Yu-Gi-Oh! Rise - Bonds
7 A rosa e o pássaro
E quem poderia imaginar, terça-feira, mais um dia qualquer no meio da semana para aqueles que tinham que levantar cedo e ir trabalhar, mais um dia de aulas para os estudantes dos mais variados anos, mas para os amantes de duelos aquela data era um marco, por conta de quatro simples letras.
W R G P
O torneio mundial de riding Duels, ou Grand Prix como era chamado, havia alcançado sua data de início, e ainda que controvérsias a respeito da difamação dos duelistas por parte do Speed Ghost fossem um problema, muitos viam como uma maneira a mais de trazer atenção para o torneio, ninguém podia esperar o que iria acontecer, ninguém sequer tinha como saber o que estava acontecendo, e isso era o combustível que movia as mentes dos fãs.
Teorias, suposições, alimentando imaginações cheias de vigor e energia, prontos para entrar de cabeça em longas investigações, para achar a menor das pistas que talvez sequer os levassem a desvendar seus mistérios, e por mais que este fosse o desejo de Cayel e Isac, descobriram bem cedo que não havia como seguir aquela trilha de onde estavam.
Mesmo assim, como apenas dois dos três integrantes sabiam de toda a história, a manhã seguinte foi repleta de explicações, e no meio destas, algumas boas broncas.
Susie — Então deixa eu ver se eu entendi bem…vocês dois, saíram de casa e aí invés de vir para a aula, foram passear pela cidade? — Questionava os dois, pelas bobeiras que falavam
Cayel — Uhum…
Susie — E tudo isso por conta daquele fantasma de duelos ou seja lá o que, que apareceu na TV?
Cayel — Sim…
Susie — E agora vocês são melhores amigos de um mecânico, que nunca viram antes na vida?
Cayel — Isso mesmo…
Susie — É inacreditável como dois patetas como vocês vivem a vida desse jeito…o que passa na cabeça de vocês? Sério? — Perguntou ela, ainda sem acreditar em tudo que escutava.
Isac — A gente só queria resolver um mistério, e tínhamos pistas quentes.
Susie — Um vídeo, um único vídeo, fez vocês percorrem uma cidade inteira
Isac — Bem, falando desse jeito fica difícil de defender — Respondeu, sem jeito
Cayel — Em nossa defesa, aprendemos mais em um dia na rua do que aprenderíamos aqui em um dia de aula — Disse ele, confiante
Susie — Cayel, um mecânico não vai te ajudar a passar em álgebra — Respondeu, de maneira direta
Cayel — Realmente não vai, mas álgebra não vai me ensinar a arrumar uma moto
Susie apenas pôs a mão no rosto, tampando ele, decepcionada.
Isac — Essa foi provavelmente a coisa mais inteligente que você disse o dia todo…
Cayel — Viu só? Alguém que reconhece meus talentos.
Isac — Cayel…não foi bem um elogio — Disse Isac, olhando para seu amigo, segurando o riso
Cayel — A… — Depois disso, Cayel ficou sem palavras
Susie — Eu fico genuinamente surpresa como você e seu cérebro de peixe dourado conseguem se manter, por que nada nesse mundo consegue explicar como alguém tão besta consegue viver assim.
Cayel — É o meu efeito especial — Disse ele
Susie — Se você fosse uma carta, ao menos podia te banir pra não ter que escutar tanta baboseira.
Cayel — Que nada, não iam dar cinco minutos e ia sentir minha falta — Respondeu, triunfante.
Isac — Eu diria umas duas horas.
Susie — Está tentando racionalizar besteiras agora?
Isac — Não, esse é o tempo que demora geralmente pra você saber diferenciar se ele se atrasou ou sumiu.
Susie — Cada dia que passo perto de vocês eu fico mais maluca, isso sim — Suspirou, recuperando a compostura — Bem, a dupla dinâmica do cabeça de vento e engrenagem aí façam questão de não se esquecer que temos provas essa semana, então não faltem de aula se quiserem ter mais chances de passar de ano.
Cayel — Deixa eu adivinhar, o cabeça de vento sou eu.
Susie — Acertou em cheio
Cayel — Em compensação, você sabe o que você seria? — Perguntou ele, dando corda a brincadeira
Susie — Não, por que você não faz o favor de me falar? — Perguntou Susie, de uma maneira levemente agressiva
Isac — Cayel eu acho muito bom você pensar em cada palavra que vai falar agora.
