Zona B
13 Capítulo 12
Notas iniciais
Com extrema dificuldade, Charmin abriu os olhos e rolou-os para analisar o lugar onde estava. Sabia que era um veículo pelo barulho que as rodas faziam ao deslizar sobre a terra. Pôde ver uma enfermeira sentada em um banco de madeira preso com uma espécie de corda à porta do carro. Tentou abrir a boca para falar algo, mas a língua e a garganta estavam tão secas que não pôde sequer sibilar algo. Pensou em mover os braços e pôde notar que ambos estavam algemados sobre sua cabeça, as pernas foram amarradas sobre a maca onde estava.
Começou então a chocar as costas contra a maca para produzir um som e arrependeu-se imediatamente. Um ardor infernal instalou-se sobre a região e ela sentiu que algumas bandagens haviam se desgrudado do corpo, algum líquido começou a pingar no chão. Pensou ter chacoalhado algum balde com água com algo parecido, mas ao visar o local de onde o barulho estava vindo, viu o próprio sangue escorrendo da região das costas, as gotas deslizando pelo ferro da maca e finalmente, pingando no chão, espalhando um tom vermelho escuro ao local atingido.
A enfermeira, ao perceber que Charmin havia acordado, levantou-se imediatamente e foi até ela, pressionando sua barriga contra a maca para que a garota parasse de se movimentar. Com o indicador entre os lábios indicou para que ela fizesse silêncio e cuidadosamente virou-a para colocar as bandagens novamente.
– Meu deus, desse jeito você terá uma hemorragia! – Sussurrou para Charmin enquanto pegava mais gaze e o balde de água. – Olha, você deve ser muito abençoada para não ter morrido.
Charmin franziu as sobrancelhas para a mulher. Morrido? Mas então a resposta veio à sua cabeça e ela se lembrou de tudo: A falha no plano, a perseguição, os gritos e o som dos tiros. Arregalou os olhos e com a cabeça, apontou para o balde e em seguida olhou para baixo, na direção de sua boca.
– Está com sede? – Perguntou a moça, logo pegando um pote e colocando uma pequena quantidade de água nele. – Você está aqui há horas. Não sei para onde estamos indo.
Ela bebeu toda a água do recipiente até que sentisse a própria língua sugando as últimas gotas e engolindo a pequena quantidade de saliva que conseguiu produzir, começou a balbuciar palavras baixas.
– O que... O que tem... Costas? – Perguntou Charmin, ouvindo a própria voz rouca e falha, tão baixa como um sussurro proibido.
– Você não lembra? Tomou três tiros, querida. – Disse a enfermeira e então pegou algum objeto jogado no canto do lugar. – Essa bolsa aqui salvou você de uma bala diretamente na espinha. Quando abriram pra checar o que tinha, encontraram um colete à prova de balas.
A garota sorriu e pôde sentir o lábio rachando e o gosto do sangue. Mas, mesmo assim, sorriu. Fora Marc quem dera o colete para ela, dizendo que quando chegasse à A, caras perigosos tentariam mexer com ela.
Lembrava-se exatamente do momento. Estava subindo o alçapão atrás de Will quando ouviu seu nome e logo após virar a cabeça para o local de onde vinha o som, viu a cabeleira ruiva e bagunçada de Marc, o colete balançando nas mãos e um rosto de expressão urgente.
E, por mais irônico que tenha sido Charmin ser atingida por homens da lei e não por bandidos ou caras malvados, o colete realmente salvou sua vida. Ela agradeceria a Marc quando voltasse.
– Marc... – Sibilou. Voltando a tossir e, de alguma maneira, engasgar-se com a própria secura. – Água...
– Ok, ok! – A enfermeira voltou a pegar o recipiente, mas Charmin negou com a cabeça, apontando para o balde. – Quer tudo isso? Mesmo?
Charmin assentiu e a mulher encostou a borda do balde em sua boca. Em questão de minutos a quantidade de água estava pela metade e um pouco do líquido havia escorrido pelos cantos da boca, caindo sobre os seios e o cabelo todo sujo e bagunçado.
