Y.o.u.t.h.
1 You Are In Love
Notas iniciais
E voltei com uma baita de uma surpresa: Anos atrás, quando postei a One-Shot "Something that you really have to know", me pediram - mais de uma vez - uma short ou long-fic sobre aquele universo. Já na época, comecei a desenvolver, mas engavetei o projeto. Dois ou três anos depois, já nem sei ao certo, trago Y.O.U.T.H à luz do Spirit, e espero que gostem! ♥
"Você fica com a camiseta dele
Ele mantém sua palavra
Pela primeira vez, você esquece
Dos seus medos e seus fantasmas
Um passo, não é muito
Mas disse o bastante"
—You are in love, Taylor Swift.
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—Oi, e aí?
—Oi.
Por mais incrível e inacreditável que pareça, foi assim que tudo começou. Não houve uma avassaladora paixão à primeira vista, livros derrubados no corredor da escola e nem nada disso. Começou, na verdade, de uma forma bem sem-graça, previsível e nada romântica, como costuma ser na vida real. Apenas um "Oi" trocado em uma festa que, para ser bem sincera, eu sequer estaria caso o convite não tivesse partido de Hinata -Uma das minhas amigas e, coincidentemente, a anfitriã.
—Então… Neji, não é?
—Aham. —Ele respondeu, de forma bem amena, levando seu copo descartável até a boca para mais um gole de refrigerante (esperavam Vodka?). —E você é Tenten.
—Mitsashi, é. —Concordei, fazendo um leve aceno com a cabeça para dar ênfase. —Tenten Mitsashi. Como você…?
—Da mesma forma que você. —Ele deu de ombros. —Ainda não esqueci do rosto de todo mundo da escola, sabe?
—Ah, sim. —Suspirei de uma forma que hoje posso descrever como "um pouco" brusca. Não podia deixar de me surpreender sobre ele, cujo eu não via desde nossa formatura, se lembrasse do meu nome. Sim, eu sei, eu ainda me lembrava dele, nada mais justo, certo? Porém, cá entre nós, é extremamente mais fácil se lembrar de alguém que é constantemente mencionado no seu ciclo social do que alguém cujo o rosto não é visto já a mais de um ano.
Okay, deve parecer um pouco confuso, então deixem-me explicar: Já na época da escola, Neji Hyūga não era mais um qualquer, e não digo isso pelo fato dele descender de uma das famílias mais tradicionais da cidade, pois essa informação pouco importa. Ele era conhecido por quê, aos 18 anos, já era o campeão municipal de judô. E quando conversei com ele naquela festa, dois anos depois, já era a aposta principal do campeonato estadual.
—Faz tempo, não é? —Ele me questionou. Até ali, eu não tinha sequer notado que havíamos permanecido em silêncio durante alguns minutos enquanto eu divagava sobre os tempos de escola.
—Faz sim. Dois anos. —Me ajeitei na cadeira, virando-me um pouco mais para o lado dele. Os olhos perolados me encararam com curiosidade. —Fazendo faculdade?
—Pretendo. —Declarou, balançando seu copo de maneira distraída. —Mas por enquanto estou tentando me focar no campeonato. Anda tomando muito tempo meu.
—Ah…
—Mas e você? —Ele sorriu de leve.
—Administração. —Falei, apenas por brincadeira, sorrindo de forma divertida. Ele levantou uma sobrancelha, parecendo não acreditar.
—Você?
—Não pode ser? —Eu ri, e ele sorriu de canto.
—Não tem cara de quem faria administração.
—Você não tem cara de lutador de judô. —Menti. Obviamente, ele tinha.
—Não?
—Não.
—E tenho cara de quê?
—Bombeiro. Policial. —Sugeri. E, por um instante, ele pareceu ponderar aquelas ideias. —Contador.
—Contador? —Diante da última opção, ele voltou a erguer os olhos sobre mim, trazendo consigo um sorriso debochado. Touché. —Eu tenho cara de contador? É sério?
Eu ri. E não mais precisei responder àquele assunto, já que em meu tom bem-humorado ele tornou-se capaz de obter as respostas para os absurdos que eu comentara em forma de piada. E, logo, ele ria também.
Olha só, nem parecia antes mal nos falávamos.
