Yu Yu Hakusho: A Relíquia Perdida
14 Confrontos
Notas iniciais
Mesmo preocupado com seus amigos, Kurama seguiu em frente. O kitsune sabia que eles teriam problemas para enfrentar os kamaitachi, mas não seria a primeira vez que os colegas teriam que transpor as dificuldades que surgissem no caminho. Yusuke, Hiei e Kuwabara eram poderosos o suficiente para saírem dessa enrascada sozinhos. Além disso, ele precisava encontrar Yue o mais rápido possível, antes que fosse tarde demais.
Atento, Kurama seguiu por uma passagem estreita e escura entre os altos rochedos que se elevavam no lugar, mantendo-se sempre alerta para eventuais armadilhas no meio do caminho. Em um dado momento, o percurso se dividiu em dois e, para o seu azar, os esporos que lhe serviam de guia acabaram se espalhando para ambos os lados.
Kurama estancou os passos e em seguida fechou os olhos numa tentativa de detectar o youki mais próximo. No entanto, como já era de se imaginar, mesmo com a sua máxima concentração, ele não conseguiu obter sucesso para localizar Shinohara. Sendo o poderoso kamaitachi que era, Shinohara tinha prática suficiente para não deixar nenhum rastro de sua presença, porém, o mesmo não podia ser dito de Yue. Ao encontrar o fraco vestígio de uma energia maligna desconhecida e, ao mesmo tempo, familiar, Kurama logo soube que a tinha encontrado. Apesar da ascendência demoníaca que agora fluía em suas veias, a aura tinha a mesma essência da humana que ele conheceu. Ele jamais se confundiria, não depois de dividirem a mesma casa por tantos dias. Por ser uma youkai recém-transformada, certamente Yue ainda não sabia controlar completamente os seus poderes, tampouco mascarar a própria existência.
Pelos espaços mal-iluminados, Kurama continuou avançando até chegar nas ruínas escondidas dentre as formações rochosas do terreno. Ali dentro, o ar abafado e rarefeito lhe provocava uma terrível sensação de sufocamento. A toxicidade daquele lugar com certeza era uma das mais elevadas do Makai. Ainda assim, ele continuou. Ao encontrar o que parecia ser uma luz no fim do túnel, no sentido literal da expressão, o kitsune soube que já não estava mais sozinho. No entanto, as esperanças de se encontrar com Yue no cômodo adiante partiram-se ao meio quando, na realidade, deparou-se com o líder dos youkai—doninha, aguardando a sua chegada.
— Esperei muito por esse reencontro — Shinohara desprendeu um sorriso jocoso dos lábios; os olhos semicerrados como o de um felino selvagem prestes a dar o bote em sua presa — Mas desta vez, você será o perdedor e eu irei recuperar a supremacia que nos roubou.
— Eu roubei? Você está errado. Os kamaitachi foram os responsáveis por sua própria extinção. Ao longo de muito tempo vocês fizeram inúmeros inimigos no Makai. Todos desejavam se vingar de vocês — Kurama olhava fixamente para seu oponente. Os esporos guia agora estavam por toda a parte e já não serviam mais para encontrar Yue — Quando roubei a relíquia, vocês ficaram suscetíveis aos ataques de outras raças. Mas se não tivessem cultivado tanto ódio por onde passaram, não teriam acabado desse jeito. Eu apenas terminei o que vocês mesmos começaram.
— Você está mentindo! — Shinohara gritou — Como sempre, quer se livrar da própria culpa. Não entende o que fez? Você nos deixou a mercê da sorte e do azar. Nos matou de fome e inanição! Você foi o único culpado por tudo isso. Mas eu sei que era isso o que queria, então não fale como se lamentasse o que aconteceu. Você era só mais um que nos odiava. Só mais uma raça inferior, como tantas outras.
Kurama achou melhor não retrucar, notando que nada do que dissesse faria o kamaitachi mudar de ideia. Aquela discussão era inútil. Pelo canto dos olhos, procurou por Yue, numa sondagem rápida naquele saguão. Ela não estava a vista, mas a sua energia continuava presente, apesar de instável.
— Onde está Yue? — Kurama perguntou, indo direto ao ponto.
— Acha mesmo que tem direito de saber algo sobre a nossa princesa? O que acha que vai fazer? Yue já sabe de toda a verdade. Já sabe que foi você o responsável por tudo. Ela viu o que você fez e agora deseja a sua derrota, tanto quanto o resto de nós — ele escancarou um enorme sorriso, maligno e triunfante.
