You're my happy days
1 Deixe-me te fazer feliz
Notas iniciais
Vim com uma one nova pra vocês. Esta não é tão grande, certo? Mas espero que gostem mesmo assim ♥
Fiz ela com muito carinho. Levei mais ou menos um mês pra desenvolver ela todinha, então espero de coração que esteja boa.
Eu revisei várias vezes, mas caso achem algum erro gramatical me avisem para eu corrigir. São 9k de palavras, algo sempre passa urheurehru
Boa leitura.
Capítulo Único – Deixe-me te fazer feliz
(...)
Nico sempre teve dúvidas do que seria a felicidade de fato. Desde pequeno a única coisa que ele compreendia bem era tristeza e decepções. Sempre acontecia algo, como um Karma o seguindo sem piedade atrás de algo para sabotar.
Afinal de contas, coisas ruins acontecem com pessoas ruins. Essa foi a conclusão que chegou quando tinha dez anos.
Ao ficar mais velho começou a compreender alguns acontecimentos da sua condição peculiar. Era um dia de sol, estavam todos se divertindo na piscina brincando e rindo sem parar. Seus primos estavam lá reunidos em harmonia, sem brigas ou desavenças. Nico se sentia muito bem, alegre. Era o primeiro dia perfeito que ele tinha em anos.
Sua mãe não voltou do mercado aquele dia.
Era uma espécie de equilíbrio, ele compreendeu. Um mecanismo que influencia toda uma estrutura dependendo de pra onde ele gira. Ele pode girar na mão certa, mas as outras peças consequentemente se movem pro lado oposto e vice-e-versa. Era um ciclo vicioso.
Nico descobriu naquele dia que tinha a capacidade de influenciar na felicidade dos outros. Isso o assustou.
Fez um teste uma vez, quando Bianca enviou suas cartas às universidades esperando um retorno. Durante o mês de espera Nico se sabotou: na escola, em casa, psicologicamente e fisicamente.
Enquanto fazia isso Bianca parecia brilhar, ascender maravilhosamente. Quando a carta de admissão da UCLA chegou ela regozijou em pura euforia.
E então Nico compreendeu seu papel.
Fez vários testes e descobriu algumas outras coisas: Essa espécie de maldição não lhe permitia contar sobre ela, sempre que tentava era como se sua voz lhe fosse roubada. O direito de falar sobre esse segredo não lhe foi dado; como se não fosse seu próprio segredo para contar.
Descobriu também que não se aplicava a todas as pessoas que conhecia só àquelas que ele mais ama na vida: Bianca e Hazel. Era uma enorme responsabilidade, mas ele arcaria com ela. Estava acostumado com a infelicidade excessiva.
Entretanto, um dia essa verdade absoluta mudou. Pois pela primeira vez em anos Nico começou a desejar sua própria felicidade a todo custo. Quando se apaixonou sabia que havia se condenado e automaticamente ao rapaz, e que de certa forma o peso seria em dobro sobre seus ombros por amar ele tanto ou até mais que as irmãs, mas no fundo ele não ligava. Era mais um para ele proteger, mas não ligava.
Conseguir o amor de William Solace poderia valer alguns minutos infelizes para suas irmãs. Elas entenderiam.
Foi a partir daí que Nico começou a compreender a felicidade de verdade, mas também a temer ela.
Como poderia ser feliz ao mesmo tempo que seu amante sem influenciá-lo?
(...)
Nico revirou-se na cama exausto. Havia ficado até tarde ajeitando seu trabalho de conclusão de curso e só queria uma hora de sono decente, mas sua ansiedade não gostava de quando ele dormia. Então ali estava ele acordado, com menos de uma hora de sono e a cabeça funcionando a mil por minuto.
Resmungou alto em desagrado. Virou para o lado atrás do Will, mas ele já havia levantado para se arrumar para o trabalho. Passou a mão pelo seu lado da cama sorrindo doce.
Estavam juntos há cinco anos. Por cinco anos conseguiu ter uma vida tranquila ao lado de Will, um tipo de rotina que nunca pensou que fosse ter e amar. Durante esse tempo tiveram vários altos e baixos; brigas terríveis que Nico gostaria de fingir que nunca aconteceram, mas passaram por todas elas de cabeça erguida.