A enfermeira pareceu incerta de falar com ela, mas logo suspirou e então soltou como se fosse a melhor notícia de sua vida:
– Você disse... Marc, não disse?
A garota pigarreou algumas vezes para recuperar o tom de voz e então assentiu novamente.
– Ele... Por acaso... Tem dezenove anos? – Perguntou com os olhos lacrimejando. – Um cabelinho ruivo, olhos verdes da cor das folhas e uma pintinha na bochecha?
– Sim. – Sussurrou depois de algum tempo e então arqueou ambas as sobrancelhas. – Você é a mãe de Marc e Kyle!
Will uma vez contara a ela sobre a família dos gêmeos: A mãe virara enfermeira meses depois que o pai se juntou ao exército. Soube de que os garotos viraram moradores de rua por alguns dias, até que o mais velho os achou e cuidou deles, os ensinando tudo que sabiam.
– Kyle também está vivo? – Colocou a mão sobre a boca, algumas lágrimas rolando sobre a bochecha. – Deus! Eu achei que eles estivessem mortos! Co-co-como eles estão?
– Eles estão muito bem. – Charmin respondeu, sorrindo ao ver a emoção da mãe dos gêmeos. – Marc... Ele me ajudou muito nesses meses. E Kyle... Kyle é um dos garotos mais gentis que eu já conheci.
– Com quem eles estão vivendo? Alguém os adotou? Os que eles andam fazendo? Estão trabalhando? Casaram? Têm filhos?
A mulher enchia a mente de Charmin com perguntas e ela simplesmente não conseguia imaginar a decepção da mãe ao saber que ambos estavam praticamente encasulados dentro de um alojamento abandonado. Pensou em tudo que os garotos fizeram por ela e organizou todas as palavras no pensamento antes de falar algo.
Pensou em todas as vezes que viu os gêmeos madrugando e mexendo nos computadores, procurando códigos para que ela usasse-os na pulseira; Todos os dias na feira, buscando mercadorias para Will; Os treinamentos pessoais de Marc para que Charmin soubesse utilizar o computador; Todas as vezes em que Kyle conversara com ela sobre as coisas da A e deixara sua imaginação fluindo.
– Eles estão fazendo a revolução. – Simplesmente disse. – E por minha culpa eles irão se atrasar.
– Você se importa de me contar tudo?
A garota negou, sorrindo, e pediu que a mulher prendesse o banco ao pé de sua maca. Iria ser uma longa história.
***
Kyle teclava um relatório sobre a fase inicial do plano enquanto Marc brincava com um cubo mágico de cores desbotadas. Ambos se olharam, sorrindo ansiosos e então um olhar triste passou pelos dois, por um mês a alegria daquela casa seria um tanto esvaziada. Aquele era o cargo de Charmin.
Will e Josh limpavam algumas flechas e adagas, tirando o sangue, a terra e em seguida, passando álcool.
– A favorita dela. – Falou Will, mostrando uma adaga pequena e fina com algumas espirais no cabo. – Ela aprendeu a girar isso aqui entre os dedos e eu fui o responsável pelos milhões de curativos.
– Esse lugar vai ficar vazio sem ela, irmão.
– Nunca senti tanta falta de irritar o James.
Ambos sorriram e voltaram a tirar a sujeira das armas.
James mexia em algumas fotos que a garota guardava embaixo da cama e realmente percebera quantas fotos havia dos dois juntos. Em algumas era só James irritando a mais nova que fazia alguma cara emburrada e em outras ela sorria envergonhada para a lente da câmera. Largou as fotos e pousou uma mão sobre a testa, olhando para algum canto vazio do alojamento, sentia que não era só o canto que estava vazio.
