Notas iniciais
Bem, eu decidi postar só de quarta. Primeiro: Meu tempo não é tão longo pra escrever, reler e atualizar. Segundo: Escola e deveres em casa. Terceiro: Mais dedicação pros próximos capítulos. Então... É isso. Boa leitura.

Charmin esfregou a palma das mãos nos olhos e depois na franja, retirando a coberta do corpo e sentando-se na cama, sentindo o chão frio pelos pés. Imediatamente recolheu-os e dobrou as pernas para que ficassem sobre os pés. Olhou para a cama de Sam e viu que não havia ninguém lá; Rose estava no banho e Jenny ainda dormia.

Levantou-se e andou até o armário que as quatro dividiam e pegou suas roupas. Depois de uma semana convivendo com as roupas demasiado afeminadas de Rose, Charlie trouxe a Charmin algumas blusas, calças e até roupa íntima. Pegou qualquer roupa que estivesse menos amassada e o primeiro sutiã acima de toda a bagunça e foi até sua cama, cobrindo-se novamente e colocando as roupas debaixo do cobertor.

Ao sair, viu Rose abrindo a porta. Estava com uma toalha na cabeça e uma no corpo; os ombros e os braços molhados e alguns fios ruivos escapando. Piscou para Charmin e sorriu, indo até o guarda-roupa e, sem mais nem menos, jogando a toalha que estava presa ao corpo no chão e começando a se vestir na frente da morena.

Charmin arregalou os olhos e desviou-os para qualquer outro lugar. A falta de convivência com garotas deixava-a desacostumada com algumas coisas que amigas faziam entre si, como, por exemplo, ficar nuas e começar a se trocar em sua frente. Pegou a jaqueta que estava sobre a cabeceira de sua cama e ao olhar novamente para Rose, a mesma já estava trocada e aproximava-se dela.

– Hoje é o dia de visitas. Sabe se alguém virá te visitar? – Perguntou a ruiva enquanto enxugava a ponta dos cabelos. – Algum parente ou amigo?

Pensou em Will e lembrou que se ele viesse, todo o plano seria estragado, pois ele é muito conhecido entre as pessoas do exército. Então em James, Marc e Kyle e os três eram praticamente defuntos. Seria perigoso demais para eles reaparecerem. Nícolas era um fugitivo e Josh não possuía boa reputação com o exército. Resolveu dar de ombros para Rose como se não possuir ninguém para ver não fosse algo tremendamente desapontador.

– Acho que não. Não possuo conhecidos que possam vir pra cá. – Respondeu enquanto se levantava novamente e ia em direção à porta com as mãos no bolso frontal da jaqueta. – Vou comer. Até mais, Rose.

– Até, querida. – A menina acenou com um sorriso doce e alegre. – Não se preocupe. Eu sei que, lá fora, há alguém que preze por você!

Charmin sorriu enquanto abria a porta e pensou no alojamento e, após passar por todos os meninos, pensou em Collin e deixou que os olhos umedecessem.

***

Estava sentado em sua cama quando olhou o relógio e percebeu que já eram três horas. Levantou-se e foi até James, que dormia com um braço sobre o rosto e a coberta nos pés, a bermuda estava quase no umbigo de tão levantada. Sem Charmin para cuidar dele, James era uma completa bagunça.

– James. – Chamou e mexeu no braço do rapaz. – Está na hora.

James levantou-se num pulo e ajustou a roupa, pegando uma blusa amarrotada que estava sobre seus pés e vestiu-a, olhando para Will. Passou a mão pelo rosto e pelos cabelos, ajeitando-os desleixadamente e calçando um tênis para subir as escadas e ir para fora. Will o seguiu enquanto ele subia e fechou o alçapão atrás de si quando pousou os pés na grama.

– Quando ele chega? – Perguntou James, batendo o pé contra a grama. – Não podemos ficar aqui fora, durante o dia, por muito tempo.

– Paciência, James. – Censurou Will enquanto olhava para os lados, esperando por alguém. – Ele chega daqui alguns minutos.

