Notas iniciais
Último capítulo do ano… Ficou enorme pra compensar a demora. Não gosto de postar capítulos gigantes, mas achei melhor assim. Podia ter dividido? Podia! Mas agora já foi. Curiosidade: uma das primeiras cenas que escrevi pra essa história tá nesse capítulo e só agora, muitos anos depois, eu to postando ela 🙈. Mesmo com as intercorrências no meio do caminho, mantive o planejamento inicial 😅 Enfim, desejo boas festas e uma boa leitura! obs: leiam também as notas finais.

YUSUKE POV

A raiva ainda pulsava em mim por causa daquela história. Eu não conseguia tirar da cabeça aquele papo furado envolvendo a Genkai. É claro que parte de mim queria acreditar que seria possível falar com ela novamente, mas a outra parte desejava que fosse apenas uma piada de muito mau gosto. Se a velha encontrou um jeito de se comunicar, por que não veio falar comigo primeiro?

Eu sabia que estava sendo infantil e até injusto, mas que se foda! Na hora eu só fiquei com raiva. Queria mandar Kiara calar a boca, ir pro inferno com aquela mentira deslavada. Faria o que fosse preciso para garantir que ela nunca mais tocasse no nome de Genkai.

Afinal, por que eu deveria dar ouvidos a ela? A garota acabou de sair de uma experiência de quase morte, além de ter sido drogada nem sei quantas vezes. O mais lógico é que estivesse delirando. Dar ouvidos a Kiara seria uma tremenda idiotice. Pelo menos, era isso que eu tentava me convencer.

Perda de tempo.

Quanto mais eu pensava no assunto, mais aquele delírio começava a fazer sentido. No fundo, eu sabia que Genkai seria capaz de reaparecer depois de morta, mesmo que não fosse para mim. Não seria a primeira vez que ela surpreenderia todo mundo. Mas, ainda assim, eu continuava com raiva. Consumido por um ódio incontrolável e imaturo.

Esfreguei o rosto com força, querendo borrar as imagens daquela discussão com meus próprios dedos. Não consegui e, exausto de tanto pensar naquilo, me joguei na cama. Encostei na cabeceira, com os olhos e punhos fechados. Ouvi os passos de Keiko se aproximando. Ela se sentou ao meu lado e colocou a mão sobre o meu braço. O calor da pele dela desviou a minha atenção, e quando percebi, já estava com o olhar fixo no seu.

— Quer conversar?

A última coisa que eu precisava era continuar pensando naquilo.

— Não.

Keiko assentiu. Ela já me conhecia o suficiente pra saber qual seria a resposta. Ficou ali em silêncio, apenas me observando, com um meio sorriso no canto dos lábios que eu sabia bem o que significava. Às vezes, nós conversávamos em silêncio. Entendíamos o que o outro estava pensando só com olhares. Eu sabia que ela estava feliz por me ter ali. Retribuir aquela felicidade era a única coisa que deveria me importar.

Deslizei os dedos pelo seu rosto, prendendo uma mecha de seu cabelo atrás da orelha apenas para poder vê-lá melhor. Como era possível só ficar cada vez mais bonita?

Meus olhos inevitavelmente desceram para o seu colo, onde a renda do baby doll moldava o decote e fazia minha imaginação correr solta. Ela percebeu para onde a minha mente estava indo e se inclinou sobre mim, deixando transparecer a recíproca. Quando a sua boca encontrou a minha, eu fechei os olhos lentamente. Deixei o desejo vir à tona, inebriado pela sensação de tê-la em meus braços depois de tanto tempo.

Meu corpo reagiu na mesma hora. A raiva acumulada foi se transformando em outra coisa. A afastei apenas pelo tempo necessário para trazê-la para cima de mim, a fazendo acomodar os joelhos de cada lado do meu abdômen. As minhas mãos correram diretamente para as suas pernas expostas, apertando as coxas. Tomando cuidado para dosar a minha força, a puxei ainda mais, colando o seu corpo no meu e a impedindo de interromper um novo beijo.

Quando Keiko enlaçou o meu pescoço e mexeu o quadril, eu já estava tão desesperado que deixei uma das mãos escapar para debaixo de sua roupa, me permitindo sentir a textura macia da sua pele contrastar com a aspereza da minha. Ela arfou quando avancei mais, tocando os seus seios, sentindo o seu coração acelerar sob minha palma.

Ser a causa de cada vibração do seu corpo me fez perder completamente a razão.

Me deixei ser dominado por um instinto quase feroz, desfazendo com urgência cada pedaço de tecido que me impedia de senti-la por completo. Descarreguei no sexo toda a fúria que estava sentindo. Enquanto eu impacientemente arrancava dela pequenas respirações entrecortadas, Keiko me tocava com calma. Suas mãos contornavam meus ombros como se quisessem memorizar cada sensação de estar comigo de novo.

Ela não tinha pressa alguma.

Era essa mistura de urgência com delicadeza que fazia o ar entre nós estremecer. Provocava um ritmo só nosso, único. Depois de satisfeitos, dormimos abraçados, embalados pelo calor do outro, com o corpo dela encaixado no meu.

Quando acordei na manhã seguinte, ainda a envolvia por trás, com o rosto posicionado na curva de seu pescoço. O perfume floral do seu cabelo preencheu os meus sentidos, me fazendo respirar fundo e desejar que o cheiro dela impregnasse em mim para sempre. Deitada de lado, ela se mexeu um pouco, e minha mão escorregou pela sua barriga, o suficiente pra me deixar tenso mais uma vez.

Keiko se mexeu novamente, dessa vez para se virar na minha direção. Piscava devagar com pálpebras ainda pesadas, despertando vagarosamente. Quando se espreguiçou, o lençol deslizou, expondo a sua nudez e capturando toda a minha atenção. Não me preocupei em disfarçar pra onde olhava e só procurei o seu rosto quando ela disse o meu nome.

— Bom dia, Yusuke. Dormiu bem?

— Perfeitamente bem.

Ela acariciou o meu rosto suavemente. Já eu, desenhava a sua cintura com a ponta dos dedos, passeando de um lado pro outro.

Keiko então sorriu.

— O quê foi?

— Aquelas marcas sumiram do seu corpo, você não percebeu?

Só então olhei pra mim mesmo, me dando conta de que realmente tinha voltado ao normal. Já devia imaginar que seria Keiko a única pessoa capaz de me desarmar.

Suspirei fundo. Leve, relaxado.

— Eu te amo, Keiko.

Não esperei uma resposta. Trouxe o corpo dela pra perto do meu, roubando um beijo. Bem lento, mas intenso na mesma medida. Queria deixá-la sem fôlego, arrancar um suspiro, sentir o seu gosto, fazê-la estremecer logo pela manhã…

De repente, tudo que me passava pela cabeça era estar com ela, aproveitar cada segundo. Não desgrudar de Keiko nem por um instante. E pela forma com que ela correspondia, parecia ter exatamente as mesmas intenções.

O calor reacendeu quando me coloquei sobre ela. As suas pernas enlaçaram o meu quadril facilitando o encaixe. E pelo resto do dia o meu único plano era me perder ali. Empurrando o meu corpo contra o seu, a ouvindo gemer involuntariamente o meu nome bem no meu ouvido enquanto se deleitava de prazer.