Sentado sobre a cama que Charmin costumava usar e que agora era sua Nícolas olhava para o teto branco, batucando uma sequência qualquer sobre os apoios de madeira da cama. Fora nessa cama que reencontrara a garota e também foi nessa cama que recebeu o golpe mais doloroso de sua vida. Mas realmente cumprira seu prazo, passaram-se meses e finalmente tinha arrancado um beijo da garota. Sorriu malicioso ao lembrar o momento. Subiu a gola de sua regata e pôde sentir o cheiro de Charmin nela.
Depois de meses de convivência com Charmin, finalmente descobrira o cheiro que a garota possuía. Era um cheiro de sabonete caseiro que ela provavelmente comprava só para ela, algo como algodão e margaridas. Um odor tão adorável que ele se pegava passando pela cama dela várias vezes ao dia só para poder sentir o perfume da garota e ver seu sorriso...
Um estrondo soou de fora do local. Então outro e outro. Todos se entreolharam, sabendo o que era. Tiros.
Rapidamente, Nícolas levantou da cama e correu para as escadas, mas uma mão segurou seu ombro, fazendo com que caísse. Furioso, olhou para trás e pôde ver Josh.
– Ficou louco? – Perguntou o loiro, arfando. – Se você sair vão nos descobrir.
– Mas não costumam atirar por aqui, deve ser algo importante.
– E é por esse motivo que nós esperaremos um momento.
Relutante, Nícolas levantou e encostou-se nos degraus. Marc e Kyle levantaram e foram para perto dos dois, assim como James, que guardou as fotos e Will que soltou uma flecha qualquer. Todos estavam com o olhar assustado, paralisado, olhando para o alçapão.
Ouviram algumas vozes que gritavam comandos e após intermináveis minutos, o silêncio reinou. Nícolas virou-se e colocou o pé esquerdo sobre o primeiro degrau.
– Eu vou até lá fora.
– Nícolas... – Uma voz chamou. Com certeza era Will.
O garoto virou-se e sorriu divertidamente para Will, retirando um pouco do cabelo dos olhos em um movimento despreocupado, como se estivesse numa praça e o vento tivesse soprado e bagunçado seus cabelos.
– Eu já fugi do exército uma vez. A segunda vai ser mais fácil.
Abriu o alçapão e colocou a cabeça para fora. Não havia ninguém. Caminhou para fora e pôde sentir uma brisa gelada que endureceu seus ossos. Então olhou para baixo e viu uma flor azul amassada, o cabo estava coberto de sangue, assim como mais alguns pedaços de grama por perto.
Agachou-se e pegou a flor, completamente em choque. Abriu as pétalas e conseguiu identificar a pervinca, as mãos começaram a tremer. Amassou o cabo e olhou fixamente para a flor, esperando que o objeto desse uma resposta do por que estar ali e não na bolsa de Charmin.
– Não... Não, não, não, não, não... – Começou a sussurrar repetidamente até que uma palavra tropeçasse na outra. – NÃO!
Gritou em desespero e uma mão agarrou seu braço, levantando-o. Will, os olhos arregalados.
– O que foi Nícolas? – Perguntou.
Assim que viu lágrimas finas brotando dos olhos cinza do garoto, começou a balançar a cabeça em desespero e olhou para o chão, alternando entre a cidade e a poça de sangue perto de seus pés.
Cidade. Poça.
Não.
***
Ao descer da ambulância, Charmin teve o rosto tapado por um saco preto. Meio inútil, pensou, enquanto o homem apertava mais as algemas e empurrava-a. Ouviu o som de algum portão abrindo horizontalmente e então soube: Estava entrando no campo do exército.
Ouviu alguns apitos e um provável sargento ditando o número de marchas. O som dos passos seguindo a contagem, todo no mesmo ritmo. Algumas pessoas mais perto perguntaram quem era a garota com o capuz preto escondendo o rosto e outros comentaram sobre o que uma A estava fazendo ali, toda ensanguentada.
Depois de caminhar alguns minutos, ouviu a porta ser aberta e assim que ouviu o som da fechadura, a capa em sua cabeça foi tirada. Piscou algumas vezes para que os olhos se adequassem à claridade do local e com a visão embaçada, localizou um homem a sua frente.