Depois desse ponto, a conversa fluiu. De assunto em assunto e, talvez, uns quinze copos de refrigerante. Vez ou outra surgia alguém para cumprimentar-nos, trazer mais algumas bebidas e salgados, ou simplesmente questionar o que achávamos da festa. Eu gostaria de poder dizer à vocês, hoje, que estava achando o evento interessantíssimo, esplendoroso, ou coisa parecida. Entretanto, o que realmente me cativava eram aquelas aleatoriedades despejadas sobre a mesa num tom informal que não combinava em nada com aquela festa rica. Até ali, Neji mostrara-se apenas mais um bom papeador, uma ótima companhia para passar o tempo e substituir o tédio.
Eu já comentei que mal nos falávamos? Ah, sim, já.
Em algum ponto durante aquelas horas, perguntei-lhe sobre a família e relacionamentos. Tive, então, o desprazer de ver seu pequeno sorriso tornar-se quase ínfimo, e seus olhos claros perderem um pouco do brilho que eu andava admirando durante aquele tempo (não podem me julgar! Eram lindos olhos!).
—Não sou cara pra isso. —Alegou. Me lembro de ter levantado uma sobrancelha, interessada.
—Por que não seria?
Neji espreguiçou-se em sua cadeira, fazendo com que uma dúvida curiosa surgisse em minha mente: não sabia se estava cansado ou excessivamente incomodado com o assunto.
—Amar alguém é... Cansativo. Demanda tempo, dedicação. Não é coisa pra mim. O amor restringe, sufoca. Eu já rompi correntes demais para ser voluntário a mais uma.
—O amor não precisa ser assim. —Retruquei. Ele me observou, curioso. —Tem medo de se prender. Mas porquê?
—Tenho medo de ter minha liberdade roubada. —Confessou.
Embora não soubesse como, aquela conclusão parecia fazer certo sentido à mim. Eu não concordava, de fato, mas podia compreender seu ponto de vista peculiar. Afim de continuar com a única coisa que me impedia de colocar alguns doces na bolsa, dizer tchau e sair pela porta, questionei, em tom de brincadeira:
—Então Neji Hyuga é afeito à livre pegação?
Ele riu. Tinha uma risada bonita.
—A única coisa que pego é gripe. E até isso é raro.
Olhei-o de cima-à-baixo bem descaradamente, para falar a verdade. Era pra manter o clima da conversa, é claro, mas tenho de dizer que não foi uma visão ruim. Talvez eu devesse me lembrar de agradecer à Tenten do passado por isso.
Sinceridade é tudo que temos aqui, meus caros.
—Você? Por que será que não posso acreditar?
—Não sei. Por quê?
E o cafajeste soltou um sorriso tão cafajeste que em nada combinava com suas feições sérias.
—Não deve ser difícil pra você arranjar alguém de uma noite só. Digo, olha só pra você!
—É minha impressão ou está me elogiando?
Corei, desviando o olhar. Talvez não tivesse sido minha primeira intenção, mas, sim, não era uma mentira.
Droga!
—Também não deve ser difícil pra você. —Ele soltou. Senti meu rosto ficar ainda mais quente, apenas para me lembrar que eu odiava profundamente aquela sensação de queimação.
—Está me elogiando? —Rebati, utilizando-me da mesma estratégia.
—Estou. —Cretino! Havia acreditado que ele usaria do mesmo método que eu.
“Burra, burra, burra”
—Está dando em cima de mim? —Questionei, provocativa. Ele tomou mais um gole de refrigerante, seu rosto tornando-se pouco expressivo, e acabei por pensar que havia passado dos limites recentemente descobertos. Será que o havia ofendido? Era apenas uma brincadeira.
—Estou.
Oi?!
—Está? —Voltei a perguntar, descrente. Entretanto, não tive resposta além de um sorriso de canto.
—Vocês parecem estar se divertindo. —Uma voz surgiu, sua dona ostentando longos cabelos loiros e olhos incrivelmente verdes. Sorri para Ino, falsamente apreciando sua chegada inesperada. Era óbvio, ao menos para mim naquele momento, que ela fizera tal aparição propositalmente. Ino gostava de provocar os colegas. Hoje, já não posso fazer a afirmação com tanta certeza.
—Estamos… Batendo um papo. —Expliquei, olhando para Neji pelo canto dos olhos, notando uma aparente diversão com a situação. Ele sabia que eu estava esperando uma resposta!
