiu um fio.

– Um colar. – Sorriu, pegando em mão a pedra e enrolando os fios no dedo. – Por que um colar?

– Lembra quando éramos mais novos, aos doze ou treze anos? – James assentiu, prestando atenção no motivo do presente. – Uma vez nós apostamos quem jogava a pedrinha mais longe e se você ganhasse, poderia me dar um beijo. Essa é a sua pedrinha.

Um sorriso brotou nos lábios do aniversariante, lembrando o nostálgico dia. Eram melhores e quase inseparáveis amigos, porém desde pequeno James nutria um amor secreto e platônico por Charmin. É claro, eles eram menores e não sabiam o que era amor. Tudo o que James sabia era que toda vez que via Charmin, seu coração pulava do peito e após perguntar para a mãe, a mesma disse que era amor.

Naquele dia ele tentou, mesmo que por uma aposta realmente boba, arrancar um beijo de Charmin. Os dois jogaram as pedrinhas e por incríveis milímetros, James ganhou.

Charmin nunca fora de quebrar promessas. Então como feito, segurou o rosto do garoto e deu um selinho nele, em seguida indo para casa com as bochechas completamente rubras de vergonha.

Anos depois o amor platônico por ela sumiu e James adotou o que sentia por Charmin como um amor de irmão, que é como trata hoje.

Depois que Collin foi para A, James tomou a decisão de que ela ainda precisava de um irmão. E era isso que ele iria fazer. Protegê-la, aconselhá-la e fazer com que as direções da vida de Charmin fossem boas.

– Foi um dia legal, e você tinha pegado a pedrinha mais bonita. Eu guardei-a por instinto. – Um riso fraco ecoou pelo quarto, fazendo com que o perturbador silêncio quebrasse. – Você gostou?

– Claro que sim. Foi você quem fez? – Charmin assentiu, envergonhada. – Ficou ótimo. Mesmo.

James então parou de entrelaçar a cordinha nos dedos e colocou o colar no pescoço. Sorriu, era bom ganhar presentes caseiros e com amor.

– Tudo bem, eu vou arrumar minhas coisas e levarei para perto da porta. Pegue as suas e leve para lá também, tá?

– Eu posso dormir alguns minutos? Fiquei praticamente o dia inteiro caçando um cordão que não arrebentasse e algo que furasse a pedrinha sem quebrá-la. – Com a voz manhosa, tentou novamente pedir. – Jay, por favor. Quando você acabar de arrumar suas coisas e colocá-las na porta, pode me acordar.

O loiro bufou em protesto. Mas em seguida sorriu e assentiu.

– Pode dormir na minha cama. Você sempre gostou mais dela mesmo.

– Obrigada! – Gritou, levantando os braços.

– Menos barulho! – Advertiu, colocando o indicador sobre os lábios. – Agora, durma.

– Obrigada. – Deitou-se e cobriu o corpo, abraçando o travesseiro. – Boa noite.

– Noite.

***

– Nós estamos quase chegando, então eu vou contar os básicos do lugar e das pessoas onde vamos morar. – Disse James, virando-se para a garota, que observava as árvores da floresta. – Tá escutando, Char?

– O quê? Ah, to, to. – Sacudiu a cabeça, como se estivesse organizando os pensamentos. – Então, conta do povo.

– Eu conheço o Will, o cara tem vinte e três, e o irmão dele, Josh, vinte. – Começou então a chutar algumas pedras pelo caminho. – Tem os gêmeos, Marc e Kyle, de dezenove.

– Todos eles fugiram da coleta, também?

– Não. O Will ficou no exército por dois anos, até machucar feio a perna e ser dispensado. Josh tava quase entrando no exército, mas falou que era gay, então foi expulso. Uma loucura. – Riu pelas narinas, lembrando o dia em que o garoto voltou todo orgulhoso assumindo a falsa sexualidade. – E os gêmeos não colocaram na ficha que tinham uma doença respiratória maluca lá. Então, no dia de uma corrida de alguns quilômetros, eles desmaiaram e ficaram internados por algum tempo.

