Zona B
16 Capítlo Especial II: Soque-me, então!
Notas iniciais
Charmin acordou do coxão improvisado que James fizera para ela e olhou ao redor, procurando pelo garoto. Ao perceber que ele havia saído, levantou-se e foi até o banheiro, passou uma água no rosto e escovou os dentes. Foi até a gaveta que dividia com as calças dele e pegou dela uma calça jeans rasgada e velha que costumava ser nova e intacta. Calçou sapatilhas que ganhara de presente de James em seu décimo quinto aniversário e uma blusa branca sem mangas. Trocou-se e saiu de casa, indo até a feira para procurar pelo rapaz.
Andou por todo o local, observando todas as barracas e clientes presentes nela. James não estava em lugar algum. Preocupada, Charmin andou até a área afastada, aonde os dois sempre iam para conversar ou caminhar e não viu sinal algum dos cabelos louros dele. Não que ele visitasse vários lugares, ou estava com ela, ou estava dormindo. Era assim desde que chegara, um ano atrás.
Perguntou aos colegas de escola do garoto se sabiam onde ele estava. Nenhum deles tinha completa noção onde James poderia estar. Resolveu ir à casa da quarta ex-namorada de James perguntar se ela sabia onde ele poderia estar e ela mandou Charmin ao Inferno e pediu que James fosse levado também. Adorava as ex de James simplesmente por esse motivo.
Coçou a parte de trás dos pulsos em nervosismo e foi à escola do garoto, checando que ele também não estava por perto. Não é possível – pensou. Onde você está, seu idiota? Estava caminhando novamente pelo lugar afastado que sempre iam e parou alguns instantes encostada a uma árvore, sentando-se e esperando por James.
Então ouviu vozes vindas da floresta. Levantou-se num pulo e prestou atenção para saber se eram somente alucinações de preocupação ou vozes verdadeiras. Aproximou-se do barulho e adentrou na floresta, nunca esteve naquele lugar antes e estava duvidando se saberia voltar.
Depois de alguns minutos caminhando e desviando de galhos e folhas, chegou a um local que nunca vira ninguém vir. Parecia um tipo de acampamento com várias cabanas improvisadas e marcas de queimado no centro do local, demonstrando que ali fora uma fogueira. Havia o símbolo da bandeira marcado numa das barracas, mas ao invés do sobrenome da família real estar escrito, estava “Nícolas”.
Olhou ao redor do local, procurando pelos cabelos claros de James e ao perceber que ele não estava entre as pessoas de pé, olhou para o chão. Arregalou os olhos e aproximou-se, sendo impedida por um garoto de cabelos louros mais escuros e um sorriso travesso no rosto, não passava dos dezoito. Ao percebê-la, arregalou os olhos e parou em frente a ela, incrédulo. Provavelmente, garotas não eram bem-vindas.
Empurrou o rapaz e o mesmo caiu no chão, completamente surpreendido. Andou até o círculo onde estava acontecendo uma provável briga e então viu.
James. No chão. Sangue pela camisa inteira. Cabelo sujo e completamente bagunçado. E um garoto de cabelos castanhos enrolados com os punhos fechados e sangue nos dedos.
Correu até James e agachou-se ao seu lado, levantando a cabeça do mesmo e passando a mão sobre a boca sangrando do garoto e sobre o olho esquerdo roxo. O mesmo sorriu para ela e havia sangue em seus dentes. Por uma fração de segundos, os olhos de Charmin lacrimejaram, mas ela ficou tão transtornada com a situação que as lágrimas pareciam ter voltado de medo.
– Quem é essa?
O garoto de cabelos enrolados saiu da posição de briga e cruzou os braços sobre a camisa suja e molhada de suor. Os olhos cinza brilhavam com a luz do sol ao fitar Charmin e ela crispou os lábios em raiva. Passou as mãos pelo cabelo de James e levantou-se, ficando frente a frente com o desconhecido.
– Foi você quem fez isso com ele? – Perguntou ela com uma calma incomum na voz. O moreno assentiu e ela voltou a olhar para James. – Por quê?
– Ele estava invadindo minha área. – O garoto deu de ombros. – Quem é você? A namorada dele?