Havia uma expressão calma e gentil no rosto do rapaz, como se não fosse nada diferente uma garota aparecer em sua frente com um vestido rasgado e sujo de terra e sangue. Os cabelos castanhos claros e um tanto grisalhos eram colocados para trás perfeitamente com o gel e havia um tom um tanto amarelado nos olhos de tom avelã que fazia com que ele parecesse mais gentil do que aparentava ser.
– Teve uma boa viagem, senhorita? – Perguntou um homem. O comandante. – Espero que seu machucado nas costas tenha se curado.
Charmin não respondeu.
–... Ok. – Juntou as mãos e esfregou as palmas. – Você deve estar com fome. Vamos comer um pouco?
Um sorriso de canto surgiu nos lábios da garota. O comandante sorriu de volta e mandou que tirassem as algemas de Charmin. Ao sentir os braços livres, alongou-os e estralou os dedos de todas as formas possíveis. O comandante pareceu um tanto aliviado com os movimentos da garota, pensou que ela faria um show no meio do corredor de tanta raiva que deveria estar sentindo.
– Me acompanhe, por favor, senhorita...
– Charmin.
O comandante começou a andar por um longo corredor, Charmin seguia-o atrás. Passaram por salas de interrogatório, um refeitório e uma enfermaria. Viu a mãe de Marc e acenou com a cabeça para a mulher que devolveu um sorriso.
– Devo dizer que achei realmente impressionante o seu plano, senhorita Charmin. – Começou, olhando para trás e certificando que ela ainda estava ali. – Sua pulseira foi muito bem feita e a senhora tem a beleza e a convicção de uma A.
Parou e com uma chave retirada do bolso, abriu uma porta. Deu passagem para Charmin e assim que a garota entrou, o homem entrou também e fechou a porta atrás de ambos. Havia duas poltronas e uma mesa no centro com uma placa dizendo “Comandante Charlie Spencer”.
– Sente-se, por favor. – Pediu Charlie, sentando na poltrona da direita. Charmin sentou e então o homem cruzou as pernas. – Penso que a senhorita deve estar com fome. Passou boas horas dentro daquela ambulância.
Charlie procurou algum resquício de sentimento na expressão da garota e tudo que achou foi uma nevasca em seu olhar. Deu um de seus melhores sorrisos e prosseguiu:
– Penso, também, que sabe onde está, Srta. Charmin. Pelo seu incrível e terrível feito, você terá de passar um tempo conosco aqui no exército. – Prosseguiu, apontando para a mesa. A pulseira, quebrada, estava sobre ela. – Eu gostaria que a senhorita me desse alguma informação sobre a produção dessa pulseira.
Mais uma vez, não houve resposta. Charlie suspirou e apertou um botão, segundos depois duas empregadas entraram com um prato de comida cada. Charmin olhou para seu prato: Um grande pedaço de filé bovino, acompanhado de um purê de batata, frutas secas e alguns legumes. Usou o garfo para mexer na comida, procurando alguma armadilha.
– Eu sou um cavalheiro, senhorita. – Tombou a cabeça e sorriu. – Não coloquei remédio ou substância alguma em sua comida.
Charmin estreitou os olhos por alguns segundos e assim que viu o comandante cortando o filé, olhou para baixo e pegou novamente seus talheres. Cortou um pedaço da carne e colocou-a na boca, o gosto grudou no interior e ela soube que nunca havia comido algo tão bom como aquilo. Dez minutos depois, estava raspando o purê de batata e saboreando os últimos pedaços do pêssego.
– Estou feliz que tenha gostado da comida. – Charlie colocou os pratos sobre e mesa e Charmin imitou-o. – Diga, Charmin, qual sua idade?
– Dezessete. – Respondeu.
Não seria um erro tão grave conversar com ele, seria?
– Dezessete? Nossa! – Riu surpreso. – A senhorita é muito madura para sua idade.
