Notas iniciais
Hum... Não sei realmente o que colocar aqui. Acho que só posso agradecer por estar lendo isso e aqui embaixo.

– Charmin, meu amor, acalme-se. – Chorava a dona da voz, enquanto acariciava os cabelos da garotinha à sua frente que soluçava desesperadamente.

Os olhos da pequena estavam completamente vermelhos e as extremidades das mangas estavam encharcadas.

– Seu irmão irá cuidar de você. – Continuou, abraçando-a.

– Mas eu não quero que me abandone, mãe.

A mulher levantou o queixo de Charmin e deu o melhor sorriso que conseguia. Ainda estava expressando tristeza.

– Eu não vou. Você sempre terá uma parte de mim. Aqui, – Colocou o indicador sobre o pingente no colar da garota e em seguida, em seu coração – e aqui.

Então, agachou-se e abraçou novamente a pobre menina de doze anos que logo seria órfã.

Um homem alto havia surgido, a roupa do exército acompanhada de uma expressão séria. Porém quem pudesse ver seus olhos, enxergaria que estão repletos de pena e horror. Havia entrado para o exército para proteger as pessoas injustiçadas, não para prender inocentes ou deixar pobres crianças órfãs, como estava acontecendo agora.

– Sinto muito, temos de ir. – Interrompeu o soldado, puxando a mãe para cima.

– Não! Mãe! Mãe! MÃE! – Mais uma crise de soluços começava e com isso, o soldado preenchia seu olhar com pena novamente.

– Adeus, meu amor. – Acenou, enquanto era algemada.

A garota correu para fora e viu sua mãe entrar na traseira de um carro preto. O frio intenso congelava seu corpo coberto por roupas insignificantes e junto com os mesmos, as lágrimas e o coração.

Nunca mais veria a mãe novamente. Mais um lar despedaçado pelo rei.

***

Dois anos depois...

– Collin. Cheguei. – Em passos rápidos, Charmin adentrava a pequena casa, em direção à cozinha. – Collin?

Aproximou-se perto da mesa onde ficavam os restos de alimentos que conseguiam com algumas moedas. Em uma maçã havia um pequeno papel rasgado com letras pequenas e cuidadosas. Letras de Collin.

“Você sempre soube se cuidar sozinha e nunca precisou de minha ajuda, por isso, não acho que seja de grande valor isto eu que tenha feito. Estou indo para a Zona A, comprei uma pulseira com o dinheiro que juntei durante longos anos. Cuide-se – Collin.“

Uma pequena lágrima lentamente começou a escorrer do rosto da garota. Não eram lágrimas de tristeza, mas sim de raiva. Que diabos de irmão abandona a irmã para ir para a Zona A e deixa um bilhete? Nem uma despedida decente ele soube dar, pensou, enquanto enxugava as lágrimas em vão.

Com o máximo de rancor que juntou dos dois anos, amassou o papel e jogou-o janela afora. Sentou-se no chão e começou a comer a maçã que foi usada para prender o bilhete, as lágrimas ainda escorriam.

Estava perdida.

Simplesmente perdida. O irmão a abandonara, e este era a única fonte de dinheiro que possuíam. A garota só tinha catorze anos e era proibida de trabalhar sem um responsável. Logo, o rei iria descobrir o sumiço de Collin e enxotar Charmin de sua casa. O rei havia feito muito por sua família, no mais contrário que a palavra podia significar. Tomou sua mãe, as rendas, implantou impostos, separou-as de seus antigos amigos e agora, enxotará a pobre menina de casa.

E foi exatamente isso que aconteceu, na manhã seguinte.

Homens haviam entrado em sua casa e jogado-a da pequena cama. Pegaram seus braços e levantaram-na. Uma farpa da madeira da cama enroscara em seu pescoço assim que foi empurrada. Um dos homens tirou a farpa sem que o outro visse e piscou para a garota. Entendia o que ela estava sentindo. Ainda estava doendo, mas nada que superasse a dor geral.

– Você não tem mais um responsável que suporte a casa, estou certo?

– Sim. – Respondeu. A voz tão vazia quanto os olhos.

– Arrume suas coisas, tem quinze minutos. – Ordenou o guarda, largando-a e colocando a mão em seu pescoço. – Esses B’s, até suas peles são inúteis.