– Não importa quem eu sou, seu babaca! – Vociferou e colocou o indicador no peito do garoto, sentindo o osso dele por baixo da camisa e da pele. – Quem você acha que é pra fazer isso com ele?!
Ele olhou do dedo de Charmin para o rosto dela. Sorriu como um atirador quando visa o almejado alvo e em seguida, olhou para a multidão que os assistia.
– Tirem-na daqui. – Rosnou o desconhecido enquanto falava. – Não quero saber de meninas na minha área.
Dois garotos vieram por trás de Charmin e agarraram seus braços, levantando e carregando-a forçadamente até de fora do círculo. Um deles usava um anel no indicador que a incomodava e deixou uma marca em seu braço. Olhou feio pra ele e o mesmo balançou os cabelos compridos em reprovação. A garota debateu-se o máximo que pôde, mas os dois eram realmente fortes e ao chegarem, jogaram-na no chão e voltaram para o círculo.
Sentiu a raiva subir até a cabeça e esquentar todo o seu sangue. Levantou do chão e ao ser quase barrada por um garoto, chutou-o na barriga e fez com que o mesmo caísse no chão. Em seguida socou o rosto de outro e então entrou novamente no centro, parando à frente de James e estendo os dois braços, protegendo-o. A expressão estava dura e ao mesmo tempo raivosa. Estava em uma dura decisão de socar James ou o garoto moreno a sua frente.
– Para. Agora.
Os fios enrolados do garoto bagunçaram-se enquanto ele balançava a cabeça em falso desapontamento e apontou para um dos garotos, chamando-o. Um rapaz moreno de cabelo curto aproximou-se e o outro cochichou em seu ouvido, os olhos claros cravados em Charmin.
– Charmin Southwood, Nícolas. Esse é nome da garota. – O moreno respondeu, em seguida retirando-se.
Nícolas virou-se novamente para Charmin e sorriu. Charmin sentiu pontadas e arrepios pelo sorriso do garoto e quase se arrependeu de proteger James. Sentiu o louro que estava deitado atrás de si tocar sua perna, ela olhou-o de soslaio e pôde ver que ele sorria um sorriso saia-daqui-antes-que-eu-apanhe-mais.
– Charmin, é? Nome interessante. – Nícolas falou, fazendo com que Charmin prestasse atenção nele. – Eu estava socando seu querido amigo. Então, se você puder ser a menina fraca que parece ser e...
– Soque-me, então. – Respondeu, cortando a fala de Nícolas. Ele arqueou as sobrancelhas como se não acreditasse e ela repetiu. — Soque-me, então!
James novamente tocou em sua perna, pedindo que ela saísse e Charmin o ignorou. Nícolas aproximou-se de Charmin e fechou os punhos, estava claramente irritado. Quem diabos era aquela garota que, além de surgir do nada, resolveu confrontá-lo?! Ela não sabia que ele possuía um grupo inteiro somente para destruir a casa dela se quisesse? Que poderia muito bem espancá-la e não teria qualquer resquício de culpa?!
Charmin cruzou os braços enquanto esperava algum movimento de Nícolas e encolheu levemente quando o mesmo fingiu socá-la, colocando a mão em sua clavícula e em seguida no ombro. Olhou diretamente nos olhos dela e percebeu que eram diferentes: um azul e um preto. Sorriu ao ver a expressão de raiva no rosto dela e sinalizou com a cabeça para a floresta. Por um milésimo, tocou o pingente dela.
– Vá e leve Nortway com você, Charmin. – Falou e afastou-se, mexendo os cabelos presunçosamente. – E você deveria ter mais cuidado. Não é todo B que deixa uma garota intrometida passar ilesa.
– Não preciso da sua pena, Nícolas. – Resmungou e ajudou James a se levantar. – Vá ao Inferno e leve seu convencimento junto com você.
Nícolas observou enquanto Charmin ajudava James e se afastava com passos duros e rápidos. Sorriu ao lembrar-se das palavras da garota, desafiando-o e percebeu que havia nela algo interessante que nem mesmo ele achara em si. Limpou as mãos na camiseta e sentou-se num tronco caído perto das barracas, ainda pensando na garota.
