Notas iniciais
Tá meio cedo, eu sei. Mas, se eu não postar agora, só na sexta ou no sábado. Então fiquem felizes por isso, ok? Eu vou ter que postar só mais um cap. também semana que vem por conta da viagem, mas assim que as aulas voltarem, a rotina também volta ao normal. Enfim, bom capítulo ^^!

Com extrema dificuldade, Charmin abriu os olhos e rolou-os para analisar o lugar onde estava. Sabia que era um veículo pelo barulho que as rodas faziam ao deslizar sobre a terra. Pôde ver uma enfermeira sentada em um banco de madeira preso com uma espécie de corda à porta do carro. Tentou abrir a boca para falar algo, mas a língua e a garganta estavam tão secas que não pôde sequer sibilar algo. Pensou em mover os braços e pôde notar que ambos estavam algemados sobre sua cabeça, as pernas foram amarradas sobre a maca onde estava.

Começou então a chocar as costas contra a maca para produzir um som e arrependeu-se imediatamente. Um ardor infernal instalou-se sobre a região e ela sentiu que algumas bandagens haviam se desgrudado do corpo, algum líquido começou a pingar no chão. Pensou ter chacoalhado algum balde com água com algo parecido, mas ao visar o local de onde o barulho estava vindo, viu o próprio sangue escorrendo da região das costas, as gotas deslizando pelo ferro da maca e finalmente, pingando no chão, espalhando um tom vermelho escuro ao local atingido.

A enfermeira, ao perceber que Charmin havia acordado, levantou-se imediatamente e foi até ela, pressionando sua barriga contra a maca para que a garota parasse de se movimentar. Com o indicador entre os lábios indicou para que ela fizesse silêncio e cuidadosamente virou-a para colocar as bandagens novamente.

– Meu deus, desse jeito você terá uma hemorragia! – Sussurrou para Charmin enquanto pegava mais gaze e o balde de água. – Olha, você deve ser muito abençoada para não ter morrido.

Charmin franziu as sobrancelhas para a mulher. Morrido? Mas então a resposta veio à sua cabeça e ela se lembrou de tudo: A falha no plano, a perseguição, os gritos e o som dos tiros. Arregalou os olhos e com a cabeça, apontou para o balde e em seguida olhou para baixo, na direção de sua boca.

– Está com sede? – Perguntou a moça, logo pegando um pote e colocando uma pequena quantidade de água nele. – Você está aqui há horas. Não sei para onde estamos indo.

Ela bebeu toda a água do recipiente até que sentisse a própria língua sugando as últimas gotas e engolindo a pequena quantidade de saliva que conseguiu produzir, começou a balbuciar palavras baixas.

– O que... O que tem... Costas? – Perguntou Charmin, ouvindo a própria voz rouca e falha, tão baixa como um sussurro proibido.

– Você não lembra? Tomou três tiros, querida. – Disse a enfermeira e então pegou algum objeto jogado no canto do lugar. – Essa bolsa aqui salvou você de uma bala diretamente na espinha. Quando abriram pra checar o que tinha, encontraram um colete à prova de balas.

A garota sorriu e pôde sentir o lábio rachando e o gosto do sangue. Mas, mesmo assim, sorriu. Fora Marc quem dera o colete para ela, dizendo que quando chegasse à A, caras perigosos tentariam mexer com ela.

Lembrava-se exatamente do momento. Estava subindo o alçapão atrás de Will quando ouviu seu nome e logo após virar a cabeça para o local de onde vinha o som, viu a cabeleira ruiva e bagunçada de Marc, o colete balançando nas mãos e um rosto de expressão urgente.

E, por mais irônico que tenha sido Charmin ser atingida por homens da lei e não por bandidos ou caras malvados, o colete realmente salvou sua vida. Ela agradeceria a Marc quando voltasse.

– Marc... – Sibilou. Voltando a tossir e, de alguma maneira, engasgar-se com a própria secura. – Água...

– Ok, ok! – A enfermeira voltou a pegar o recipiente, mas Charmin negou com a cabeça, apontando para o balde. – Quer tudo isso? Mesmo?