Cayel — Uma rosa negra — Respondeu ele, sem demorar
Susie ficou sem resposta
Isac — Em que sentido você falou isso? — Perguntou, confuso
Cayel — A interpretação fica por sua conta.
…
Isac — Nem você sabe, não é?
Cayel — Para surpresa de vocês, sim.
Susie — Então fala, por que da rosa negra?
Cayel — Bem, de um lado temos uma rosa, simpática e bonita, do outro temos uma rosa negra, amedrontadora e cheia de espinhos que machuca passarinhos
Susie — Eu ia ficar irritada, mas nem vale a pena nesse caso.
Isac — Eu não sei se você sabe, mas rosas comuns tem espinhos também…e rosas negras meio que não existem.
Cayel — Existem sim…não existem? — Por sua vez, agora era Cayel quem estava confuso
Isac — Bem, existem rosas escuras, mas nenhuma espécie de rosa completamente negra foi descoberta ainda.
Cayel — Mas e o conto?
Susie — Que conto? — Perguntou, sem saber do que falavam.
Isac — Você nunca ouviu o conto da rosa e o pássaro? — Isac perguntou, surpreso.
Susie — Não faço a mínima ideia do que estão falando. — Respondeu, sinceramente.
Cayel — Sua mãe nunca te contou essa história? A minha vivia contando pra mim.
Susie — Não, o que fala esse conto?
Isac — É uma história sobre um pássaro que se apaixona por uma rosa, mas toda vez que ele tenta pegar ela acaba ferido pelos espinhos, e o seu sangue pouco a pouco transforma a rosa em uma rosa negra, ensanguentada.
Susie parou para pensar, parecia ser muita coincidência para ser verdade, a última parte do sonho que teve a muitas noites e não conseguia entender…seria possível?
Susie — E o que acontece no final? — Perguntou ela, já muito curiosa.
Isac — Bem, tem algumas versões diferentes desse conto, em algumas o pássaro consegue arrancar a rosa depois de criar penas mais grossas, em outras ele morre e a rosa desabrocha, mas ninguém sabe realmente qual é a verdadeira.
Ao ouvir isso, Susie começou a sacudir a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos logo antes da aula.
Cayel — Tá tudo bem por aí? Pousou alguma borboleta na sua cabeça?
Susie — Não é isso, cabeça oca. Faz alguns dias que eu tive um sonho estranho que fica me perturbando, e me lembro de ver uma rosa negra nele.
Isac — E? O que teve de mais nesse sonho?
Susie — Nada…não teve nada, só que essa coisa toda de pássaro e rosa me fez voltar a pensar nele
Isac — Se você acredita em superstições, talvez seja algo que queria se preocupar um pouco. — Disse ele, um pouco mais seriamente
Susie — E por que você diz isso? Você não é o homem da ciência?
Isac — Sim, mas até eu tenho minhas superstições — Ele arrumou os óculos no rosto — Dizem que a rosa negra representa tristeza, sofrimento e pesar, é um sinal de que coisas ruins estão para acontecer.
Susie — Agradeço o conselho, mas ao contrário de vocês eu não acredito em coisas assim
Cayel — Não acredita nos sentimentos das cartas, não acredita nos sonhos, você acredita em alguma coisa por acaso Susie? — Essa era uma das perguntas que jamais se esperava que Cayel fizesse em um dia como aqueles.
Susie — Que vocês são dois malucos, nisso eu acredito…agora chega de conversa, vamos entrar antes que vocês comecem a falar mais baboseiras
Isac — Não diga que eu não avisei, pelo menos tome cuidado
Os três então adentraram pelo portão da escola, seguindo cada um em direção às suas salas.
. . .
As aulas eram matérias de revisão, a semana de provas era a oportunidade perfeita para quem queria ganhar uma folga a mais nos pontos nas matérias escolares, e também para aqueles que queriam mostrar todas suas habilidades nos duelos.
Muitos dos adversários que vinham enfrentando nas aulas agora estavam mais preparados, com novas estratégias e até mesmo novas cartas, então podiam se esperar duelos fenomenais nos próximos dias
Ainda que existissem fortes favoritos, não podia-se ter nenhum resultado por garantido, mas certos duelos alguns estavam ansiosos para assistir, especialmente dos duelistas de melhor qualificação nas aulas, como eram o caso de Yuca, Susie, Aria e Ardan, ainda sim, olhos também estavam abertos para o outro lado do espectro, como Isac e Cayel.
