Notas iniciais
Nota: Presente de Natal (atrasado) para a minha Nao-amora. Com todo aquele discurso que a gente faz no Natal, mas que eu não sou boa de falar. <3 :3

Yuki Koi Uta

Era horrível. Além de ter que passar o Natal e o Ano Novo em uma cidade do interior, completamente isolado do mundo, ele ainda tinha que aturar o tédio que o acompanhava.

Andou de um lado para o outro na pequena sala de estar da casa de sua avó, procurando algum canto onde o maldito sinal da sua conexão com a internet funcionasse.

Não que Shin estivesse tendo algum sucesso.

Jogou-se no sofá, encarando a tela do notebook branco, decorado com milhares de adesivos, vendo que não conseguiria nem um mísero sinal de que ele havia saído da alienação causada pela falta de contato com o mundo exterior.

É claro que ele estava exagerando. A televisão estava ligada bem à sua frente e seu avô estava sentado no sofá contrário ao seu, o olhando de forma zombeteira, como se jurasse que seu neto tinha sérios distúrbios mentais que dificultavam seu raciocíno lógico.

-Maki-chan? Já conseguiu um endereço de um bom psicólogo para o Taka? — gritou, fazendo com que as risadas das mulheres na cozinha da casa se espalhassem por todos os cômodos do pequeno local. Local este que Shin estava dividindo com dez primos, treze primas, sete tios e tias, seus pais e avós.

Por um momento a vida lhe pareceu ingrata demais. Todos seus primos se divertindo em algum canto e ele ali, encarando o ícone de Internet, esperando algum sinal divino de que ele não estaria tão isolado assim.

Soltou um suspiro cansado, passando os dedos pela franja longa, retirando-a dos olhos.

A bem da verdade, tudo que Shin queria era poder falar com Naoki, ao menos cinco minutos e desejar um Feliz Natal para o namorado. Não precisava de presentes (ainda que ele não reclamasse da árvore especialmente lotada de embrulhos coloridos), apenas... Nao. Ele só queria Nao.

E aquele livro que havia mostrado para sua mãe, na semana anterior, o qual ela nem olhara duas vezes num total ato de desprezo. Por um momento ele pensou que aquela expressão depreciativa que ele mesmo carregava quase sempre devia ser de família.

-Não acha que já ficou tempo demais nesse computador, meu filho? — a voz cálida e doce de sua avó, parada ao seu lado, entregando uma chaverna em suas mãos soou um tanto quanto repreensora, fazendo o garoto de dezoito anos desligar o aparelho, deixando-o de lado.

-Eu só queria poder falar com... um amigo. — disse, afundando mais na poltrona, encarando o líquido fumegante, cor-de-rosa. Chá de rosas e erva-cidreira, com cravo, como ele gostava. Ah, ba-chan, como ela era amada e idolatrada.

-Então, talvez devesse ir se arrumar para a ceia. Eu sei — cortou, antes que o neto a repreendesse — que o Natal é uma data cristã e nós somos xintístas, mas você não se sente nem ao menos um pouco comovido, ao ver as pessoas comemorando o nascimento de um menino que veio para salvar o mundo?

Engoliu a vontade de dizer que ninguém comemorava o nascimento do Goku ou do Seiya de Pégasus, mas apenas balançou a cabeça em concordância, indo para o quarto que estava dividindo com alguns primos, fuçando sua mala e procurando a roupa que usaria aquela noite. Sorriu ao ver a camiseta que o próprio Nao havia lhe dado, semanas antes. Nada demais, uma camiseta branca de mangas longas com um dragão na frente. E calças rasgadas. Correu para o banheiro, trancando-se lá antes que alguém o incomodasse.

E não havia nem bem entrado no banho quando ouviu o grito de seu pai, vindo de algum lugar que ele não sabia.

-TAKANORI! SAIA DESSE BANHO, NÓS QUEREMOS NOS ARRUMAR TAMBÉM!

Ah, como Shin odiava o maldito Natal.

x-x-x

Ele havia conseguido se arrumar. Ele havia tomado o banho mais rápido de sua vida (dez minutos não era tempo suficiente para lavar seus cabelos, se banhar e escovar os dentes), havia se arrumado em um espaço mínimo enfrentando as piadinhas de seus primos quando começara a pintar os olhos com o lápis-de-olho preto e ainda por cima não havia achado seu celular. E Naoki poderia ligar a qualquer momento.

Shin estava enlouquecendo. Enlouquecendo mais ainda porque suas primas riam de alguma coisa estúpida, seus primos se vangloriavam e faziam piadas idiotas envolvendo mulheres e bebidas e ele como o membro mais novo da família se amaldiçoava por ainda não ter conseguido um único sinal de Internet.