Charmin assentiu e a mulher encostou a borda do balde em sua boca. Em questão de minutos a quantidade de água estava pela metade e um pouco do líquido havia escorrido pelos cantos da boca, caindo sobre os seios e o cabelo todo sujo e bagunçado.

A enfermeira pareceu incerta de falar com ela, mas logo suspirou e então soltou como se fosse a melhor notícia de sua vida:

– Você disse... Marc, não disse?

A garota pigarreou algumas vezes para recuperar o tom de voz e então assentiu novamente.

– Ele... Por acaso... Tem dezenove anos? – Perguntou com os olhos lacrimejando. – Um cabelinho ruivo, olhos verdes da cor das folhas e uma pintinha na bochecha?

– Sim. – Sussurrou depois de algum tempo e então arqueou ambas as sobrancelhas. – Você é a mãe de Marc e Kyle!

Will uma vez contara a ela sobre a família dos gêmeos: A mãe virara enfermeira meses depois que o pai se juntou ao exército. Soube de que os garotos viraram moradores de rua por alguns dias, até que o mais velho os achou e cuidou deles, os ensinando tudo que sabiam.

– Kyle também está vivo? – Colocou a mão sobre a boca, algumas lágrimas rolando sobre a bochecha. – Deus! Eu achei que eles estivessem mortos! Co-co-como eles estão?

– Eles estão muito bem. – Charmin respondeu, sorrindo ao ver a emoção da mãe dos gêmeos. – Marc... Ele me ajudou muito nesses meses. E Kyle... Kyle é um dos garotos mais gentis que eu já conheci.

– Com quem eles estão vivendo? Alguém os adotou? Os que eles andam fazendo? Estão trabalhando? Casaram? Têm filhos?

A mulher enchia a mente de Charmin com perguntas e ela simplesmente não conseguia imaginar a decepção da mãe ao saber que ambos estavam praticamente encasulados dentro de um alojamento abandonado. Pensou em tudo que os garotos fizeram por ela e organizou todas as palavras no pensamento antes de falar algo.

Pensou em todas as vezes que viu os gêmeos madrugando e mexendo nos computadores, procurando códigos para que ela usasse-os na pulseira; Todos os dias na feira, buscando mercadorias para Will; Os treinamentos pessoais de Marc para que Charmin soubesse utilizar o computador; Todas as vezes em que Kyle conversara com ela sobre as coisas da A e deixara sua imaginação fluindo.

– Eles estão fazendo a revolução. – Simplesmente disse. – E por minha culpa eles irão se atrasar.

– Você se importa de me contar tudo?

A garota negou, sorrindo, e pediu que a mulher prendesse o banco ao pé de sua maca. Iria ser uma longa história.

***

Kyle teclava um relatório sobre a fase inicial do plano enquanto Marc brincava com um cubo mágico de cores desbotadas. Ambos se olharam, sorrindo ansiosos e então um olhar triste passou pelos dois, por um mês a alegria daquela casa seria um tanto esvaziada. Aquele era o cargo de Charmin.

Will e Josh limpavam algumas flechas e adagas, tirando o sangue, a terra e em seguida, passando álcool.

– A favorita dela. – Falou Will, mostrando uma adaga pequena e fina com algumas espirais no cabo. – Ela aprendeu a girar isso aqui entre os dedos e eu fui o responsável pelos milhões de curativos.

– Esse lugar vai ficar vazio sem ela, irmão.

– Nunca senti tanta falta de irritar o James.

Ambos sorriram e voltaram a tirar a sujeira das armas.

James mexia em algumas fotos que a garota guardava embaixo da cama e realmente percebera quantas fotos havia dos dois juntos. Em algumas era só James irritando a mais nova que fazia alguma cara emburrada e em outras ela sorria envergonhada para a lente da câmera. Largou as fotos e pousou uma mão sobre a testa, olhando para algum canto vazio do alojamento, sentia que não era só o canto que estava vazio.