William era um tipo de pessoa única que via o lado positivo em todas as coisas ruins que lhe acontecia. Nunca era um mal dia para ele, mesmo quando Nico sabia que ele estava tendo um dia péssimo, por mais que raros.
Will sempre chegava com um sorriso no rosto e dizendo seu famoso "amanhã será outro dia" beijava Nico afetuosamente. Ele parecia não se importar e sorria sempre. Nico decidiu começar a fazer o mesmo.
Parecia que nada além deles importava; que eles não iriam quebrar. Parecia que eles poderiam ser felizes juntos e isso aquecia o coração de Nico.
Sentiu a cama se mexer e mãos quentes acariciarem seu rosto. Abriu um sorriso enorme virando-se para Will.
O homem o olhava com ternura abaixando-se para depositar um beijo demorado nos lábios de Nico.
― Bom dia. ― falou Will apoiando-se em seus braços por cima do rapaz. Ele sorriu:
― Bom dia. ― respondeu segurando o rosto de Will em suas mãos: ― Já vai sair?
Ele negou: ― Só depois que você levantar e tomar café comigo.
Nico alargou o sorriso: ― Me dê cinco minutos.
Will saiu de cima dele esperando na cama enquanto Nico se arrumava. Seguiram juntos para a cozinha com a mesa já posta.
O rapaz pegou de um copo de suco enquanto observava Will de soslaio. Ele parecia nervoso, diferente de seu típico humor alegre de manhã. A postura estava tensa e rígida, ainda que mantivesse o sorriso meigo em seus lábios.
― Will ― chamou Nico: ― Tudo bem?
O Solace o encarou concordando:
― Sim, não se preocupe. ― assegurou apertando a xícara em suas mãos: ― Só estou nervoso por hoje. Tenho uma cirurgia para acompanhar com o senhor McGee e isso pode definir meu futuro depois da residência.
― Ele é o melhor cirurgião cardiovascular do hospital, certo? ― perguntou Nico relembrando o homem grisalho e mal humorado que ele topou uma das vezes que visitou o Will na residência. Não era flor que se cheirasse.
― Esse mesmo. E se eu puder provar o meu valor ele pode pegar minha tutela daqui por diante. ― comentou Will sonhador: ― Seria incrível poder trabalhar na área que desejo com ele.
Nico sorriu pequeno. Claro que era super importante para a carreira de Will ser aluno de um profissional de renome. Seria um grande empurrão em direção ao sucesso na profissão.
Mordeu o lábio decidido. Segurou a mão de Will apertando-a de forma reconfortante. Will sorriu virando ela e entrelaçando seus dedos:
― Vai dar tudo certo, confie em mim. ― disse Nico se inclinando para frente depositando um beijo nos lábios do namorado: ― O homem é um ogro, mas você é talentoso. Vai se sair bem.
Will abriu um sorriso largo apertando a mão de Nico. Deu-lhe um selinho e depois se afastou tomando o último gole de seu café.
― Obrigado por acreditar em mim, amor. ― agradeceu soltando a mão de Nico do aperto: ― Vou escovar os dentes e sair. Tenho alguns relatórios de pacientes pra fazer agora de manhã.
― Ok.
Will então voltou pelo corredor e Nico ficou ali sentado à mesa pensativo. Tinha sua pré entrega do TCC de noite e ela era tão importante quanto a entrega final, mas Will também merecia aquela oportunidade de ouro.
Havia uma leve diferença entre uma oportunidade profissional e uma entrega de trabalho. Respirou fundo se afastando da mesa. Will voltou sendo recebido por um abraço de Nico. Sentiu o doutor rir do gesto retribuindo o aperto em seus braços. Beijou sua testa afastando-se do namorado.
― Boa sorte hoje, Nico. ― desejou Will sorridente.
― Não preciso de sorte. ― zombou recebendo um rolar de olhos dramático de Will.
― Falou o senhor azarado. ― depositou outro beijo: ― Estou indo. Te amo.
― Também te amo. ― respondeu o vendo sair pela porta de entrada. Abaixou o olhar suspirando: ― Bom, mãos à obra.