Mas até lá, teriam de esperar mais alguns dias, e podem usar esse tempo para se preparar. Mas como é horário do lanche, a turma se reunia mais uma vez, era hora de jogar mais conversa fora
Cayel — Agora que a Susie me lembrou dessa coisa de exames, mal posso esperar para os exames de duelo chegarem, quero duelar novamente com o Yuca — Falou enquanto mordia um pedaço de seu sanduíche.
Isac — Então é agora que vem aquela coisa de saber quando o outro melhorou?
Cayel — Exatamente, aqueles samurais dele são difíceis de enfrentar, e ele deve ter melhorado muito.
Susie — E você, sabe se melhorou? — Perguntou ela, antes de tomar um gole de café
Cayel — Você quem me diz, o que achou daquele nosso duelo?
Susie — Como duelista, você cresceu muito, aprendeu a jogar com a cabeça.
Cayel — Só como duelista?
Susie — Se eu pegar você agora e você a cinco anos atrás eu não consigo achar diferença nenhuma nas bobagens que você faz ou fala.
Isac — Pra falar a verdade tem algumas diferenças, mas sei que não quer saber delas.
Cayel — Oras, se não for eu, quem vai trazer bom humor? Você vive emburrada, e o Isac viria falando alguma coisa sobre reatores de energia e você ia cair no sono, já é hora de ter minha função reconhecida aqui — Ele terminava o sanduíche em uma mordida
Susie — Quer o que, um autógrafo?
Cayel — Um biscoito…eu ainda estou com fome.
Susie — Eu não sei por que eu ainda tento… — Suspirou, novamente decepcionada — Você parece um personagem de desenho animado, não sei como consegue.
Cayel — Tudo fica bem mais divertido desse jeito, mas será que eu posso pegar um biscoito?
Susie — Pega logo a porcaria do biscoito e fecha a matraca.
Cayel — Pra já! — Ele pegou um biscoito e começou a comer, sorridente — Espera, isso me lembrou uma coisa, vou na sala e volto em alguns momentos — Ele saiu correndo do refeitório, com o biscoito na boca, em direção a sua sala
Susie — Só quero que acabem logo essas provas pra eu descansar um pouco a cabeça, desse jeito eu vou ficar maluca
Isac — É por causa do sonho ainda, não é?
Susie — E tem como falar que não? É uma das coisas mais sem sentido que eu já sonhei, mas na hora parecia tão vivo…enfim.
Isac — Como você está pensando sobre esse sonho hoje, tem uma boa chance de sonhar com ele novamente.
Susie — Você diz, sonhar a mesma coisa de novo? — Perguntou, com certa curiosidade.
Isac — Não, mas sim sonhar algo similar. Sonhos costumam vir do que fica no seu subconsciente, às vezes algo que você pensa e depois esquece e fica lá, às vezes algo sem relação alguma.
Susie — Se eu sonhar com isso novamente, espero não ficar tão perturbada.
Isac — Sonhos são bem mais interessantes do que parecem, podem servir para explicar muitas coisas sobre uma pessoa.
Susie — Olha, não são nem quatro da tarde ainda, se você ficar falando de sonhos eu vou ficar com vontade de dormir.
Isac — Bem, parece que o Cayel não estava tão errado então — Ele riu
Susie — Pra variar um pouco.
Isac — Falando nele — Ele se virou, vendo que Cayel vinha pelos corredores
Cayel veio se aproximando rapidamente, com a mochila nas costas, checando os bolsos dela enquanto andava
Isac — E aí, achou o que estava procurando?
Cayel — Mais ou menos, por isso que trouxe a mochila, estou tentando lembrar onde eu coloquei — Ele sentou em uma cadeira, continuando a vasculhar os bolsos de sua mochila
Susie — Se você limpasse essa mochila igual falamos para você limpar, quem sabe não fosse mais fácil.
Cayel — Eu já falei que vou limpar, mas isso não é importante agora.
Isac — Algum dia vão fazer escavações arqueológicas nessa mochila.
Cayel — Vocês falam como se eu fosse achar o túmulo de um faraó na minha mochila, nada aqui é tão velho assim…eu acho — Por fim, checou o último dos bolsos, e finalmente encontrou o que procurava — Ah há! Achei!
