YuuMika – Drabbles e Oneshots
1 Parte I
Notas iniciais
1. Mapas corretos lidos de forma incorreta trazem problemas.
Prompt: Yuuichirou e Mikaela decidem acampar. Yuuichirou lê o mapa errado e eles se perdem. — UA
Ele sabia que não deveria ter deixado Yuu-chan com as coordenadas. Foi uma decisão arriscada e imbecil. Haviam, tipo, muitos por cento de chances do moreno embaralha-se com as noções de norte, sul, leste, oeste, ocasionando um desvio na trilha e consequentemente os dois perdidos na floresta. E, assim como o previsto, foi exatamente o que aconteceu. Nossa, ele só podia estar no auge do sono para concordar com o pedido do outro!
Suspirou, sentando-se em uma das grandes pedras cheias de lodo que rodeavam o riacho onde estavam descansando. Uma pequena pausa que suas costas muito agradeciam. Sua mochila pesava demais, então tê-la alguns minutos pousada no chão era uma benção divina. Fechou os olhos, relaxando aos pouquinhos, curtindo a suave brisa e o ar fresco... Estava começando a sorrir quando seu momento de paz foi interrompido por reclamações.
— Eu não sei como viemos parar aqui! Eu juro que segui tudo direitinho! Arght, esse mapa só pode estar errado! — Yuuichirou havia se sentando muito próximo ao rio. Seus sapatos e meias estavam ao seu lado, seus pés descalços dentro da água cristalina. — Puta merda! Estamos a duas horas e meia caminhando e ainda não encontramos nem sinal do acampamento! Aquela desgraçada da Shinoa inventando coisas sem sentindo! “Ain, último ano do ensino médio, vamos fazer alguma coisa legal. Minha família tem uma casa na floresta. Blá-blá-blá”. — O loiro segurou o riso. Yuu-chan imitando voz feminina era, no mínimo, hilário. Passando a vontade de gargalhar, forçou-se a se recompor.
— Yuu-chan, o mapa não está errado. — Foi você que não soube lê-lo de forma correta. Complementou a frase em sua própria mente. Não por medo de escutar uma ladainha de desculpas esfarrapadas, mas, sim, por não precisar complementá-la sabendo que a acusação ficou implícita. O garoto de olhos verdes abriu a boca para se defender, provavelmente ofendido, mas Mikaela não o permitiu. — Olha, vamos fazer assim, eu fico com as coordenadas, você carrega a mochila.
— Está me dizendo que não confia em mim liderado o caminho? — É, algo assim. Revirou os olhos como se o pensamento nem houvesse passado por sua mente.
— Claro que não, Yuu-chan. Só estou dizendo que seria melhor fazermos um rodízio. Eu estou cansado de carregar as coisas, sabe? Além disso, se as minhas costas estiverem doendo muito de noite, você já sabe, né? Você nem chega perto de mim. — O outro adolescente corou. — Ah, óbvio que se você não aceitar, eu estarei com muita dor nas costas mais tarde, daí, se rolar alguma coisa, você vai ter que ser muito convincente pra ficar por cima.
— Tá bom, Mika, tá bom! Fique com o maldito mapa! — Os olhos azuis brilharam com a vitória de um argumento que nem sequer chegou a nascer. Sinal que cada vez mais o rebelde Ichinose Yuuichirou* estava se dobrando as suas vontades. — Mais vinte minutos de descanso e voltamos a andar, ok?
— Ok. — Cantarolou, fechando os olhos de novo, voltando a relaxar. — Só mais vinte minutinhos.
2. Cozinhar não é tão difícil, certo?
Prompt: Yuuichirou e Mikaela jantam juntos.
Já faziam quatro meses que Mikaela chegava tarde em casa. Geralmente na hora em que todos estavam dormindo. Não era sempre que acontecia, às vezes, duas ou três vezes por semana. Yuuichirou ficava preocupado. Será que seu amigo não sabia que era perigoso ficar vagando por aí com todos aqueles vampiros filhos da puta rondando as ruelas? Tch, é claro que ele sabia, e mesmo assim, ainda voltava fora do horário! Desejava que não acontecesse nada de ruim com o idiota.