Kurama engoliu em seco, incomodado com a mínima possibilidade daquilo ser verdade. Mas não era. Não podia ser. Ele conhecia o caráter de Yue muito mais do que Shinohara. Eles estavam longe de ser iguais.
— Eu imaginei que o bracelete mostraria tudo a ela, mas nem isso será capaz de colocá-la contra mim. Eu sempre fui verdadeiro com Yue e ela sabe disso.
— Me poupe dessa conversa fiada! Não vou deixar você destruir o que sobrou da família real. Isso tudo acaba aqui! — Shinohara colocou suas mãos para frente e conjurou suas foices — Hoje eu vou te matar, exatamente do mesmo jeito que você fez com toda a minha família.
Foi rápido e violento. A velocidade absurda com que o kamaitachi avançou em direção a Kurama quase não lhe deu chances para escapatória. Ao se transformar em sua forma Youko, por pouco o kitsune conseguiu evitar o golpe certeiro em sua garganta. Mesmo assim, o sangue jorrou do corte recém aberto em seu braço, fruto da lâmina perfurante do golpe do adversário.
— Maldito! — Shinohara bradou, raivoso. Em seguida, avançou mais uma vez em direção a Kurama.
Tentando ganhar tempo, Youko evocou as suas plantas estranguladoras, com o único intuito de imobilizar Shinohara. Se o matasse agora, mostraria para Yue que não havia mudado absolutamente nada com relação ao passado. Irritado, o youkai—doninha tentou retaliar aqueles caules grossos e fortificados, mas, para a sua surpresa, não conseguiu. Ao se ver envolvido por tantas ramificações, rosnou ferozmente, ainda mais furioso do que antes.
— Se ficar parado, elas não vão machucar você — Kurama o alertou, tentando dar um fim à luta que havia acabado de começar.
— Não me subestime!
De repente, o ar se agitou, como da vez em que enfrentaram os demais kamaitachi no Mundo dos Humanos. Uma ventania brutal atingiu tanto Kurama quanto as suas plantas estranguladoras. Aos poucos, os vegetais se desfizeram, fatiados em inúmeros pedaços como se não fossem nada. O teto tremia, vidros se estilhaçavam por todos os lados e até mesmo as paredes rachavam com a força daquele vento. Kurama, protegeu o rosto, evitando ser atingido nos olhos. Naquela confusão, perdeu Shinohara de vista e somente foi localizá-lo quando a dor aguda e excruciante se alastrou em seu ombro direito.
O sangue escorreu pelo seu peito, quente e viscoso. Sulcos profundos desenharam a sua pele, por pouco não comprometendo a funcionalidade de seus ossos. A rapidez de Shinohara era tanta que Kurama só teve tempo de se virar antes de ser atingido de novo. Dessa vez, o rasgo atravessou a lateral de seu tronco, perto das costelas. O novo ferimento ardeu muito mais do que o anterior, o forçando a cair de joelhos no chão, onde o sangue empoçado se acumulava.
— O que foi, kitsune? Agora que virou meio-humano deixou de ser o temido e invencível ladrão do Makai? Sinceramente, estou decepcionado com você. Achei que daria muito mais trabalho.
Shinohara se preparava para desferir o golpe final quando o grito de Yue o impediu.
— Shinohara!
Kurama ergueu o rosto, a acompanhando enquanto caminhava até o líder dos kamaitachi. Aquela já não era mais a mulher que ele havia salvado tempos atrás, frágil e humana. Agora a sua verdadeira identidade estava aflorada. Transformada em um youkai, Yue preservava as suas feições, embora os olhos agora ostentassem um brilho diferenciado. O bracelete dourado reluzia num contraste com a sua pele azulada e sutilmente cintilante. Ela estava imponente, como ele nunca a tinha visto. Ele não soube explicar o porquê, mas por algum motivo a achou deslumbrante naquela forma.
No entanto, o elogio ficaria pra depois. A benevolente Yue não estava ali, ou pelo menos não queria aparentar estar. Ela o encarava com mágoa, cheia de tristeza. Decepcionada. Nem sequer o estado de Kurama — ferido e em apuros — parecia ser digno de sua preocupação.
— Não combinamos que você ficaria longe de tudo isso, Yue? — Shinohara perguntou. O tom de repreensão era notório em sua voz.