Pegou o resto do seu suco e voltou para o quarto que dividiam. Foi até sua mesa onde estava seu trabalho no computador. Suspirando pesadamente pegou o último arquivo salvo que ficou a noite inteira fazendo e excluiu, perdendo no mínimo vinte páginas de estudo paleontológico. Não era uma perda irrecuperável, mas lhe custaria muita nota.
Olhou orgulhoso para seu feito:
― Espero poder ver um lindo sorriso essa noite, Will.
(...)
Nico recebeu uma bronca cabulosa quando chegou à faculdade. Seu professor não só o chamou para uma conversa séria na sala dos professores causando vergonha no rapaz, mas também insistiu em uma entrega valendo metade da nota para dali uma semana com um acréscimo de dez tópicos. Nico resmungou internamente aceitando seu cruel castigo. Ao menos ele aceitaria que entregasse algo mais decente, mesmo valendo menos.
Voltou para casa num muxoxo jogando-se dramaticamente no sofá esperando por sua morte lenta e dolorosa chegar. Quem sabe ela não trazia seu TCC pronto para entrega?
Ouviu barulhos na cozinha o fazendo olhar curiosamente para cima vendo Will parado na moldura da porta com um olhar preocupado. A feição de Nico mudou automaticamente de sôfrega para amorosa se levantando de seu poço do fracasso e abraçando Will pela cintura. O namorado retribuiu, mas Nico sabia que ele ainda estava preocupado.
― Tudo bem anjo? ― perguntou fazendo carinho em suas costas com a ponta dos dedos. Nico soltou um som prazeroso:
― Como foi no hospital? ― mudou de assunto afastando-se o suficiente para encarar os olhos safira do namorado. Will soltou o ar derrotado pela mudança de assunto, mas sorriu amorosamente:
― Eu consegui a residência! ― comentou orgulhoso de si mesmo. Nico sorriu largo o abraçando forte.
― Sabia que conseguira, amor! ― disse o puxando para baixo para um beijo bagunçado e cheio de risadas.
― Obrigado por acreditar em mim. ― murmurou fazendo carinho em seu rosto alvo: ― Começo a Residência amanhã às cinco. Vou ter que levantar mais cedo que o habitual, mas já vai valer a pena.
― Vai sim, com certeza. ― assegurou acariciando o rosto de Will sentindo a barba rala em sua bochecha espetar seus dedos. Sorriu de lado: ― Precisa fazer a barba.
Will arqueou a sobrancelha sorrindo sapeca: ― Estava pensando em deixar crescer. Acho que ficaria ótimo.
― Acho que ia te envelhecer uns bons três anos. ― rebateu Nico maldosamente.
― Mas ficaria sexy. ― ressaltou recebendo um rolar de olhos dramáticos do namorado.
― Não precisa de uma barba para ser sexy, William. ― admitiu depositando um beijo em seus lábios: ― Então nada de barbas. ― zombou: ― Deveríamos sair para comemorar! ― propôs então imaginando onde poderiam ir àquela hora da noite.
Will negou: ― Não precisamos sair pra comemorar. Você aqui comigo é o bastante.
Nico enrubesceu escondendo o rosto no ombro de Will resmungando coisas sem sentido. Sentiu as carícias do namorado em seu couro cabeludo carinhosamente.
― Agora me conta o motivo dessa cara triste. ― pediu num sussurro em seu ouvido. Nico suspirou:
― Perdi o último arquivo salvo do meu trabalho do TCC e recebi uma bronca maravilhosa do professor. ― respondeu dando de ombros como se não fosse importante.
Will franziu o cenho:
― Essa entrega era importante Nico. Por não fez uma cópia do arquivo em outro lugar? ― perguntou sério: ― Além disso, não tinha como resgatar?
― Estava nervoso com a entrega e acabei mexendo onde não devia. O arquivo foi corrompido, então não tinha como recuperar. ― suspirou cruzando os braços: ― Vão aceitar uma entrega valendo metade da nota, mas vou ter alguns tópicos a mais para acrescentar.
Will meneou a cabeça compreendendo:
― Um pouco irresponsável, mas podemos ajeitar isso. ― sugeriu com a mão no queixo.
Nico arqueou a sobrancelha:
― Ajeitar minha falta de responsabilidade ou...?
Will rolou os olhos: ― Isso não tem conserto, mas seu trabalho sim.
