— BRYAN STWERT! — a professora fala. — DÊ-ME ESSE SEU CELULAR AGORA!

Como ela pode ter descoberto? Eu estava com meu celular debaixo da carteira, discretamente.

Então eu vejo Samantha ao lado da professora, com seus longos cabelos loiros. É isso. A pessoa da prole de uma mulher que fica parada na esquina de noite me denunciou. Perfeito.

Lanço uma olhar para a menina de longos cabelos pretos. Ela o retribui.

— Ma... mas... — começo, mas o filhote de crus-credo intitulado professor me interrompe:

— PARA A ORIENTAÇÃO. AGORA! E ME DÊ O CELULAR.

Ótimo. Certamente ficarei sem computador durante um tempo em casa, mas tudo bem. Tenho meu celular. Ou tinha, pelo menos.

Levanto-me, entrego o celular à professora (matando-a mentalmente) e me encaminho para a porta. Percebo que todos estão olhando para mim. Vão se danar, penso. O problema não é com vocês! Façam a atividade!

No corredor, lembro-me de que a professora não disse nada sobre eu ir direto para a orientação, então resolvo passar no banheiro antes.

No caminho para o banheiro, fico refletindo sobre o celular, a professora, a orientação, Lenna — minha namorada, que ainda não sabe que namora comigo — e como vou falar para minha mãe sobre o acontecido.

Ao chegar ao banheiro, debruço-me sobre o bebedouro. Ah, como a água é boa, penso. Na verdade, não gosto muito de água; só a bebo quando necessário. Mas água me acalma.

Olho-me no espelho. Meus cabelos pretos estão despenteados, como sempre; não gosto de penteá-los. Meus olhos verdes estão com uma aparência cansada. Não dormi muito na noite anterior; passei quase toda a madrugada lendo. Então percebo que estou com sono. Jogo um pouco da água da pia no rosto e o enxugo com a camiseta (não creio que seja interessante passar aquelas folhas de papel na cara).

Demoro-me no banheiro; não quero ir para a orientação. Posso esperar a aula com essa professora acabar. Ela certamente não virá me procurar depois. Ela não perde tempo com isso.

Uma vontade súbita de urinar me arrebata. Depois de fazer tudo, ao lavar as mãos, vejo Samantha aproximando-se de mim.

— O que você está fazendo aqui? — pergunto a ela.

— O que você está fazendo aqui? — a garota rebate. — A professora disse que cê tava demorando e me mandou ir ver se você tava na orientação. Me disseram que não viram você lá, e então eu vim procurar você no banheiro. É típico de você fazer essas coisas. Vamos lá na orientação, Bryan. Agora você vai levar duas ocorrências!

— Desgraçada — murmuro. Samantha não parece ter ouvido. Sigo-a até a orientação, preparando-me para amenizar os fatos.

Descemos o lance de escadas que leva até o térreo. Eu e Samantha seguimos o corredor até a sala da orientação. Chegamos à porta da orientação.

Lá dentro, sento-me em um dos sofás na pequena sala de espera, composta por dois sofás pequenos, um na parede da esquerda e o outro, na da frente à da porta de entrada, uma porta que leva à sala aonde os “problemas” dos alunos são resolvidos e uma grande janela na parede do segundo sofá, dando vista para a rua.

— Então, você já tá aí — diz Samantha. — Eu vou voltar pra aula, a professora tá pas...

— Fique aqui — interrompe uma voz feminina. Percebo que é a voz da Sra. Olette. — Vou ao banheiro e quero que alguém garanta que o famoso Bryan não fuja da orientação novamente.

— Nah, ok — resmunga Samantha. — Agora eu quero ver eu conseguir entender o conteúdo novo da professora Irene — ela diz, irritada, quando a orientadora sai. — Ela já é o demônio explicando, agora, quero ver entender... — Não presto atenção ao resto de sua sala. Meus pensamentos estão longe.

O famoso Bryan, recordo-me da Sra. Olette dizendo. Arranjo problemas em praticamente toda semana. A maioria é por motivos bestas, como rasgar um convite escroto para uma festa de 70 anos do colégio. Não sei como uma pessoa que lê tanto pode arranjar tantos problemas, e como uma pessoa que arranja tantos problemas pode estar no mesmo colégio desde o terceiro ano até o nono. Quatorze anos, penso. Dois anos apaixonado por Lenna. Será que em algum dia me declararei para ela?

— Pode voltar para a sala, Samantha — a voz da Sra. Olette entra em meus ouvidos. Eu nem percebi que ela tinha chego. — Bryan, venha comi...

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!

O grito vem de meu lado. No susto, dou um pulo no sofá e acabo virando minha cabeça para a janela. Alunos estão correndo para fora do colégio. Entre eles, coisas. O que são aqueles seres? São humanos, mas não. Sua pele é mais branca, seus olhos, mais vermelhos. Não, totalmente vermelhos. Assim como seus lábios. Parecem furiosos.

— SOCORRO, SOCORRO! — reconheço a voz. Era a linda voz de Lenna. — TEM UMAS COISAS ATRÁS DA GENTE, APARECERAM DO NADA! — Vejo uma delas atrás de Lenna. Não, eram várias delas.

Preciso sair daqui, concluo. Percebo que não há como sair pela porta. Tenho que arrumar outro jeito. Olho para a janela... Não. É loucura.

— ELES TÃO SE APROXIMANDO!

Não há outro jeito. Começo a me mover em direção à janela, mas então lembro que há mais pessoas comigo.

Olho para elas. Lenna acabou de entrar na sala. As três estão paralisadas pelo pânico; eu não. Fico surpreso por minha sensatez. Percebo que elas não farão nada sozinhas.

— Vamos, a janela! — falo. Elas não me ouvem. — A JANELA, CACETE! — Nada. Ótimo. O que eu farei?

Enquanto eu raciocinava, as criaturas se aproximaram. Uma está quase mordendo Lenna. Mordendo? Definitivamente não são humanos.

Sem pensar, vou até Lenna e empurro-a janela afora. O vidro se estilhaça, fazendo um estrondo e lançando cacos pro todos os lugares. Um deles me atinge. Empurro também Samantha, que começou a sair de seu transe. Não há tempo para empurrar a Sra. Olette.

Pulo pela janela, e quase caio em cima de Samantha. Escuto os gritos da orientadora.

— CORRAM! — digo.

— Para aonde? — diz Lenna, com a voz rouca. Viro-me para ela e vejo seus lindos cabelos pretos e olhos azuis e serenos.

— Não sei! Mas corram! Sigam-me!

A Sra. Olette para de gritar. Dou um último vislumbre na janela, agora quebrada, e vejo seu corpo caindo, todo ensanguentado. O corpo cai no chão e fica imóvel. Começo a correr, sem rumo. Espero que Lenna e Samantha me tenham seguido.

Notas finais
Pode-se notar vários erros de Português nos diálogos. Isso é proposital. Praticamente ninguém fala corretamente na vida real (inclusive eu).
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.