Sentado sobre a cama que Charmin costumava usar e que agora era sua Nícolas olhava para o teto branco, batucando uma sequência qualquer sobre os apoios de madeira da cama. Fora nessa cama que reencontrara a garota e também foi nessa cama que recebeu o golpe mais doloroso de sua vida. Mas realmente cumprira seu prazo, passaram-se meses e finalmente tinha arrancado um beijo da garota. Sorriu malicioso ao lembrar o momento. Subiu a gola de sua regata e pôde sentir o cheiro de Charmin nela.

Depois de meses de convivência com Charmin, finalmente descobrira o cheiro que a garota possuía. Era um cheiro de sabonete caseiro que ela provavelmente comprava só para ela, algo como algodão e margaridas. Um odor tão adorável que ele se pegava passando pela cama dela várias vezes ao dia só para poder sentir o perfume da garota e ver seu sorriso...

Um estrondo soou de fora do local. Então outro e outro. Todos se entreolharam, sabendo o que era. Tiros.

Rapidamente, Nícolas levantou da cama e correu para as escadas, mas uma mão segurou seu ombro, fazendo com que caísse. Furioso, olhou para trás e pôde ver Josh.

– Ficou louco? – Perguntou o loiro, arfando. – Se você sair vão nos descobrir.

– Mas não costumam atirar por aqui, deve ser algo importante.

– E é por esse motivo que nós esperaremos um momento.

Relutante, Nícolas levantou e encostou-se nos degraus. Marc e Kyle levantaram e foram para perto dos dois, assim como James, que guardou as fotos e Will que soltou uma flecha qualquer. Todos estavam com o olhar assustado, paralisado, olhando para o alçapão.

Ouviram algumas vozes que gritavam comandos e após intermináveis minutos, o silêncio reinou. Nícolas virou-se e colocou o pé esquerdo sobre o primeiro degrau.

– Eu vou até lá fora.

– Nícolas... – Uma voz chamou. Com certeza era Will.

O garoto virou-se e sorriu divertidamente para Will, retirando um pouco do cabelo dos olhos em um movimento despreocupado, como se estivesse numa praça e o vento tivesse soprado e bagunçado seus cabelos.

– Eu já fugi do exército uma vez. A segunda vai ser mais fácil.

Abriu o alçapão e colocou a cabeça para fora. Não havia ninguém. Caminhou para fora e pôde sentir uma brisa gelada que endureceu seus ossos. Então olhou para baixo e viu uma flor azul amassada, o cabo estava coberto de sangue, assim como mais alguns pedaços de grama por perto.

Agachou-se e pegou a flor, completamente em choque. Abriu as pétalas e conseguiu identificar a pervinca, as mãos começaram a tremer. Amassou o cabo e olhou fixamente para a flor, esperando que o objeto desse uma resposta do por que estar ali e não na bolsa de Charmin.

– Não... Não, não, não, não, não... – Começou a sussurrar repetidamente até que uma palavra tropeçasse na outra. – NÃO!

Gritou em desespero e uma mão agarrou seu braço, levantando-o. Will, os olhos arregalados.

– O que foi Nícolas? – Perguntou.

Assim que viu lágrimas finas brotando dos olhos cinza do garoto, começou a balançar a cabeça em desespero e olhou para o chão, alternando entre a cidade e a poça de sangue perto de seus pés.

Cidade. Poça.

Não.

***

Ao descer da ambulância, Charmin teve o rosto tapado por um saco preto. Meio inútil, pensou, enquanto o homem apertava mais as algemas e empurrava-a. Ouviu o som de algum portão abrindo horizontalmente e então soube: Estava entrando no campo do exército.

Ouviu alguns apitos e um provável sargento ditando o número de marchas. O som dos passos seguindo a contagem, todo no mesmo ritmo. Algumas pessoas mais perto perguntaram quem era a garota com o capuz preto escondendo o rosto e outros comentaram sobre o que uma A estava fazendo ali, toda ensanguentada.

Depois de caminhar alguns minutos, ouviu a porta ser aberta e assim que ouviu o som da fechadura, a capa em sua cabeça foi tirada. Piscou algumas vezes para que os olhos se adequassem à claridade do local e com a visão embaçada, localizou um homem a sua frente.