-Ainda na frente desse computador, Shin-chan? — a voz de sua mãe estava próxima demais e ele apenas ergueu a cabeça, sorrindo tristemente para ela, que tirava seus cabelos do rosto.

-Eu queria dar um Feliz Natal para ele... mas meu celular sumiu e a internet não dá sinal. — queria chorar, mas isso faria sua maquiagem borrar, minútos de trabalho serem perdidos e traria mais estresse. A mulher apenas sorriu, beijando sua testa e se afastando, anunciando em uma voz mais alta.

-Vamos, se juntem todos! Vamos abrir os presentes!

Shin olhou para fora mais uma vez, deixando o note em cima da mesa, indo sentar-se com alguns primos em volta do pinheiro decorado com ajuda dele mesmo.

Ao menos eles demonstraram consideração consigo, ao deixá-lo colocar a estrela dourada na ponta.

Os minutos foram passando, a pilha de presentes diminuindo, nomes eram chamados por todos os lados e Shin sentia-se pior a cada vez que o seu nome não era chamado por ninguém. Poxa, ninguém mesmo havia se lembrado dele em pleno Natal?

Viu o último presente ser depositado no colo de uma de suas primas, vendo as próprias mãos vazias, mordendo os lábios. Porcaria, ele não queria chorar, mas as lágrimas pareciam presas na garganta. Tudo bem, ele admitia que não havia sido um exemplo de obediencia, comprotamente e amor ao próximo, mas não ganhar nem um cartão era demais. Levantou-se, saindo da sala e quase chutando o estojo de maquiagem de uma das garotas, indo para fora, sentando-se nas escadas.

Ele não comemorava o Natal. Era uma data cristã e capitalista, mas... ele se importava se iria ser lembrado ou não. E não fora. Apoiou o queixo em uma mão, cujo braço escorava-se no joelho e deixou uma lágrima teimosa cair. A primeira de muitas.

Se Naoki estivesse ali ele lembrar-se-ia de Shin. Mas Naoki não estava e ele tinha que passar o Natal rodeado de pessoas, sentindo-se mais sozinho do que nunca.

Esfregou os braços, afastando o frio que começava a incomodar, andando até um montinho de neve branca e fofa, ajoelhando-se e começando a montar um boneco pequenino. Juntou alguns galhos secos e pedrinhas, fazendo os braços e olhos do coitado que mais parecia o Corcunda de Notre Dame um pouco mais deformado, sorrindo amargo.

-Pois é, senhor Boneco de Neve. Hoje somos só você e eu. Feliz data comercialista, onde todos são uns cretinos. — finalizou, sentando-se ao lado do pequenino, começando a brincar com a grama queimada e com a neve que se acumulava.

Pelo menos até algum maldito infeliz quase queimar suas retinas com um maldito farol alto, vindo em sua direção como um maluco. Teve tempo apenas de rolar para um outro monte, mais afastado e maior, vendo seu novo amigo esfarelar-se, como se pretendesse nunca ter existido.

-SENHOR BONECO DE NEVE! NÃO! — o grito histérico havia atraído a atenção das pessoas na casa e seus primos, tios, avós e pais saíam correndo para ver o que havia acontecido.

-SHIN! O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? SAI JÁ DESSA NEVE! — o garoto piscou ao ouvir a voz tão conhecida, levantando-se lentamente, sentindo os ossos congelados. Soltou uma exclamação ao ver o outro rapaz que se aproximava, tirando o próprio sobretudo para depositá-lo em seus ombros, o aquecendo. — O que estava pretendendo, sentado na neve?

-Nao-chan... — murmurou, sentindo as lágrimas querendo sair novamente, mas se contendo e fechando a expressão, começando a socar o namorado. — SEU INFELIZ! VOCÊ MATOU O SENHOR BONECO DE NEVE, SEU ASSASSINO MISERÁVEL!

-Eu matei quem? — o pobre rapaz de cabelos castanhos, mais longos que os do outro, apenas fez uma expressão estranha, olhando para o montinho desforme quase derretido embaixo da roda do carro, piscando algumas vezes e rindo. Aquela risada que aquecia o coração de Shin por simplesmente ser a risada de Nao. — Eu pensei que você iria apreciar mais a minha companhia à de um boneco de Neve, Shin-chan. Assim você me magoa.

Tudo que Shin pode fazer foi rir, abraçando o namorado e beijando seu rosto diversas vezes. Foi retribuído, sentindo mãos geladas entrarem sob o sobretudo, tocando uma pequena faixa de pele descoberta pela camiseta, provocando um gemido abafado e gritos e risadas de sua família, fazendo-o se afastar corando, mas sendo impedido de ir muito longe pelos braços de Naoki, que o prendiam junto a si.