— Vai ficar esperando ele até tarde de novo? — Akane colocou uma mão em seu ombro, sorrindo de um jeito tímido. Ela já sabia a resposta, não é? Então pra que perguntar? Desde quando ele ia dormir sem antes ver o loiro são e a salvo dentro do casebre? Havia um banco perto da porta por uma razão, ok? Bufou, cruzando os braços.
— É, é, eu vou ficar esperando aquele desgraçado. Eu aposto que ele nem jantou ainda!
— Por que não cozinha algo para ele, Yuu? Os meninos estavam famintos hoje, então não houve sobras suficientes. Aposto que o Mika não comeu nada desde o almoço. E já que você está tão preocupado em fazê-lo comer, poderia muito bem cozinhar, né?
— Por que você não faz isso? — Perguntou petulante. A garota é quem sempre faz as refeições para todos, qual motivo ela tinha para não fazer um novo jantar? A menor bocejou, colocando a mão na boca.
— Estou muito cansada, provavelmente confundiria o sal com o açúcar. — Riu da própria piada. — Não quero arriscar a saúde do Mika. Por isso, eu pensei que você pudesse tomar a tarefa em mãos...
— Eu não sei cozinhar nada! E nem quero aprender! — Teimou. — Se ele quiser, que faça algo para comer!
— Não seja egoísta, Yuu! Mika é seu melhor amigo! Vamos lá, levanta desse banco! Eu vou te dar uma ajuda!
— Pensei que estivesse muito cansada para cozinhar. — Rebateu, ainda teimando em não se mexer.
— Aconselhar, dizer onde cada ingrediente está, provar a comida, essas coisas não cansam, Yuu. — Akane não ia se dar por vencida até conseguir leva-lo para a cozinha, o moreno a conhecia bem. Não querendo mais ser perturbado, levantou-se. Epa, não estava se dando por vencido, só não queria mais escutar a ladainha da menina.
— Tá, tá, tá. — Bufou. — Cozinhar não deve ser tão difícil assim. — A jovem de cabelos castanhos bateu palmas, feliz.
Quarenta minutos depois, uma cozinha suja, várias tentativas que deram errado, louça para lavar, ingredientes espalhados e um leve cheiro de sopa queimada, Hyakuya Yuuichirou foi obrigado a admitir que cozinhar era quase tão difícil quanto matar vampiros. Droga, Akane só poderia ter feito um pacto para conseguir dominar as panelas e o fogo tão bem!
Aliás, falando dela, a maldita não conseguia parar de gargalhar do fiasco que foi primeira tentativa do colega de produzir a janta. Ela quase chorava de rir com a cabeça pousada na mesa. Irritante. Ele rosnou, batendo a palma das mãos em cima da madeira.
— Pare de rir! Pelo menos eu fiz alguma coisa comestível, ok? É minha a primeira vez nesse território do demônio! Você não tava cansada, hein?
— Aaah. — Riso. — Desculpa, Yuu. — Riso. — É que... — Riso. — Hum, tudo bem, tudo bem. Não me olhe assim. Eu vou dormir agora, aposto que em breve Mika estará em casa. Amanhã você me diz se ele gostou da refeição, ok? Boa noite. — Limpando algumas lágrimas no canto dos olhos, ela virou-se em direção as outras crianças dormindo, aconchegando-se no lugar de sempre e cochilando em pouco tempo.
O garoto de olhos verdes mordeu o lábio, observando a sujeira. Acho melhor começar a limpar tudo isso antes de ir dormir. É, vou limpar tudo antes do Mika chegar. Pensou, recolhendo alguns restos de legumes e colocando nos vasilhames. Comida era algo precioso e escasso, todo resto podia ser reaproveitado. Dez minutos após o início da limpeza, a porta foi aberta por um muito pálido Hyakuya Mikaela, que entrou tropeçando nos próprios pés.
Yuuichirou correu para ajudar o amigo, apoiando o braço dele em seus ombros e o ajudando a se locomover até a mesa. Tch, seja-lá-o-que-for que o menino de olhos azuis fizera antes de chegar em casa, o havia esgotado, deixando-o a ponto de colapsar. Queria gritar com o imbecil, ordenar que parasse de fazer aquelas merdas (sendo que nem sabia que merdas eram). Segurando a língua ao notar o estado terrível do outro, acariciou os fios dourados grossos, mostrando que não iria reclamar com Mikaela como de praxe.