Absolutamente nada mais tinha importância

YUSUKE POF

KURAMA POV

A noite durou uma eternidade. Quase não consegui pregar os olhos tentando entender como Kiara poderia ser capaz de enxergar Genkai, mas nenhuma hipótese parecia plausível. Não que eu não acreditasse, mas era tão sem sentido quanto impossível.

E para piorar, em algum momento também me peguei pensando no que fazer com Maya. Manter o meu posicionamento firme e não ceder ao impulso de estar com ela ficava cada vez mais difícil, ainda mais com o problema estando literalmente no quarto ao lado. Se Maya não fosse embora logo, eu acabaria me complicando. Ela terminaria sendo envolvida em toda aquela história de um jeito irreversível e eu a deixaria em perigo por puro egoísmo.

Quando saí do quarto, no dia seguinte, ficou evidente que eu não tinha sido o único a passar a noite em claro. O clima estava pesado. Até mesmo Botan — que costumava falar pelos cotovelos — mantinha a voz num tom controlado enquanto conversava com Yukina. Falavam tão baixo que o som da televisão que Kuwabara assistia esparramado no sofá quase abafava completamente o que diziam.

Koenma parecia perdido no próprio mundo, enquanto tomava café no balcão da cozinha. Já Shizuru tragava um cigarro perto da janela da sala; tão distraída que a fumaça invadia o chalé sem que ela se desse conta. Kiara, por sua vez, estava numa poltrona com o rosto escondido. Abraçando a si mesma e com a cabeça relaxada sobre os próprios joelhos.

Pela janela, vi Maya do lado de fora, sozinha e distante. Nossos olhares se cruzaram por uma fração de segundos. Eu desviei rapidamente, fingindo não notar o peso que o seu semblante carregava.

Aquilo já estava me corroendo por dentro.

Evitando pensar em Maya, fui até o aparador da sala e destranquei a gaveta inferior, retirando de lá uma comprida e retangular caixa de papelão. Eu tinha ciência de que o conteúdo da caixa talvez fosse motivo para uma nova discussão — como se a noite anterior já não tivesse sido o bastante para os nervos de todos — mas precisava revelar aquilo à Kiara de uma vez por todas.

— Podemos conversar, Kiara? — perguntei ao me aproximar dela — Queria te contar uma coisa importante. Na verdade, preciso te mostrar uma coisa.

Ela levantou a cabeça. Encarou a caixa em minhas mãos com desconfiança, estreitando o olhar.

— Foi o mesmo que Ootake disse antes de me tentar me matar só pra provar que eu não ia realmente morrer. Você não vai tirar uma arma de dentro dessa caixa e atirar em mim com ela, né?

— A arma que tem aqui é tão perigosa quanto a dele, mas pode ficar tranquila, eu não vou usar em você.

Ela franziu a testa e endireitou a postura, como se notasse que o assunto era mais sério do que tinha imaginado.

— Há algum tempo eu estava sondando uma vila em ruínas do Makai onde um humano foi visto fazendo negócios com youkais.

Ela ficou tensa. Ameaçou abrir a boca para dizer alguma coisa, mas a interrompi com a palma da mão, pedindo que esperasse. Kiara me obedeceu, a contragosto. Era notável o esforço que fazia para não perder a cabeça ali mesmo.

— Quando estive naquele lugar, detectei uma energia diferente pelas redondezas — continuei — Era energia de humano, mas não um humano qualquer. Parecia com a sua energia, Kiara.

Então, ela explodiu. Se levantou da poltrona num rompante completamente indignada.

— Que droga, Kurama, por que não me contou isso antes?!

— Eu segui o rastro dele — continuei a história, ignorando a interrupção — Mas tenho que admitir que subestimei a habilidade do meu oponente. Ele foi capaz de ocultar a sua própria presença com maestria. O segui até perder o seu sinal, que culminou numa fenda dimensional clandestina. Existem várias espalhadas por aí, mas era justamente a que fica perto desse chalé. Aquele humano tinha saído do Makai e voltado pro Ningenkai. Demorei um pouco para encontrar a fenda e quando atravessei a passagem entre os dois mundos e vim pra cá, eu o tinha perdido pra valer. A única coisa que encontrei foram alguns youkais mortos. Provavelmente andaram caindo por engano no Ningenkai. Eles foram assassinados com essa arma aqui.

Entreguei a caixa em suas mãos e deixei que Kiara a abrisse. Quando ela colocou os olhos sobre a flecha que eu tinha cuidadosamente embrulhado em um pano, seu rosto virou puro espanto. Kiara a pegou com cautela, evitando tocar na ponta, como se já soubesse do perigo contido ali.

O som da televisão ficou baixo de repente e percebi que Kuwabara, Botan e Yukina também estavam atentos à conversa.

— Uma flecha? Mataram youkais usando isso? Não parece grande coisa — Kuwabara disse.

— É grande coisa sim — respondi — Não é uma flecha comum. A ponta dessa flecha está embebida em…

— Acônito! — Kiara me atravessou — Está carregada com acônito.

Ela se fixou em mim com seriedade. Parecia tão confusa quanto perturbada.

— O que é acônito? — Botan perguntou.

Kiara permanecia em choque, então respondi por ela.

— É uma planta muito venenosa. Dependendo da dose, pode ser fatal em questão de minutos. Ela é exclusiva do Ningenkai, e apesar do veneno ser letal para seres humanos, é dez vezes pior para demônios. Em outras palavras, youkais não manipulam acônito, porque pode ser muito perigoso.

Para demonstrar, encostei brevemente na ponteira da flecha mostrando o efeito instantâneo da substância em contato com a minha pele. A camada mais superficial da derme queimou em segundos, os deixando sem palavras.

— Até mesmo um simples contato como esse já é capaz de corroer. Quem estava usando isso estava preparado para matar — complementei.

— Caramba, uma planta que corrói youkais? — Botan questionou, boquiaberta — É assustador e ao mesmo tempo…útil? Por que nunca ouvi falar nisso? Teria sido uma boa arma pro Yusuke quando ele estava começando a resolver um monte de casos como detetive.

— Acontece que pra você produzir uma grande quantidade de extrato de acônito, precisa de uma quantidade grande de flores. A comercialização é proibida, principalmente pelos perigos que oferece. Não é comum e, como eu disse, também pode ser perigosa para os humanos.

— Mas se é perigosa desse jeito, que tipo de maluco vai querer mexer uma coisa dessas? É melhor passar longe dessa porcaria!

A pergunta de Kuwabara ficou perdida no ar, tanto quanto a mente Kiara parecia estar. Ela continuava olhando para a flecha como se estivesse diante de algo absurdo, irreal.

— Que tipo de maluco usa uma coisa dessas, hein Kiara? — imitei o tom de Kuwabara, tentando arrancar dela uma nova reação.

Seus olhos caíram sombrios sobre mim, sobrancelhas levemente arqueadas, a boca entreaberta num segundo de silêncio que gritava “sério isso?”. Então suspirou, visivelmente sem paciência, antes de responder.

— Caçadores. O acônito sempre foi usado por tribos humanas para caçar animais ou youkais. Nós usávamos no meu clã. Eu mesma andava com acônito pra todos os lados. Cheguei até a usar na Yukina uma vez.

