Y.o.u.t.h.
10 Lego House
Notas iniciais
Carol não queria mais olhar para ele. Não queria nunca mais estar sequer perto dele. Mas era necessário, ela sabia. Era necessário, se quisesse estar livre dele para o resto da vida.
Ethan estava ao lado dela, dando apoio, como sempre. Ele, de terno e ela, usando seu melhor traje, esperavam, aflitos, pela decisão do juiz.
Como se o coração parasse de bater, Carol recebeu o formulário preenchido, onde estavam carimbadas em vermelho as palavras “Pedido Negado”. Foram momentos difíceis para Ethan e Carol, mas ele tentava consolar a mulher em prantos o melhor que podia. Assistiram, os dois com o coração na mão, enquanto Ed andava vitoriosamente para fora do local, livre para transitar onde bem entendesse, já que a ordem de restrição pedida por Carol lhe havia sido negada por falta de provas.
O máximo que a mulher conseguira do juiz fora uma visita escoltada de policiais à casa onde antes morava com o marido para pegar seus pertences. Lá, Carol conquistou a simpatia dos dois policiais que a acompanhavam junto de Ethan, quando, ao adentrar a casa com o grupo, encontrou grande parte de seus pertences, e dos de Sophia, quebrada e destruída sobre o carpete da casa, ou queimada no jardim.
Ed ria sozinho sobre a poltrona da sala enquanto os cinco retiravam as coisas da mulher dentro de caixas. Depois que a última caixa fora retirada e colocada na viatura, nenhum dos três – Ethan, Carol ou Sophia – jamais voltou àquele lugar.
Os policiais levaram o casal dentro da viatura para seu loft no centro da cidade. Os abusos de Ed despertaram tamanho sentimento nesses homens que eles até os ajudaram a subir as caixas para o apartamento no décimo andar. Carol agradeceu dando-lhes água e biscoitos enquanto brincavam com Sophia.
Ethan tirou o terno, olhando em volta. Ainda que eles tivessem perdido uma batalha naquele dia, recusavam-se a perder a guerra. Ele caminhou até Carol e beijou sua testa, exatamente como quando seus lábios tocaram a pele da mulher pela primeira vez, meses atrás, naquela mesma sala em que estavam.
Os três tinham mais uma longa, porém gratificante, tarde pela frente. Reorganizaram o espaço do loft, criando um pequeno espaço para os brinquedos de Sophia ao lado do banheiro, onde antes ficava apenas o canto de estudos de Ethan, para que ela tivesse um lugar para brincar.
Ethan liberou mais espaço no closet para as roupas e calçados de Carol, e os livros e objetos dela foram espalhados pelo loft como decoração, assim como os dele, que antes já estavam lá.
— Lar, doce lar – Ethan suspirou, sorridente, preguiçosamente deixando seu corpo cair sobre o sofá, e Carol se sentou ao lado dele.
Ela admirou tudo o que eles tinham conquistado até então. Tinham um lar, Sophia tinha um bom pai, e a mulher, um companheiro bondoso e carinhoso. Ethan conquistara o amor de sua vida e, juntos, conseguiram livrá-la das mãos de Ed. Juntando seus salários, especialmente depois que Carol fora promovida na biblioteca, eles conseguiram passar a pagar as despesas e o aluguel do apartamento sozinhos, não mais precisando da ajuda dos pais de Ethan, como ele tanto queria.
— Eu amo você – ela disse, afinal, com a mão no peito dele.
— Cento e trinta e quatro dias – ele disse, pondo uma expressão de confusão no rosto dela – e algumas horas. Faz cento e trinta e quatro dias que eu espero ouvir essa frase. Cento e trinta e quatro dias desde que vi você além daqueles livros e ouvi sua voz pela primeira vez.
— Você é louco – ela sorriu abertamente, puxando-o para um beijo – Cento e trinta e quatro e olha onde estamos agora.
— Eu não podia estar mais feliz – ele sorriu, olhando para ela – Eu te amo, Carol. E faz cento e trinta e quatro dias que espero para te dizer isso.
Ethan inclinou-se para mais uma sessão de beijos intercalados com risos joviais e, de repente, nenhum dos dois sentia mais a força da gravidade ou o peso do mundo sobre seus ombros. Tudo finalmente parecia certo.
— Papai! – Sophia correu para a sala, com um DVD nas mãos – Vamos assistir?
— “Procurando Nemo”? – ele sorriu – Claro, filha. O que vocês acham – ele incluiu Carol na pergunta – de a gente pedir uma pizza para acompanhar? Porque eu estou morrendo de fome depois de tanta arrumação.
— Sim! – a menina concordou, alegre.
Enquanto Ethan pedia a pizza, Carol arrumava o laptop sobre a mesa de centro em frente ao sofá. Ethan e ela ainda não tinham economizado o suficiente para comprar uma televisão, de forma que os filmes de Sophia, trazidos de seu antigo lar, somente podiam ser assistidos por meio do computador.
Os três se aconchegaram no sofá, e o filme começou, sendo que Sophia já sabia quase todas as falas de cor. Aquele era o filme preferido da pequena, embora cá e lá ela reclamasse que devia haver sereias nele.
Dentro de quinze minutos, ouviu-se o “ding dong” da campainha, indicando que a pizza chegara. Carol foi buscar o refrigerante na geladeira enquanto Ethan atendia à porta, onde havia um garoto asiático e uma pizza quentinha. Ethan deu o dinheiro a ele e pegou a caixa com a entrega.
— Muito obrigado, – ele estreitou o olhar para ler o crachá do entregador – Glenn. Pode ficar com o troco.
E assim permaneceram Ethan, Carol e Sophia, vivendo como uma família, seguros e felizes, com a certeza de que, mesmo Ed estando à solta, ele não voltaria a perturbá-los, e tudo e continuaria estando em paz, enquanto estivessem daquela forma: unidos. Ethan, o herói, Carol, a deusa, e Sophia, a princesinha dos infinitos contos de fadas que o casal contaria às crianças na hora da historinha toda semana.
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