Notas iniciais
Boa leitura!

# Scarlett Anders II

" Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar." {William Shakespeare}

Chegamos em minha casa arfando devido ao grande caminho que percorremos correndo. Observei que as casas da rua continuavam silenciosas e aparentavam estarem vazias, como ontem.

Quando retomamos o fôlego, pus a mão na maçaneta e a girei lentamente. Pelo que eu sei, nada impede alguém, a procura de proteção, de entrar numa casa vazia. Mas, para o meu alívio, a casa permanecia como antes, vazias e intocáveis.

— Venham comigo — Falei para Jeff e Ruby que começaram a me seguir.
Me dirigi ao quarto de meus pais, onde a chave deveria estar escondida, abaixo do assoalho.

— Deve estar aqui — Falei.

Me ajoelhei no chão, próxima à janela de vidro e enfiei o dedo no ajuntamento da madeira. Fiz força e enfim, consegui levantar um pedaço — de tamanho considerável — do assoalho. Enfiei a mão na fresta e peguei uma caixinha de papelão. Pus novamente o assoalho no lugar e me levantei abrindo a caixinha.

Lá dentro havia uma chave prateada com a letra " P " impressa. Pus a caixinha, agora vazia, na cabeceira da cama e fui em direção à cozinha.
Passamos pelo quarto abandonado de meu irmão Phill e chegamos à grande e espaçosa cozinha de mármore. Ao lado da porta de ferro limpa e bem cuidada que dava no quintal, havia uma outra porta pequena e mal cuidada. Pus a chave prateada na maçaneta e a porta se abriu com um ruído irritante.

A porta dava numa escada de madeira velha, lá embaixo, nada era visível.

— Tenham cuidado, a escada pode ceder a qualquer momento — Falei.

Desci a escada cuidadosamente, enquanto cada degrau rugia escandalosamente sempre que eu, Jeff ou Ruby apoiávamos os pés.
Finalmente desci completamente a escada e tateei as paredes à procura de algum interruptor, o encontrei, após 2 minutos completos, na parede oposta à escada.

Todo o aposento se iluminou instantaneamente, deixando a vista apenas alguns quadros velhos, instrumentos para jardinagem, caixas e mais caixas de papéis e fotografias velhas e alguns centímetros de poeira em tudo que ali habitava.

Não entendi. Meu pai me dissera para pegar tudo o que precisava ali, mas eu certamente não precisaria de rastelos, fotos, quadros, cortadores de grama e muito menos de uma grande variedade de pás.

— Não entendo! — Falei em voz alta.

— Eu também não — Ruby concordou.

— Tem que ter mais alguma coisa — Murmurei.

Comecei a andar pelo aposento, procurando alguma coisa, que nem mesmo eu, sabia o que era.
Tirei alguns rastelos do lugar, tateei paredes, levantei caixas, movi quadros do lugar, sem deixar escapar nenhum detalhe. Mas de nada adiantou.

Com um suspiro alto, anunciei minha derrota. Subimos novamente a escada velha e nos acomodamos nas cadeiras acolchoadas da cozinha.

— Não entendo — Tornei a dizer — Ele disse claramente para que eu entrasse no porão e pegasse tudo o que precisava. Mas não vejo como ele estar se referindo a rastelos e cortadores de grama — Continuei, enquanto lavava minhas mãos empoeiradas na pia da cozinha.

— Tem que ter algo mais, não se lembra de nada mais que ele tenha dito? — Perguntou Jeff.

— Eu disse a vocês tudo o que ele havia dito — Falei começando a me estressar.

— Não, não. Não no telefone. Alguma vez ele falou com você alguma coisa sobre o porão? — Tornou ele a perguntar.

Me sentei na posição que costumava ficar quando estava entretida em pensamentos — praticamente deitada na cadeira, com a cabeça inclinada, desconfortavelmente, para trás. Meus cabelos quase tocando o chão de mármore branco. Pus-me a pensar. Tentei me lembrar de qualquer coisa que meu pai tenha dito com a palavra " porão " incluída.

" Terminei o novo porão " — Falou ele.

" O que vai guardar lá, pai? " — Perguntei, um ano atrás.

" Diversas coisas, filha "

Não, essa lembrança não adiantava nada. Precisava me lembrar de algo mais importante.

" Não tem como alguém saber como encontrar tudo aquilo, sem que eu, ou você, tenha dito, querida " — Ouvi meu pai cochichar com minha mãe na cozinha.

" Você tem certeza? " — Perguntou minha mãe apreensiva.

" Claro! "

Droga pai, como encontrar isso?

" Terminei o novo porão " — Falou ele.

" O que vai guarda lá, pai? " — Perguntei, um ano atrás.

" Diversas coisas, filha "

" Huum... "

Ele se calou por um momento.

" Puxe a alavanca certa e você terá a sua arma " — Falou ele com os olhos num grande jornal em sua mão e deixando escapar um sorriso torto.

Minha mãe lançou a ele um olhar repreensivo e quando ele viu, se calou. Dobrou o jornal e saiu da cozinha.

Era isso!

A princípio achei que ele estivesse apenas lendo algo no jornal, mas minha mãe o repreendeu. Ela não faria isso se ele estivesse, apenas, lendo o jornal.
Só precisava encontrar a alavanca certa.

Me levantei de um sobressalto, Jeff e Ruby que estavam presos em seus devaneios, se assustaram e se levantaram também.

— O que foi? — Perguntou Ruby.

— Já sei! — Falei — Puxe a alavanca certa e você terá a sua arma.