― Eu sei que sim. Vou trabalhar nele com carinho pra entrega. ― prometeu convicto.
― Vai mesmo porque vou te ajudar. ― disse piscando para Nico.
― Não precisa Will. ― assegurou.
Will depositou um beijo rápido em seus lábios voltando para a cozinha:
― Isso não está aberto para discussões. ― ralhou sumindo pra dentro do cômodo.
Nico resmungou derrotado voltando para o seu cantinho do fracasso.
Jantaram duas porções de yakisoba que Will havia pedido um pouco antes de Nico chegar.
Will contou como foi a cirurgia que ele assistiu, a forma como o doutor McGee o parabenizou ― brutal e um tanto humilhante, mas era um elogio ― o escolhendo dentre os vários residentes aptos à vaga.
Comentou também do prontuário de alguns pacientes, sobre sua dificuldade em decorar os nomes deles e sempre ter de usar uma colinha nos check-ups.
Nico comentou um pouco sobre como foi a bronca e a forte vontade de mandar o professor a merda, mas que se segurou ao máximo.
Disse sobre ter se inscrito em uma vaga para pesquisador no museu de história para estudo das eras paleolítica e mesozóica. Falou ainda de uma possível oportunidade de estudo de campo no sítio paleontológico no Colorado.
Will o apoiou orgulhoso dizendo que tudo daria certo e outras mensagens de suporte que ele sempre falava, com aquele sorriso meigo que deixava Nico sem graça.
Saíram da mesa e voltaram para o quarto, Will atrás de um banho e Nico encarando o enfadonho trabalho na mesa.
Suspirando recomeçou as anotações em seu notebook e acrescentou os outros tópicos. Levaria bem mais de uma semana se tivesse se sabotado mais do que fizera.
Afundou-se no trabalho mal vendo Will retornar do banheiro e deitar ao seu lado na cama. O doutor se inclinou observando a parte sendo refeita. Crânios e fósseis destacados nas páginas enormes. Will riu:
― É muita coisa pra fazer? ― perguntou na curiosidade. Nico confirmou:
― Um pouco, mas consigo me virar. ― admitiu olhando da tela para o namorado: ― Durma. Já passou da meia noite e você acorda cedo.
Will resmungou: ― Eu disse que iria ajudar.
― Eu sei que vai, mas não hoje. ― disse fechando a tela e colocando na escrivaninha: ― Até eu vou dormir cedo hoje.
Ajeitou-se na cama deitando a cabeça em seu ombro abraçando Will confortavelmente. Sentiu braços o envolver acolhedoramente causando um calor confortável em seu peito.
Will beijou seus cabelos negros sorrindo:
― Te amo, Nico. ― sussurrou o apertando mais forte. Nico retribuiu o gesto:
― Também te amo, Will.
Depois disso eles dormiram confortáveis no abraço durante toda a noite.
(...)
Aquela uma semana passou voando. Foram seis dias diretos com Nico refazendo seu trabalho com Will que gastava seu tempo de descanso com um TCC que nem era dele. Nico se sentia mal por isso, mas Will não reclamou nem uma única vez fazendo o pedido de desculpas morrer pouco a pouco.
O trabalho ficou muito bem feito, digno de um TCC final. Mesmo valendo metade da nota Nico arrasaria nessa metade.
Will estava mais animado que antes. Empolgado com as oportunidades abertas que a residência com o senhor McGee lhe fornecia. Parecia sobrecarregado, levando em conta que dois dias da semana ele dormiu nos dormitórios do Hospital.
Durante essa semana Nico recebeu a ligação do Museu avisando que havia sido aprovado para a entrevista. Nico ficou super contente se permitindo por instantes regozijar-se desse pico de felicidade tão raro.
Não demorou muito, claro, para Will voltar mais cedo para casa por estar passando mal e ser dispensado o resto do dia. Nico culpou-se um pouco fazendo um chá fresco para o namorado se sentando com ele no sofá, apreciando o silêncio e o calor emanando de Will.
No final de semana Will conseguiu uma folga durante a parte da manhã e da tarde do Sábado e resolveu que teriam um encontro. Nico mal acordou e já estava disposto a voltar para a cama com tanta animação praquela hora da madrugada.