— Mudei de ideia. Eu preciso falar com ele.
Ele suspirou e, em resposta, retraiu as foices de seus braços.
— Está bem. Seja breve. Não vale a pena perder o seu tempo com isso.
Yue então se voltou para o kitsune, sem amenizar a revolta em seu tom de voz.
— Por que você mentiu para mim? Por que você não foi o suficientemente claro comigo? Você matou a minha família biológica, incluindo os pais que eu nunca poderei conhecer.
— Eu não os matei, Yue. Você está confundindo. Roubei a relíquia de seu avô, não de seu pai ou de sua mãe. Os seus pais morreram em decorrência da perda de poder do clã. Mas eu já tinha te explicado sobre o declínio dos kamaitachi em função da ausência do bracelete.
— Eu já sei disso! Sei que meus pais eram crianças quando você roubou o Clã. Os sobreviventes viveram por muito tempo enfrentando diversos inimigos e perderam a maior parte das batalhas. Eles foram brutalmente assassinados. Quanto eu nasci, quase já não existiam mais kamaitachi. Os meus pais morreram pouco tempo depois. Mas foi você que os condenou à morte. Roubar a relíquia foi o mesmo que matá-los. Mas era isso mesmo o que você queria, não é? — Kurama ameaçou responder, mas Yue continuou, sem lhe dar chances de defesa — Por favor, nem ouse negar. Eu vi tudo o que você fez. O rei, meu avô, não foi a sua única vítima. Você não poupou nem os mais jovens. Não poupou ninguém. Apesar de ter me contado toda a história, você esqueceu de mencionar o quanto se divertia com esse tipo de carnificina.
Kurama cerrou os punhos, cabisbaixo. De alguma forma, aquelas palavras dela doíam mais do que as feridas abertas em seu corpo.
— Todo esse tempo você me enganou. Você sabia quem eu era, não é? — Kurama arregalou os olhos, assustado com a acusação — Sabia que eu era um deles e mesmo assim não disse nada. Brincou comigo. O que planejava? Me matar? Ou será que bem lá no fundo só se sentia culpado por tudo o que fez?
— Do que está falando, Yue? Eu não tinha ideia de quem você era na realidade.
— Não acredito em você.
Por trás dela, Shinohara sorriu vitorioso.
— Muito bem, Yue — o youkai-doninha disse, colocando-se bem perto do rosto da princesa para sussurrar em seu ouvido — Não deixe que ele te faça de idiota novamente.
Kurama endureceu, desejando que ela mesma o afastasse dali, mas Yue não moveu um músculo sequer. O kitsune então assumiu sua forma humana, deixando Youko de lado. Porém, na figura de Shuuichi Minamino, as dores provocadas pelos machucados se potencializaram, quase o fazendo desabar em agonia. Ainda assim, ele se manteve de pé, reunindo forças que nem sequer sabia que existiam.
— Yue, olha nos meus olhos. Eu não menti pra você em nenhum momento. Eu não sabia quem você era — ele se aproximou, lentamente — É Shinohara que está mentindo e te manipulando. Você é bem mais inteligente do que isso. Lembra de todas as perguntas que eu fiz sobre você? Lembra o que fomos fazer na casa dos seus pais humanos? Nós descobrimos a verdade juntos.
Yue titubeou com a lembrança, deixando os olhos marejarem sem pudor. Confusa, olhou para Shinohara, tentando decifrar a sua expressão.
— Cale-se, maldito mentiroso! — Shinohara bradou enraivecido — Não deve ficar aqui ouvindo essa estupidez, Yue. Tudo o que ele quer é nos exterminar, começando por você.
— Não é verdade. Yue, você viu como eu era antes — Kurama retrucou. Ela, por sua vez, suspirou, extremamente incomodada com as memórias contidas no bracelete que usava — Acha mesmo que o Kurama que você viu nas lembranças de seus ancestrais teria mesmo poupado a sua vida por tanto tempo? Acredite em mim, se o que Shinohara está dizendo é verdade, eu já teria te eliminado na primeira oportunidade. Se eu já soubesse da sua identidade e quisesse mesmo me livrar da sua raça, por qual motivo eu teria de mantido viva? Exterminar os kamaitachi seria muito simples. Destruindo você, eu destruiria todos.