Isac — E o que é?
Da mochila, Cayel tirou uma caixa de figuras, praticamente miniaturas, de monstros do jogo de cartas
Cayel — Eu achei elas ontem numa lojinha depois que voltamos pra casa, estavam em promoção e eu não resisti em comprar.
Susie — Um pacote de figuras de ação? — Ela olhava para aquela caixa, com fascínio e curiosidade
Isac — Acho que na caixa está escrito que são miniaturas, agora de quais monstros?
Cayel — É o que vou descobrir agora — Ele começou a abrir a caixa, com cuidado para não rasgá-la
Susie — Nem ao menos olhou se te enganaram na hora que chegou com isso em casa…impressionante.
Cayel — Tá tá tá, deixe as críticas pra depois por que eu estou animado pra ver isso aqui — Ele abriu a caixa, e puxou o plástico que vinha embaixo dela, onde estavam apoiadas as figuras — E olha lá!
Na caixa tinham cinco figuras, dos mais diferentes tipos de monstros, sendo elas o Rainbow Dragon, Gearfried the Swordmaster, Witch of the Black Rose, Jet Synchron e Speed Warrior
Isac — UMA MINIATURA DO JET SYNCHRON! — Exclamou o rapaz, extremamente animado — É muito bem feita, olha só essa coisinha.
Susie — Ok, até eu tenho que admitir que estou surpresa — Ela olhava aquelas figuras atentamente
Cayel — Como são cinco, e nós somos três, vou guardar as outras duas que sobrarem.
Isac — Isso quer dizer que cada um de nós pode pegar uma delas?
Cayel — Sim — Ele mal terminava a frase e Isac começava a falar por cima dele, pegando cautelosamente a figura do Jet Synchron para si
Isac — Jet Synchron.
Cayel — Eu sabia que você ia pegar ele, tava na cara. Eu vou querer o...caramba que decisão complicada…vou deixar você escolher primeiro Susie.
Susie — E por que? Está tão em dúvida assim?
Cayel — Bem, o Rainbow Dragon é um dragão, você tem um dragão, e a Witch of the Black Rose é a bruxa da rosa negra, vocês podem ficar conversando sobre maquiagens e outras coisas femininas, fora que você já tem o dragão da rosa negra, o que custa ter a bruxa também?
Susie — Primeiro, você está mesmo considerando ela? E segundo, eu não sou doida igual você pra ficar conversando com os objetos inanimados.
Isac — Não escuta ela Jet Synchron, ela não falou por mal — Sussurrou Isac, para sua figura
Susie — Correção, doida igual vocês…
mas por que da bruxa?
Cayel — Por causa do conto.
…
Susie — Eu já devia ter esperado essa…
Cayel — E então, qual você escolhe?
Susie — Ainda que essa coisa toda de rosa negra já tenha enchido minha paciência por hoje, eu vou ficar com ela — Ela pegou a miniatura, podendo olhar ela mais de perto.
Isac — Coincidência?
Susie — Não começa, Isac.
Cayel — Beleza, agora essas três voltam comigo, devo deixar o Speed Warrior com o May quando passar perto da oficina dele.
Isac — Vai encaixar bem na oficina.
Cayel guardou as outras três miniaturas na caixa, colocando ela de volta na mochila, com cuidado.
Susie — Bem, obrigado pelo presente, é de muito bom gosto.
Cayel — Disponha — Ele fez um sinal de joinha — Por falar nisso, vão ficar aqui depois do horário? O ginásio de duelos vai estar aberto, mesmo que a gente não vá ter aula de duelos até o fim da semana.
Isac — Se você for ficar, eu devo ficar, caso contrário vou pra casa, arranjar um lugar perfeito pra deixar o Jet Synchron.
Cayel — Eu vou, no caminho pra sala eu encontrei o Ardan, ele me disse que Aria ainda está querendo o duelo de desempate.
Isac — Lá vai você se meter com a garota dos heróis de fogo novamente.
Cayel — E eu lá tenho culpa? Eu sou a vítima aqui!
Susie — Eu vou ir pra casa e descansar um pouco, estou cansada demais para duelar hoje — Respondeu ela, suspirando.
Cayel — Uma soneca não faria nada mal também
…mas eu tenho deveres a cumprir
Susie — Se você tivesse metade dessa energia pra estudar o resto das matérias, não passaria tantos problemas com o boletim.
