Youtube Love

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Achei que deveria colocar mais um capítulo, para verem do que a história realmente se trata. Espero que se entusiasmem tanto com a Clara, como eu! Beijo :*

***

— Muito obrigada, Dona Júlia!

Saí a correr da lavandaria, com o fato de Marcos cuidadosamente embrulhado numa daquelas capas finas para roupa. Só gente rica é que usa disto. Ou gente que não é rica, mas tem gosto de gente rica, como a minha amiga Lili.

Coloquei o fato com o maior cuidado possível na parte de trás do meu carro, e segui até à casa do meu chefe, em modo velocidade furiosa. Posso cair em muitos estereótipos femininos: sou dramática, emotiva, e tenho a mania que tenho sempre razão. Mas se há um estereótipo feminino que não se aplica a mim, é ser má condutora. Adoro conduzir, e conduzo bem. Desde miúda, o meu pai quis passar-me por tudo o seu amor por carros e condução. Queria que eu colecionasse carros em miniatura, e queria que eu conduzisse um carro mal tivesse altura para isso: por volta dos 16 anos. A minha mãe interrompeu logo essa ideia. A primeira vez que peguei num carro foi na escola de condução, para grande tristeza do meu pai. Mas a partir do momento que já estava a ter aulas de condução, o meu pai levava-me a meio da noite para o carro, dar voltinhas pelo bairro. Antes de chegarmos à porta de casa ele dirigia-me um ‘’shhh!’’ e nada daquilo passava para a minha mãe.

Sorri voltando ao presente e agradecendo mentalmente ao meu pai por me ter passado o seu jeitinho ao volante. Graças a isso, chegara a tempo à casa do meu chefe.

Eram 9h25 quando toquei na campainha da casa de Marcos. Aquele prédio ostentava luxo. Altas portas de vidro na entrada, com a escadaria interior em mármore iluminada pelas luzes do teto em madeira. Nada daquilo iria correr bem na minha zona. Alguém se ia lembrar de partir aqueles vidros todos.

TRRRRR!

A porta abriu-se, e dirigi-me para o elevador, que era coberto por espelhos, de alto a baixo. A única parte que não era espelho, eram os infindáveis botões dos trinta andares que aquele prédio tinha. Outras duas coisas que os ricos gostam: espelhos, e prédios altos. Carreguei no botão do trigésimo andar (o meu patrão devia ser o mais rico dos ricos daquele prédio), e esperei os quatro minutos que demoravam até lá chegar.

Olhei para o meu reflexo. Apesar das minhas olheiras persistentes, sentia-me a admirar-me de forma diferente dos outros dias. Sentia-me a apreciar os meus olhos que tanto eram castanho-mel como verde, dependendo da luz, a apreciar as minhas pestanas longas que matavam de inveja a minha amiga Diana; os meus lábios, não muito finos nem muito grossos, mas super bem delineados sem qualquer ajuda de lápis de lábios. E depois, bateu-me a realidade, e fiquei vermelha que nem um tomate.

Estava a sentir-me assim, porque Bryan me chamara ‘’pretty lady’’. Bufei baixinho. Meu Deus, Clara, quão parva consegues ser? É um youtuber. Ele não te conhece, não faz a mínima ideia de quem és. Para.

Dei por mim a pensar naquele sorriso perfeito e tão atraente, um sorriso tão genuíno que quando aparecia até formava pequenas rugas de expressão de volta dos seus lábios finos. Um sorriso que se encaixava na perfeição no seu perfil irónico e brincalhão. Aposto que sorrira dessa forma quando me chamou ‘’pretty lady’’

Para.

Acordei para a realidade quando o elevador fez o som característico de abertura das portas, e dirigi-me até ao meu chefe, que já se encontrava encostado à porta de entrada do seu apartamento, de robe vestido e com um sorriso amigável. Engoliu o que restava do seu café (preto, sem açúcar) na caneca que segurava antes de me cumprimentar.

— Bom dia, Clara. – Pegou no fato que eu trazia repousado no braço. – Obrigado!