A confissão foi dita com tanta simplicidade e de forma tão natural que por um instante achei ter ouvido mal. Mas nem deu tempo de perguntar nada, já que Kuwabara se colocou de pé na mesma hora, exigindo explicações.

— Você fez o quê?!

— Foi quando conheci vocês. Se lembram de quando Yamazaki os capturou? Ele estava interessado em ter uma koorime pra produzir aquelas pedras preciosas. Pra convencer ele de que Yukina não era uma, fingi fazê-la chorar. Pinguei um pouco de acônito nos olhos dela.

— Você é maluca! Se isso é tão perigoso, podia ter feito ela ficar cega!

— E você acha que sou burra, Kuwabara? Eu sabia o que estava fazendo, manipulo acônito desde criança! A dose estava muito diluída. As minhas doses letais infelizmente acabaram bem antes daquilo. É claro que deve ter doído, mas era a única opção que eu tinha. Precisava ser convincente, né? Ou você queria que eu entregasse a Yukina pra ele?!

— É claro que não, mas….

— Tá tudo bem, Kazuma — Yukina tentou tranquilizá-lo — Não foi assim tão ruim. Eu lembro que o efeito até que passou rápido. Nada de ruim aconteceu.

Eu não sabia se Yukina estava mentindo somente para acalmar Kuwabara ou se ela realmente dizia a verdade. Seja como for, a discussão morreu ali, embora Kuwabara não parecesse realmente satisfeito com o desfecho.

— Você disse que a arma está carregada com acônito, como assim? — perguntei a Kiara.

Ela continuou a examinar a flecha, a sacudindo de um lado pro outro perto do ouvido. Depois, analisou a ponta suja de sangue seco e até os vincos na madeira em que foi talhada, como se quisesse checar a qualidade ou resistência do material.

— Não é só a ponta da flecha que foi embebida no veneno. O cilindro é oco e foi preenchido com acônito da ponta até a base. Então, quando a ponta perfura o alvo, um gatilho é ativado e o acônito é disparado pra dentro do corpo do adversário. É letal para youkais mais fracos e, mesmo pros mais fortes, pode causar um estrago se conseguir atingir a corrente sanguínea. Essa aqui ainda tem carga. Pela cor do extrato de acônito, eu diria que está numa concentração muito alta. Tem que ter a técnica certa pra produzir isso.

— As flechas que encontrei estavam perfeitamente fincadas no núcleo dos youkais. Foi obra de um arqueiro profissional. Essa pessoa tem técnica de sobra.

Kiara me encarou com uma insegurança no olhar, como se estivesse ponderando alguma coisa, mas o que quer que estivesse pensando, preferiu não compartilhar conosco.

Kuwabara se sentou novamente, concluindo o que todos nós estávamos condicionados a concluir.

— Então, foi uma pessoa com a mesma energia que a Kiara tem, os mesmos materiais que usava, as mesmas armas…pelo visto, o seu irmão está te procurando por aí. Mas deixaram ele à solta atrás de você?

— Será que é uma armadilha? — Botan questionou no automático, sem pensar muito.

Ninguém ousou responder. O irmão de Kiara era um tópico sensível e não arriscaríamos falar algo que a deixasse mais apreensiva. Uma preocupação aparentemente inválida, já que ela mesma não demonstrava estar tão abalada quanto deveria estar com aquela notícia. Uma reação que confirmava as minhas suspeitas.

Kiara me encarou com uma determinação no olhar, pronta para me pedir o que eu já sabia que pediria.

— Pode me levar até o lugar onde encontrou essa flecha?

— Eu vou levar. Quando vocês estiverem recuperados e tivermos que voltar pro Makai. Vamos usar essa fenda dimensional e aí passaremos lá.

— Mas isso ainda vai demorar umas duas semanas, até a gente conseguir se livrar dessas algemas do Reikai. Eu só quero olhar o lugar e...

— E...?

— E checar.

— Kiara, eu estive lá outras vezes e não vi ninguém. Se você for, pode ser que não encontre quem está procurando.

— A não ser que estejam esperando eu aparecer.

— Então seria uma armadilha! Não é uma boa ideia, Kiara — Kuwabara foi o primeiro a se opor.

— Kuwabara tem razão. Seja lá quem for, é melhor que você esteja preparada para encontrar. Nesse estado, é pedir para que te capturem. Vamos deixar isso para depois.

Ela deixou os ombros caírem de frustração e colocou a flecha de lado em um canto qualquer, pronta para continuar argumentando. Eu já começava a me afastar quando notei que ela tentava me seguir, arrastando a perna machucada e esbarrando no que estivesse em seu caminho.

Parei em frente a porta da varanda e me virei, deixando que me alcançasse.

— Pra que perder tempo, Kurama? Vocês vão estar comigo. Não vai acontecer nada!

— Kiara, essa fenda dimensional é aqui perto, mas não assim tão perto. É uma região montanhosa, inclinada, difícil de andar e rende uma boa caminhada. Você precisa estar bem, entendeu?

— Mas eu tô bem.

Não respondi. Deixei meu olhar acusatório cair sobre ela. Tão acusatório que foi suficiente para que reconhecesse a verdade.

— Tá bom, eu não tô realmente bem, mas e daí?

— E daí que é melhor não arriscar. São só alguns dias de repouso, você pode esperar.

— Que mania a sua de tomar decisões pelos outros. Primeiro a Maya e agora eu.

Dessa vez, a acusação partiu dela e confesso que me pegou de surpresa.

— Decisões ruins trazem consequências ruins. Alguém tem que tomar a decisão certa — foi o que me limitei a responder.

— Mas quem determina qual é a decisão certa?

— Entre colocar pessoas em perigo ou mantê-las a salvo, me parece óbvio que a decisão correta é a segunda opção.

— Do ponto de vista racional, pode ser. Mas você não pode ser racional o tempo todo. Maya deveria ter a chance de escolher se quer ou não ficar ao seu lado. Por que negar isso a ela?

Continuei sem acreditar no que estava ouvindo e sem entender como, de repente, meus assuntos pessoais tinham virado pauta naquela conversa.

— Eu não vou discutir isso com você — me aproximei, tentando abaixar o volume das nossas vozes antes que Maya escutasse alguma coisa — Você não tem a menor ideia do tanto de perigo que ela pode correr depois de saber a verdade. Sem saber ela já corre. Eu colecionei muitos inimigos, Kiara.

— Tá, eu sei, já falei que cresci ouvindo muitas lendas de youkais e a sua era uma delas. Ouvi falar mal de você, muito mal mesmo. Cruel, egoísta, desumano, sem escrúpulos, o pior dos youkais, mas…

— Não tem “mas”. Nada disso é um exagero.

— Eu sei que está tentando protegê-la, mas talvez ela não queira essa proteção. O que é melhor: tirar ela do caminho de todos os possíveis inimigos que você nem sabe se vão aparecer, ou nem sequer dar a ela a oportunidade de tomar uma decisão? É muito ruim não ter poder de escolha pra fazer o que queremos, sabia? Eu sei disso, porque nunca pude escolher nada no lugar onde cresci. Os outros sempre decidiram tudo por mim. Eu conversei com a Maya ontem e deu pra ver que ela está muito triste. Ela gosta mesmo de você, por isso ainda não foi embora. Ela tá fazendo de tudo pra você perceber que ela não quer ir. Ela tá fazendo de tudo pra poder escolher!