Aquela foi a gota dágua. Com o punho fechado, Shinohara partiu para cima de Kurama. O soco o atingiu no estômago, afundando-o ao máximo. A sequência de golpes em seguida, impensados e guiados puramente pelo ódio, derrubaram o kitsune no chão. Desesperada, Yue nem sequer percebeu que suas pernas criaram vida própria. Quando deu por si, já corria em direção aos dois, com o intuito de apartar a agressão.
Shinohara ergueu o braço dobrado, tomando impulso para um novo soco. Confuso, porém, olhou para trás quando as mãos de Yue o seguraram, impedindo-o de atingir o rosto de Kurama.
— Pare com isso! — ela implorou — Já chega!
— Qual o seu problema?! — Shinohara se desvencilhou do toque de Yue, a empurrando para trás — Depois de tudo que esse imbecil nos fez, você ainda vai protegê-lo?
Kurama elevou o olhar, esperançoso. No entanto, a resposta de Yue não atendeu às suas expectativas.
— Não, não vou. Mas…
— Mas o quê? — Shinohara a desafiou, elevando o tom de voz.
— Você disse que se eu tivesse dúvidas, podia conversar com os nossos ancestrais, porque eles me responderiam qualquer coisa — ela olhou para a relíquia em seu braço — Foi isso que eu fiz. Eu vi absolutamente tudo o que Kurama fez, mas não foi só isso. Vi também o outro lado, como o nosso povo tratava as demais raças. Tortura, escravidão e assassinatos só por diversão. Nós também erramos. Todas as almas contidas nesse bracelete estão arrependidas, sabia? Todos eles entendem que tudo o que aconteceu é culpa nossa. Não podemos consertar um erro com outro, Shinohara. Se aceitei ficar do seu lado foi pra que recomeçássemos. Deixar o passado pra trás e fazer tudo diferente daqui em diante.
— Deixar pra trás? Você está louca?! Eu esperei a minha vida inteira por essa vingança.
— Se lutar era o que queria, já deveria estar satisfeito. Você não percebe que já venceu? — Yue retrucou, olhando para Kurama com compaixão, compadecida pelo seu estado deplorável. Embora ela tentasse não demonstrar, havia um toque de desespero em seus olhos. A súplica veio em seguida, ao se aproximar ainda mais de Shinohara — Vamos embora daqui. Vamos reunir todos os kamaitachi e recomeçar. Esquecer o que aconteceu há anos. Prove que você não precisa dessa vingança, que é melhor do que isso.
Shinohara a encarou fixamente, remoendo aquelas palavras numa expressão indecifrável. Yue tinha esperança de conseguir dar um fim a tudo aquilo, porém, a resposta de seu companheiro fez com que as suas intenções evaporassem como água, perdendo-se no ar como nunca sequer tivessem sido proferidas.
— Você não sabe nada sobre mim e eu não preciso provar coisa alguma. Só vou embora daqui quando matar esse desgraçado.
Focando-se novamente em Kurama, ele esbarrou em Yue, visando deixá-la para trás ao seguir em direção ao kitsune. Yue inspirou fundo, agarrando-o pelo braço para tentar impedi-lo.
— Eu mandei parar! É uma ordem! — ela retrucou, um tanto trêmula e sem jeito ao tentar se impor — Sou a atual líder do clã, então você tem que me obedecer.
Shinohara quase riu, desacreditado. Revirou os olhos então, num semblante debochado.
— Eu não acredito. Acha que vou te obedecer só porque é a herdeira real? Não seja tão prepotente.
Rápido, um tapa atingiu o rosto de Yue, a fazendo cambalear para trás. O gosto de sangue preencheu o seu paladar, ferroso e amargo.
— Sua sorte é que preciso de você viva. Senão o seu destino seria igual ao daquele idiota — ele relanceou Kurama, que permanecia inerte no chão.
Shinohara voltou a exibir uma de suas foices e, ao perceber as suas intenções, Yue não hesitou em interferir mais uma vez.
— Deixa ele em paz!
Ela pulou nas costas de Shinohara, que revidou brutalmente ao chutá-la para trás.
— Sua burra! Se não vai me ajudar, então não me atrapalhe.
Yue congelou. A foice veio rápida em sua direção, numa mira direta e certeira. Instintivamente ela fechou os olhos com força, esperando o golpe a atingir. Porém, ao se dar conta de que nada tinha acontecido, voltou a abri-los lentamente. Foi então que ela compreendeu o que havia ocorrido. Amortecendo o impacto do golpe, Kurama se colocou na sua frente. A lâmina ainda estava atravessada em seu corpo ensanguentado. Quando Shinohara puxou a foice, descolando-a do kitsune, Kurama desmaiou, caindo aos seus pés.