— Bom dia, ora essa. Agora vá despachar-se, já não tem assim tanto tempo para se meter na estrada e chegar ao almoço a horas.

Ele olhou para mim e depois para dentro do seu apartamento, em dúvida.

— Queres entrar? Comer qualquer coisa?

— Não, não! – Clareei a garganta, percebendo que tinha sido uma resposta demasiado abrupta. Decidi tentar de novo. – Não, Marcos, obrigada, você tem de se apressar e eu já tenho planos. E já tomei o pequeno-almoço. Mas obrigada!

Já estava praticamente dentro do elevador, quando acabei de falar. Ele sorriu-me em resposta, e fechou a porta. Suspirei de alívio e carreguei no andar zero.

Podia fazer muito pelo meu chefe, mas ainda não entrara uma única vez na sua casa. Nem queria. Era um limite que sentia ser demasiado estranho ultrapassar.

O resto do meu sábado passou rápido. Depois de chegar a casa, decidi adiantar algum trabalho que tinha pendente para segunda-feira, dei um jeito na casa, e acabei o dia a ver um filme.

Fui dormir cedo para aproveitar o domingo para ir visitar a minha mãe. Ela mora a 40 minutos de carro de onde eu moro, numa pequena localidade do outro lado da ponte. Apesar de ter ficado radiante com a minha visita, passou a primeira hora a fazer-me sentir culpada por não aparecer mais vezes. Vocês sabem, coisas de mãe.

Sem saber como, o fim-de-semana já tinha acabado, e já estava presa no trânsito matinal de segunda-feira a caminho do escritório. Bufei exasperada, batendo os meus dedos no volante. Nunca fui uma pessoa paciente.

— Bom dia! – Cumprimentei o segurança que estava sempre na entrada da empresa, correndo até ao escritório. Sem saber como, estava atrasada, algo que não acontece tipo… nunca.

Quando finalmente me instalei na secretária, pronta para começar o meu trabalho, Marcos me interrompe, saindo parcialmente do seu escritório, apenas com a cabeça de fora.

— Clara! Podes chegar aqui?

Fez um pequeno aceno e desapareceu de novo para dentro do escritório. Levantei-me e segui até lá.

— Bom dia, Marcos, o que precisa?

— Senta-te, por favor.

Estranhei a postura de Marcos. Um certo nervosismo emanava dele, enquanto parecia também incontrolavelmente ansioso. Comecei a ficar nervosa.

— Passa-se alguma coisa? – Perguntei, sentindo a minha voz a esganiçar ligeiramente, sinal que estava prestes a ficar desconfortável.

— Sim… Na verdade, sim. E estou bastante nervoso para falar disto contigo, sendo completamente sincero.

Senti o meu coração começar a bater mais rápido. Será que me ia despedir? Eu sou das suas funcionárias mais competentes, nunca falto, faço o que é suposto fazer e mais. E além disso, preciso deste trabalho. Decidir sair de casa dos pais para morar sozinha, sustentar uma casa sem ajuda de mais ninguém, foi uma das coisas que mais me orgulhei de fazer. Ainda assim, é algo que neste momento me está a fazer ficar sem ar. Teria de ir morar para debaixo da ponte. Ou pior. Voltar para casa da minha mãe.

— Sim… continue. – Engoli em seco.

— Como sabes, ser CEO de uma empresa de advocacia não é fácil. E é algo que eu atingi com o meu suor e esforço, quando me diziam que nem o ensino fundamental ia acabar, cheguei até aqui.

» Ainda assim, faltam-me algumas ferramentas essenciais. Já existiram imensas alturas que tiveste de me ajudar tanto a comunicar com clientes estrangeiros, como a escrever documentos. A empresa reparou nessa lacuna que tenho, e dado que vamos ter em breve um grande parceiro internacional, querem que eu melhore o meu inglês. Nisto, tenho um grande pedido a fazer-te.