Suspirei, por preguiça de continuar argumentando e também por saber que tinha um fundo de verdade no que ela dizia. O dilema de contar ou não a verdade a Maya estava começando a pender para um lado perigoso.

— Ok. Vou levar isso em consideração — disse por fim — Satisfeita?

— Na verdade, sim. Até porque, quando conversei com ela, eu acidentalmente posso ter dado a entender que você é um youkai.

Atrasei alguns segundos para responder, tentando digerir a informação.

— Como é?

— Maya estava me fazendo um monte de perguntas e eu não tinha ideia de que isso era um segredo. Ela deve estar bem confusa com o que eu disse. Desculpa, eu não queria piorar as coisas, mas como eu ia saber?

Eu ri de nervoso. Estava mais frustrado do que surpreso, pra ser sincero. Já imaginava que Maya ia dar um jeito de conseguir informações, mas sondar Kiara antes que eu tivesse a chance de alertá-la, deixava claro o quão descuidado eu estava sendo ultimamente.

— Tudo bem. Você não tinha mesmo como saber.

Kiara concordou com a cabeça.

— E quando vamos até aquela fenda dimensional?

Com a cabeça baixa, ela levantou o olhar sem esconder um meio sorriso vitorioso. Só naquele instante percebi a real intenção por trás de todo aquele rodeio. Eu precisava reconhecer que Kiara era empenhada para conseguir o que queria, mas as habilidades de manipulação dela ainda precisavam melhorar. Talvez, se o alvo fosse outro, a estratégia funcionasse.

— Não vamos — eu disse secamente e observei toda a sua aura se transformar em decepção — O que foi? Estávamos falando de Maya, não de você.

— Mas você disse que ia levar o que eu falei em consideração. Sobre não tomar decisões pelos outros.

— Eu levei. Melhore da perna e aí voltamos a pensar nisso. Não achou realmente que ia me persuadir a fazer o que você quer só por causa dessa conversa, né?

KURAMA POF

KIARA POV

Estar entediada já era ruim, mas estar entediada com essa flecha em mãos tornava tudo muito pior.

Eu a limpei com cuidado, retirando o acônito restante para poder manipulá-la com mais segurança, e analisei cada detalhe com atenção. Ela me fazia resgatar muitas memórias. Me lembrava das minhas primeiras aulas tendo meu pai como instrutor, de quando acertei um alvo pela primeira vez, das competições não tão saudáveis que fazíamos, de quando tentei ensinar Kazuki a atirar e de outras pessoas que há muito tempo eu não me lembrava.

E quanto mais eu olhava para ela, menos sentido encontrava na sua existência. A dúvida estava me matando e a única coisa que eu queria era poder ver com os meus próprios olhos o lugar onde Kurama a tinha encontrado.

Por isso, eu checava as algemas nos meus pulsos o tempo inteiro, na esperança que sumissem como mágica. Às vezes, eu tinha impressão que estavam mais translúcidas, mas logo em seguida achava estar imaginando coisas e elas voltavam a parecer tão vívidas quanto antes. As dores e feridas do meu corpo também me enganavam. Não sabia se estavam sumindo ou se eu apenas estava me acostumando com elas.

Já estava irritada com a minha falta de progresso. Nesse ritmo, Kurama nunca ia me deixar sair desse lugar.

Depois de quatro dias naquela mesmice, pelo menos senti que os ânimos se acalmaram, mesmo com o assunto de Genkai ainda recente. Achei que os outros ficariam com raiva, mas estavam mais curiosos do que qualquer outra coisa. Todos conversavam comigo normalmente e até pediam mais explicações e detalhes sobre os meus encontros com a falecida mestre. Perceber que acreditavam em mim — ou que tentavam acreditar, por mais absurda que fosse a situação — me deixou aliviada.

A verdade? Foi bom saber que não me achavam uma maluca mentirosa.

Somente Yusuke continuava me evitando. Sequer olhava na minha cara, como se eu o tivesse insultado da pior maneira possível. E, pensando bem, talvez eu realmente tenha ultrapassado o limite. Seria mentira dizer que não estava arrependida e envergonhada por ter dito a ele o que disse. Na hora, só quis provocá-lo com qualquer bobagem. Yusuke é o tipo de pessoa que é fácil de tirar do sério, que cai em qualquer pilha. No lugar dele, eu também estaria com raiva de mim.

Sabia que precisava me desculpar, mas o orgulho me impedia de dar o primeiro passo.

Sem nada de útil pra ocupar a minha mente, eu ficava o tempo todo pensando em Kazuki, no extermínio dos komorebi e em como todo aquele pesadelo parecia ser culpa minha. Aquela monotonia estava me deixando maluca e me fez perceber que os meus pensamentos eram os meus maiores inimigos. Queria mandar a mim mesma calar a boca (ou a mente, no caso), antes que tivesse um colapso nervoso!

Caminhando pela mata ao redor do chalé reparei por acaso que uma das árvores tinha galhos alongados e ligeiramente curvados. Então, uma ideia não muito brilhante ganhou força na minha cabeça. Talvez fosse ridícula, mas pelo menos era inofensiva perto das outras que andavam circulando pela minha mente.

Arranquei um dos galhos com um puxão e com uma faca comum me pus a afinar as pontas, modelando e refinando-o com cuidado. Minhas mãos doíam conforme eu talhava a madeira. Farpas espetavam os meus dedos e calos ameaçaram se formar nas áreas de atrito, mas pelo menos aquilo mantinha meu cérebro focado somente em um objetivo. Longe de qualquer pensamento perigoso.

Trabalhei naquilo pelo resto da tarde e não descansei até terminar. Coloquei algumas ataduras nas feridas e arranhões que se formaram nas minhas mãos e depois testei a flexibilidade do arco improvisado.

Procurando fibras vegetais que pudessem compor a corda, misturei algumas cascas de árvores e cipós até conseguir deixar o conjunto forte. Resistente, mas não muito elástico. Prendi as fibras nas pontas do arco e então procurei por um alvo.

Com uma pedra pontiaguda e triangular, marquei um ”X” no tronco de uma árvore. Peguei aquela porcaria de flecha que vinha tirando o meu sono, recuei alguns passos e mirei com tanta raiva que o primeiro disparo já acertou a marcação em cheio. O cordão acabou estourando com a pressão. Precisava de menos rigidez, mas decidi consertá-lo somente no dia seguinte.

Já estava escurecendo e eu não tinha pressa para terminar a única coisa que me distraía dos meus problemas.

x.x.x.x

Logo de manhã, a primeira coisa que fiz foi tentar corrigir o erro, refazendo e reparando as fibras até que ficassem mais flexíveis. No segundo tiro, elas resistiram ao impacto, mas o lançamento saiu bastante torto. Atirei mais uma vez, depois outra e mais outra. Fui ajustando a arma até que ficasse perfeita.