— Hey, eu fiz, err, sopa. — Isso pareceu chamar a atenção do outro, acordando-o do seu semi-estupor.
— Yuu-chan, você... cozinhou?!
— É.
— E não colocou fogo na cozinha?
— Olha, eu decidi cozinhar por sua causa, beleza? Então, cale a boca ou eu enfio a porcaria da panela de sopa na sua garganta! — Ótimo, Mika calou-se graças a confissão. Voltou para a cozinha, tentando esquecer a vergonha, pôs a sopa nos pratos, pegou as colheres, colocou tudo na frente do melhor amigo e se sentou no banco paralelo.
— Vamos comer. E, hum, eer, aah, err, ela só está um pouquinho picante. E-eu me distraí e... E a Akane não me avisou que ela estava quase queimando, daí ficou assim, mas dá pra comer, ok? Coma tudo. — Mikaela passou alguns segundos olhando fixamente para o moreno como se ele fosse outra pessoa antes de soltar um barulho de pura felicidade.
— Obrigado, Yuu-chan, isso significa muito para mim.
— Cala a boca e come. — Corou, metendo uma colherada na boca.
3. Nem todos os animais são amáveis.
Prompt: Yuuichirou e Mikaela tomando conta de cachorrinhos e/ou gatinhos órfãos. – UA
— Uau, quantos gatos existem aqui? E quantos cachorros? Espera, aquilo ali é uma cacatua rosa? Céus, Yuu, quantos bichos você mantem aqui? E como dá conta de todos? — Shinoa estava admirada com a quantidade de animais de estimação que viviam na casa do colega de faculdade. Era como estar em um petshop ou num zoológico. Haviam animais e brinquedos de animais espalhados por todos os lugares.
— Quinze no total. Oito gatos, três cachorros, um coelho e uma cacatua que não é nossa, mas passa bem mais tempo aqui do que na casa da dona. — O dono da casa estava agachado perto do sofá, procurando por algo. A visitante sentou-se na poltrona, arqueando a sobrancelha. O que diabos ele está procurando?
— Todos têm nome?
— Uhum. Os gatos se chamam, Kimizuki, Asuramaru, Crowley, Mahiru, Mitsuba, Sayuri, Lacus, Akane e a mais chatinha de todas tem o seu nome. Os cachorros se chamam Shinya, Guren e Kureto. O coelho se chama Yoichi e o pássaro maldito, Ferid. — Yuuichirou respondeu, puxando um coelho de pelagem marrom que se escondia debaixo do sofá. Entregou para a menina, sabendo que ela gostaria de brincar com o bichinho extremamente peludo e tímido. — Mikaela sempre resgata alguns das ruas e traz pra cá. Tem vezes que arrumamos um lar para os animaizinhos, tem vezes que nos apegamos demais a eles e acabamos deixando-os ficar aqui. Exceto, aquela maldita cacatua da Krul! Pássaro maldito! Parece com a dona, se não for pior! — A cacatua fez um barulho irritado como se entendesse o comentário, cravando as garras no porta-casacos perto da porta. — Arght, juro que se aquela desgraçada não fosse tão assustadora, eu já tinha matado essa coisa.
— Por que tanto ódio do passarinho, Yuu? Eu gostei bastante dele. Suas penas são bonitas. — Comentou distraidamente, brincando com a bolinha de pelos em suas mãos. Que coisinha dócil. — A propósito, qual é mesmo o nome do coelho?
— O nome dele é Yoichi. Ele é o único que não foi achado na rua, eu ganhei de presente. — Jogou-se no sofá, olhando para a moça de cabelos lilás sentada na poltrona. — Todo mundo gosta desse floquinho, menos o Mika. Ele diz que o coelho é muito dependente de mim, que por algum motivo não consegue gostar dele, que o Yoichi tem implicância com ele e nunca aceita a comida que ele põe, essas besteiras. Tch, sinceramente...
— Não acredito que o aspirante a pediatra, Hyakuya Mikaela, um dos mais brilhantes garotos da faculdade, tenha ciúmes de um coelho! — A futura investigadora criminal zombou. — Você tá ignorando minha outra pergunta, não tá, Yuu? Me diz por que odeia a cacatua da sua sogra.