—Entendo. Mas sinto muito atrapalhar, a anfitriã requisita sua presença. —Ela sorriu, falando o mais refinadamente possível, olhando de Neji para mim. Não era muito difícil imaginar para quê Hinata me queria, já que eu havia notado a alguns minutos o início de uma pequena confusão para fotos. Provavelmente todos nós seríamos capturados em algum momento, até mesmo Neji.
—Ah… Tudo bem. —Concordei, me levantando. Olhei para trás, para Neji, e pude notar uma certa decepção atravessando seu rosto (ou seria apenas minha impressão?). —Hm… Até depois. —Me despedi, sem jeito algum.
—Até.
Horas depois, eu me agradeceria por aquela despedida antecipada; Não voltei a vê-lo na festa.
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—Deveríamos parar de ter as mesmas ideias. —Aquela voz grave disse, parecendo acima de mim, por pouco não sendo responsável pela perda de metade das minhas compras mensais.
—Nem todos gostam de sustos, sabia? —Comentei enquanto me virava, a pequena cesta de mercado firme em minhas mãos, talvez parecendo um pouco ranzinza, mas de fato achando certa graça daquele ato.
—Você gosta. Caso contrário, não adoraria terror. —Porque, eu me pergunto, eu tinha de ter falado aquilo para ele naquela noite, semanas antes? —Mas me desculpe, não era a intenção, na verdade.
—Sempre aborda as pessoas assim? —Indaguei, recebendo uma expressão surpresa em retribuição.
—Não costumo abordar pessoas.
—Faz sentido. —Retruquei. Não estava verdadeiramente brava, é claro, e todo aquele início de conversa trazia um tom notável de brincadeira. Entretanto, ele me olhou, contrariado.
—Enfim, me desculpe, novamente. Não vai se repetir. —Ele colocou ambas as mãos para o alto, como se fosse um refém, e achei graça da situação. O primeiro sorriso fora arrancado de meus lábios de uma forma tão fácil que me surpreendi. Sua habilidade de desenvolver diálogos comigo era de fato impressionante.
—Não foi um insulto, Neji. —Esclareci, e ele sorriu pra mim de forma pequena e rápida.
Descarado.
—Eu sei que não.
MUITO descarado.
—Eu deveria poder dizer às pessoas que tem um sacana por baixo da carinha bonita de puritano. —Afirmei, enquanto ajeitava minhas próprias compras dentro da cesta.
—Você pode dizer, se quiser. Mas não sei se vão acreditar. —Ele comentou em tom sério, muito embora eu soubesse, de alguma forma, que falava aquilo com humor.
—Não vão acreditar que você é um sacana? —Ri baixo. —É, provavelmente não. Eu deveria ter gravado.
—Muito pelo contrário, Mitsashi. Será muito difícil acreditarem que eu tenho uma carinha bonita de puritano, mas agradeço a opinião.
Quem havia dito aquilo mesmo? Ah! Eu havia dito aquilo.
—Me lembrarei disso da próxima vez. —Aleguei, sem olhá-lo.
—Vai ter uma próxima vez? —Ele questionou e, dito isso, comecei a cogitar a possibilidade de enfiar minha cara bem ali, no meio da sessão de frios. Quem saberia se eu não ficaria bem com um presunto no rosto? Ao menos disfarçaria a minha expressão de paspalha.
—Dadas as últimas duas vezes, não duvido um terceiro encontro. —Admiti, ainda que um pouco contrariada em dizer aquilo. —Mas preciso dizer que é até bom ver um amigo, às vezes.
—Bem… —Ele pareceu considerar os sentidos daquela fala, e tempos depois eu descobriria que realmente o fizera — Não me parece uma possibilidade ruim.
—Você quer dizer… um encontro de verdade? —E, mais uma vez, minha mente havia sido direcionada à primeira frase, deixando-me ridiculamente apegada a uma esperança inexistente que vinha de algum lugar das profundezas do meu cérebro. Eu não estava desesperada daquela forma! Hoje vejo, no entanto, o quanto aqueles atos falhos prediziam um sentimento que, àquela altura, mal havia nascido.
—O quê? —Ele lançou a mim sua melhor expressão confusa, e repentinamente notei a mim mesma encarando a forma com que as suas sobrancelhas se curvavam para realizar aquele feito. —Ter uma nova amiga.
—Ah, é claro. —Eu sorri, sem graça, provavelmente falhando por completo na minha tentativa de parecer minimamente menos desconcertada quanto me sentia.
