Yu Yu Hakusho: A Relíquia Perdida
16 Divergência
Notas iniciais
— Sejam bem-vindos de volta! — Shinohara saudou os seus semelhantes do alto da escadaria da residência abandonada.
Dezenas de pares de olhos o encaravam curiosos. Eram os kamaitachi que viviam escondidos dentre as sombras do Makai. Anos após a perda da relíquia de seu clã, eles tentaram salvar a sua raça da extinção, mas aos poucos foram eliminados pelos seus adversários. Shinohara assumiu a liderança para tentar reverter aquele cenário, porém, falhou em sua missão. Quando tudo parecia perdido, e os planos de Shinohara estavam fadados ao fracasso, os poucos sobreviventes do clã se dispersaram. Desde então, cada um seguiu o seu próprio caminho da forma que lhe convinha e somente Ban, Yami e Hiro permaneceram ao lado de seu novo líder.
Agora, com a força de sua raça restaurada pela ativação do bracelete, eles se reuniam para dar início a uma nova era. Um recomeço para a lendária raça de youkais-doninha.
— Fico feliz em vê-los de novo. Feliz em saber que conseguiram sobreviver por todos esses anos — Shinohara deu continuidade ao discurso — Hoje, enfim realizaremos o nosso sonho, aquilo que tanto buscamos. Muitos de vocês já não acreditavam mais em mim, eu sei. Mas eu os perdoo. Como já devem ter percebido, o nosso poder foi restaurado. Não precisamos mais nos esconder. Não precisamos mais fugir! Somos livres, finalmente! Hoje, mais do que nunca, devemos nos unir para tomar posse do Makai. Seremos novamente temidos por todos. A nossa vingança deixou de ser uma mera fantasia.
Alguns cochichos reverberaram no cômodo, confusos ou eufóricos.
— O que significa tudo isso, Shinohara? — um kamaitachi ancião perguntou, fazendo com que todos se calassem — O nosso poder foi restaurado. Só pode significar que você encontrou a relíquia e também a herdeira que mandamos para o mundo dos humanos. Onde estão? Yue e o bracelete?
Shinohara não respondeu imediatamente. Descendo os degraus da escada devagar, ele não desgrudou os olhos do demônio que o desafiava com aquele tom desconfiado. Ele precisava conquistar a confiança de todos, mas sabia que a teimosia de Yue seria o maior de seus problemas.
— Yue está aqui, mas houve um contratempo.
— Qual? — o mais velho perguntou semicerrando os olhos.
Shinohara se calou. Cabisbaixo, foi para o centro da sala, fazendo com que todos formassem um círculo ao seu redor. Ensaiando um drama, ele procurou as palavras corretas para chegar ao assunto desejado. Parou então diante de dois velhos conhecidos seus, que agora estavam acompanhados de uma criança. A pequena kamaitachi o encarava temerosa. Amedrontada, os olhos grandes e brilhantes procuraram o amparo do pai, ao mesmo tempo em que se escondia atrás de sua mãe, tentando se afastar daquele desconhecido.
— Não tenha medo. Os seus pais são meus amigos — Shinohara a tranquilizou antes de se voltar para o casal — Sempre soube que vocês terminariam juntos, Hiroshi e Yuri. Tenho certeza que o que vocês mais querem é dar um futuro digno a essa menina, não é?
— Vá direto ao ponto, Shinohara — a mulher retrucou — Daichi te fez uma pergunta. Onde estão Yue e o bracelete? Qual foi o contratempo?
— Yue está presa — Shinohara disparou, causando um tumulto ao redor. Em uníssono, os kamaitachi protestavam indignados.
— Você a prendeu? — o ancião retrucou num semblante severo — Como ousa fazer isso?!
— Eu não tive escolha! — Shinohara elevou o tom de voz — Ela está sob efeito de um forte controle mental.
— Como assim? — outro youkai-doninha questionou — De quem?