– Só garoto louco, hein. – Debochou, pegando algumas folhas no chão e amassando-as. – Eles vão nos receber bem?

– Bem, eu perdi contato com Will desde que ele entrou no exército. Mas ele disse que quando eu precisasse, poderia recorrer a ele. – Deu de ombros. – Eu vou conversar com ele para acolher você.

– Hm, tá.

Andaram por mais alguns minutos, chutando pedras ali e amassando folhas aqui. Chegaram então a uma parte da floresta que não possuía árvores, somente folhas. James agachou-se no chão e tateou o mesmo até achar embaixo das folhas, uma maçaneta.

Puxou então a maçaneta e um pequeno alçapão foi aberto. James jogou uma espécie de papel lá dentro e segundos depois, um garoto de pele bronzeada e cabelos castanhos colocou metade do corpo para fora.

– Finalmente, James. – Sorriu. – Entre.

– Will, antes de eu entrar. – Puxou o braço de Charmin, mostrando-a para o garoto. – Essa é a Charmin.

O moreno arregalou os olhos. Parecia não a esperar ali.

– Como assim? Achei que só você viria!

– Bem, há anos atrás, iria ser só eu. Mas ela acabou ficando em casa nesses anos e eu agora zelo por ela.

– Isso vai ser complicado... Tá. Joguem as malas aqui e depois, entrem. Nós iremos conversar.

James então pegou as malas e jogou-as pela entrada do alçapão. Logo depois, sinalizou para Charmin que iria entrar e segundos depois, desapareceu da visão da garota. Ficou esperando por ali um tempo e ao aproximar-se, ouvia coisas como: “Ela não pode ficar, é inseguro para ambos os lados”, “Ela nunca foi treinada, como vai se adaptar para isso?”, “É uma garota! Não tem nem uma base do que nós fazemos aqui. Um dia algo pode dar errado por culpa dela!”.

Mas também ouvia James defendê-la com toda sua fé que continha na garota. Dizia e afirmava que a garota possuía boas habilidades, inteligência e um bom senso de confiança e instinto. Isso, de longe, era o que mais gostava em James: Observar cada passo de cada pessoa, para depois, usar contra ou a favor da mesma; Valorizar tudo o que continha.

Minutos depois do considerável debate, James colocou metade do corpo para fora do abrigo. Uma expressão séria estava em seu rosto.

– Charmin. – Chamou, em um tom calmo e estranho. – Entre, eu seguro você.

A garota então sentou no chão e deslizou as pernas pela entrada. Apoiou as mãos no alçapão e finalmente, entrou.

Era estranhamente claro, sustentado por lâmpadas precárias. Altura baixa, porém um bom comprimento, era cinza e continha o chão revestido por cimento que em algumas partes, estava rachado. Algumas camas estavam encostadas no canto esquerdo do abrigo e à direita, onde estavam no momento, armários, caixas e grandes sacos arrumados. Havia ao fundo, uma mesa com computadores, teclados e mais dispositivos tecnológicos. Também havia uma espécie de lousa com nomes de algumas gangs que Charmin ouvia Collin antigamente falando.

– Pelo menos pular sem cair essa garota sabe. – Debochou um loiro de braços cruzados. – E falar, sabe?

– Sei. Também sei usar as pernas, se não ficou claro há alguns minutos atrás.

– Desafiadora. – Aproximou-se de Charmin com uma postura ereta. – Então, acho que James já nos apresentou, mas eu sou Josh.

Josh continha a perfeita postura de alguém que pretendia ser sério, porém logo sua máscara caía e mostrava o verdadeiro: um brincalhão perigoso. Os olhos castanhos claros denunciavam todo seu temperamento e o cabelo loiro escuro bagunçado ajudava mais na descoberta.

Passou então a andar pelos outros que havia ali, apontando para cada um e apresentando.