—Acho que deveríamos continuar andando pelas sessões, não é? —Ele constatou, e só então notei que estávamos a minutos parados naquele corredor e, além do mais, eu tinha uma bandeja de presunto fatiado em mãos e uma cestinha em um dos braços.
Compras, era aquilo que eu estava fazendo. Minha total prioridade no momento, é claro.
—Vamos juntos? —E, apesar de não ser uma das melhores opções de propostas imaginadas, era igualmente irrecusável.
Eu me lembro de ter sorrido.
—É claro.
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—Tenten? —A voz que vinha do telefone, apesar de um pouco distante, era facilmente reconhecível. Neji parecia cansado do outro lado da linha, respirando com certa dificuldade, e atribuí aquilo a algum tipo de treinamento. Apesar disso, ele usava o mesmo tom lúdico de sempre.
—É bom ver que ainda se lembra. —Brinquei, e tive o prazer de ouvir o que me pareceu ser uma risada rápida e abafada.
Nas duas semanas passadas entre nosso aleatório encontro no supermercado e aquele dia, havíamos ambos criado um novo hábito: As ligações eram quase diárias, apesar de extremamente curtas e despreocupadas. Não havia um horário certo, e, na maior parte das vezes, ligávamos apenas para cessar dúvidas inúteis como "Qual seu suco favorito?" ou "Ei, o que você viu na Netflix esses dias?".
Na verdade, hoje em dia começo a pensar que talvez essa última não fosse tão inútil assim.
Naquela quinta-feira à noite, no entanto, um questionamento diferente surgiu.
—Alguém já te falou sobre a reunião?
—Reunião? —E, bem, aquilo já era resposta o suficiente, além de soar muito melhor do que apenas "Não" ou o indelicado "Não fui convidada".
—Sim. Os colegas do grupo da escola, na churrascaria. Na verdade, acho que foi ideia da Ino.
E porquê diabos eu não fiquei surpresa, mesmo?
—Todo mundo?
—Até onde sei. Ela chegou a citar você quando me ligou.
—Mas ela nem me mandou mensagem! —Protestei.
—Ela nunca manda mensagem.
Na verdade, haviam controvérsias. O fato era que Ino era inteligente o suficiente para ligar os pontos, ainda que eles fossem invisíveis demais a qualquer outra pessoa. Já naquela época, ela tinha olhos de águia, asas de anjo e planos diabólicos.
—É, você tem razão. —Confessei, suspirando de forma derrotada.
—Você vai? —Ele indagou.
—Isso é um convite?
—Não era desde o início?
Vencida.
—Tudo bem, eu vou.
É claro que aquilo tinha de acontecer em algum momento. Afinal, eu e Neji tínhamos amigos em comum no colégio, e não seria a vida adulta que mudaria aquilo. Não era a primeira vez, e não seria a última. O único detalhe era que, embora supostamente nos conhecêssemos, não havíamos tido qualquer tipo de interação prolongada antes da festa.
—Que bom. É sábado, às oito. —E desligou.
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Então, antes que eu pudesse sequer ver (ou me preparar psicologicamente, de qualquer forma), já era sábado.
Às oito e meia.
O atraso, embora fosse parecer extremamente mal-educado assim que eu cruzasse a porta daquela churrascaria, não me surpreendia. Não pelo costume, mas pela consciência de que todos os que estavam ali, ou ao menos todos que tivessem enfrentado algum santo dia aquele mesmo problema, compreenderiam a situação.
—Você errou o caminho?! -Ino riu, quase gritando, e aposto que já com algumas doses de saquê no organismo, assim como todos os outros ali. É, minhas convicções foram abaixo. —Qual é, a cidade é minúscula.
—Sabe quantas churrascarias existem aqui? Não é tão difícil assim se perder. —Argumentou Lee a meu favor, e o agradeci com um gesto de mão.
—Ele está certo. —Concordei, numa tentativa de amenizar minha própria imagem.
—Acho que errou de propósito. Não queria nos ver. —E, dito isso, os olhos verde-água focaram-se por poucos instantes em Neji, que marcava presença ao lado de Naruto e conversava sobre esportes, exibindo o costumeiro semblante fechado. Tive certeza, naquele exato momento, que Ino não estava bêbada o suficiente ainda.
E meu ato héroico e de completa discrição, é claro, foi virar a garrafa de saquê que já estava sobre a mesa para encher mais uma vez o copo dela.