— De um antigo conhecido nosso. Aquele que nos tirou tudo! — ao anteciparem o que ele diria a seguir, os kamaitachi já se alvoroçavam assustados — Aquele maldito kitsune. Não satisfeito por nos ter roubado a jóia, ele ainda se atreveu a ir atrás de nossa herdeira. Acreditam que ele a convenceu de que nós somos uma ameaça?
— Está falando sério? — Daichi questionou — Não pode ser verdade.
— Eu jamais brincaria com algo assim! Eu resgatei Yue das garras daquele infeliz, mas ela continua acreditando em cada estupidez que ele disse. Por sorte, depois de uni-la à relíquia. Eu o derrotei. Ambos estão aprisionados aqui. Quando eliminarmos o kitsune, talvez Yue volte ao normal.
— E se não voltar — uma youkai-doninha, que até então permanecia em silêncio, questionou — O que pretende fazer? Mantê-la aprisionada?
— É claro que não a trataremos como se fosse uma inimiga. A princesa terá todas as regalias que merece, mas teremos que vigiá-la o tempo inteiro, para o seu próprio bem.
— Como tem tanta certeza de que se trata de um controle mental? — o ancião perguntou, não convencido com aquela história.
— E o que mais seria? — Shinohara retrucou, aproximando-se de Daichi. O clima pesou entre eles devido à desconfiança — Você acha normal que ela tenha se afeiçoado àquele kitsune imundo? Acha que existe outra explicação pra isso, seu velho estúpido?
Daichi não se intimidou com a súbita mudança de comportamento de Shinohara. O antigo guerreiro do clã Kamaitachi já estava acostumado a lidar com esse tipo de agressividade e rebeldia.
— Pra falar a verdade, acho sim — dessa vez, foi ele quem avançou até Shinohara — Por que não deixa que ela mesma se explique? Assim, poderemos averiguar com os nossos próprios olhos se Yue está mesmo sob efeito de uma lavagem cerebral ou não.
Shinohara cerrou os punhos com força, mas inspirou fundo, tentando se controlar. Não podia deixar que Daichi se tornasse outra pedra em seu caminho. Um movimento em falso e seus planos iriam por água abaixo.
— Mais algum de vocês acha que uma de nós poderia realmente ter se afeiçoado ao homem que arruinou as nossas vidas? — ele perguntou, caminhando no centro da sala, enquanto varria os olhos por todos os seus semelhantes. Ninguém o respondeu — Acham que Yue poderia nos trair nesse nível? Ou pior, acham que Youko merece o nosso perdão?
O silêncio perdurou no cômodo. Ninguém se atreveria a dizer uma só palavra que poderia ser mal-interpretada pelos outros.
— Muitas coisas mudaram, Shinohara — o ancião voltou a dizer, como se realmente fosse o único com coragem suficiente para confrontá-lo — Não pode querer resgatar um passado amaldiçoado. Nunca voltaremos a ser o que fomos um dia, não importa o que você faça.
Shinohara não compreendeu o real significado daquelas palavras, então desdenhou, debochando por consequência.
— Se não concorda com o jeito que eu trabalho, pode ir embora, Daichi. A porta é logo ali. Quem mais não estiver contente, pode se juntar a esse velho decrépito. Se preferem continuar vivendo nas sombras, o problema é de vocês. Mas confesso que estou decepcionado, achei que fossem mais inteligentes. Lutamos tanto para chegar até aqui, e foi tudo em vão? Só o que eu desejo é que possamos viver juntos novamente. Que possamos salvar o nosso Clã!
Aquelas palavras atingiram a todos com força, os fazendo refletir por alguns instantes. O sentimentalismo era a maior arma do atual líder dos youkais-doninha. Usando-o a seu favor, ele sabia que poderia manter a situação sob controle.
— Estamos com você, Shinohara. Acreditamos em você — um de seus colegas se aproximou, recebendo o apoio de alguns outros — Tenho certeza que salvaremos Yue do controle do kitsune. Vamos matá-lo e acabar logo com isso. Essa é a nossa prioridade! Com Yue no poder e a relíquia ativa, seremos invencíveis de novo.