-Acho que nós fizemos bem em pedir para Naoki-kun trazer seu presente — seu pai disse se aproximando, com sua mãe, apontando para o carro vermelho no qual Nao havia chegado. — Mas isso não quer dizer que você possa sair dirigindo feito um maluco enquanto não tiver carta, moço.

Riram, com Shin abraçando seus pais e vendo seus primos se aproximarem, com caixas de presente. Aqueles malditos que achavam que poderiam se aproveitar de sua ingenuidade de membro mais novo para esconderem os presentes, partindo seu coração em pedaços. Agradeceu com um sorriso enorme, vendo seus avós chamarem para a ceia, todos correndo em direção à casa enquanto ele mesmo guardava os presentes no carro.

Ainda iria entrar para comer, quando sentiu o braço ser segurado gentilmente e seu corpo chocar-se contra outro, provocando uma fraqueza súbita nas pernas, cambaleando e se apoiando em um Nao sorridente, que beijava suas bochechas.

-Você não achou que eu iria deixar nosso primeiro Natal juntos passar em branco, não é? — Takanori poderia jurar que iria cair, quando o namorado roçou os lábios em sua orelha, murmurando em um tom rouco e sensual. — Eu estou aqui para fazer essa noite ser especial, amor. E eu também tenho algo para te entregar.

-Me entregar? Mas... Nao-chan! Eu deixei seu presente em casa, eu não sabia que você viria... e como conseguiu chegar até aqui? — perguntou se afastando um passo para encará-lo, sentindo um dedo sobre seus lábios enquanto o namorado sorria divertido, o virando de costas.

-Eu comprei isso aqui para te dar. Acho que combina com você. — e algo frio passou pelo pescoço de Shin, pesando um pouco. Segurou, vendo que era um cordão de prata com um pingente em forma de guitarra. Sorriu como uma criança, jogando-se novamente nos braços do outro, beijando-o como se não houvesse um amanhã.

As línguas se entrelaçavam e brincavam juntas, enquanto os dentes procuravam os lábios, arranhando e puxando e leve. As mãos não permaneciam paradas em um só ponto e Shin sabia que, mais um pouco, ele estaria entregando-se ao outro rapaz sem um mínimo de pudor, ignorando toda sua família. Separaram-se quando o ar se fez necessário, com sorrisos gêmeos nos lábios. Carinhosos, mas ainda assim com um "quê" de malícia mal contida.

-Eu sei que não vai ser o suficiente, mas... eu tenho certeza de que posso providenciar um presente à sua altura, depois que comermos. Eu só vou precisar subornar meus primos para que nos deixem sozinhos no quarto. — sorriu de canto, lascivo, luxurioso, provocando arrepios em Nao, que o puxou para mais perto, colando os lábios novamente, só se separando quando ouviram a avó de Shin gritar por eles da varanda, ralhando por ficarem no frio.

Riram, entrando de mãos dadas, provocando piadas, risadas e gritinhos histéricos. Não que eles se importassem com isso.

x-x-x

Mais tarde, quando Nao caía sobre Shin, deixando o corpo menor com um gemido fraco e se aconchegando contra ele, esperando as respirações se tornarem regulares, eles apenas se encararam, com sorrisos carinhosos e trocaram um beijo gentil, amoroso, sem malícia alguma.

Toda esta havia sido canalizada durante horas de sexo de Natal, o que Nao havia provado ser ótimo.

-Você ainda não me respondeu como veio para cá. — o garoto disse, acariciando os cabelos macios, cujo cheiro agradava tanto.

-Foi difícil seguir vocês desde a cidade até aqui, ontem, e ficar o dia todo enfurnado em um hotel na vila, sem poder te ver. Mas eu acho que valeu a pena, porque a minha sogra disse que você estava impaciente sem mim. — riu, provocando um rubor na face do outro, acariciando-lhe a lateral do corpo esguio. — Matei toda a impaciência, amor?

-Talvez... mas o meu fogo ainda está aceso e já vai ser dia alto quando eu me der por satisfeito. — riram, com Shin rolando os corpos sobre o colchão, ficando sentado sobre o peito do outro. — Minha vez de ditar as regras.

-Não se esqueça que você disse que só vai acabar quando o dia estiver alto. — Naoki sorriu, acariciando as coxas expostas, já repletas de marcas.

-Espero que você aguente, meu senhor. — riram-se, enquanto Shin debruçava-se sobre o namorado, colando os lábios rapidamente, se afastando apenas para murmurar:

-Feliz Natal, Nao-chan. Koishiteru, zutto.

-Feliz Natal, Shin. Koishiteru-mo. Eien ni.

Notas finais
Considerações finais: O personagem que eu mais gostei foi o Senhor Boneco de Neve.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!