Havia uma expressão calma e gentil no rosto do rapaz, como se não fosse nada diferente uma garota aparecer em sua frente com um vestido rasgado e sujo de terra e sangue. Os cabelos castanhos claros e um tanto grisalhos eram colocados para trás perfeitamente com o gel e havia um tom um tanto amarelado nos olhos de tom avelã que fazia com que ele parecesse mais gentil do que aparentava ser.

– Teve uma boa viagem, senhorita? – Perguntou um homem. O comandante. – Espero que seu machucado nas costas tenha se curado.

Charmin não respondeu.

–... Ok. – Juntou as mãos e esfregou as palmas. – Você deve estar com fome. Vamos comer um pouco?

Um sorriso de canto surgiu nos lábios da garota. O comandante sorriu de volta e mandou que tirassem as algemas de Charmin. Ao sentir os braços livres, alongou-os e estralou os dedos de todas as formas possíveis. O comandante pareceu um tanto aliviado com os movimentos da garota, pensou que ela faria um show no meio do corredor de tanta raiva que deveria estar sentindo.

– Me acompanhe, por favor, senhorita...

– Charmin.

O comandante começou a andar por um longo corredor, Charmin seguia-o atrás. Passaram por salas de interrogatório, um refeitório e uma enfermaria. Viu a mãe de Marc e acenou com a cabeça para a mulher que devolveu um sorriso.

– Devo dizer que achei realmente impressionante o seu plano, senhorita Charmin. – Começou, olhando para trás e certificando que ela ainda estava ali. – Sua pulseira foi muito bem feita e a senhora tem a beleza e a convicção de uma A.

Parou e com uma chave retirada do bolso, abriu uma porta. Deu passagem para Charmin e assim que a garota entrou, o homem entrou também e fechou a porta atrás de ambos. Havia duas poltronas e uma mesa no centro com uma placa dizendo “Comandante Charlie Spencer”.

– Sente-se, por favor. – Pediu Charlie, sentando na poltrona da direita. Charmin sentou e então o homem cruzou as pernas. – Penso que a senhorita deve estar com fome. Passou boas horas dentro daquela ambulância.

Charlie procurou algum resquício de sentimento na expressão da garota e tudo que achou foi uma nevasca em seu olhar. Deu um de seus melhores sorrisos e prosseguiu:

– Penso, também, que sabe onde está, Srta. Charmin. Pelo seu incrível e terrível feito, você terá de passar um tempo conosco aqui no exército. – Prosseguiu, apontando para a mesa. A pulseira, quebrada, estava sobre ela. – Eu gostaria que a senhorita me desse alguma informação sobre a produção dessa pulseira.

Mais uma vez, não houve resposta. Charlie suspirou e apertou um botão, segundos depois duas empregadas entraram com um prato de comida cada. Charmin olhou para seu prato: Um grande pedaço de filé bovino, acompanhado de um purê de batata, frutas secas e alguns legumes. Usou o garfo para mexer na comida, procurando alguma armadilha.

– Eu sou um cavalheiro, senhorita. – Tombou a cabeça e sorriu. – Não coloquei remédio ou substância alguma em sua comida.

Charmin estreitou os olhos por alguns segundos e assim que viu o comandante cortando o filé, olhou para baixo e pegou novamente seus talheres. Cortou um pedaço da carne e colocou-a na boca, o gosto grudou no interior e ela soube que nunca havia comido algo tão bom como aquilo. Dez minutos depois, estava raspando o purê de batata e saboreando os últimos pedaços do pêssego.

– Estou feliz que tenha gostado da comida. – Charlie colocou os pratos sobre e mesa e Charmin imitou-o. – Diga, Charmin, qual sua idade?

– Dezessete. – Respondeu.

Não seria um erro tão grave conversar com ele, seria?

– Dezessete? Nossa! – Riu surpreso. – A senhorita é muito madura para sua idade.

– E qual a sua idade, Comandante? – Perguntou séria. Não sabia como, mas sentia um frio vindo da própria voz e feição.