—Acho que você está imaginando coisas. —Rebati, na resposta mais batida que alguém jamais poderia imaginar aquela insinuação.
—Não é isso que as fontes me dizem.
—Eu duvido que as fontes sejam suas. —Naquele ponto, todos nós sabíamos que na verdade as fontes eram do namorado dela, Sai, que sequer estava lá para se defender de minha acusação (nada) maldosa.
Deixo claro que definitivamente não me arrependi do comentário, uma vez que era impossível estar mais certo.
—Se chegam à mim, são minhas. —Não pude tirar a satisfação daquela conclusão dela, também.
—Bem, as suas fontes estão enxergando coisas demais.
—Fontes sobre quê? —Questionou Sakura, incluindo-se de supetão na conversa ao aproveitar a brecha que Ino deixara ao tomar mais um gole de bebida. —Ino está inventando coisas de novo?
Talvez eu deva dizer que, geralmente, as fontes estavam certas e Ino acabava sendo a pessoa mais bem-informada que eu conhecia, muito embora não fizesse o tipo fofoqueira. Para quê ela usava todas aquelas informações além de provocações bobas e o bico de cupido, ou como Sai as conseguia com tamanha precisão, eu nunca soube, e penso que talvez seja melhor nunca saber.
—Não, só estava testando ela. —Contestou, ao recolocar o copo na mesa.
—Você nunca testa nada além de paciência, Ino. —Alegou Sakura, e pude ouvir Shikamaru, que ocupava o lugar ao meu lado, dar uma risada baixa.
—Muito engraçado vindo de quem tem o namorado que menos interage. —E Sasuke, que completava um trio com Naruto e Neji, fingiu não ouvir o comentário enquanto se concentrava arduamente em sua próprio porção de carne (mesmo que a pouca distância deixasse óbvio que ouvira).
—E o que isso tem haver com o resto? Ele não enche o saco de ninguém com esses comentários, pelo menos.
"É... Ou quase isso."
—Se eu te encho tanto a paciência, me troca por um coelho e vai morar com ele. Duvido que ele pague o aluguel.
Acho que esqueci de comentar: Sakura e Ino, muito além de melhores amigas, dividiam um apartamento por pura conveniência de ficar perto da faculdade conceituada onde ambas cursavam História da Arte. Apesar de não parecer, elas realmente se amavam de uma forma muito esquisita, um amor cujo não tive a oportunidade de ter com algum de meus amigos; Lee talvez fosse o mais próximo que eu havia tido dessa experiência mas, naquele momento, já faziam meses que não nos falávamos de fato, e era claro como a vida adulta tragava as relações de todos nós.
—Eu tenho certeza que um coelho não mancharia todo santo móvel de batom.
—Batom?! Eu tenho provas inegáveis de que você manchou o sofá com coisa pior!
Opa!, pensei, contendo o impulso de rir. Levantei o olhar para Sakura, que corava gradualmente conforme Ino procurava supostas provas no próprio celular.
—Se você puder me dizer que isso não é isso, eu retiro o que disse.
As fotos foram achadas, finalmente. Sakura estava vermelha o suficiente para que alguém, talvez, achasse que ela sofria um choque anafilático ali mesmo.
—E então? —Insistiu Ino, observando a impressão imediata da amiga.
—Eu te odeio. —Respondeu ela, por fim, mexendo tão nervosamente nos cabelos tingidos de rosa que parecia querer esconder o rosto atrás deles.
—Não odeia, nada. —Ino riu, voltando a guardar o celular num dos bolsos do casaco. —Sei que me ama.
—Amo mesmo. —Suspirou Sakura, incapaz de negar aquilo que todos nós já sabíamos. —Mas vai tomar no cu.
Foi então que toda a mesa explodiu em risadas.
—Tudo bem, tudo bem. —Sakura suspirou, dando-se por vencida. —Mas espero que saiba que vai ter volta.
Ino riu, descrente.
—Eu duvido.
—Bom, Ino, quem sabe ela não pegue emprestado uma das luzes ultravioletas da perícia criminal e vasculhe o apartamento do Sai. —Sugeriu Shikamaru, que mantivera-se quieto até ali.
Ino, pela primeira vez desde que eu a conhecia, arregalou os olhos numa expressão de medo. O miserável era um gênio.
—Ela não faria isso.
E, em reação àquele comentário, vi Sasuke olhar furtivamente para nós.