— Dizem que sogra faz pacto com o diabo para atazanar a vida do genro. Bem, a Krul provavelmente é o próprio diabo ou filha dele. E a cacatua deve ser o servo.
— Ela só não gosta das escolhas que o filho dela fez na vida, tipo, namorar você. Até seu pai ficou surpreso quando vocês assumiram o namoro. — Provocou, lembrando da situação engraçada que os dois meninos passaram ao confessar o namoro escondido para Guren, pai adotivo de Yuuichirou. O homem ficou perplexo, paralisado, sem saber como reagir. E por todos os motivos errados. Ao se recuperar do choque, o Sr.Ichinose balbuciou um muito surpreso: Como um garoto tão bonito quis essa porcaria que é meu filho? Ele tá te chantageando, Mikaela? Infelizmente o celular da estudante de criminologia estava descarregado, mas, por sorte do destino, o de Mitsuba não estava. Sua namorada gravou tudo e fez questão de repassar na rodinha de amigos. Foram sete semanas de pura zoeira com o casal.
— Que ele vá para o inferno. — O moreno resmungou, encolhendo-se no sofá.
— Se ele te escutasse dizendo isso, provavelmente é você quem iria para o inferno. — Riu. — Agora, falando sério, por que tanto ódio da cacatua?
— Se você estivesse, hum, muito empolgada nas preliminares com a Mitsuba e a porra de uma cacatua invadisse seu quarto e ficasse atrapalhando você, você gostaria? — Resmungou, contando o tempo mentalmente até a garota explodir em gargalhadas e zoeira.
— A CACATUA TE ATRAPALHOU DE TREPAR? — Yoichi apavorou-se com o grito e as risadas histéricas. Contorceu-se nas mãos da garota até que conseguisse fugir. Hiiragi quase caiu da poltrona por não conseguir se conter. — Meu Deus! Meus Deus! Como eu tô amando essa cacatua! Ai, vou trazer um presente depois! Esse pássaro merece um prêmio! Ai, ai, ai, minha barriga tá doendo de tanto rir.
— Vai se foder, Shinoa. — Enfiou o rosto na almofada. Era o que faltava, Ferid ganhar uma aliada!
— Isso tudo é frustração sexual, Yuu? — Ridicularizou entre gargalhadas.
— Eu vou te matar se não parar com isso! — Encararam-se, olhos castanhos brilhando em desafio, verdes brilhando com vontade assassina. A porta se abriu, quebrando a atmosfera de guerra.
— Parar com o quê, Yuu-chan? Ah, olá, Hiiragi. — Os olhares foram voltados para o loiro que acabara de chegar. Hyakuya Mikaela estava parado na porta, segurando a gaiola de um hamster. Havia um brilho frio nos orbes azuis. O leve sorriso que adornava o rosto do garoto era puro gelo, ameaçador. Yuuichirou coçou a nuca, suspirando. Será que ele nunca vai superar esse ciúme?
— Ah, oi! — A menor dos três respondeu em tom alegre, ignorando completamente o ar ameaçador. Ela já sabia que o universitário guardava ressentimentos. História antiga que ele não conseguia esquecer. Não que ela se arrependesse, os meses que passara como namorada de Yuuichirou foram bons (não que fosse vocalizar isto. Mitsu-chan a mataria sem pestanejar. E Hyakuya ajudaria sem ser pedido). Em defesa, ela servira de catalisador do relacionamento deles. Se não fosse por ela, Mikaela nunca teria perdido a cabeça e se declarado.
— De quem é esse hamster, Mika? — O moreno de olhos verde-esmeralda apontou para o pequeno animal na gaiola. A expressão do recém-chegado se suavizou.
— Ah, um amigo pediu que eu cuidasse dele enquanto ele não volta de viagem.
— E qual é o nome dele?
— Seraph. É Serafim em inglês.
— Escolha estranha para um hamster, combinaria mais com um pássaro. — Shinoa comentou acariciando uma gata malhada que subiu em seu colo. Mitsu-neko-chan, percebeu vagamente.
4. Uma tempestade não é tão assustadora se alguém está te confortando.
Prompt: Yuuichirou e Mikaela e uma tempestade.