Cayel — Se eu ver mais de dois números na minha frente que não sejam ataque e defesa eu te garanto que vou cair no sono.
Isac — Sem brincadeiras, ele cai no sono lendo dever de casa de álgebra.
Susie — Até acharia incrível você saber isso, mas vocês são praticamente vizinhos, vivem visitando um a casa do outro.
isac — Só você quem mora mais distante mesmo
Eles então continuaram conversando até o sinal tocar, autorizando a saída dos alunos.
Cayel e Isac foram para os campos de duelo, treinar para os exames que estavam por vir e também se divertir um pouco
Susie por sua vez caminhava sozinha para casa, era uma caminhada silenciosa sem nenhum dos seus dois amigos a seu lado, aproveitava para conversar com seus próprios botões
. . .
Susie — (Finalmente, paz por algumas horas, meu corpo está implorando por um descanso, não sei por que estou tão cansada esses dias) — Olhava com cuidado para atravessar as ruas, mas boa parte delas estavam vazias — (Essa coisa toda de pássaro e rosa hoje fez uma bela de uma confusão na minha cabeça, não passam de histórias infantis, mas não nego que me fez pensar naquele sonho mais do que eu devia…)
Observou o céu pouco antes de entrar em casa, parecia que ia chover mais tarde
Entrou em casa, deixou a mochila perto da cama e tirou a miniatura que havia ganho de Cayel de dentro dela, colocando a Bruxa da Rosa Negra na escrivaninha próxima a sua cama
Pegou uma toalha e um par de roupas novas e foi tomar um banho para se refrescar
Após ter tomado seu banho, foi até a cozinha fazer um breve lanche antes de se deitar, enquanto preparava algo para comer pode perceber as gotas de chuva, começando a cair pela janela
Susie — Melhor eu não esquecer de fechar elas dessa vez
Fechou as janelas, se alimentou e subiu novamente para seu quarto, deitou-se debaixo de suas cobertas quentes e encostou seu rosto no travesseiro, deixando que o sono a levasse para seu momento de descanso
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Dava para sentir o aroma doce do ar entrando por suas narinas, um cheiro refrescante que entrava e percorria os pulmões completamente, uma sensação fresca que passeava pelo corpo
E quando abriu seus olhos, pode finalmente ver o porquê.
Em sua frente, de olhos fechados estava o garoto de olhos castanhos e cabelos escuros, seus rostos a milímetros de distância, seus lábios tocando uns aos outros, as mãos entrelaçadas
Quando teve consciência do que estava acontecendo, seu corpo arrepiou e sentiu um amigável calor de vergonha esquentando seu corpo
Poucos momentos depois, seus lábios se separavam, e o rapaz abria seus olhos, vendo a garota olhando direto em seus olhos, como se fosse a única coisa que importasse em todo mundo
Sarthus — Caramba…que vexame, me desculpe — Ele falou, sem jeito mas sorridente — É que…caramba…eu… — Ele se embolou nas próprias palavras — Eu gosto muito de você Cylia, de ficar perto de você…e depois de te ver contente por causa da rosa eu…ah, eu estou me embolando todo.
Vendo ele tentar achar as palavras certas e o jeito como agia, completamente envergonhado, fez com que ela gargalhasse brevemente, sorrindo logo em seguida.
Cylia — Não precisa se desculpar tanto, está tudo bem…sei o que quer dizer — Ela respondeu, de maneira meiga — Eu também gosto de passar meu tempo com você, adoro cada momento…
As palavras dela também tiraram um sorriso ainda maior dele.
Sarthus — Nem imagina o quão contente eu fico de ouvir isso — Ele riu, em seguida se sentou no chão, deitando-se na grama — Cylia, posso te pedir uma coisa?
Cylia — É claro, o que seria? — Ela então se sentou ao lado dele, olhando para seu rosto.
Sarthus — Será que você poderia me beliscar?- Perguntou o rapaz, olhando para ela
A pergunta inusitada deixou ela confusa
Cylia — Te beliscar? Mas por que?
Sarthus — Porque se isso for um sonho…eu não quero acordar de jeito nenhum — Ele respondeu, sorridente.
Cylia — Ah…bem, eu poderia, mas não quero machucar você.
Sarthus — Você jamais me machucou, eu confio em você.