– E qual a sua idade, Comandante? – Perguntou séria. Não sabia como, mas sentia um frio vindo da própria voz e feição.
– Olha só quem resolveu responder mais de uma palavra! – Respondeu entre risos. Achava graça da frieza da garota. – Eu tenho 26 anos, senhorita. Desde os quinze no exército para conseguir esse cargo.
O cara tá desperdiçando a vida desde os quinze? Arqueou as sobrancelhas com o pensamento e a surpresa. Caralho!
– Vocês não podem facilitar o processo e me colocar pra fazer sei lá quantas trilhas por hora até que eu fique boa o suficiente para ir a uma batalha e morrer logo? – Tirou a franja do rosto e encarou o homem. – É lucro pros dois lados.
– Infelizmente nós não faremos isso. Você, Srta. Charmin, possui informações muito preciosas que nós realmente precisamos. – Respondeu, apoiando o queixo sobre a mão. – Mas, se você cooperar, o interrogatório será rápido e indolor.
– E se eu não falar nada?
Um olhar sério pousou nos olhos do homem e o maxilar enrijeceu, assim como a postura.
– A senhorita acredita em algum deus?
Charmin ergueu uma das sobrancelhas. Era uma pergunta um tanto aleatória para a situação.
– De certa forma, acredito. Por quê?
Um sorriso de pena se formou no rosto de Charlie e ele esticou as costas. Em seguida voltou os olhos castanhos penetrantes para a garota e ela sentiu a intensidade neles.
– É melhor você começar a rezar para ele.
***
Minutos depois de conversa, Charmin acabou descobrindo que o motivo da entrada de Charlie no exército foi por causa de sua família, todos os filhos homens deveriam entrar e conquistar uma posição de poder. Possuía dois filhos, uma garota de seis anos e um menino de dois, ambos sentiam muita falta do pai assim como ele sentia dos filhos. A esposa era uma linda jovem que possuía um jardim nos fundos da casa e cultivava vários tipos de flores.
Algum tempo depois, dois homens com terno entraram na sala e pediram a presença de Charmin no interrogatório. Ela despediu-se de Charlie e o mesmo acenou para ela. O interrogatório ficava na última sala do corredor, três portas depois da sala onde estava. Ao entrar, sentou-se numa cadeira e sua mão direita fora algemada ao braço da cadeira, impossibilitando movimento. Ela olhou da cadeira para o homem.
– Por precaução. – Ele falou, como se ela fosse algum bicho selvagem e que faria danos letais.
Os dois sentaram a sua frente e um deles colocou uma pasta com alguns arquivos e fotos dentro. Na frente da pasta estava escrito “Southwood”.
– Charmin Southwood... Você aprontou uma bela enrascada, não? – Perguntou um deles, o mais alto. – Eu dei uma analisada em seus arquivos e é incrível como você é cheia de histórias pela a B.
– O quê? – Perguntou incrédula. – Vocês tão me confundindo...
– Só existe você com esse nome estranho no país inteiro, garota. – Respondeu o outro, moreno. – Você vai mesmo fingir ser outra pessoa?
– Não é disso que eu to falando. Eu sei quem eu sou. Mas eu não fiz nada que pudesse ser colocado numa ficha.
– Você não lembra mesmo quem é? – Perguntou o alto. – Não lembra o acidente no rio, da internação... Não lembra nada?
Charmin negou. Do que eles estavam falando? Ela nunca nadou em nenhum rio! Possuía medo de água e não entrava nem em banheiras mais fundas. Procurou na mente por alguma coisa que a lembrasse do que eles estavam falando, mas a única coisa que conseguiu raciocinar fora quando sua mãe fora levada e Collin partira.
– Vamos começar pela família e amigos, então. – O homem alto tirou algumas fichas da pasta e analisou-as. – Mãe: Carla Southwood, trabalhando como cozinheira do castelo. Pai: Joseph Garamond Southwood, desaparecido. Irmão: Collin Southwood... Recentemente ingressou para a A?