– Olha só quem resolveu responder mais de uma palavra! – Respondeu entre risos. Achava graça da frieza da garota. – Eu tenho 26 anos, senhorita. Desde os quinze no exército para conseguir esse cargo.

O cara tá desperdiçando a vida desde os quinze? Arqueou as sobrancelhas com o pensamento e a surpresa. Caralho!

– Vocês não podem facilitar o processo e me colocar pra fazer sei lá quantas trilhas por hora até que eu fique boa o suficiente para ir a uma batalha e morrer logo? – Tirou a franja do rosto e encarou o homem. – É lucro pros dois lados.

– Infelizmente nós não faremos isso. Você, Srta. Charmin, possui informações muito preciosas que nós realmente precisamos. – Respondeu, apoiando o queixo sobre a mão. – Mas, se você cooperar, o interrogatório será rápido e indolor.

– E se eu não falar nada?

Um olhar sério pousou nos olhos do homem e o maxilar enrijeceu, assim como a postura.

– A senhorita acredita em algum deus?

Charmin ergueu uma das sobrancelhas. Era uma pergunta um tanto aleatória para a situação.

– De certa forma, acredito. Por quê?

Um sorriso de pena se formou no rosto de Charlie e ele esticou as costas. Em seguida voltou os olhos castanhos penetrantes para a garota e ela sentiu a intensidade neles.

– É melhor você começar a rezar para ele.

***

Minutos depois de conversa, Charmin acabou descobrindo que o motivo da entrada de Charlie no exército foi por causa de sua família, todos os filhos homens deveriam entrar e conquistar uma posição de poder. Possuía dois filhos, uma garota de seis anos e um menino de dois, ambos sentiam muita falta do pai assim como ele sentia dos filhos. A esposa era uma linda jovem que possuía um jardim nos fundos da casa e cultivava vários tipos de flores.

Algum tempo depois, dois homens com terno entraram na sala e pediram a presença de Charmin no interrogatório. Ela despediu-se de Charlie e o mesmo acenou para ela. O interrogatório ficava na última sala do corredor, três portas depois da sala onde estava. Ao entrar, sentou-se numa cadeira e sua mão direita fora algemada ao braço da cadeira, impossibilitando movimento. Ela olhou da cadeira para o homem.

– Por precaução. – Ele falou, como se ela fosse algum bicho selvagem e que faria danos letais.

Os dois sentaram a sua frente e um deles colocou uma pasta com alguns arquivos e fotos dentro. Na frente da pasta estava escrito “Southwood”.

– Charmin Southwood... Você aprontou uma bela enrascada, não? – Perguntou um deles, o mais alto. – Eu dei uma analisada em seus arquivos e é incrível como você é cheia de histórias pela a B.

– O quê? – Perguntou incrédula. – Vocês tão me confundindo...

– Só existe você com esse nome estranho no país inteiro, garota. – Respondeu o outro, moreno. – Você vai mesmo fingir ser outra pessoa?

– Não é disso que eu to falando. Eu sei quem eu sou. Mas eu não fiz nada que pudesse ser colocado numa ficha.

– Você não lembra mesmo quem é? – Perguntou o alto. – Não lembra o acidente no rio, da internação... Não lembra nada?

Charmin negou. Do que eles estavam falando? Ela nunca nadou em nenhum rio! Possuía medo de água e não entrava nem em banheiras mais fundas. Procurou na mente por alguma coisa que a lembrasse do que eles estavam falando, mas a única coisa que conseguiu raciocinar fora quando sua mãe fora levada e Collin partira.

– Vamos começar pela família e amigos, então. – O homem alto tirou algumas fichas da pasta e analisou-as. – Mãe: Carla Southwood, trabalhando como cozinheira do castelo. Pai: Joseph Garamond Southwood, desaparecido. Irmão: Collin Southwood... Recentemente ingressou para a A?

– Você foi completamente abandonada por todos seus familiares. Como conseguiu aquela pulseira? Com quem você está morando, garota? – Perguntou o moreno, impaciente. – Nós sabemos que existem mais rebeldes além de você, então se você puder delatar quem é nós economizaremos nosso tempo e sua saúde.