– Esses dois aqui: Marc e Kyle. – Alternou entre um gêmeo e outro. – A única diferença entre os dois é essa pinta aqui perto do olho do Marc.

Marc e Kyle não demonstravam sequer uma expressão, um sorriso ou uma cara de desgosto. E Charmin percebeu, quando olhou para os dois e os rostos avermelharam, que eram tímidos. Ruivos de olhos verdes escuros e silenciosos.

– E o Will você já conhece. – Completou. – Agora, vamos decidir se você fica ou não.

James até então, que estava ao lado de Charmin, enrijeceu os músculos e aproximou-se mais da garota.

– Até agora eu não soube seu nome completo, gatinha. – Começou Will, deslocando-se até Charmin. – Eu sinceramente estava pensando em te enxotar daqui e mandar nunca mais aparecer. Mas, pelo que James me disse, você pode ter algo.

– Charmin Southwood.

– Southwood... Você é irmã do Collin? – Perguntou Will.

– Até onde sei, sim. – Uma expressão de dúvida pairou no rosto de Charmin, assim com na de James. – Conhece meu irmão?

– Sim. Ele estudou comigo e fez o centro de treinamento. Se você é irmã de um maior, por que vive com James? – E então, depois da dúvida, um sorriso malicioso. – Vocês estão... Juntos...?

– Não! – Disseram James e Charmin em uníssono, espantados.

Enquanto James direcionava o olhar para qualquer outro lugar que Will não conseguisse capturá-lo novamente, Charmin repentinamente interessou-se nos tênis velhos.

– Meu irmão juntou dinheiro por talvez quinze anos ou mais e comprou uma pulseira para a Zona A. Quando cheguei a casa depois da escola, ele não estava mais lá e na manhã seguinte, fui enxotada.

Uma expressão de surpresa apareceu no rosto de todos os presentes. Afinal, não era lá comum um irmão abandonar a caçula para ir para a Zona A. Sozinho e sem avisar.

– Hm. – Prosseguiu, então. – Bem, vamos ao que interessa. – Novamente cruzou os braços. – James falou algumas coisas, e decidi que você talvez possa ficar. Porém, uma condição.

– Quê é? – Arqueou as sobrancelhas, interessada. – Eu não vou implorar nem nada assim. Realmente não faz meu tipo.

– Tudo bem, gatinha. Eu não vou pedir nada assim.

A cada “gatinha” que saía da boca de Will, mais o rosto de James contorcia-se e mais o corpo enrijecia. Sabia que tudo aquilo era deboche de Will, mas não conseguia tolerar. A mão estava se fechando automaticamente, desejando pelo rosto moreno do mais velho.

– Como você sabe, nós somos rebeldes. – Continuou. – E a nossa meta em tudo, é conseguir uma pulseira A ou pelo menos uma parte dela. Mas nós precisamos colocar outras coisas acima às vezes, como comida e saúde.

– Então, estão sugerindo que eu roube essas coisas para vocês, por ter um ar menos bruto? – Sorriu, ironicamente. – Incrível.

– Que bom que não teve demora a descobrir. Mas é claro, haverá testes com você, treinos e afins. – Estendeu então a mão para Charmin. – É pegar ou largar.

Depois de alguns segundos refletindo, Charmin chegou à conclusão que: Não possuía mais casa ou nenhum lugar onde recorrer. Sua única família era James. Não voltaria a ser uma mendiga de maneira alguma. Não pediria favores para nenhum estranho. E definitivamente não seduziria um A para ter uma vida de rico. O que ela tinha de tão precioso para abandonar?

Aceitou então o gesto de Will com um sorriso no rosto.

– Eu pego.

Notas finais
Bem, agora a história começa oficialmente. Vocês podem começar a fazer seus ships aí à vontade. Eu só queria avisar que não pretendo postar mais que três vezes por semana, assim não tenho que ficar correndo com os capítulos e posso os escrever com calma e mais qualidade. Até mais ^^!