— Shhh, shhh. — A garota de cabelos castanhos abraçava as duas meninas pequenas em seus braços, acalmando-as. — Shhh, acalmem-se, só foi um trovão, é só um barulho. — As três estavam dentro de um casulo de edredons entre duas camas que Mikaela e Yuuichirou montaram durante a tarde tão logo souberam que uma tempestade assolaria a noite. Quente, confortável, calmo, assim era o clima dentro daquele espaço perfeito para consolar os mais novos que temiam a grande chuva. O cheiro doce de roupa lavada, as palavras suaves sussurradas, uma canção de ninar cantada por Akane, tudo aquilo lembrava o lar que eles construíram para si. A ajuda mútua apesar do medo (por que todos ali temiam os raios e trovões) era o suficiente para aumentar os laços de amor que uniam aquela família.
— Vai dar tudo certo. — Perto da menina mais velha, Mikaela confortava as outras crianças também. — Vai dar tudo certo, prometo. É só uma tempestade. Vai passar. Vai passar. — As crianças do orfanato Hyakuya haviam criado uma tradição durante as noites tempestuosas. Todo mundo debaixo dos edredons, os mais velhos cuidavam dos mais novos e Yuuichirou ficava de tocaia ajustando os lençóis que estivessem fora de lugar. Proteger acima de tudo. Proteger acima de todo o medo. Trovões eram barulhos, raios não caíam em lugares com para-raios, a chuva não derrubaria aquela estrutura sólida de tijolos e cimento. Eles estavam juntos e assim estariam para sempre.
Mal sabiam eles que, alguns meses depois, após uma tragédia que afetaria a humanidade em peso, aquela tradição posta em prática somente nas noites de tempestades, seria feita toda noite no intuito de amenizar o medo dos vampiros. No entanto, por agora, pouco a pouco todo mundo ia caindo no sono, em paz, relaxados, protegidos, restando apenas Mikaela e Yuuichirou acordados, vigiando aqueles que mais amavam até que fossem vencidos pelo sono e dormissem abraçados, inconscientemente salvando um ao outro dos pesadelos que os barulhos assustadores traziam.
5. A vingança é um prato que se come morno.
Prompt: Mikaela tem algo que Yuuichirou necessita. Ele não entrega facilmente. – UA
O som da sola dos sapatos de Yuuichirou batendo nos degraus da escada quase fizeram Mikaela sorrir. Quase. A raiva fria borbulhando dentro de si era muito maior do que a satisfação de ouvir o desespero nos passos do namorado. Hyakuya arranhava a superfície da escrivaninha, impaciente. Contava mentalmente os segundos que faltavam até o moreno irromper no quarto, ofegante e amedrontado. Vingança, diziam, é um prato que se come frio. Infelizmente, ele não se importava de queimar um pouco a língua se isso significasse devolver na mesma moeda a decepção que passou duas semanas atrás.
Arregalou os olhos, balançando a cabeça de forma negativa. Melhor se concentrar em outra coisa antes que seus devaneios ficassem ainda mais sombrios. Com essa linha de pensamento até parecia que Ferid havia possuído sua mente! Que nojento! Tch, aquele homem certamente era uma má companhia. Iria começar a evita-lo (muito) mais. Suspirou, passando uma mão pelos cabelos dourados. Yuu-chan estava se aproximando, ele já podia ouvir claramente os passos no corredor.
— Não ceda. Não ceda. Não ceda. — Murmurou, preparando-se. — Mikaela, lembre-se do fiasco de duas semanas atrás. — Ótimo, a lembrança da decepção daquele dia deu-lhe forças para não ceder aos apelos que com certeza ouviria do moreno. E falando do diabo...
— MIKA! — Um ofegante Ichinose Yuuichirou abriu a porta do quarto, quase tropeçando nos próprios pés ao entrar. Apoiou as mãos nos joelhos, respirando com dificuldade. O estudante do primeiro ano do ensino médio virou-se para sua vítima. — MI-Mika...! O-oi. — Hum, pelo jeito ele correu todo o caminho até aqui só por causa destas porcariazinhas, hein? Parabéns, Yuu-chan, você conseguiu me deixar muito, muito, muito chateado agora. Olhou para os ingressos da tal banda Owari no Seraph que o outro tanto gostava. O que existia de especial naquela banda? O loiro já escutara algumas músicas e... É, eles eram bons, mas não tão bons.