—Ela faria. —Concordou ele, simples. Naruto, ao lado, assentiu com um aceno.
Eu tinha que concordar que ela realmente era capaz. Observei todos na mesa, encontrando complacência em todas as expressões, — menos a de Ino, claro — inclusive na de Neji, cujo rosto sério nos encarava com certo divertimento. Me impedi por alguns instantes ali, naqueles traços fortes, e logo estava sendo encarada de volta.
O quê? Acham que só vocês têm direito de babar e passar vergonha?!
—Está tudo bem, Tenten? —Questionou Naruto. —Você 'tá meio aérea.
—Meio? —Ironizou Sakura que, enfim, tinha desistido de provocar Ino.
—Está com sono? —Sugeriu Lee, fazendo com que eu tivesse uma grande dúvida sobre se ele estava sendo inocente ou sacana.
Até hoje não sei responder.
—Ah, é claro, Lee. —Olhei para Ino, que tinha um sorrisinho malicioso estampado naqueles lábios cor-de-rosa, aparentemente recuperada da vergonha e com a nova vítima escolhida: Eu. —Ela está contando judocas ao invés de carneirinhos.
Tive que me esforçar para não corar, e mesmo assim acho que falhei. Tenten pimentão na área, galera.
—Ino! —Exclamou Sakura, fingindo indignação.
—O quê?! Ela não negou.
—Vamos considerar que é mais fácil conhecer um judoca que uma ovelha por aqui. —Comentou Neji, como se estivesse falando de qualquer outra coisa além daquilo, e quase fazendo com que minha alma desse tchauzinhos ao meu corpo. —Acredito que eles também sejam mais bonitos.
E, ainda por cima, ele me encarou de volta com essa frase.
—Concordemos que depende do judoca. —Naruto pontuou, o que fez com que Shikamaru, Lee a até mesmo Sasuke dessem risadinhas. —Eu preferiria que uma ovelha estivesse nos meus sonhos que sua cara, Neji.
—Você preferiria que Sasuke estivesse nos seus sonhos. —Rebateu o Hyūga, parecendo mais divertido que irritado.
—E porquê ele não estaria? Seu melhor amigo nunca está nos seus sonhos? —Desafiou Naruto, novamente.
—Ei! —Shikamaru protestou.
—Você também é meu melhor amigo, Shika. Mas você tem o Chouji. —Chouji esse que, por sinal, não estava ali, assim como Hinata ou Sai, por questões de trabalho. Sabem como é difícil reunir todo mundo depois que a escola acaba?
—Hm. —Foi tudo que Sasuke, expressivo como sempre, demonstrou.
—Não tenho certeza que o Neji queira o Lee desafiando ele até na hora de dormir. —Ino observou. —Como é? "Vamos lá, Neji, aposte comigo quem de nós dois corre por mais tempo na esteira" ?
—Eu jamais diria isso. —Afirmou Lee, fazendo com que todos nós o encarássemos. —Novamente. —Ele fez questão de acrescentar.
—Sei. —Respondemos eu e Neji, simultaneamente. Nenhum de nós parecia disposto a fingir que Lee não era um viciado em academia, apesar de inexplicavelmente preservar a forma magra e alta que sempre tivera.
Nunca vou entender como ele não ganhava massa estando o tempo todo enfiado em alguma smart fit ou qualquer outra dessas franquias. Mas acontece, eu acho.
—Então, Neji, isso significa que você não sonha com seus amigos? —Questionou Ino, dando continuidade ao assunto. —Sonha com o quê? Campeonatos e gatorade?
—Não foi isso que eu falei. —Rebateu ele, ajeitando os cabelos castanhos no rabo-de-cavalo baixo que usava. —Eu sonho com os meus amigos. Alguns, pelo menos.
E olhou pra mim pelo canto do olho.
Pra mim?!
Pois é.
Ino deu risadinhas casuais pelo resto da noite, um detalhe que notei apenas horas depois. Talvez eu estivesse com a mente ocupada demais pra me incomodar.
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Sabe quando você sente que algo vai acontecer antes de acontecer?
Não é que eu previsse um próximo encontro. É só que o acaso às vezes pode pregar as peças mais previsíveis possíveis.
Em todo caso, podem me chamar de Mãe Diná (mesmo a "previsão" tenha tido duração de três semanas, apenas).