Também fiz flechas novas, todas de madeira, longas e com as pontas talhadas para perfuração. Marquei novos alvos — alguns mais para o alto, outros escondidos entre as árvores — e me desafiei a acertar cada um deles em diferentes distâncias. A cada fracasso eu me forçava a tentar de novo, até conseguir. Não sei se só queria provar para mim mesma que ainda era boa em alguma coisa ou se só queria me punir com a mesma pressão que antigamente depositavam em mim no clã, mas eu ficaria treinando o dia inteiro, se fosse preciso.

Não pensaria em mais nada. Não descansaria até estar esgotada. Não daria palco para a vontade louca de desistir da vida que vinha crescendo com rapidez nos últimos dias.

Passei horas ali. Atirando flechas, catando elas de volta, andando de um lado para o outro e procurando novos alvos no caminho. Botan, Kuwabara e Yukina formaram uma plateia atrás de mim, aplaudindo até mesmo as minhas falhas, me incentivando a continuar. Na realidade estavam todos tão entediados que até me assistir deveria ser um entretenimento de primeira. Pausei somente quando os músculos dos meus braços começaram a queimar e fiquei sem força para sustentar o peso do arco no ar.

Kuwabara me olhava com curiosidade, quase implorando para participar. Ficou feliz como uma criança quando trocamos de lugar e nem se importou com as fraturas nas costelas. Mal ouviu as minhas instruções e já saiu atirando a flecha de madeira da forma mais incorreta possível.

Foi um verdadeiro desastre.

A intenção era impressionar Yukina, mas Botan e Shizuru — que decidiu se juntar a nós depois de um tempo — só sabiam destacar as seus pontos fracos. Gargalhavam alto, com vontade, o deixando cada vez mais nervoso. As flechas sempre passavam longe do alvo, com um trajeto imprevisível.

Não sei como, mas de repente aquilo se transformou numa competição. Um desafiava o outro e eles competiam para ver quem seria o melhor entre os piores. Na vez de Botan, a flecha caiu aos seus pés antes mesmo de ser disparada. Já Shizuru não tinha a menor paciência para executar as instruções que eu tinha passado. Dane-se a técnica! Ela era precipitada e se guiava pelo próprio instinto. Conseguiu se sair pior do que Kuwabara.

Eles começaram a levar a competição tão a sério que somavam pontos numa tabela que Shizuru frequentemente tentava alterar sem que ninguém percebesse. Sobrou até para Yukina e Keiko, que entraram na disputa por pura pressão. E, para surpresa de todo mundo, Keiko assumiu o primeiro lugar. Pelo menos até o momento em que obrigaram Kurama a entrar no jogo. Com uma única tentativa minimamente boa, ele foi parar direto na liderança.

Quando já era fim de tarde, a competição terminou em palavras como “roubalheira”, “injusto” e “trapaça”.

Me peguei rindo sozinha enquanto recolhia as flechas que tinham se perdido no terreno por conta da confusão. O que começou como uma ideia boba, tendo intuito apenas de me manter ocupada, terminou saindo bem melhor do que a encomenda.

— Posso tentar? Eu ainda não tive a chance.

Tomei um susto e me virei automaticamente. Yusuke estava atrás de mim, segurando o arco e estendendo a mão livre em minha direção, pedindo uma flecha.

A suavidade em sua expressão era o oposto do que ele tinha demonstrado durante a discussão no outro dia. Se antes parecia prestes a me esfolar viva, agora parecia só o Yusuke de sempre. Tranquilo, sereno e despreocupado. Obviamente estava ali com a intenção de pedir desculpas, o que significava que eu também precisaria ceder.

Entreguei a flecha a ele e o encorajei a prosseguir. Deixei que fizesse como achava correto, sem dar dicas ou ajudá-lo.

A flecha foi lançada sem precisão. Voou rápido pra cima e depois caiu no chão numa parábola.

— Que merda! É mais difícil do que pensei.

— Você colocou muita força e mexeu os braços bem na hora de lançar. É só prática e treino. Tenta girar mais o corpo e afastar mais os pés para distribuir bem o seu peso.

Yusuke obedeceu, corrigindo a postura.

— Isso, agora relaxa os ombros, mas mantém a coluna reta. Só apoia o arco na base do polegar. Se apertar demais, vai tremer o tiro. Mas precisa usar força suficiente pra que ele fique estabilizado.

— Quê?!

Ele me encarou meio irritadiço, mas logo se deu por vencido e seguiu as ordens.

— Agora puxa a corda até ela encostar no seu rosto e então mira. Não pensa em soltar a flecha, pensa em relaxar os dedos e deixa a corda escapar sozinha.

Ele inspirou fundo e prendeu a respiração. Ficou parado por uns segundos daquele jeito, apertando os olhos, focando na alvo, criando todo um clima de suspense. Quando enfim disparou a flecha, a ponta fincou um pouco acima do X assinalado na árvore. Nos olhamos perplexos ao mesmo tempo. Ele, com um ar de triunfo e eu apenas surpresa mesmo.

— Isso foi…surpreendentemente bom! — admiti — A mira foi praticamente certeira — Andou treinando escondido?

— Tô acostumado a mirar nos meus adversários — ele apontou o indicador na minha direção — Isso conta como trapaça?

— Não. Conta como talento. Você daria um bom arqueiro.

— Ah, besteira! Isso aqui dá muito trabalho — ele empurrou o arco de volta para mim, me obrigando a segurá-lo — Prefiro continuar fazendo do meu jeito. É mais fácil e mais rápido. E, sem querer ofender, mas é mais eficaz também. Não acho que esse negócio seja capaz de fazer um grande estrago numa luta.

Dei de ombros.

— Isso depende de contra quem você estiver lutando.

Ele revirou os olhos, como se duvidasse.

— Kurama me contou a história toda da flecha que encontrou. Acha que foi o seu irmão?

Hesitei, preferindo me esquivar da resposta.

— Não dá pra ter certeza. Essa não é uma técnica exclusiva do meu clã. Acho que precisamos verificar.

Ele não respondeu e eu também permaneci em silêncio. Por um tempo ficamos assim, ambos remoendo o que precisava ser dito, mas que ninguém queria dizer. Foi Yusuke que decidiu parar de enrolar e ir direto ao ponto.

— Sobre a Genkai, você estava certa. Fiquei cego de raiva por não ser eu a pessoa capaz de encontrar com ela. Mas eu acredito em você. A Genkai era cheia de artimanhas e eu sei que conseguiria encontrar uma forma de se comunicar. Eu não deveria ter duvidado.

— Não precisa ser tão legal. Eu fui uma idiota naquela hora. Óbvio que Genkai preferiria falar com você do que comigo. Com qualquer um de vocês, na verdade. Não sei porque você acreditou em algo diferente disso.

— Bom, é com você que ela está se comunicando, né?

— Deve ser porque ela não consegue falar com vocês e não porque ela não quer. Eu não tenho vínculo algum com ela. Se eu pudesse escolher alguma pessoa morta pra conversar, escolheria os meus pais. Ela também escolheria vocês mil vezes antes de mim. Se não fez isso, foi porque não deu.

Ele balançou a cabeça, ponderando.

— É, você deve estar certa. Mas o que a impediu? Por que só funciona com você?

— Vai saber. Ultimamente só tem acontecido coisas estranhas comigo.

Não dissemos nada por mais um minuto e, por fim, Yusuke soltou um assovio curto.

— Então, estamos bem?

— Acho que sim.