— Oi, Yuu-chan. — Cumprimentou-o usando o tom de voz mais gelado possível. O recém-chegado pareceu notar seu mal humor instantaneamente, pois deu dois passos para trás, alertado. O garoto de olhos azuis sabia que se chegasse perto, poderia ver a pele arrepiada de medo. Yuu-chan sabia bem que nunca era um bom sinal quando seu “adorável Mika” se mostrava estoico. — Você veio correndo da casa do Satochi até aqui só por causa disso? — Balançou os pedaços de papel, observando como os olhos verde-esmeralda seguiram o movimento.
— É Saotome, Mika. E ele prefere ser chamado de Yoichi. — Corrigiu automaticamente, sequer percebendo o perigo que corria. Mikaela estreitou os olhos.
— É, eu sempre me esqueço. — Deu de ombros. — Então, você veio correndo só por que eu disse que a minha mãe tinha comprado ingressos para o show? Sabe, a casa do Sato-... Saotome é bem longe da minha casa.
— Eer... — Se o garoto de cabelos negros negasse descaradamente, o dono da casa era capaz de rasgar aqueles malditos papéis ao meio. — E-eu não corri o caminho todo...
— Não foi todo, mas correu, hein? — Correu quase quinze quilômetros por causa da merda desses ingressos, mas se atrasou quase uma hora no dia do nosso aniversário de namoro... Mordeu a língua para que não deixasse escapar a amargura. Não ia parecer uma menininha sentimental. É só que, droga, ele havia planejado um dia perfeito e... Yuu-chan pouco se importara!
— Você está zangado, Mika?
— Eu? Zangado? Por que estaria? — Sorriu meio cínico. — Yuu-chan, eu não estou zangado.
— Você parece muito zangado.
— Pareço?
— Ok, retiro o que disse. Você não parece zangado, você está zangado. Por que está zangado? O que eu fiz?
— Eu acho que a pergunta certa é “O que você não fez?”, Yuu-chan. — Seu namorado estremeceu.
— I-isso ainda tem a ver com o nos-...
— Tem.
— E-eu juro que tive motivos para demorar.
— Motivos que você não me disse! Eu... Você... Você esqueceu, não foi? Admita logo, Yuu-chan. Admita que esqueceu. — Silêncio. O adolescente parado perto da porta ponderava sobre alguma coisa muito importante. Sua testa estava franzida e ele mastigava o lábio inferior, indeciso.
— Eu estava conversando com o tio da Shinoa, Shinya-san, naquele dia. — O loiro arqueou uma sobrancelha. — E-ele tem contato com o pessoal da produção do show da band-...
— Você demorou... por causa dessa maldita banda? Sério isso, Yuu-chan? Estava tentando conseguir um autógrafo ou algo assim?
— Olha, você tá sendo bem infantil, Mika!
— Falou o mais maduro de nós dois!
— Você tá sendo infantil, me escuta primeiro e depois fala!
— Continue. — Cruzou os braços.
— Eu não estava atrás de autógrafo, er, ok, não me olhe assim, o autógrafo veio depois do meu pedido. Eu demorei por que estava convencendo Shinya-san a... A conseguir que a banda tocasse a música que tocou no nosso primeiro encontro, quando começamos oficialmente a namorar. E-eu queria que o Shiya-san fizesse algo para coloca-la no repertório e que tentasse convencer os membros da banda a oferecer a música pra gente, tipo, pra comemorar esse tempo que a gente tá junto... E-eu não sabia que você tinha planejado todo aquele passeio maravilhoso e tudo mais. Fiquei aéreo por que ele me prometeu e conseguiu. E-eu só conseguia fantasiar com o show por que estava ansioso para te surpreender. — Mikaela arregalou os olhos, chocado.
— S-seu idiota! Yuu-chan, você é um idiota! — Levantou-se da cadeira giratória e abraçou o outro, enterrando o rosto na clavícula dele. — E eu... fui tão criança. Me desculpe. Eu só estava estressado...
— O-ok... — Yuuichirou abraçou de volta. — Nossa, Mika, eu pensei que você ia me matar. — Ambos riram, beijando-se. — Te amo. Eu nunca esqueceria nada que envolvesse você.
Fim da Parte I
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