Rapidamente, Charmin pegou uma antiga bolsa que a mãe costumava usar para comprar roupas na feira e trazer para casa e colocou tudo que prestava dentro: cobertores, roupas e um travesseiro. Desceu então para a cozinha e pegou algumas frutas que ainda não haviam estragado. Sentia o olhar dos guardas sobre seus ombros, queimavam como o Inferno.

– Estou pronta, podem fazer o que fazem e sei lá mais que merda.

– Olhe os modos, garota. Se for preciso, não hesitaremos em castigar-te.

O homem que havia passado a mão em seu pescoço agarrou seu pulso, arrancando do bolso uma arma. Charmin achava engraçado como quando os policiais e soldados do rei ficavam bravos, sempre usavam a arma como ameaça, mesmo que todos soubessem que nelas não continham balas que realmente afetassem. Haviam perdido todo o bom armamento para a Rússia.

Um soldado alto entrou na quase discussão, alguém familiar na mente de Charmin, sabia muito bem quem era. Os mesmos olhos compreensíveis com a mesma pena depositada. Era o soldado que auxiliou na apreensão de sua mãe.

– Pegue leve com ela, não tem família e agora não tem casa. – Colocou o braço no ombro da menina. – Por favor, retire-se.

– Minha mãe está viva? – Foi a única coisa que conseguiu responder, os olhos brilhando de esperança. – Diga que está viva. Você sabe quem é.

A mão no ombro de Charmin endureceu. Estava surpreendido pela boa memória da garota por, principalmente, não guardar rancor algum.

– Ela está viva. Mas não irá sair do castelo tão cedo. – Respondeu. A voz calma e os olhos surpresos pelo reconhecimento. – Agora vá.

Um rápido sorriso apareceu no rosto da garota, mas logo sumiu. Pegou a bolsa do chão e assentiu para o soldado.

– Obrigada. – Ajeitou a bolsa nos ombros e saiu, sem rumo para onde ir.

***

Haviam se passado horas, ou um dia, não sabia ao certo. Sabia que a maçã não havia funcionado, os cobertores não amenizavam o frio e não conseguia ficar mais de vinte minutos num lugar, que era expulsa e voltava a andar para outro. Uma moça havia dado para Charmin uma fatia de pão duro, mas assim que o dono do estabelecimento descobriu, depositou um chute nas costas da garota e gritando, expulsou-a dali.

Decidiu então recorrer ao que sobrava e engolir seu orgulho para pedir ajuda aos outros.

Atravessou metade da cidade, voltando ao seu antigo lar. Seguiu mais algumas casas à frente e finalmente chegou. Bateu na porta algumas vezes, até que um jovem abriu a mesma. Os cabelos eram louros, porém tão claros como a neve que caía sobre os cabelos escuros de Charmin, os olhos eram de um azul tão profundo como o céu da madrugada.

– Charmin? – Os olhos arregalados de pavor, susto e finalmente, saudade. – Céus! O que fizeram com você? Onde está Collin?

– Foi embora, para a Zona A.

– E por que essa mala? Você está toda suja! – Passou a mão sobre o braço da garota. Sangue e poeira grudaram juntos nas costas de sua mão. – O que aconteceu, Charmin?

– Me enxotaram.

– Te enxotaram?!

– É. Aí eu pensei se não poderia ficar aqui por um tempo...

– Entre, rápido. – Puxou Charmin pelo braço, fechando em seguida à porta. – Coloque a bolsa em qualquer lugar, eu vou pegar algo melhor para você se vestir e esquentar a água pro seu banho.

Charmin subiu as escadas ao lado do garoto, um silêncio agonizante misturava-se aos passos cansados de ambos. Segundos depois estavam no quarto do mesmo, pegando roupas grandes demais para o corpo de Charmin, cobertores que não estavam rasgados e uma toalha.

Em seguida foram para o banheiro, ou um suposto. Havia uma grande bacia de metal num canto do cômodo e uma pequena pia no outro.

– Eu ia tomar banho, então a água está esquentada. – Virou-se e sorriu para Charmin. – Mas eu tomei ontem, e você parece que não teve um dia muito bom. Então se troque aqui com as roupas que deixei e seque-se com a toalha.

Nada conseguia sair de sua boca. Sabia que se abrisse, iria ter uma crise de nervos por segurar tudo que vinha segurando durante o dia. Então somente assentiu e esperou que o loiro saísse para despir-se.