— De onde você tirou isso? — Perguntou Ruby.

— Acabei de me lembrar que meu pai havia me dito isso, logo quando ele terminou de construir o porão. Vamos.

Descemos as escadas do porão, dessa vez correndo, ignorando os rangidos desesperados dos degraus de madeira. Me dirigi ao interruptor, que agora já sabia onde estava e acendi a luz.

— Procurem por alavancas de qualquer tamanho e forma.

— Ok.

Começamos a revistar o aposento pela segunda vez, mas desta vez, sabíamos o que procurar. Novamente, tiramos caixas do lugar para verificar atrás delas,levantei quadros jogados no chão com a ajuda de Jeff, devido ao seu peso, e olhei embaixo. Tirei o cortador de grama do lugar, cheguei até mesmo a apertar os botões do cortador na esperança de que aquilo fosse a passagem, mas não era. Em suma, tirei tudo de seu devido lugar para olhar embaixo ou dos lados. NADA.

A esperança já ia se esvaindo de meu corpo, quando ví algo e a obriguei a voltar novamente.

Na parede ao lado da escada, numa parte mal iluminada, havia algo que se assemelhava a uma caixa de ferro. Na parte de baixo da caixa, um pequeno trinco enferrujado a trancava. Destravei o trinco, torcendo, silenciosamente que ali estivesse a alavanca.

Descobri, segundos depois, que se tratava de um contador de energia. Diversos botões enumerados do 1 ao 13 estavam dispostos uniformemente e logo abaixo de todos os botões, estava algo que me fez sorrir instantaneamente. Uma alavanca preta de ferro, pequena o suficiente para caber na palma da mão.

— Achei! — Gritei.

Jeff e Ruby, que ainda estavam procurando, pararam abruptamente e vieram até mim.

— Bom trabalho! — Falou Jeff, sorrindo.

Segurei a alavanca e a puxei para baixo. Senti um solavanco embaixo de meus pés e o chão começou a descer como um elevador, deixando, acima de nós, apenas as paredes e teto. Assim que descemos uns 7 metros, outro teto se materializou e deduzi que se tratava de um chão substituto para o porão.

Adentramos um lugar do mesmo tamanho do porão, porém, muito mais luxuoso e aparentava estar sendo limpo todos os dias, sem falta. O chão do porão sujo e empoeirado parou à um metro e meio de distância do novo piso de cerâmica, e uma pequena escada de 3 degraus se materializou aos nossos pés. As paredes também era feitas da mesma cerâmica do novo chão, branca e brilhante.

Girei nos calcanhares admirando o lugar. Armas, de todos os tipos e tamanhos, desde pistolas à bazucas, estavam presas nas paredes e suas respectivas munições se achavam numa mesa de vidro abaixo de cada arma.

Do lado oposto, haviam 4 televisores que mostravam diversos pontos da casa lá em cima. Em um canto, diversas mochilas e coldres estavam presos na parede. Era um verdadeiro arsenal/quartel-general.

Comecei a selecionar algumas armas que fossem ajudar mais, cada um de nós.

— Sabem atirar? — Perguntei.

— Não — Responderam Ruby e Jeff em uníssono.

— Você sabe? — Acrescentou Jeff.

— Meu pai me ensinou — Respondi sorrindo.

Meu sonho, desde criança, sempre fora ser policial, como meu pai. Mas pelo visto, este sonho seria impossível agora. De qualquer forma, saber atirar vai com certeza, me ajudar muito.

— Posso ensinar a vocês.

— Certo! — Respondeu Jeff, parecendo empolgado.

Ruby parecia um pouco apreensiva e assustada.

— Certo, peguem um coldre ou dois, cada um de vocês.

Peguei dois e Jeff também, Ruby, por sua vez, escolheu pegar apenas um. Todos nós os prendemos à cintura.

Andando pelo resto do aposento para analisar cada arma, encontrei uma caixa cheia de silenciadores. Encaixei em 6 beretas 92fs que eu havia pego para nós. Duas para mim, duas para Jeff, uma para Ruby e uma reserva.

— É uma das mais fáceis de manusear — Falei entregando a eles as armas.

Eles olharam a arma com um misto de curiosidade e medo por um momento, depois, as colocaram no coldre.

— Estão com silenciador, então, não há problemas em usarmos próximos a infectados — Completei.

— Ah, que bom — Disse Ruby.

Peguei umas 50 caixas de munição de beretta 92fs para cada arma que eu havia pego, entreguei duas caixas para Ruby e duas para o Jeff e guardei as outras na mochila que havia pego para por as armas. Peguei duas L96A1 Snípper-Rifle, pois sua mira de longa distância poderia ajudar bastante, com bastante munição e a guardei, também, na mochila.

Andei pelo aposento novamente para ver se havia deixado escapar algo importante. Encontrei lanternas, peguei três e entreguei uma para cada um. Encontrei, também, bombas de fumaça, granadas e sinalizadores. Peguei cinco de cada.

— Ok, acho que já está bom — Falei

Subimos no chão do porão, e eu puxei novamente a alavanca, o chão começou a subir. Olhei para cima e vi o chão substituto do porão ir desaparecendo na parede direita, aos poucos. Segundos depois, estávamos de volta ao porão velho e empoeirado que se tratava, apenas de uma distração.

Notas finais
Então, ta aí mais um capítulo, o que acharam? O que acharam do porão? Bem básico, não? kkk... * Próximo capítulo: 15/01/2017 - Domingo * Não deixe de conferir!