— Quer que o ajude com o inglês? – Já conseguia falar como uma pessoa normal, agora que sabia que esta conversa não envolvia o meu despedimento. – Claro que o posso ajudar, Marcos, mas acho melhor haver algum tipo de formação profissional e oficial. A empresa não recomendou ninguém?

— Na verdade… recomendaram. Uma escola inteira. Com sede em Santa Bárbara.

— Santa Bárbara, Califórnia?

— Sim.

— Califórnia… EUA? – Continuava a olhar em branco para a cara do meu chefe, sem saber como reagir. Ele suspirou, apertando as têmporas entre os dedos.

— Para uma funcionária que considerava ser o maior prodígio nesta empresa, estás estranhamente lenta hoje.

— Não é isso, simplesmente acho curioso acharem que precisam de o enviar para outro país para aprender uma língua. É verdade que iria estar num local onde toda a gente tem inglês como primeira língua, mas logisticamente é super complicado, estão a pedir-lhe para deixar a sua vida toda para trás para ir de novo para a escola. – Senti que estava a fazer um discurso demasiado adiantado, e que não tinha informação suficiente sobre como isto me iria afetar a mim. Afinal, sou o seu braço direito. – Por quanto tempo iria?

— Seis meses.

Não consegui reprimir uma expressão chocada no meu rosto, seguido de um ‘ah!’ que se soltou pelos meus lábios sem minha autorização.

— Como é que vai estar meio ano fora? E gerir tudo na empresa? Vão colocar um substituto temporário no seu lugar?

— Vão sim. Já estão em reunião com ele neste preciso momento.

— Quem vai ser?

— O Dr Filipe Costa.

Assenti, compreendendo. Tirando o meu chefe, o Filipe mostrava maior capacidade de liderança e gestão de responsabilidades na empresa. Fazia sentido.

— O que me queria pedir, então? Que acompanhe o Filipe durante esses meses? Posso fazê-lo, sem dúvida. E garantir que ele faz tudo como o Marcos prefere, de forma a que quando chegue não estranhe e consiga…

Marcos interrompeu-me com o levantar da sua palma no ar, suspirando nervoso. A minha voz morreu, e limitei-me a olhar para ele, esperando uma resposta.

— Sei que irias fazer esse papel melhor que ninguém, no entanto não é isso que te quero pedir.

— Então?

— Queria que fosses comigo para a Califórnia, Clara.

De novo, a minha cara denunciou-me, e um O se formou nos meus lábios, ao mesmo tempo que o meu coração desistiu da sua função de pompear sangue, e ficou quieto. Ótimo, vou morrer aos 24 anos.

Marcos notou a minha surpresa e falta de reação evidente, pelo que limpou a garganta e continuou o seu discurso.

— Sei que é pedir muito, acredita que sei. Mas vais-me fazer imensa falta lá. Contigo do meu lado, conseguirei gerir os assuntos da empresa cá de Portugal juntamente com o Filipe de forma mais eficiente, uma vez que vais estar comigo e disponível para falar com eles sempre que eu estiver em horário de aulas. – Ele calou-se a ele mesmo, rindo ironicamente por segundos. – Nunca pensei voltar a dizer isto quase nos meus cinquenta anos. – Segundos depois, olhou ansioso para mim, voltando a ficar sério. – Clara, íamos ser uma grande equipa, e irias ajudar em muito esta mudança, de forma a beneficiar também o sucesso da empresa. Além de que te iria aumentar substancialmente o salário, como é óbvio. Sei que é um grande compromisso.

— Se é. – Foi tudo o que consegui dizer. Ainda estava em choque.

— Vou dar-te o dia de hoje para pensares nisso. Vai para casa, tira o dia. Descansa e pensa. Achas que me consegues dar uma resposta amanhã?

Respirei fundo.

— Sim, acho que sim. E agradeço a oferta, acho que vou mesmo tirar o dia, se não houver problema.

Marcos sorriu, visivelmente mais aliviado. Levantou-se da sua cadeira e contornou a mesa até mim, apertando o meu ombro de forma encorajadora.

— Óbvio que sim! Vai para casa. E obrigado, Clara.

Levantei-me.