E, como se fosse magia, ele chegou. Os mesmos cabelos pretos que Will tanto lembrava bagunçar e os mesmos olhos azuis que ele tanto viu durante os longos anos. Trajava um casaco cinza comprido e o rosto estava tampado por um cachecol e um gorro grande. Acenou para Will e se aproximou do rapaz, abraçando-o.

– Como você vai, cara? – Perguntou ao moreno enquanto se afastava. Cumprimentou James com outro abraço e sorriu. – Faz um tempo, não?

– Alguns anos. – Disse Will, soando levemente irônico. – Pouco tempo.

– Bem, eu só vim cumprimentar vocês mesmo. Meu trem sai daqui dez minutos e eu preciso correr para chegar a tempo. – Falou enquanto checava um relógio digital e chamativo. Colocou as mãos nos ombros de cada um. – Deem olá a Joshua e Nícolas por mim, certo? – Os dois assentiram e o rapaz se afastou. – Adeus, amigos.

Enquanto James virava-se para entrar no alojamento, olhou de soslaio para Will e perguntou por quanto tempo o mesmo ficaria ali, observando o outro se distanciar. Deve ser a saudade, pensou enquanto abria o alçapão e pulava para dentro.

***

Ela estava completamente errada. O aperto no coração por não ter ninguém para ver era tanto que ela não aguentava mentir mais para si mesma, dizendo que não se importaria com este detalhe. E agora, que observava Sam e Rose sentadas com suas mães, Dilan com uma senhora que parecia ser sua avó e Jenny com o pai, ela percebeu o quão errada estava.

Foi até uma máquina eletrônica que ficava no canto do refeitório e pegou uma garrafa de refrigerante, colocando algumas moedas emprestadas de Sam. Abriu a garrafa e estava prestes a tomar quando ouviu “Charmin!” ser gritado ao longe. Virou-se, com a garrafa na mão, e ao ver o dono da voz, deixou que o recipiente caísse no chão e fazendo assim com que o líquido se espalhasse pelo chão e pelos sapatos.

Ele estava impressionantemente o mesmo. Os mesmos cabelos negros – iguais aos seus – bagunçados de um modo sedutor, os olhos azuis alegres e ao mesmo tempo sérios. Havia crescido um pouco e estava definitivamente mais forte, o casaco cinza longo ficava justo nos braços.

Correu até Charmin e ao chegar perto dela, repentinamente abraçou-a e ela sentiu os pés levantando-se do chão, as costas sendo apertadas pelos braços fortes. Não sabia, mas apostava que a expressão estava paralisada, assim como seu corpo estava. Ele sorria e murmurava palavras como saudade, falta e diferente. Provavelmente dizia que havia sentido falta dela e que ela estava crescida e bonita.

Mas tudo que ela conseguiu murmurar foi um sussurro baixo e totalmente rouco, como se estivesse falando com uma miragem inacreditável e impossível de ser verdadeira.

– Collin...

Ao ouvir seu nome, o mais velho apertou-a mais forte e ela sentiu seu cabelo tocado pelo rosto dele.

– Sou eu, Char. Sou eu.

Lágrimas finas e salgadas começaram a descer pelo rosto da garota. Estava chorando tanto nos últimos dias que começou a ficar estressada, afastando-se de Collin e passando as mangas da jaqueta pelo rosto, escondendo o sorriso de saudade.

– Por quê? – Murmurou enquanto observava Collin desenrolar o cachecol do pescoço. – Por que, Collin?

– Estava com saudades, ué.

A expressão dela enrijeceu e Charmin cerrou os punhos.

– Você teve quatro anos pra sentir saudade. – Rosnou enquanto agachava-se e pegava a garrafa que derrubara, bebendo o restinho que ainda tinha. – Resolveu sentir saudades só agora, irmão?

Collin desviou o olhar, envergonhado. Charmin achava irritante como ela possuía os mesmos hábitos que ele.