Cylia — Eu sei que você confia…eu também jamais machucaria você de maneira alguma, mas… — Ficava relutante em falar a última parte da frase, como se ficasse presa em seu peito.
Sarthus — É por causa das pessoas da vila? — Ele então completou parte do que ela queria dizer, para qual ela apenas acenou a cabeça, confirmando com um sim — Não precisa se preocupar com eles, estamos longe deles, além do que, não vou deixar ninguém te fazer mal aqui.
Cylia — Você…promete? — Perguntou, olhando para ele, fazendo com que ele visse seu próprio reflexo naqueles olhos avermelhados.
Sarthus — Não só prometo, eu juro — Respondeu de imediato, quase num átimo.
Cylia ficou extremamente contente em ouvir aquela resposta, significava muito para ela, ela deitou do lado de Sarthus, para observarem o céu, que começava a escurecer.
Sarthus — O que você acha que são as nuvens? — Perguntou ele
Cylia — Nuvens? Hum…acho que são a casa dos anjos, por que? — Perguntou ela de volta, curiosa
Sarthus — Eu acho que elas são o ninho do maior pássaro de todos!
Cylia — Um ninho desse tamanho? — Ela riu, só de imaginar a ideia
Sarthus — Tenho quase certeza que aquela pena que achei hoje é dele.
Cylia — Bem, aquela pena é realmente grande, mas de onde viria um pássaro tão grande assim?
Sarthus — Ele quem trás a noite, mora junto do sol e da lua, e ele tem a penugem mais escura de todas, eu vejo ele sempre nos meus sonhos.
Cylia — E como ele é? — Perguntou, interessada no que o rapaz dizia
Sarthus — Eu sei que ele é muito grande, muito muito grande, maior que todos os pássaros, e tem asas escuras, iguaizinhas a noite. Ele sempre sobrevoa mas nunca consegui vê-lo de perto
Cylia — Mas, e se não for um pássaro? — Questionou ela — Parece muito grande…como um dragão.
Sarthus — Mas dragões não tem penas
Cylia — Bem…isso é verdade.
Eles ficaram mais alguns momentos olhando o céu, vendo a lua subir e iluminar a noite com sua luz
Sarthus — Acho que é uma boa hora para voltarmos, Iriko deve estar esperando por nós, e ainda tenho que preparar algo para jantarmos.
Cylia — Claro, vamos indo
Sarthus se levantou primeiro, estendendo sua mão para ajudar Cylia a sair do chão
Sarthus — Voltaremos aqui outro dia, para ver se a rosa negra já desabrochou
Cylia — Mal posso esperar para vê-la assim, deve ser mais linda ainda
Sarthus — Uma rosa reconhece a beleza da outra, não? — O comentário fez com que Cylia ficasse sem jeito, ainda que muito contente — Desculpe…foi sem querer, haha — Ele gargalhou, logo mais seguiram caminhada de volta para o pequeno acampamento que habitavam
. . .
Conforme foram chegando perto, Sarthus começou a notar que algo parecia estar errado
Sarthus — Estranho, Iriko não acendeu a fogueira ainda? Ele não costuma acendê-la tão tarde assim
O acampamento estava completamente em silêncio, a fogueira apagada, nenhum sinal de ninguém.
Sarthus — Iriko, onde você está? — Ele não recebia resposta alguma — Iriko! Onde você está?
Cylia — (Eu não estou com um bom pressentimento sobre isso…)
E do silêncio da floresta, os primeiros sinais de movimento apareceram, repentinamente.
Eram guardas da vila, devidamente armados, talvez fossem dez ou doze ali, foram todos para cima de Cylia e Sarthus, imobilizando ambos.
Cylia — Não! Me soltem!
Sarthus — EI! O QUE ESTÃO FAZENDO? SOLTEM ELA
Pouco a frente deles, o chefe da guarda apareceu, segurando Iriko em seus braços, que estava desacordado
? — Veja só quem achamos aqui, a busca foi bem sucedida rapazes.
Sarthus — O que fizeram com Iriko? O que fizeram com ele? — Sarthus estava irritado, tentava a todo momento se mover e se soltar, sem sucesso.
? — Apenas botamos o garoto para dormir, ele estava fazendo muito barulho e não quis cooperar, mas agora eu quem pergunto, sabe quem está do seu lado garoto? — O guarda colocou Iriko no chão, voltando seu olhar diretamente para Sarthus.