Charmin encarou o teto até que, minutos depois, um dos homens bateu a mão na mesa, fazendo um estrondo soar por toda a sala, ecoando nos cantos vazios. Ela visou o homem com uma expressão ilegível até enxergar o rosto dele se tornar vermelho de raiva.

– Vai me responder ou não?! – Gritou o moreno com os dentes trincando em raiva. – Você acha que nós estamos aqui para brincar, não acha?

– Se acalme Turner. – Pediu o mais alto. – Vamos analisar suas relações com pessoas de outro sangue.

Guardou as fichas de sua família e puxou outras três. Charmin sabia que uma era de James, mas, e as outras duas? Não teve envolvimentos com outras pessoas que lembrasse. Ou... Não? Pensou em Will e Josh, ambos a conheciam de seu passado misterioso. Teria que ser eles.

– James Nortway: Ambos os pais foram voluntariados do exército, abandonando o garoto que antes era menor de idade. Foi com ele que se envolveu, garota? Para não precisar ir para um orfanato e esperar a morte, mofando? – Perguntou Turner com um sorriso cortante. Em seguida pegou outra ficha e riu ironicamente. – Opa, Joshua Mendson, O Gay! Você têm boas amizades, não?

Eu sabia que Josh estaria aí. Sorriu ao adivinhar uma das pessoas. Ela estava ficando boa em prever o passo dos outros. Agora só falta Will para confirmar que eu os conhecia.

Então o homem alto novamente tomou as fichas da mão de Turner e analisou a terceira. Arregalou os olhos por um minuto e em seguida voltou a olhar para a ficha. Provavelmente estava surpreendido de Charmin ter a relação com um soldado tão bom como Will fora em seu passado, antes de ter a perna estourada.

– Você... – Olhou para Charmin, espantado. – Gostaria que me explicasse como conhece a única pessoa que conseguiu fugir daqui.

Charmin arregalou os olhos. Não esperava pela pergunta.

O homem largou a ficha e apoiou as mãos sobre a mesa, aproximando-se da garota. Prendeu seu olhar até que Charmin percebesse que os olhos dele eram de um verde fosco.

– Como conhece Nícolas Tourmaline?

***

Nícolas entrou no alojamento e sentou em sua cama, a pervinca entre o punho fechado. Deixou que Will comunicasse aos outros sobre o acontecimento de fora enquanto bloqueava os pensamentos sobre Charmin possivelmente morta.

Pôde ouvir Will citando seu nome, em seguida falando sobre sangue e sobre a relação dos tiros. Viu o olhar espantado de James e a forma como a pele dele clareou ao ouvir a tudo. Marc e Kyle entreolharam-se, espantados, e em seguida Josh deixou cair no chão um dardo que estava limpando.

– Amanhã... Eu irei fazer contato com um conhecido de dentro do exército e checar se ela foi mandada para lá ou para o hospital. – Finalizou, sentando-se de frente para o computador. – Charmin é uma garota forte e esperta, ela não vai se entregar tão rápido assim. Sabemos disso.

Todos concordaram e voltaram a fingir concentração no que estavam fazendo. Nick colocou a pervinca sobre a cama e como fez antes de ouvir os tiros, voltou a encarar o teto. Começou a pensar nos momentos que passara com a garota e em todas as vezes que vira seu sorriso ou ouvira sua risada discreta.Seria ele quem a tiraria de lá e a ajudaria a superar tudo que sofreria. Seria Nícolas a protegê-la e fazer com que ela não sofresse por conta dos machucados. Estava decidido a fazer tudo aquilo no momento que pudesse e não hesitaria em viajar dias somente para vê-la.

Não a perderia pela terceira vez.

Notas finais
Acho que vai ser bom explicar a vocês toda essa história do passado dela. Com o tempo que ela passará no exército, descobrirá mais coisas e então vocês finalmente terão a noção de quem foi Nícolas na vida dela. Vai ser legal. Continuem acompanhando e comentem para deixar sua opinião. Até mais :33