— Sendo assim, me faz um favor? Da próxima vez que encontrar a Genkai, diz pra ela tomar vergonha na cara, parar de ser sem educação e dar um jeito de aparecer pra todos nós de uma vez.

— Eu mal consigo conversar com ela. Seria mais fácil você morrer e dizer por conta própria.

— Fácil? Já voltei dos mortos duas vezes. Nunca pensei que morrer fosse ser tão difícil. As pessoas só fazem parecer fácil, mas você sabe disso tanto quanto eu.

Eu sorri, pensando no quanto achar graça daquilo era bizarramente ridículo.

— Sei sim. Só não entendi ainda se isso é uma benção ou uma maldição.

KIARA POF

HIEI POV

Podia ser só impressão, mas o céu no Makai parecia ainda mais vermelho naquela manhã. O ar cheirava a cinzas e a ferrugem, mais carregado do que o normal. A trégua entre Mukuro e Yomi ameaçava acabar toda vez que cruzávamos o território de Gandara. Mesmo com o aval de Yomi, o exército de Mukuro continuava sendo indesejado. Poucos de nós tínhamos permissão de entrar ali, como parte do acordo que eles tinham firmado e, ainda assim, podíamos ficar apenas por um tempo determinado, seguindo as regras à risca.

Como se algum de nós tivesse interesse em permanecer mais do que o necessário nesse país ridículo.

A nossa presença em Gandara se justificava somente pela infraestrutura que eles detinham para a adequada recuperação daquela criança. Mas era Shigure quem mais fazia avançar o tratamento.“Eles tem tecnologia de ponta, mas o médico responsável é um incompetente. Sequer tem ideia de como seguir com o tratamento que Nobu começou”, foi o que ele disse quando saímos de Gandara pela primeira vez.

Por isso, todo dia voltávamos para acompanhar a evolução do caso. Mukuro fazia questão que viéssemos em grupo, alegando que estaríamos protegidos caso alguma coisa saísse errada, mas eu conhecia Mukuro o suficiente pra saber que ela só gostava de provocá-los.

Nos mandava ir em grupo porque sabia que isso os incomodaria ainda mais. Mukuro e seus jogos ridículos...

Naquele território, Yomi permanecia à espreita, nos observando à distância e sem dar as caras. Diferente do seu clone que não parava de disparar provocações. Nos vigiava de perto, esperando um deslize qualquer para colocar o exército inteiro contra nós.

— Pirralho abusado — Karasuma resmungou ao meu lado — Anda por aí com o rei na barriga, como se o resto do mundo fosse inferior a ele. Esse bostinha só falta querer nos dar ordens.

Zakuro soltou um riso curto e sarcástico.

— Soube que ele vive dizendo que vai ser o próximo rei do Makai. Que piada! Será que ele realmente acredita nisso? Moleque burro!

Os dois zombaram do filho de Yomi, o som das risadas ecoando pelo corredor do prédio, mas a minha mente já estava indo pra bem longe dali. Seguir aquele roteiro já estava me cansando. Detestávamos aquelas pessoas tanto quanto elas nos detestavam. Eu já não aguentava mais entrar no reino de Yomi, nem o seu clone insuportável ou as ordens de Mukuro. Muito menos o falatório inútil dos meus companheiros que eu era obrigado a aguentar.

Estava prestes a deserdar o grupo e mandar aquela função ir pro inferno, junto de todo o resto. Só não o fiz porque vi Shigure deixar o hospital às pressas, mais ansioso do que o normal. Ele estava tão apressado que dessa vez nem tinha se desfeito das luvas de látex cobertas de sangue.

Soube qual era a notícia antes mesmo que ele a anunciasse.

— O que aconteceu? — Karasuma perguntou primeiro quando Shigure nos alcançou.

— Precisamos voltar logo — ele enfim retirou as luvas e as jogou na lixeira mais próxima — Mukuro precisa saber que a menina despertou.

— Tem certeza que não é um alarme falso? — Bakushin perguntou — Ela disse alguma coisa?!

— Não, ainda não disse nada. Acabei de fazer uma cirurgia para colocar enxertos nos locais em que a cápsula regeneradora não deu conta de regenerar. A garota ficou consciente o tempo inteiro, mesmo com a anestesia. Só voltou a dormir quando tudo acabou. Mais alguns dias de repouso e ela vai poder conversar. Conseguimos estabilizar totalmente os sinais vitais. É certo que já não corre mais perigo de vida.

Ignorei completamente a euforia de Karasuma, Zakuro e Bakushin, assim como os cumprimentos a Shigure, enquanto caminhávamos rumo à saída. Mantive a mão na bainha da katana, por precaução. Prestava atenção nos olhares furtivos que recebíamos pelas ruas da cidade. Qualquer movimento errado começaria uma guerra.

— E como vai ser agora, hein? — Zakuro perguntou — Yomi não vai deixar que ninguém tire essa criança de Gandara. Aquele canalha é controlador e adora ter vantagens sobre tudo. Agora que os serviços de Shigure não são mais necessários, duvido que continuem deixando a gente entrar aqui.

— Isso não é problema nosso, fiz apenas o que Mukuro ordenou que eu fizesse. Mas não se preocupe, Yomi não pode deter Mukuro ou vetar a participação dela nos próximos passos. O acordo dá a ela os mesmos direitos que ele possui. Ele terá problemas se não cumprir com a parte dele. Não se esqueça de que, além de Enki, até o Reikai foi envolvido nisso. Ou pelo menos estava envolvido, antes de Koenma ser afastado.

— Falando nisso, você vai avisá-los, Hiei? Faz uns dias que não vai pro Ningenkai, não é? Mukuro disse que você tinha que ficar de olho na humana.

Virei imediatamente o rosto para Karasuma, sem esconder a irritação. Ele percebeu, colocou as mãos pra cima como se pedisse perdão pelo comentário intrometido e abriu um sorriso despreocupado.

— Relaxa. Eu não estou te criticando. Só queria dizer que se for um incômodo tão grande pra você, eu posso ir no seu lugar. Shigure e eu ajudamos os humanos a escaparem quando a Fortaleza estava sob ataque, eles já até nos conhecem.

Bakushin soltou um riso sarcástico.

— Desde quando você é tão solícito, Karasuma?

— O quê?! — ele colocou a mão no peito, fingindo indignação de um jeito exagerado, sempre teatral demais — Assim você me ofende. Eu sempre fui solícito quando se tratava dos pedidos da Mukuro, diferente de vocês que são relapsos com as suas responsabilidades.

— Puxa-saco miserável! — Zakuro o respondeu — Tá desesperado para aumentar a sua patente no exército, é? Cuidado hein, Hiei. Parece que tem alguém aqui querendo o seu posto!

A raiva me fez parar de andar e me virar em direção a eles. Já era um inconveniente que não calassem a boca nem por um segundo, mas envolverem o meu nome no meio de tanta besteira ultrapassava os limites. Se queriam falar bobagens, poderiam pelo menos ter a decência de me deixar de fora.

— Se continuarem falando, vou cortar as línguas de vocês três fora.

— Deixa disso, Hiei, é só uma brincadeira desses idiotas. Não acha que está levando tudo muito a sério ultimamente? Eu não quero ocupar o seu posto, fica tranquilo. Prefiro conquistar o meu próprio.