Chocada, Yue retornou a forma humana, incapaz de se manter transformada.
— o idiota preferiu se sacrificar por você — ele desdenhou — Como se eu fosse matá-la. Ridículo. Eu já disse que preciso de você viva.
Yue já não raciocinava mais. As palavras de Shinohara entravam por um ouvido e saíam por outro, sem sequer serem assimiladas. Focada em Kurama caído diante de si, o mundo ao seu redor parou de existir.
Quando o golpe de Shinohara a atingiu, tudo ficou escuro.
~*~*~
Yusuke corria de um lado para o outro perseguindo Hiro. Muito mais ágil do que antes, o kamaitachi se embrenhava entre os rochedos da planície que se estendia pelo território. O cenário não estava a favor do detetive espiritual. Apesar de sua força ser incontestável, haviam muitos obstáculos no meio do caminho e os seus disparos de energia sempre acabavam atingindo aquelas enormes rochas. Para piorar, aqueles malditos youkai-doninhas que controlavam o ar pareciam estar por toda a parte, agindo em conjunto. Os três revezavam os golpes entre Kuwabara, Hiei e Yusuke, os fazendo de bobos numa espécie de dança no ar. Os seus movimentos, leves e velozes, os faziam flutuar, golpeando os amigos de Kurama por todas as direções simultaneamente.
Hiro, Ban e Yami tinham um sincronismo perfeito.
Kuwabara sentia-se perdido no meio de tantos monstros poderosos. É verdade que no passado tinha derrotado vários youkais, mas agora a situação era diferente. Aqueles não eram demônios comuns, mas sim uma raça lendária e temida por todas as outras. O que ele, um mero humano, fazia ali? A resposta era óbvia. Precisava ajudar Kurama. Que tipo de amigo ele seria se o abandonasse? Kuwabara sabia que não podia falhar, mas também sabia que não tinha chance alguma de vencer.
— Mas que porcaria! — ele gritou, irritado.
Yami riu à distância. O som de sua voz ecoou pelo ar, até chegar aos ouvidos de Kuwabara. Até agora, ele não tinha acertado um golpe sequer, enquanto a sua adversária estava se divertindo. Zombando de sua incompetência. Ele cerrou o punho com força, pressionando a espada dimensional em sua mão direita. As lâminas dos kamaitachi eram extremamente fortes, é claro, mas ele sabia que a sua espada era muito mais. Era a única arma do mundo capaz de cortar uma barreira dimensional.
Kuwabara se lamentou. Se ao menos conseguisse atingir aqueles youkais-doninha com a sua espada, tudo estaria acabado.
Hiei, por sua vez, estava furioso. Não somente por não conseguir derrotar Ban com facilidade, mas também porque o adversário não o estava levando a sério. Sentindo-se subestimado, ele quase perdeu o controle ao ver o dragão negro ser cortado ao meio pela foice do seu inimigo. Ele deveria ter previsto aquilo, mas não o fez. Por sorte, tinha aprendido na marra a lidar com situações complicadas. Esfriar a cabeça era o melhor a se fazer, ao invés de agir por impulso como um idiota. Por isso, absorveu novamente o dragão, restaurando a energia que seria perdida.
Precisava pensar numa estratégia para inverter aquela situação. As doninhas eram poderosas, mas dependiam completamente de sua agilidade. O trunfo dos kamaitachi estava na habilidade de se camuflarem pelos ventos. Localizá-los era quase impossível. Se ao menos pudesse fazer com que parassem de se esconder como covardes pelos rochedos e planícies da região…
Sua mente então clareou, revelando uma ideia que poderia dar certo. Ao procurar por Yusuke e Kuwabara, conseguiu localizá-los à distância, perdidos naquele vasto terreno. Porém, a distração teve um preço. Uma lâmina de vento o atingiu no braço, resultando num ferimento grave. No entanto, ele ignorou a dor, voltando a se concentrar em Ban, que outra vez já sumia de vista.
Mesmo ferido, Hiei sorriu de canto, confiante. Finalmente tinha entendido que, para derrotar aqueles kamaitachi, precisaria jogar o jogo que eles haviam começado.
Fale com o autor