***
– Você é um idiota, James. Um completo babaca retardado. – Murmurou enquanto passava um pano úmido no rosto ensanguentado do garoto. – E ainda por cima apanhou de outro babaca como aquele!
– Você sabe que eu odeio desrespeito.
– Mas tem situações que, por Deus, use a cabeça!
James suspirou enquanto sentia algumas gotas de água pingar em sua camisa. Sabia que Charmin estava brava e também decepcionada com ele. Quando a garota usava o nome de Deus em alguma frase, era por que a situação estava séria. E o melhor a fazer agora era receber o sermão e assentir. Afinal, ele foi mesmo um babaca e ninguém melhor que ela para confirmar isso.
Esperou que ela acabasse com o pano e pegou alguns curativos e algodões, colocando-os no queixo e na sobrancelha. Observou enquanto Charmin molhava alguma planta nos restos de água e mordeu os lábios quando o líquido encostou sobre os ferimentos do braço, um líquido verde escorria e pingava pela ponta dos dedos.
– Já falei o quão idiota você é? – Perguntou, enlaçando uma gaze no braço de James. – O quão estúpido foi o que você fez?
James fez uma careta contorcida de tristeza. Algo como uma criança faz ao quebrar um brinquedo de propósito por raiva dos pais.
– Desculpa.
– Você sabe como eu fiquei preocupada ao saber que nem a sua ex sabia onde você estava?
– Desculpa.
– Sabe o meu choque ao ver você deitado no chão com a camisa completamente ensanguentada?! – Gritou e apertou o ferimento no braço. James gemeu em dor e ela tirou a mão. – Você tem que parar de agir por impulso, Jay. Isso vai acabar fodendo com todos nós e você sabe disso.
– Desculpa...
Charmin colocou os braços em volta do pescoço de James e abraçou-o. O garoto grunhiu em dor e colocou o braço ileso em suas costas, rindo e fazendo um som abafado pelos cabelos da garota. Era um tanto incrível como ela, mesmo brava e decepcionada, tentava ajeitar as coisas antes do tempo com um gesto para que ele soubesse que, não importasse quando, ela não quebraria nada com ele.
– Prometa que não vai mais se meter em brigas por impulso.
– Eu não vou, Char.
– Prometa.
James passou a mão pelos cabelos de Charmin e encostou a cabeça da mais nova em seu peito. Torcia para que ela não sentisse o coração desesperadamente acelerado e suspirou, olhando para cima.
– Eu prometo. Não irei fazer coisas por impulso.
***
Andou até a janela e viu os raios de sol começar a sair e iluminar o dia. Calçou os chinelos enormes de James e andou até a cozinha, pegando um copo d’água e sentando no sofá velho da sala. Cruzou as pernas sobre o estofado e tomou a água enquanto lutava contra o sono.
Levantou-se e andou até a porta de casa, abrindo-a e deparando-se com uma caixa pequena e feita de jornal e cola. Pegou o objeto e andou até a cozinha, colocando-o sobre a mesa. Abriu-o e tombou a cabeça para o lado ao encontrar várias pervincas pequenas e azuis arrumadas simploriamente com um laço preto cobrindo e juntando os cabinhos. Puxou uma das flores e tocou as pétalas com o dedo, sentindo a maciez da região. Pegou o cartão que estava ao lado das flores e virou-o, uma letra N estava escrita em um modo caprichado.
Recolheu todas as flores e colocou-as no maior copo que possuíam, enchendo-o de terra e molhando-o com água da pia. Subiu até seu quarto e sorriu enquanto James mexia as pernas como se corresse horizontalmente.
Colocou o suposto vaso no batente da janela e sentou-se no chão, observando as flores com um sorriso no rosto. Balançou a cabeça completamente desacreditada e lembrou-se do sorriso provocador e dos cabelos enrolados do provável entregador das flores. O achava um completo idiota, isso era verdade. Mas, aqueles olhos cinza tinham algo especial que ela não sabia dizer o que era.
Abriu o sorriso.
– Nícolas, não?
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