Karasuma manteve o sorriso presunçoso no rosto e eu devolvi na mesma moeda, irônico.

— Que pena, eu bem que queria ver você tentar.

Ele sacudiu os ombros, cogitando a possibilidade. Pra variar, nunca levava uma ameaça a sério.

— Quem sabe um dia eu te dê essa alegria? Por ora, a gente continua em paz. Se bem que eu ia adorar fazer uma algazarra nessa porcaria de lugar e destruir algumas coisas por aqui. Não podemos brigar com eles, mas podemos brigar entre nós no território deles, não é? — ele cuspiu no chão, no momento em que cruzamos a fronteira — País de quinta!

— O país até pode ser de quinta, mas o governante não é — Shigure retrucou — Querendo ou não, entre as três potências, foi Gandara que permaneceu em pé com aquele ataque. Isso serve de lição para todos nós. Daqui em diante, devemos estar melhor preparados. Vamos logo, ainda temos a Fortaleza móvel para reconstruir.

Por sorte as palavras de Shigure foram suficientes para fazer os três enfim ficarem quietos. A invasão tinha trazido à tona os pontos fracos do exército e Mukuro não ficou nem um pouco contente com aquilo. Estava sendo mais dura, aplicando punições, expulsando membros do time. Quem não servisse mais, seria descartado. Fazia tempo que Mukuro não lutava, mas nos últimos dias vinha dando uma amostra de sua força para aqueles que não executassem as suas ordens corretamente. A mim, porém, ela não tinha dito nada sobre eu tê-la desobedecido e deixado de ir ao Ningenkai. Talvez porque soubesse que era perda de tempo discutir comigo ou talvez porque já tivesse aceitado que eu faria o que bem entendesse, de qualquer maneira.

Obedecer não fazia parte da minha natureza mesmo. Mas reconheci que realmente estava na hora de dar as caras no Mundo dos Humanos. Não porque tinham me mandado ir, mas sim porque realmente agora eu tinha um motivo concreto para isso.

x.x.x.x

Observei primeiro o chalé à distância. Tudo continuava igual. O grupo do lado de fora da casa, conversas sem nexo que se sobrepunham e nenhuma ameaça por perto. Me aproximei devagar, antes que percebessem que eu estava ali à espreita. Colocar todos em alerta seria um alarde desnecessário.

Kurama foi o primeiro a notar a minha presença. Koenma e Yusuke estavam tão pateticamente distraídos que só perceberam depois. Os três vieram de encontro a mim, enquanto os demais permaneceram afastados, me observando com expectativas. Antes de desviar o olhar, vi Yukina acenar timidamente.

Yusuke chegou de forma agressiva, invadindo o meu espaço com passos pesados, expressão irritada. Mais um pra me torrar a paciência.

— Finalmente apareceu, né Hiei? A gente não tinha combinado de você nos manter informados? Que saco! Por que some por dias e nos deixa assim no escuro?

Era só o que faltava. Além de Karasuma me dizendo o que fazer, agora isso? Parecia até que tinham tirado o dia para me testar.

— Desde quando te devo satisfação? — respondi quase rangendo os dentes — Se eu não tinha nada pra dizer, por qual motivo ficaria vindo aqui?

Yusuke abriu a boca para responder, mas Koenma o impediu.

— Não é hora pra discutir por besteira, Yusuke! Diz aí, Hiei, tem alguma novidade? Como estão as coisas?

— O estado da criança está estabilizado. É questão de tempo para que acorde e que possa ser interrogada. Mais alguns dias, de acordo com Shigure. De resto, tudo igual.

Yusuke olhou em direção aos outros que continuavam prestando atenção em nós mesmo de longe.

— Kuwabara e Kiara ainda estão com as algemas do Reikai — ele disse — Também precisam de alguns dias a mais antes de poderem voltar pro Makai. Acho que não passa de uma semana.

— Pelo menos agora já temos uma direção para seguir — Kurama acrescentou — Só precisamos discutir como vamos abordar aquela menina. Pode ser só uma criança, mas não quer dizer que não vá criar resistência. Me preocupo que possa ser uma situação mais complicada do que imaginamos, ainda mais com ela estando em Gandara.

Yusuke franziu a testa.

— O que quer dizer?

— Yomi é do tipo que faz de tudo pra conseguir a informação que procura. Não importa se está lidando com o mais forte dos oponentes ou com uma criança fraca e indefesa. Acho que vou ter que me encontrar com ele e...

Kurama parou de falar de repente, deslizando o olhar para trás de mim. Acabei virando o rosto e de soslaio vi Kiara se aproximar de braços cruzados. Parecia estar procurando por uma brecha para dizer alguma coisa e, como Kurama continuou calado, ela avançou para dentro do círculo que tínhamos formado.

— Posso perguntar uma coisa, Hiei?

Respirei fundo. Eu sabia o que ela queria, mas já estava cansado de dar explicações. Tinha dito a ela para aguardar notícias sobre o estado daquela maldita criança. Será que era tão difícil assim segurar a droga da ansiedade?

Respondi seco e rude.

— A menina ainda não está em condições de ser interrogada.

— Não é sobre ela — Kiara retrucou — Você vai voltar pro Makai usando a fenda dimensional que o Kurama encontrou, não vai? Será que eu posso te acompanhar?

Pisquei lentamente, sem entender. Escutei Kurama murmurar alguma coisa, mas não registrei o quê. Nem sequer sabia como responder aquela pergunta sem nexo e totalmente inesperada.

— Você não pode ir pro Makai agora — constatei.

— Não quero ir pro Makai, só quero ir até a fenda dimensional. Depois eu volto pra cá.

Ela me encarou como se esperasse por alguma coisa. Uma confirmação, talvez? Mas continuei perdido e, pra ser honesto, eu já estava começando a me arrepender de fazer aquela visita.

— Já não discutimos isso, Kiara? — foi Kurama quem a respondeu.

— Qual é o problema? Não to pedindo nada de mais, o Hiei já vai pra lá de qualquer forma. E ele não se importa, não é?

Seus olhos se fixaram em mim novamente, insistentes e incisivos, com as sobrancelhas arqueadas. No que diabos ela estava me metendo?

— E qual o seu plano, ir com ele e voltar sozinha? — Kurama continuou.

— Ah, quer saber, Kurama? Por que não damos o braço a torcer? — Yusuke se colocou entre os dois, com um sorriso ordinário no rosto — Eu bem que tô a fim de esticar as pernas, caminhar um pouco...tenho passado muito tempo deitado ultimamente. Vamos nós quatro. Hiei vai pro Makai e nós dois trazemos a Kiara de volta.

Kurama soltou um suspiro cansado, do tipo que se dá quando se desiste de argumentar. Eu continuava sem ter ideia do que tudo aquilo se tratava, mas pelo visto, contra a minha vontade, teria companhia por mais tempo do que havia planejado.

Conseguir um minuto de paz naquele dia estava se tornando uma tarefa impossível.

Foi somente no caminho que Yusuke me explicou do que toda aquela história se tratava. Desde a flecha que Kurama encontrou até à suspeita de que o irmão de Kiara fosse a pessoa por trás da arma perdida.