—Ei! —Ouvi a voz conhecida chamar, clara demais para estar longe, e me virei já com um sorriso contido brotando nos lábios. Neji parecia cansado, a camisa molhada de suor grudando por cima de seu tórax, alguns fios de cabelo igualmente colados à sua testa. Estava correndo — o que não era surpresa, pois eu também estava.
—Resolveu fazer uma trilha diferente ou está me seguindo? —Questionei, enquanto ele parava em minha frente e respirava para recuperar o fôlego.
—Te seguindo. —Ele respondeu, de súbito, e eu ri.
—Soube desde a primeira vez que nos encontramos "por acaso" —Fiz questão de destacar as aspas com os dedos —que você era um stalker.
—Foi um bom chute, mas não. Resolvi correr por lugares novos.
—No mesmo horário em que eu corro? Se levantou às 06 e resolveu correr aqui? —Levantei uma das sobrancelhas, encarando-o.
—Bem, eu… —Bela primeira vez, ele pareceu hesitar, inclusive desviando um pouco o olhar. —Eu não sabia se você estaria aqui, é claro.
—É claro. —Repeti, fazendo um gesto com a mão como se o convidasse a caminhar. Logo, estávamos andando lado-a-lado. —Você não está acostumado a ser descoberto, não é?
—Não sou acostumado a ir atrás de ninguém. —Rebateu ele, com simplicidade. Devo admitir que perdi um pouco a fala naquele momento.
—Então… —Comecei, suponho que ainda preservando a cara de paspalha com a qual a último comentário havia me deixado. —Você veio por…
—Na verdade, —Ele iniciou, interrompendo a minha pergunta (que, na verdade, não acho que precisasse de conclusão, de qualquer forma). —eu queria perguntar se quer sair comigo.
—Quê?!
Me desculpem se o cérebro de vocês não trava às vezes, mas o meu era o próprio Windows XP ao ouvir aquilo.
"Error 404, o arquivo Tenten.doc parou de funcionar."
—Se você quiser! —Ressaltou ele, pego de surpresa por aquela fala.
—Eu quero! —Exclamei, tentando parecer menos interessada naquilo do que realmente estava; sei que vocês estão cansados de me darem descontos, mas eu peço pelo menos mais esse. —Digo, eu quero, óbvio.
Óbvio?
Eu poderia jurar que até hoje não entendi essa reação. Portanto, não me perguntem.
—Que bom. —Ele sorriu novamente, e aquela provavelmente foi a primeira vez que admirei sua habilidade de fazer qualquer situação, principalmente constrangedora, parecer o mais normal possível. Isso, inclusive, viria a calhar muito bem em certos outros momentos que eu provavelmente não terei culhões para pôr aqui.
Mas quem sabe?
Andamos mais alguns segundos em silêncio, ambos um pouco constrangidos, antes que ele me perguntasse, enfim:
—Amanhã? —Uma sexta-feira, só pra deixar claro.
—À que horas?
—Você pode escolher. Não tenho treino. —E, até onde eu sabia, ele não trabalhava formalmente em outro lugar.
—Jantar, então. —Sorri. —Tenho horas a cumprir na lojinha.
Eu, por sinal, trabalhava formalmente de forma alternada como atendente de uma loja de presentes convenientemente próxima de casa. Ao menos na época.
E, além disso, eu achava que seria mais difícil para Ino fazer com que os espiões de Sai nos encontrassem à noite.
—Às nove?
—Às nove. —Confirmei.
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—Então você mora numa república? —Questionei, já com alguns mililitros de álcool no sangue. Ele riu baixo em reação.
—Não é exatamente uma república. Somos três caras em um apartamento de três quartos. —Ele deu de ombros. —Há espaço pra todo mundo, inclusive para a esteira do Lee.
Concordei, acenando a cabeça positivamente, como se o compreendesse plenamente. Bem, não compreendia de fato, mas era muito boa em concordar quanto àquelas afirmações.
—Mas… Você poderia ter um apartamento se quisesse, não? Quer dizer, sei que quando estávamos na escola você e Hinata moravam no mesmo condomínio.
O sorriso dele se apagou aos poucos, e entendi aquilo como um sinal de que aquele era um assunto complicado demais para se discutir em um restaurante num primeiro encontro.