Eufóricos, a maior parte dos kamaitachi vibraram com o discurso, empolgados com a possibilidade oferecida pelo seu novo líder. Porém, quando um estrondo distante ecoou por detrás da porta fechada do cômodo, todos olharam para trás. Num movimento brusco, Shinohara arrombou a entrada, forçando-a abrir com a força do vento. As dobradiças quase se quebraram, revelando o rosto pálido de Kuwabara, que esperava sozinho do lado de fora, enquanto Hiei e Yusuke sondavam o local à procura da maneira mais segura de entrar. Assustado por ter sido descoberto após, acidentalmente, esbarrar numa pilastra de pedra que caiu ao chão, ele permaneceu parado na entrada, encarando os youkai-doninha sem saber o que fazer.
— Quem é esse? Um humano?! —Yuri, amiga de Shinohara, perguntou.
— O kitsune trouxe reforços — o líder lhe explicou — Achei que Hiro, Ban e Yami dariam conta de vocês, mas pelo visto me enganei.
Focado em Shinohara, Kuwabara nem sequer sentiu a aproximação de outro kamaitachi. Quando se deu conta, o demônio já tinha surgido por detrás dele, o empurrando violentamente para dentro da sala. Kazuma caiu de joelhos no chão, rodeado por todos aqueles youkais raivosos. Inúmeras foices estavam apontadas em sua direção. Ao tentar se levantar, ele engoliu em seco quando uma lâmina encostou em seu pescoço por trás, ameaçando lhe tirar a vida ao menor sinal de resistência.
— Onde estão Kurama e Yue? Onde você os prendeu?! — Kuwabara perguntou então, vencendo o próprio medo.
— Calado! — Shinohara o repreendeu — Raças inferiores só devem se dirigir a nós quando dermos permissão para isso.
— Você conhece Yue? — Daichi questionou, curioso.
— Mas é claro que sim. É minha amiga.
— Não diga bobagem — Shinohara rebateu, antes de se voltar aos outros youkais—doninha — Esse humano estúpido ajudou o Youko a capturar Yue!
— Não é verdade! Ela ficou com a gente porque quis! Não a obrigamos! Se esqueceu que um dos seus subordinados a atacou no Ningenkai? Tudo o que Kurama fez foi salvá-la.
Todos se agitaram, indignados com aquela acusação. Shinohara perdeu a paciência, chutando Kuwabara nas costelas. A dor foi aguda, fazendo-o agonizar com a queimação que se alastrava de seu tórax.
— Não minta! Nós é que queríamos salvá-la daquele mundo nojento que é o Ningenkai. O lugar de Yue é conosco, não com vocês humanos.
Shinohara ergueu Kuwabara do chão, o levantando pela gola da camisa. Em seguida, semicerrou os olhos ameaçadoramente.
— Não vou deixar que se meta. O seu destino será igual ao do kitsune.
A foice do líder dos kamaitachi encontrou a pele de Kazuma, mas, antes que pudesse concretizar a ameaça, uma ordem o impediu.
— Nem pense nisso! — Yusuke estava parado na porta escancarada, direcionando o indicador para Hiro, Ban e Yami que, ainda desmaiados aos seus pés, tinham sido carregados até ali justamente para uma situação como aquela. E embora aquilo não passasse de um blefe, Yusuke não hesitaria caso fosse realmente necessário usá-los como reféns — Se tocar nele, eu mato os seus três amigos.
Shinohara recuou, irritado pelo fracasso dos seus semelhantes. Kuwabara então respirou aliviado ao poder se movimentar livremente, sem se preocupar em ser retaliado a qualquer instante. Naquela altura do campeonato, todos já haviam entendido que os kamaitachi prezavam pelo coletivo. Unidos eram muito mais fortes do que separados e, portanto, jamais arriscariam a vida de um companheiro.