– Eu... Eu não consegui. – Suspirou e olhou para os lados, checando se alguém estava ouvindo-os. – Fui embora não por motivos pessoais, você já é ciente disso. Por muito tempo, acompanharam até minha sombra. As pessoas da A são difíceis de conquistar confiança. Meu telefone havia sido grampeado e ficavam de guarda na minha casa, esperando que eu saísse e fizesse algo que desse a eles motivos para me tirarem do plano. – Sentou-se num banco perto deles e pediu que Charmin sentasse também. Ela o fez, porém ficou afastada. – Não consegui manter contato nem com Will, que foi o responsável por você. Mandei uma carta codificada a James uma vez e descobriram. Quase perdi tudo, pirralha.

Pirralha. Fazia tanto tempo que aquela palavra não saía da boca de Collin que ela se surpreendeu ao constatar o quão familiar e ao mesmo tempo estranho aquela palavra soava saindo da boca dele.

Pacientemente, ouviu toda a história de Collin. O rapaz contou a ela que foi à A com o mesmo objetivo que Will a aceitara no alojamento: fazer a revolução. Anos atrás, antes de abandoná-la, ele descobriu que havia A’s infelizes com o modo maluco que o rei administrava as coisas. Estavam cansados de serem praticamente escravos da monarquia. O mais velho contou que, quando chegou lá, foi recebido num porão por um morador rico da A, coincidentemente o mesmo que Josh entregou os dados para o traficante há alguns meses atrás. Primeiro, havia trabalhado como garçom e em seguida pulou para estagiário numa fábrica, então gerente e administrador. Demorou anos para conseguir sobreviver por conta própria e esconder os costumes e palavreados de B.

– Você sempre soube que eu estive com Will e James, então? – Perguntou após toda a conversa. Resolveu que não perguntaria de Nícolas, ela mesma descobriria tudo sobre seu passado. – Sempre soube que morei no alojamento?

– Tive a noção, sim. Eu presumi que você, mesmo sendo orgulhosa e teimosa como é, pediria ajuda a James. Vocês são carne e unha. – Afirmou enquanto levantava-se e pegava uma garrafa de água da máquina. – Então, como eu havia combinado com o garoto, era só alcançar a idade e ir morar com Will.

Charmin pareceu ponderar o que falar e, ao perceber que não possuía mais perguntas, voltou-se para suas respostas interiores, coisas que sempre quis falar a Collin, mas nunca os disse, porque ele havia deixado-a.

– Sabe... Quando éramos mais novos, eu sempre pensei que você fazia as coisas no meu lugar porque achava que as merdas que planejava eram o melhor para mim. – Desabafou e viu o rosto surpreendido do irmão. – Mas, ao chegar ao alojamento, Will abriu meus olhos e me fez ver que, mesmo tendo feito e armado tudo isso, foi porque você não queria que eu ficasse em perigo por sua causa. – Virou-se para Collin e crispou os lábios, em seguida sorrindo. – Obrigada por tudo isso, Col.

– Fico feliz que você tenha entendido meu lado. – Passou os dedos pelos cabelos bagunçados. – Charmin, eu sempre fiquei com medo de que, quando e se eu voltasse, você me rejeitaria e alimentaria um ódio por mim. Eu estou realmente mais aliviado que isso não tenha acontecido.

– Pra ser sincera, eu pensei em te bater quando vi você entrando por aquela porta.

Collin engasgou com a água e deu uns tapas no peito para parar. Em seguida riu, fingindo que não estava ofendido.

– Entendo porque quis fazer isso.

Em seguida levantou-se e olhou ao redor, percebendo que havia um garoto apontando para eles – para Charmin, mais exatamente. Estreitou os olhos e se virou para a garota, mas ao fazê-lo, ela já havia se levantado e parecia estressada.

– Quem é o sujeito? – Arriscou perguntar enquanto observava o estranho novamente. – Arranjou um rolo, irmãzinha?

– É só um cara que me ajudou. Nada demais. – Respondeu enquanto dava uma empurrada no ombro de Collin. – Ciúmes?

– Sou seu irmão, garota. Tenho o direito de espancar qualquer um que ouse se aproximar da minha pirralha. – Passou o braço no pescoço de Charmin. – Só não fiz isso com Nícolas porque não estive aqui na época. – Em seguida tampou a boca e ao ver a expressão despreocupada de Charmin, entendeu. – Então você já sabe.