Sarthus — Sei muito bem, ela é minha amiga, e acho bom vocês soltarem ela agora e deixarem ela em paz!
? — Veja só capitão, o garoto é corajoso — Disse o guarda que imobilização Sarthus
Cylia — Nós soltem agora, vão embora! — Gritou a jovem, também tentando se soltar
? — Aquela quem chama de amiga é uma bruxa fugitiva, e viemos aqui para levá-la para justiça de nossa vila — Disse o capitão, se aproximando de Cylia — Magia negra não é bem vinda neste mundo.
Sarthus — Deixem ela em paz! Ela não fez nada!
? — Isso não é sobre o que ela fez ou deixou de fazer, garoto, mas sobre o que ela há de fazer, o coração de uma bruxa bate em pura maldade e sua magia corrompe os nossos espíritos, assim como fez com o seu.
Sarthus — Ela não fez nada comigo, vocês estão completamente enganados!
Cylia — (Isso é um pesadelo…tem que ser um pesadelo)
? — O único jeito de parar a magia negra é com o calor do fogo, pondo um fim a ela e a tudo em que tocou — Um dos guardas entregou uma tocha apagada ao capitão, que fez questão de acendê-la com uma brasa que restava da fogueira
Sarthus — Não…não não não não não! NÃO FAÇA ISSO! — Na face do rapaz, uma expressão de choque, aterrorizado
? — Que o fogo possa por fim as impurezas trazidas por essa criatura maligna
O capitão ateou a tocha nas cabanas de madeira que haviam ali, fazendo com que pegassem fogo
Cylia — SEU MONSTRO! VOCÊ VAI PAGAR POR ISSO — Gritou ela, enfurecida, tentando de tudo para se soltar
? — Suas ameaças não funcionam contra mim, feiticeira, eu sou um homem íntegro, e agora é sua vez de pagar pelos seus crimes — o capitão se aproximou dela, agarrando-a pelo braço.
Sarthus — SOLTA ELA AGORA! — Ele gritou do fundo do seu peito
O grito ecoou pela floresta, pássaros começaram a voar das árvores, como se gritassem junto do rapaz, após o grito foi como se um silêncio ensurdecedor cobrisse a floresta
E a próxima coisa que se escutou, não foi nem um pouco amigável
Um rugido estrondoso, saindo do meio das árvores da floresta, que tremia até o último dos ossos de cada um dos guardas ali presentes
Até que finalmente se revelou o dono de tal rugido.
? — DRAGÃO! ABAIXEM-SE — Gritou um dos guardas, quando a majestosa criatura sobrevoou por cima da copa das árvores
Era grande, imponente, tinha asas negras e garras afiadas, o mais surpreendente entretanto…é que tinha penas
O dragão sobrevoou com um rasante o acampamento em chamas, trazendo ondas de vento violentas, fortes o suficiente para derrubar aqueles que ainda se encontravam de pé, com a queda daqueles que os imobilizavam, Cylia e Sarthus estavam livres.
Sarthus — Corre Cylia!
Sarthus levantou-se rapidamente, segurou a mão de Cylia e juntos saíram correndo pelo caminho de onde haviam vindo
? — Não deixe que escapem! Atrás deles! — Gritou o capitão, ordenando seus guardas a perseguirem os dois jovens em direção a floresta
Cylia — Me desculpa…eles…atearam fogo no acampamento — Dizia ela em voz triste, enquanto corria
Sarthus — Não se preocupe, o importante agora é deixarmos eles para trás, não pare de correr
Eles seguiram correndo, atravessando arbustos, árvores, não importa o quanto corriam, sempre que olhavam para trás podiam ver um guarda se aproximando
Sarthus — Droga…droga! — Tentavam acelerar o passo, mas era inútil, os guardas vinham diminuindo a distância entre os dois
Sem poder perceber por onde andava, Sarthus acabava tropeçando em uma raiz de árvore, devido a velocidade que estava correndo acabou machucando seu pé
Sarthus — Argh!! — Ele grunhiu em dor
Cylia — Sarthus! — Ela se virou, para tentar ajudar seu colega, mas ele não conseguia ficar de pé por conta do machucado
Sarthus — Fuja Cylia…corre!