—Minha família é… Complexa. —Ele afirmou, claramente evitando cruzar o olhar com o meu. —Eu estava sob a tutela do meu tio até os dezoito, desde que meu pai morreu. Digamos que ele não estava muito satisfeito em me ter lá durante boa parte do tempo. —Um suspiro, seguido por uma tentativa incomodada de ajustar a própria postura. —Quando terminei o Ensino Médio e decidi deixar a faculdade esperar, achei que era melhor arranjar um lugar fora da propriedade dele.
—Ele…?
—Ele não me expulsou, se é isso que quer saber. As coisas até andavam melhorando. —Uma risada curta e baixa. —Mas vejo que foi melhor.
—Entendi. —Disse, sem muitas opções além daquela. O olhar dele voltou ao meu rosto e tentei sorrir de forma gentil. Gosto de pensar que meu objetivo, ao fazer aquilo, era fazer com que ele se sentisse reconfortado de alguma forma, mesmo que provavelmente não precisasse.
—E você?
—Ah, eu moro com a minha mãe. -Respondi rapidamente, já acostumada a dar aquela resposta. Vocês se surpreenderiam em quantos clientes se interessam pela sua vida particular enquanto escolhem uma lembrancinha aleatória. —Meu pai não mora por aqui.
—Outro bairro?
—Outro estado. —Rebati, enquanto tomava mais um gole da minha bebida. —Eles se separaram quando eu tinha uns seis anos. Eu vou pra lá, às vezes.
Não comentei sobre o fato de que ele não vinha pra cá, mas eu logo descobriria que eu e Neji ainda teríamos muito tempo para discutir problemas de família (que, por sinal, eram bem numerosos da parte dele, também).
—Você disse que fazia faculdade no dia da festa. Sei que foi brincadeira, mas…
—Não faço.
—Por quê? —Aquela questão geralmente me irritava, mas ali parecia valer à pena.
—Porque quero entrar na academia de polícia.
Por um momento, senti que viveria uma cena de filme galhofa, pois Neji quase pareceu querer cuspir o saquê com a surpresa.
—Mas você…
—Eu sou baixa, eu sei, mas é altura o suficiente. —E com suficiente eu queria dizer no limite. Meus exatos 1,65 eram a exigência mínima para que eu passasse, ao menos ali.
—Você é corajosa. —Ele sorriu.
—A maioria diria louca, mas fico agradecida pela gentileza. —Nesse momento, nossos pedidos chegaram, e admito que passamos um tempo concentrados nos devidos pratos. Entretanto, assim que me lembrei novamente que aquilo era, sem sombra de dúvidas, um encontro, me propus a continuar nossa conversa: —Você também falou algo sobre querer fazer faculdade.
Ele mirou os olhos cinzentos em mim, como se estivesse admirado por eu ter guardado aquela informação, ainda que ele também tivesse guardado as minhas.
—Sim. Mas sem dúvidas não em Economia.—Ele riu, e segui o ritmo daquela pequena piada interna. —Quando toda essa loucura dos campeonatos acabar, quero me formar em Engenharia.
—Também é uma profissão que eu não imaginaria pra você. —Ri. —Mas vejo que combina mais que contador.
Mais uma vez, nós dois rimos. Devo admitir que era incrível vê-lo daquela forma, tão solto, tão espontâneo quanto conseguia ser; comparado com a imagem que eu havia formado na época do colégio, e até mesmo à versão do Neji que eu havia visto na churrascaria quinze dias antes, ele parecia muito mais à vontade ali, apenas comigo. Compartilhávamos esse efeito um no outro, uma vez que eu igualmente parecia conseguir sentir a comodidade na medida certa, nos impelindo a falar, rir, criando cada vez mais conexões, aprovações, gostos e desgostos.
Eu jamais teria pensado que alguém poderia não apenas ter, mas ser tanta liberdade. Creio que Neji também não.
Mas foi.
Afinal, não à toa, fui pedida em namoro dois meses depois. E disse sim.
Quer dizer, pelo menos depois de quase cair da escada da minha casa. Mas qual era o problema? Eu estava feliz!
“Ding, dong! A campainha da sorte batendo na porta de Mitsashi Tenten!”
Talvez ela dure um ano, ou dois e meio, não sabíamos na época. Mas éramos muito privilegiados por sentir o tempo proporcionado pela juventude em nossas veias, abrindo caminho, esquentando nossos corpos, nos dizendo para seguirmos em frente, vivermos as vidas que tínhamos.
E isso… Isso já era o bastante.
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