— Não me agradeça já, ainda não lhe respondi.

— Eu sei. Mas obrigado na mesma. Só o facto de considerares significa muito para mim.

Saí do escritório do meu chefe, as pernas a tremer de nervosismo. Tatiana, a minha colega do lado, fitou-me ansiosa, enquanto me sentava lentamente na cadeira da minha secretária e começava a arrumar as minhas coisas.

— Oh meu Deus… Ele despediu-te?! – Tatiana levou a sua mão com unhas perfeitamente feitas à boca. – Como é que ele conseguiu fazer isso? És o braço direito dele, por amor de Deus! Passas-lhe as camisas!

— Nem tanto, né. – Revirei os olhos. – Simplesmente as busco na lavandaria…

Calei-me. Isso não era melhor.

— O que importa?! Como se atreve em despedir-te?! Céus, se até A Clara Sousa é despedida, Deus tenha dó de todos nós.

Ela estava a ficar visivelmente agitada. Devia estar a pensar em como ia sustentar a sua manicure, pedicure, cabeleireiro e pestanas mensais. Apertei-lhe as mãos nas minhas, e sorri na sua direção, tentando acalmá-la o mais depressa possível. O resto das cabeças no escritório já se estavam a virar lentamente na nossa direção. O pessoal adora fofoquice, tenha a idade que tiver. Baixei o tom da minha voz, de forma a que só ela me ouvisse.

— Tatiana, calma, não fui despedida.

— Ahhh, que alívio! – Disse, respirando fundo.

— Nem tanto. – Retorqui, torcendo o nariz, enquanto terminava de arrumar as minhas coisas.

— Então?! – Os olhos dela quase rebentavam de curiosidade.

— Marcos tem de ir durante seis meses para a Califórnia em assuntos de trabalho, e pediu que eu fosse com ele.

Lá estava. O ‘’O’’ de surpresa incontrolável nos lábios dela, tal como esteve nos meus.

— Isso é enorme! O que disseste?

— Ainda não disse. Ele deu-me o dia para descansar e pensar no assunto.

— Mas tens ideia do que vais dizer?

Suspirei.

— Nem uma ideia.

Despedi-me dela com um pequeno sorriso e um aceno, ao qual ela respondeu enviando um beijo pelo ar e dizendo ‘’boa sorte’’ com os lábios de forma muda.

Segui até ao carro, ignorando os olhares curiosos que passavam por mim. Nossa, a Clara a sair do escritório antes das oito da noite? O mundo vai acabar.

Conduzi em piloto automático até casa. Toda eu estava em piloto automático. Não podia acreditar que tinha uma decisão tão grande para tomar, em menos de 24h. Uma decisão que ia mudar imenso a minha vida no futuro próximo. Ia ficar sem meus amigos, minha família. Tinha de falar com eles, entender se isto era boa ideia.

Entrei em casa num reboliço, chutando os sapatos para qualquer lado e colocando o casaco no bengaleiro da entrada. Andei de um lado para o outro uns cinco minutos, simplesmente respirando fundo. Precisava me reagrupar comigo mesma, pensar friamente no assunto e decidir se valia a pena.

A vibração do telemóvel no bolso traseiro das minhas calças tirou-me do meu transe, e vi que tinha uma notificação no e-mail. Abri, e era Marcos, agradecendo de novo o fato de eu considerar fazer a viagem, e explicar as condições, caso eu aceitasse.

Meu Deus.

O aumento no salário era mesmo… notável.

Isto seria ótimo para mim. Conseguiria juntar uma quantia generosa, e trazer para Portugal, de forma a estar segura em caso de imprevistos e emergências. Sim, eu sou essa pessoa. Quero estar sempre prevenida. Dah, sou uma advogada.

E partiríamos na sexta-feira.

Nem podia acreditar. Se disser que sim, daqui a quatro dias estarei num avião em direção à Califórnia.

Notas finais
O que acham? Agradeço mesmo que deixem o vosso feedback, é o que me vai motivar para continuar e dar seguimento à história. Até ao próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.