– Faz alguns dias.

– E?

– É bom saber que já tinha me apaixonado por aquele egocêntrico uma vez. Entendi o porquê de ter acontecido.

Collin riu em divertimento. Nunca pensou que ouviria a própria irmã falando de paixão. Muito menos de garotos.

– Bem, parece que o cara que te ajudou está tentando chamar você. Vamos lá?

Charmin deu de ombros, sorrindo despreocupada.

– Fazer o que, né.

Juntos, os irmãos andaram até Dilan e a senhora e os cumprimentaram, Charmin recebendo um abraço apertado da mulher e um beijo molhado na bochecha.

– Olá, docinho. Eu sou a avó do Dilly – Dilly? Charmin disfarçou o riso enquanto ouvia a avó do garoto. – Você que é a namorada do meu neto?

Dessa vez foi Charmin quem engasgou. Dilan ficou desconcertado e Collin riu, meio com raiva e meio em divertimento pelo constrangimento de todos.

– Vovó! – Censurou Dilan enquanto tentava disfarçar o vermelho no rosto. – Ela não é minha namorada! É só uma amiga, lembra?

– Amiga... Você não fala dela como se fosse uma amiga, meu querido. – Sorriu a senhora enquanto apertava a bochecha de Dilan. – Me desculpe por meu neto.

– Não, tudo bem. – Charmin balançou as mãos e em seguida olhou para Dilan, como se dissesse “conversaremos depois.” – Seu neto é um ótimo rapaz. Me ajudou quando fiquei ferida.

– Ele sempre cuida de todo mundo. Mas, cuidar de si mesmo... – Balançou a cabeça enquanto olhava em reprovação para o neto. Charmin sorriu. Nunca conhecera a avó. – Bem, eu preparei um almoço. Por favor, juntem-se a nós.

Repentinamente, Charmin olhou para os lados e pôde ver vários cadetes, a maioria com um pai ou mãe ou até mesmo com irmãos, como ela. Mas, a única pessoa que conheceu durante a semana e não viu no refeitório foi Jack. Olhou para Collin e, pedindo licença, retirou-se do salão e foi em direção ao jardim secreto.

Observou a quantidade de gente que estava no campo de treinamento e um pouco longe, avistou Charlie com uma criança em cada braço e uma mulher loura rindo a sua frente. Lembrou-se do homem falando dos filhos e da alegria e saudade na voz. Charmin sorriu ao ver a cena e voltou a andar quando alguém bateu em seu ombro, empurrando-a.

– Ah, meu deus, me desculp... – Uma cabeleira morena se afastava enquanto as mãos mexiam no ar. – Ah, Charmin!

– Jenny. – Charmin sorriu enquanto passava a mão no ombro dolorido. – Indo almoçar com Rose e Sam?

– Sim. As mães delas são uns amores. – Elogiou enquanto ajustava o cabelo.

– Elas parecem se dar muito bem.

– Bem, elas têm que se dar. – Respondeu, dando de ombros. – Afinal, são sogras.

E mais uma vez, engasgou.

– Mesmo? – Perguntou incrédula. – Rose e Sam são...

– Namoradas? Sim. – Respondeu enquanto pegava uma latinha vazia que derrubara no chão. – Bem, eu vou indo. Até mais!

Charmin acenou para Jenny e seguiu o caminho. Cada vez mais longe, as pessoas iam diminuindo e chegou uma hora que ela não ouviu mais nenhuma voz ou passo, somente o barulho do vento e após alguns segundos, das folhas sendo levadas por ele.

Jack estava do mesmo jeito. Os cabelos castanhos caíam sobre o rosto e ele estava com as mãos atrás da cabeça, fazendo um encosto. Apoiado ao tronco da árvore, as pernas estavam esticadas e ele respirava calmamente, provavelmente dormindo.

A garota aproximou-se dele e curvou-se sobre Jack, observando-o enquanto ele respirava e os cabelos eram levantados. Era engraçado vê-lo, porque Jack parecia tão diferente dormindo que o jeito irônico e fechado dele trocava-se por uma calma angelical.

