Yule: canção de inverno
1 Capítulo único.
Mais um solstício de inverno havia se passado em Camelot. Aquele reino, outrora tão próspero e glorioso, já não era o mesmo desde quando a desconfiança e desarmonia se instauraram entre os cavaleiros da Távola Redonda. Muitos já haviam partido para nunca mais voltar, vivo ou morto.
Arthur era rei há anos e nunca faltou com suas responsabilidades – mas em seus olhos jamais refletiram sequer uma sombra de felicidade. O garoto vívido e sonhador o qual conseguiu retirar a Sagrada Espada da pedra havia se perdido no passado, quando ao trono se sentou. Como a flor de lírio adoece com a chuva, eu, Bedivere, vi o pequeno Rei dos Cavaleiros perder a vivacidade nas inúmeras lágrimas que às escondidas ele derramou. Mesmo que diante dos outros se mostrasse imponente e inabalável, sua fragilidade jamais deixou de ser observada por mim. Por mais que eu tenha tentado combate-la inúmeras vezes e querido preenche-la de graças e bênçãos, meu desejo nunca chegou a alcançar sua alma. Seu sorriso era uma máscara e a sua eventual frieza, uma autodefesa.
Pouco a pouco, todos os que estavam comigo desapareciam, até que tudo se tornava branco, tal qual o cenário todo encoberto pela neve à minha vanguarda, exceto a mim. Por último, eu fiquei e assisti ao fim de um reinado, de laços resumidos à pó e derramados em sangue. Após a conspiração de Mordred contra Arthur fez muitas vítimas, das quais eles próprios estavam inclusos. Lamento ainda hoje por não ter conseguido salvar o meu rei e as lágrimas voltam a inundar meus olhos. Atendi ao seu último pedido, mesmo que a contragosto. Foi-me demasiado doloroso devolver a Excalibur à Dama do Lago e saber que tudo havia acabado.
Agora, trazendo apenas memórias de um tempo distante, me aqueço ao calor da fogueira que acendi quando naquela gruta eu cheguei para passar a noite, nessa vida de andarilho. Esse lugar, para mim, é santuário, conhecedor de minhas histórias. Aqui, na calada da noite, sinto falta das estrelas que compartilhávamos, da companhia que desfrutávamos, das melopeias que tocávamos e cantávamos juntos – eu sentia mesmo falta do amável ruivo bardo com sua harpa.
“Vossa Majestade não compreende o coração das pessoas! ”
Essas foram as últimas palavras que Tristan havia pronunciado antes de deixar o castelo depois de uma árdua discussão com Arthur. Eles vinham tendo várias divergências e Tristan, sempre calado, havia se cansado de tudo aquilo. Ele tudo observava, apesar de parecer frequentemente desatento. Quando o cavaleiro da Cornualha rompeu os laços com a nossa Ordem, isso me pesou o coração. De um lado, o homem que jurei lealmente e tanto queria bem; e de outro, aquele que me era tão estimado e que havia me guardado sempre.
Houve várias noites em que ele me pegara aos prantos por um amor não correspondido, de um doloroso sentimento invisível. Mesmo que nunca fosse dito em palavras, eu sei que ele percebia sobre. Como se nada quisesse ou visse, ele tocava a melodia de Greensleeves com sua harpa, a fazer-me companhia e a consolar-me. Ele havia se tornado minha fortaleza. Em sua presença, eu reorganizava minhas forças e nas suas notas, eu sentia meu coração se curar daquele amor não recíproco.
Mesmo ele cristão, jamais questionou minha fé. Dentre todos, ele foi o único que me acolheu de verdade... O único que soube quem eu sou, sem muitas palavras. Tristan havia se tornado mais que um simples amigo para mim; tornou-se insubstituível. Portanto, o adeus foi algo realmente difícil de dizer – ainda mais de aceitar.
Agora, enquanto espero em claro o novo amanhecer, abro o pergaminho o qual ele me entregou, frente aos grandes portões da cidade antes de partir.
“Foi um enorme prazer estar em sua companhia... Obrigado e adeus.”
Mesmo que tantos anos já tenham se passado, sua voz jamais foi apagada. Apesar de dolorosa, nunca me permiti esquecer. Eu me lembro de suas costas, de seus longos cabelos – e de seu último sorriso quando olhou para trás.
“É realmente muito triste vê-lo chorar... O sorriso lhe cabe muito mais. Mesmo que eu não mais esteja aqui, quero que saiba que sempre estará comigo, de coração e de alma. Espero que minha música esteja sempre com você.”
A recordar-me do som ecoado das cordas, eu revivo sua imagem a tocá-las. Mesmo que ele nunca tenha tido a oportunidade de me apresentar a última poesia entregue, eu sentia as suas notas e sempre a cantava.
Yule é o fim, mas também o novo começo;
Yule é o silêncio, mas também é a prece.
A nossa chama n'alma é o que acalenta
A saudade que remanesce ao fim...
O elo que sobrevive à demora da eternidade.
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