Havia um espelho quebrado preso à parede, parou enfrente ao mesmo e passou a observar a si mesma. Durante os dois anos que passou sem a mãe, grandes mudanças vieram. A cor dos cabelos escureceu e tornou-se mais liso, a heterocromia agora estava mais clara, fazendo com que qualquer um que passasse mínimos segundos olhando para seu rosto percebesse que o esquerdo era preto e o direito, azul. O corpo, felizmente, havia tomado curvas que para uma pobre da Zona B bastavam, e muito. A pele continuava branca e os lábios rosados e pequenos.

Lentamente, andou até a bacia e colocou uma das pernas. Uma sensação entorpecente invadiu seu corpo e no mesmo momento, entrou completamente e afundou a cabeça na água. Havia meses que não tomava um banho realmente quente, que chegava a deixar marcas vermelhas na pele. E Céus, como havia sentido falta disso.

Pegou o sabonete caseiro que estava posto ao lado da bacia e começou a passá-lo no corpo. Minutos depois, estava tomando coragem para sair da água e colocar as roupas. Finalmente saiu e assim que fez o arrependimento tomou conta de seu corpo, junto com o frio. Rapidamente secou-se e colocou as roupas que mesmo grandes, eram macias e confortáveis.

Mas sabia que não eram as roupas, e sim quem as usava. Tudo nele era confortante e macio.

Saiu do banheiro e avistou o dono das roupas sentado na cama, olhando para Charmin com o mesmo olhar que uma criança olha para um cachorro doente que caça lixo na rua.

– Se sente melhor? – Perguntou e, como resposta, Charmin assentiu. – Ótimo, venha aqui então.

Sentou-se ao lado do garoto, que passou a encará-la. O mesmo sorriu para ela, analisando as roupas.

– Lembra-se quando éramos pequenos e você inventava de dormir aqui, mas esquecia de trazer roupas ou agasalhos? – Assentiu. – Antes elas ficavam exatas, agora ficam tão grandes como vestidos.

– A culpa não é minha se você cresceu uns cinquenta ou sessenta centímetros nos últimos cinco anos. – Com dificuldade, sorriu de volta para o menino. – Agora ao invés de eu ser a mais alta, temos uma ótima diferença de quinze centímetros.

– Pois é. – Começou a afagar então seus cabelos, enrolando os fios pretos de Charmin em seus dedos longos. – Então, o que eu posso fazer?

O sorriso desapareceu do rosto de Charmin, e os olhos esvaziaram-se. As lágrimas teimavam em descer e junto delas, toda a raiva e tristeza que vinha suportando. Sentia falta de sua mãe e de seu carinho. Sentia falta de sua casa que mesmo vazia, era aconchegante. Sentia falta até do irmão, que mesmo tendo abandonado-a, conseguia a fazer sorrir e rir nas piores situações. Sentia falta de uma vida em que um dia, podia ser descrita como feliz.

– Sinceramente?

– Completamente.

– Um abraço e um “vai ficar tudo bem” servem.

E então foi feito. Em poucos segundos, Charmin estava envolta dos grandes braços do garoto e não soube quando, mas, as lágrimas começaram a escorrer, e junto com elas uma crise de soluços e engasgos. A cada soluço o abraço era apertado e a roupa era manchada.

– E como antigamente você me salvou. — Sussurrou entre um soluço e outro, a voz estava esganiçada e manhosa. – Obrigada, James.

– E como antigamente, é sempre adorável ser seu herói. – Beijou a testa garota e passou a costa da mão sobre as lágrimas. – Fique o quanto precisar. Meus pais sempre te amaram, não vão se incomodar com sua estadia.

– Tem certeza?

– Bem, se eles não quiserem, — Afagou seus cabelos novamente -, nós fugimos para um lugar. Mas, de uma coisa eu sei.

– Que é?

– Eu não vou te abandonar novamente.

E então James novamente abraçou Charmin, mas dessa vez sem choros, soluços e engasgos. Tudo isso havia sido trocado por sorrisos e por alguns segundos, uma real alegria.

Notas finais
Só para deixar claro: O James e a Charmin possuem um amor de irmãos. Eu quis demonstrar isso logo no primeiro capítulo para que a história deles seja identificada e esclarecida nos capítulos adiante.