– Dez dólares. – Murmurou enquanto abria os olhos e tirava os cabelos do rosto. – Por agora, me deve dez dólares.

Charmin afastou-se num solavanco e tropeçou aos próprios passos, caindo no chão e sujando a calça com terra e grama. Irritada, passou a mão para tirar a sujeira e olhou para Jack, que ria em divertimento da raiva da garota.

– Você tem que parar com essas coisas de falar do nada, Jack.

– Você se lembra do meu nome.

Olhou para ele, intrigada com a resposta, e levantou-se, limpando a jaqueta.

– É claro que eu me lembro. – Respondeu como se fosse algo óbvio. – Cadê sua visita? Por que se separou dela?

Jack voltou a fechar os olhos e virou para o lado, apoiando o rosto contra a madeira. Estranhamente, ele se calou e não falou mais nada por volta de talvez dez minutos. Charmin aproximou-se e agachou ao lado de seu rosto, esperando que ele abrisse os olhos.

– Agora são vinte dólares, garota. – Murmurou e abriu os olhos, arqueando as sobrancelhas. – Precisa de algo?

– Onde está sua visita?

– Vou fazer que nem dá última vez e fingir que você não existe. – Falou e então voltou a fechar os olhos. – Dá o fora.

Charmin sentou-se e encarou-o com tanta intensidade que Jack sentiu-se incômodo e abriu os olhos.

– Se me disser onde está sua visita, te deixarei em paz.

Grunhindo, Jack virou-se para o outro lado e murmurou algo para Charmin. Não entendeu, mas foi algo como “nãtemvisit”. Ela engatinhou até o lado dele e encarou-o novamente. Ele abriu os olhos em raiva e Charmin arqueou uma das sobrancelhas, finalmente esperando uma resposta.

– NÃO TENHO VISITA! – Gritou e então levantou estressado. – Céus, como você é irritante.

Em passos rápidos, Jack começou a andar e em seguida, Charmin levantou-se num pulo e seguiu-o. Ele deu a volta pelo exército e foi até os dormitórios, entrando no corredor e percorrendo-o, chegando ao fundo e virando-se, olhando para Charmin.

– Vai ficar me seguindo, sombra? – Rosnou enquanto abria a porta com uma chave e entrava. Charmin deu um passo à frente, mas Jack foi mais rápido e fechou a porta na cara dela. – Não, não. Fique quietinha aí, seja uma boa menina e vá embora.

– Não sou um cachorro, Jack.

– Não é muito diferente, se quer saber. – Cantarolou enquanto afastava-se.

Charmin emburrou e começou a bater na porta, fazendo um estrondo forte e chamando a atenção de algumas pessoas que estavam em volta. Não ligando, aumentou a intensidade das batidas e só parou quando Jack abriu a porta totalmente em fúria. Puxou a manga de sua jaqueta e fez com que ela entrasse, fechando a porta com raiva e pressa.

– Você é teimosa, insistente e chata como um cachorro. Se eu fosse seu dono, já tinha te abandonado na rua de tão insuportável. – Bufou e foi então que Charmin percebeu que Jack estava sem a camisa. Ela desviou o olhar e o rapaz sorriu maliciosamente. – Fique parada aí antes que eu perca a paciência.

– T-tá.

Jack caminhou até o armário e abrindo uma das portas, pegou uma blusa preta, colocou-a, e Charmin voltou a olhá-lo. Em seguida foi a uma cama e pegou uma jaqueta de couro, colocando-a e aproximando-se de Charmin.

– Vai abrir a boca ou o que?

Charmin colocou as mãos na cintura e sorriu ironicamente.

– Eu não deveria existir, deveria?

– Não. E por mais que sua existência deixe-me chateado, você está no meu quarto e está causando um tumulto lá fora. Então ou abre a boca ou eu te expulso com um pé na bunda. A escolha é sua, garota.

Após alguns minutos batendo o pé, Charmin ponderou a pergunta e soltou-a, como se fosse uma grande confissão.

– Por que ninguém veio te visitar?

Jack estreitou os olhos e balançou a cabeça em falsa reprovação. Passou a mão pelos cabelos e suspirou, provavelmente não estava acostumado com alguém insistindo em falar com ele. As pessoas geralmente desistem de gente complicada que nem ele.