— É outro amigo de Kurama? — a youkai—doninha, cuja filha permanecia grudada em si, perguntou.
— Sim. Agora vocês entendem o que quero dizer? Eles estão aqui para nos ameaçar. O kitsune ordenou a eles que nos matassem. Ele, mais uma vez, está nos declarando guerra. Acham que Yue pode ser amiga desse tipo de gente por vontade própria? Já está suficientemente claro que não!
Alguns kamaitachi concordaram, convencidos de que aquela era a única versão possível dos fatos.
— Ah é mesmo, gênio? Então me explica isso: se quiséssemos matar vocês, por que já não fizemos isso com esses três idiotas aqui? — Yusuke gesticulou em direção a Ban, Hiro e Yami — Só queremos salvar Kurama e Yue! Você a sequestrou. Nos últimos dias, tudo o que vocês têm feito foi aterrorizar seres humanos inocentes. Acha isso certo? Por que não conta tudo o que fez?
— Humanos não servem pra nada. São uma raça medíocre. Por que eu deveria ter piedade?
— Você diz isso, mas foram humanos que cuidaram a vida inteira de Yue! Se nos odeiam tanto, por que a mandaram pro Ningenkai? — Kuwabara perguntou, arrancando alguns protestos daqueles youkais — Um casal humano tratou Yue como se fosse a sua própria filha, mesmo sabendo que não era. E vocês confiaram neles, porque sabem que os conflitos entre humanos e kamaitachi era culpa de vocês! Sabem que os humanos não mereciam a forma como vocês os tratavam.
A veracidade daquelas palavras mais uma vez surtiu efeito sobre os kamaitachi. Cada vez mais divididos, parte do grupo se mantinha ao lado de Shinohara, enquanto o restante se aglomerava mais distante, inclinados a discordar do seu líder. Entre eles, estava Daichi, já totalmente convencido de que a abordagem adotada por Shinohara para lidar com aquele problema não era a mais adequada.
Ao perceber a repartição em seu grupo, Shinohara chegou ao seu limite. Furioso, ele estava decidido a fazer o que fosse preciso para conseguir alcançar os seus objetivos, mesmo que isso significasse sacrificar a sua própria raça.
— Já chega! — bradou então — Se não querem entender por bem, terão que entender por mal.
Tudo começou muito rápido. Shinohara avançou em Kuwabara, tão ágil que jamais lhe daria chances para escapar. No entanto, o seu alvo não foi atingido. Do contrário, uma espada interceptou o seu caminho. Segurando a sua katana, Hiei — cuja presença ainda não havia sido detectada pelos seus adversários — barrou a foice de Shinohara, jogando o líder dos kamaitachi para trás num golpe.
Mesmo assim, Shinohara se manteve de pé. Ainda mais irritado, relanceou os seus colegas e, mesmo sem dizer uma única palavra, a ordem foi clara.
"Ataquem".
O grupo do líder dos youkais—doninha se rebelou, partindo em direção à Yusuke, Kuwabara e Hiei. No entanto, para a surpresa dos três, a outra parte dos kamaitachi tentaram impedi-los. Ao se colocarem ao lado dos amigos de Kurama, praticamente igualaram as duas equipes em termos numéricos.
Naquela batalha frenética e equilibrada, sangue era derramado a cada segundo. De um lado, alguns youkais—doninha usavam golpes violentos e mortais, enquanto do outro, a defesa falava mais alto, tentando minimizar os danos causados por aquela situação desordenada. Concentrados demais para perceber que duas pessoas os observavam do andar superior, todos somente interromperam as investidas quando uma voz ecoou por toda a sala.
— Parem!
Todos olharam para cima, na direção onde a mulher estava. O bracelete reluzia em seu braço e, ainda que a sua aparência fosse humana, todos os kamaitachi a reconheceram de imediato. Os olhos de Daichi brilharam ao vê-la bem ali. Ela era o futuro de seu povo. A promessa de uma nova era. O seu nome saiu de seus lábios inconscientemente.
— Yue.
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