Mas o tempo estava vencendo eles, e o guarda havia se aproximado cada vez mais para cercar os dois
? — Não permitirei que fuja! — Disse o guarda
Com seu amigo no chão, não tinha coragem de correr, não queria deixá-lo ali, tudo que conseguia fazer era ir recuando para trás, mas a cada passo que dava, o guarda se aproximava ainda mais
Sarthus — Anda, vai!
? — Se não quiser que nada aconteça com seu amigo, pare agora! — Essas foram as palavras que fizeram com que Cylia parasse completamente
Sarthus — Não escute ele Cylia, eu vou ficar bem, por favor, vá logo!
Mas já era tarde demais
O guarda chegou e cercou os dois, ignorou Sarthus e partiu para cima de Cylia, na tentativa de imobilizá-la.
Ela acabou caindo para trás, ao seu lado podia ver a rosa negra, ainda prestes a desabrochar, aquele era o mesmo local qual havia vindo naquela mesma tarde
? — Você já causou problemas de mais, é hora de vir conosco! — Como medida preventiva, o guarda retirou uma pequena lâmina de sua bainha, que usava para intimidar a garota, conforme foi se aproximando pela sua lateral
Sarthus — DEIXA ELA EM PAZ! — Numa força sobre humana ele se levantou do chão e usando o pé que ainda estava bom, investiu na direção do guarda.
Foi nesse momento que ocorreu a tragédia.
O guarda se virou para defender-se da investida de Sarthus, a lâmina que segurava rente a cintura perfurou o tórax do rapaz, e a expressão em seu rosto dizia mais que mil palavras
Da ferida aberta pela lâmina, uma pesada gota de sangue caiu em cima da rosa negra, manchando-a de sangue
Cylia presenciou tudo aquilo a centímetros de distância, e aquilo fez com que ela explodisse em fúria.
Um grito de pura dor e agonia saiu de seu peito, liberando uma poderosa onda de magia negra que se espalhou ao seu redor.
Quando a onda finalmente se dissipou, uma criatura enorme estava em seu lugar, seus olhos vermelhos como sangue, seus dentes afiados como lâminas, espinhos dos mais pontiagudos
A grande criatura cuspiu uma rajada de chamas, como um clarão, que consumiu o corpo do guarda e a floresta como um todo em chamas negras
O monstro rugiu descontrolado, violento, como se também chorasse a perda do garoto
Cylia no chão, correu para Sarthus, agarrando ele em seus braços, desesperada. Seu melhor amigo, sua paixão, sangrando na frente de seus olhos, ela sentia a vida se esvaindo pouco a pouco do corpo dele.
Cylia — Não…não, não, não, não, não, por favor fica comigo, Sarthus por favor…olha pra mim, vai ficar tudo bem…eu prometo que vai ficar tudo bem… — Disse em voz chorosa, seus olhos lacrimejavam sem controle olhando para o rapaz em seus braços, que respirava fracamente — Me perdoa…me perdoa…me perdoa, me perdoa…isso tudo é por minha causa…por favor fica comigo, fica comigo Sarthus…
Sarthus — Cy…lia — Disse o rapaz, juntando forças para falar, segurando a mão da garota sobre seu peito — Me…desculpe — Ele aproximou seus lábios dos dela, dando um beijo de despedida
Assim que o beijo foi desfeito, ela pode sentir a mão dele se soltando da sua…ele já não estava mais vivo…seus olhos estavam fechados, em seu rosto ficou seu último sorriso, coberto em sangue
Com a última gota de sangue derramada sob a rosa negra, ela finalmente desabrochou, em meio a floresta, coberta em chamas negras
Em seu peito, extrema tristeza, dor, angústia, pesar
Deu o grito mais doloroso que já se fora ouvido, dos mais profundos lamentos de seu peito, que ecoou pelos céus daquela maldita noite, seguido pelo rugido do monstro, tão alto quão um trovão
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Um relâmpago próximo caia por conta da tempestade, seu estrondo fazia com que Susie levantasse de imediato da cama
Susie — AAAAAAAAH! — Ela olhou para seus lados, arrepiada, aterrorizada com o que havia acabado de ver — Não…não foi real…nada disso foi real… — Ela repetia as palavras para si mesma, ofegante, em negação, enquanto sua mente pouco a pouco se lembrava de onde estava.
A tempestade atormentada pelo resto da noite, durando até o momento que o sol nascesse no horizonte
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