– Não tem ninguém pra me visitar. – Respondeu e então abriu a porta, checando os corredores. – Vem ou não, cachorrinho?

– É Charmin.

– Não preciso saber seu nome. É só passar pelos corredores desse lugar que todo mundo tá falando de você, garota. – Voltou o corpo para dentro e apontou para Charmin e para a porta. – Vamos. Fora.

– Não tem pais?

Jack insistentemente apontou para a porta e ao perceber que Charmin não sairia, fechou-a e escorou sobre a parede, ajeitando as mangas da jaqueta e o cadarço do tênis. Ela estava sendo realmente insistente e o rapaz não sabia ao certo se era bom ou mau.

– Não. Mortos.

– Avós?

– Mortos também.

– Tios? Tias? Irmãos?

– Não, não, filho único.

– Amigos?

Jack riu secamente e apontou para seu rosto.

– Eu tenho cara de ter amigos?

Charmin revirou os olhos e, agarrando a manga de Jack, puxou-o e abriu a porta, passando e forçando-o a passar junto. Apesar de magra, Jack observou, Charmin era muito forte e ágil. Passou puxando-o por várias pessoas e não trombou em nenhuma. Até tentou pará-la minutos atrás, mas ela puxou-o com mais força e guiou-o até a porta do refeitório, repentinamente parando.

– A avó de Dilan fez almoço e acha que eu sou a namorada dele; Meu irmão está aqui para me ver e acho que adoraria conhecer alguém masculino não intitulado como meu namorado. – Largou sua manga e cruzou os braços com uma careta. – Então você vai entrar por essa porta e se alegrar, entendeu? Não quero essa cara séria.

– Você não manda em mim, Charmin.

– Quer que eu comece a chamar atenção de todo mundo novamente?

Jack a encarou e ao ver o olhar duro e teimoso da garota, bufou novamente e abriu a porta, procurando por Dilan e sua avó. Ao achá-los, olhou para Charmin a apontou com a cabeça para a mesa onde localizavam, começando a andar em direção ao lugar.

Logo atrás, Charmin o seguia e cercava-o, certificando que ele não tentaria fugir.

– Collin, senhora. – Chamou Charmin ao chegarem à mesa. A avó de Dilan estava em pé, colocando arroz para Dilan e reclamando que ele comia muito. Collin estava rindo da cena e, ao observar Charmin chegar com Jack, parou de mastigar e olhou para os dois. – Esse aqui é o Jack, um amigo meu e do Dilan que passará o almoço e o dia com a gente.

– Hey, Dil. – Jack acenou para Dilan e em seguida, estendeu a mão para a senhora. – É um prazer conhecê-la, senhorita.

A avó sorriu envergonhada e estendeu a mão também. Charmin revirou os olhos ao perceber que Jack possuía gentileza, mas não a usava com ela. Então estendeu a mão para Collin e o mesmo o cumprimentou; ambos trocaram um olhar estranho e, após, olharam para Charmin.

– Venha sentar. – Collin falou enquanto voltava à posição antiga e pegava um garfo. – A comida está realmente boa.

Charmin sentou-se ao lado de Collin e uma violenta nostalgia surgiu em sua mente. Era exatamente assim que se sentavam: um ao lado do outro. E, relembrar aquilo estava sendo tão impressionantemente bom que ela esqueceu-se da raiva que ainda estava sentindo.

Jack pegou talheres e um prato e sentou-se ao lado de Charmin, encostando propositalmente sua coxa na dela.

– Poderá me agradecer depois. – Charmin fitou-o e murmurou enquanto engolia um pedaço de carne. – Eu deixo.

– Agradecer pelo quê?

– Por fazer você sorrir.

Jack riu pelas narinas. Mas, de fato, sorriu.

Notas finais
Gostaram da visita do Collin? Já estava óbvio? Eu não sei se deixei isso tão na cara, mas tentei ser o mais discreta possível. Não se esqueçam de comentar, favoritar ou, se puderem, recomendar. Espero vocês na próxima quarta :3