Me recordei de que há algum tempo Kurama tinha me contado sobre ter visto um humano no Makai, mas, se não me falhava a memória, ele tinha garantido que não era o irmão de Kiara. Algo não parecia certo…Kurama estava enganado? Improvável.

A possibilidade de ser o irmão de Kiara era absurda, mas se ela queria tirar a prova com os próprios olhos, que seja. Tudo o que eu precisava fazer era ir até a fenda dimensional, garantir que aquilo não passava de uma teoria ridícula e ir embora. Por isso, me apressei tomando a dianteira e chegando primeiro no local. Os esperei diante da passagem que conectava os dois mundos, observando os arredores da região. O som próximo da grande cachoeira que corria por ali embaralhava um pouco os meus sentidos, atrapalhando principalmente a audição. Ainda assim, nada parecia fora do lugar.

Aparentemente, estava completamente sozinho.

Quando os três chegaram, por um segundo pensei que Kiara cairia no chão. Estava ofegante e parecia até mais pálida. Fazer o esforço no estado em que estava era burrice, mas confesso que me surpreendeu ter conseguido se manter em pé. A queimadura que fiz em sua perna tinha feito um estrago grande.

Enquanto ela recuperava o fôlego, Kurama e Yusuke se puseram a fazer o mesmo que eu. Observavam tudo ao nosso redor para procurar por algo — ou alguém — que não deveria estar ali. Olharam com desconfiança para as montanhas mais próximas, o céu, as árvores e até os animais que passavam voando sobre nós.

Kiara começou a fazer o mesmo, acompanhando os passos dos dois. Não sei quanto tempo eles perderam ali, explorando o morro onde estávamos. Entediado, encostei em uma das árvores e aguardei até que estivessem satisfeitos. Até que a expressão decepcionada de Kiara estivesse tão gritante que fosse impossível de ignorar.

Nesse momento, Kurama tomou a iniciativa, sendo o primeiro a opinar a respeito.

— Sabe de uma coisa, Kiara? Eu não acho que a pessoa que eu persegui era o seu irmão. Tem uma coisa que não te contei sobre aquele dia. A pegada que aquela pessoa deixou na terra úmida da floresta era compatível com a pegada de um adulto. Algo me diz que, mesmo sem saber disso, você também não acha que seja Kazuki. Se fosse o caso, você teria dado um jeito de vir pra cá quando te contei, não é?

Imaginei que ela fosse retrucar a acusação com ironia, mas Kiara apenas se encolheu quando a intensidade do vento aumentou. Quando respondeu a sua voz soou melancólica e o olhar ficou distante.

— A primeira vez que Kazuki foi praticar o arco e flecha, a flecha simplesmente voou pra trás dele — ela disse — Foi a pior performance que já vi! Até hoje eu não sei como ele conseguiu fazer aquilo. E mesmo praticando outras vezes, ele nunca melhorou muito. Quando você falou que os alvos foram atingidos com precisão, eu tive certeza que não se tratava de Kazuki.

— E então, quem estamos procurando?

— É o que eu gostaria de saber também! Porque, de verdade, a única possibilidade que me vem em mente não faz sentido nenhum e me traz mais dúvidas do que respostas.

O silêncio entre nós se estendeu por alguns instantes e as palavras de Kiara foram deixadas de lado. Uma vibração diferente no ar me fez levar a mão à bainha da katana. Kurama, estático ao meu lado, parecia ter sentido o mesmo. Yusuke, menos discreto, olhava para os lados procurando pela origem daquela atmosfera sutilmente mais densa. Mas também como se duvidasse do que tinha acabado de sentir.

Realmente, era tão sutil que poderia ser apenas a nossa imaginação, mas por garantia nenhum de nós sequer se movia mais. Kiara notou que tinha algo errado acontecendo, mas com um gesto curto, Kurama a silenciou assim que ela abriu a boca para dizer alguma coisa.

Inconscientemente nós três a rodeamos, impedindo que ficasse desprotegida.

A vibração sumiu, mas permaneci em alerta. A audição captando cada movimento ao meu redor; o peso do fluxo d’água da cachoeira, o uivo do vento, o bater de asas das aves sobre a mata. E então, um zumbido agudo e vibrante.

Me virei rapidamente, katana em mãos. A lâmina partiu a flecha antes que atingisse qualquer um de nós. Algo respingou, manchando o sabre com um líquido púrpuro.

Na direção do disparo, não encontrei nada. Quem quer que fosse, se movia com agilidade. O ataque seguinte veio pelo outro lado. Foi Yusuke quem o interceptou com as próprias mãos. Ele segurou a flecha no ar, quebrando-a com a colisão. Largou os pedaços quando a mesma substância púrpura escorreu pelo seu braço.

— Que merda!

— Não toque! Apenas tente esquivar, Yusuke! — Kurama o alertou.

Vi a sua pele se dissolver em segundos, descolando do corpo e deixando visível uma ferida em carne viva. Apenas uma distração para que a terceira flecha — dessa vez protegida por energia espiritual — fosse cravada em seu antebraço.

Yusuke cambaleou, mas se manteve em pé. Idiota. Aquilo me tirou do sério. Me concentrei no Jagan e o mundo virou um borrão de tons esverdeados e pulsos espirituais. Um deles, distante e oculto entre as copas das árvores, se destacava. Sem tempo a perder, avancei. O tronco sob meus pés rangeu quando pulei no primeiro galho. Rápido, subi ainda mais, fazendo com que a cada salto o alvo se tornasse mais nítido.

Era uma silhueta imóvel, quase fundida às sombras. Um humano.

Ele reagiu no mesmo instante, já com a arma apontada para mim. Mas fui mais veloz. Apareci diante dele antes mesmo que a flecha pudesse ser lançada. Cara a cara, puxei a katana para trás, buscando impulso e o golpeei. O corpo dele se inclinou para trás, escapando por um fio.

A lâmina atravessou o vazio.

O humano se jogou, tentando ganhar distância enquanto caía até o solo. Porém, não deixei que conseguisse escapar. O acompanhei, saltando em cima dele com o sabre pronto. Ele bateu com as costas no chão, protegendo a si mesmo ao usar uma adaga para interceptar a katana. A colisão entre as lâminas formou uma cruz e estourou em faíscas, o som metálico ecoando. Pressionei ainda mais, ameaçando enterrar as duas armas em seu pescoço, mas ele não cedeu à pressão.

Observei os seus braços tremerem, não de medo, mas de raiva. Seu olhar ficou fixo em mim como se apenas a minha existência fosse um insulto.

Youkai de merda — ele vociferou entre os dentes, nem ao menos piscava.

Olhei-o de cima e percebi que sua cara era familiar. Fiquei com a impressão de tê-lo visto em algum lugar e tive que me esforçar para lembrar de onde. Quando me dei conta, saltei para trás. Ele me encarou sem entender, mas permaneceu congelado no mesmo lugar.

— Daisuke...?

Quando Kiara o chamou, recuei, abrindo espaço para que levantasse do chão, mas sem abaixar a guarda. Não relaxaria enquanto não conseguisse explicações do porquê aquele homem que eu tinha visto nas memórias de Kiara, e que supostamente deveria estar morto, estava bem ali diante de nós.

Ele se colocou de pé, posicionando uma nova flecha no arco.

— Finalmente te encontrei, Kiara.