– Você foi completamente abandonada por todos seus familiares. Como conseguiu aquela pulseira? Com quem você está morando, garota? – Perguntou o moreno, impaciente. – Nós sabemos que existem mais rebeldes além de você, então se você puder delatar quem é nós economizaremos nosso tempo e sua saúde.
Charmin encarou o teto até que, minutos depois, um dos homens bateu a mão na mesa, fazendo um estrondo soar por toda a sala, ecoando nos cantos vazios. Ela visou o homem com uma expressão ilegível até enxergar o rosto dele se tornar vermelho de raiva.
– Vai me responder ou não?! – Gritou o moreno com os dentes trincando em raiva. – Você acha que nós estamos aqui para brincar, não acha?
– Se acalme Turner. – Pediu o mais alto. – Vamos analisar suas relações com pessoas de outro sangue.
Guardou as fichas de sua família e puxou outras três. Charmin sabia que uma era de James, mas, e as outras duas? Não teve envolvimentos com outras pessoas que lembrasse. Ou... Não? Pensou em Will e Josh, ambos a conheciam de seu passado misterioso. Teria que ser eles.
– James Nortway: Ambos os pais foram voluntariados do exército, abandonando o garoto que antes era menor de idade. Foi com ele que se envolveu, garota? Para não precisar ir para um orfanato e esperar a morte, mofando? – Perguntou Turner com um sorriso cortante. Em seguida pegou outra ficha e riu ironicamente. – Opa, Joshua Mendson, O Gay! Você têm boas amizades, não?
Eu sabia que Josh estaria aí. Sorriu ao adivinhar uma das pessoas. Ela estava ficando boa em prever o passo dos outros. Agora só falta Will para confirmar que eu os conhecia.
Então o homem alto novamente tomou as fichas da mão de Turner e analisou a terceira. Arregalou os olhos por um minuto e em seguida voltou a olhar para a ficha. Provavelmente estava surpreendido de Charmin ter a relação com um soldado tão bom como Will fora em seu passado, antes de ter a perna estourada.
– Você... – Olhou para Charmin, espantado. – Gostaria que me explicasse como conhece a única pessoa que conseguiu fugir daqui.
Charmin arregalou os olhos. Não esperava pela pergunta.
O homem largou a ficha e apoiou as mãos sobre a mesa, aproximando-se da garota. Prendeu seu olhar até que Charmin percebesse que os olhos dele eram de um verde fosco.
– Como conhece Nícolas Tourmaline?
***
Nícolas entrou no alojamento e sentou em sua cama, a pervinca entre o punho fechado. Deixou que Will comunicasse aos outros sobre o acontecimento de fora enquanto bloqueava os pensamentos sobre Charmin possivelmente morta.
Pôde ouvir Will citando seu nome, em seguida falando sobre sangue e sobre a relação dos tiros. Viu o olhar espantado de James e a forma como a pele dele clareou ao ouvir a tudo. Marc e Kyle entreolharam-se, espantados, e em seguida Josh deixou cair no chão um dardo que estava limpando.
– Amanhã... Eu irei fazer contato com um conhecido de dentro do exército e checar se ela foi mandada para lá ou para o hospital. – Finalizou, sentando-se de frente para o computador. – Charmin é uma garota forte e esperta, ela não vai se entregar tão rápido assim. Sabemos disso.
Todos concordaram e voltaram a fingir concentração no que estavam fazendo. Nick colocou a pervinca sobre a cama e como fez antes de ouvir os tiros, voltou a encarar o teto. Começou a pensar nos momentos que passara com a garota e em todas as vezes que vira seu sorriso ou ouvira sua risada discreta.Seria ele quem a tiraria de lá e a ajudaria a superar tudo que sofreria. Seria Nícolas a protegê-la e fazer com que ela não sofresse por conta dos machucados. Estava decidido a fazer tudo aquilo no momento que pudesse e não hesitaria em viajar dias somente para vê-la.
Não a perderia pela terceira vez.
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