― ah vamos Nico! ― pediu Will animado: ― Podemos passar o dia no parque! Faz tempo que não temos um tempinho para nós.
― Nós moramos juntos, Solace. ― resmungou escondendo o rosto no travesseiro. Will riu:
― Eu sei, mas ou eu estou exausto demais para diálogo ou você está nervoso demais para olhar na minha cara. Sinto falta desses momentos só nossos. ― Will falou com o tom de voz melancólico e o encarando com olhares pidões.
Nico se debateu na cama sentando a contra gosto:
― Jogo sujo. ― Ralhou dando um murro de leve em Will. O doutor massageou o local falsamente ofendido e um sorriso vitorioso estampado em seu rosto.
― Vamos então?
Suspirou derrotado: ― Sim, vamos.
― Isso! ― vangloriou-se beijando a bochecha de Nico: ― Você é o melhor.
― Tá, tá. Anda logo e se arruma. ― o empurrou para longe se levantando e indo em direção ao banheiro.
Arrumaram-se no tempo deles e saíram de mãos dadas pra uma caminhada até o parque. Resolveram tomar café em uma cafeteria ali perto e apreciar a vista do parque. Sentaram-se em uma das mesas do lado de fora do café apreciando a brisa boa, ainda que bem fresca.
Por ser sábado havia muitas crianças correndo por entre as árvores; animais passeando e brincando; piqueniques sendo montados; todos empolgados para um dia animado.
Nico tomou um gole apreciando o calor da bebida naquele dia fresco de começo de Primavera. Will aproximou-se dele entrelaçando seus dedos por cima da mesa. O rapaz sorriu satisfeito. Aquela paz maravilhosa era super bem-vinda.
Ficaram um tempo ali aproveitando suas bebidas antes de entrarem no parque. Andaram lado a lado de mãos dadas, sorrisos no rosto e conversas banais. Will comentava o quão atrasado estava nas séries e que não se lembrava da última vez que assistiu algo inteiro sem dormir. Nico riu admitindo estarem na mesma situação.
― Minha mãe ligou ontem quando estava saindo do hospital. ― comentou Will olhando para a grama ressequida sob seus pés: ― Ela quer que a gente a visite na próxima folga.
― Ir pra Califórnia não mataria. ― respondeu Nico: ― Lá deve estar mais quente do que aqui.
Will riu: ― Pode apostar.
― Quando é sua próxima folga? ― perguntou insistindo na conversa. Will amava falar sobre sua família, ainda mais se houvesse a opção de visitá-los.
― Difícil dizer. ― admitiu torcendo os lábios em desagrado: ― Sou residente, Nico. É um termo educado para escravo.
― Dramático. ― zombou rolando os olhos. Recebeu um empurrão no ombro de Will revidando na mesma força.
Ambos riram aproveitando o momento bobo. Nico realmente sentia falta desses pequenos momentos tranquilos no seu dia-a-dia. Às vezes esquecia-se de que eles existiam.
Sentaram-se de frente para o lago encostados um no outro. Nico fechou os olhos sentindo os dedos delicados do doutor massageando seu couro cabeludo. Suspirou prazerosamente.
Deixaram o silêncio tomar conta do momento. Um silêncio bom e cheio de significado. Algumas crianças passaram correndo por eles tirando risadas do doutor da animação das pequenas. Nico ficou tentado em esticar uma das pernas, mas Will pareceu prever isso o olhando de forma repreendedora.
O menor rolou os olhos beijando os lábios rachados de Will. Um sorriso se formou no beijo permitindo ao doutor puxar Nico para se colo sem que o futuro paleontólogo pudesse reclamar sobre.
Afastaram-se do beijo colando suas testas:
― Eu amo você. ― declarou Will beijando a ponta do nariz de Nico. O moreno riu numa timidez repentina por estarem em público:
― Também te amo, raio de sol. ― admitiu saindo do colo dele e evitando olhar ao redor.
Podia sentir os olhares, mas não deixaria que isso o atingisse. O dia estava bom e queria aproveitar enquanto durasse.
― O que acha de passarmos naquela loja de antiguidades que você adora? ― sugeriu se levantando do chão e oferecendo uma mão para Will.
Os olhos do doutor brilharam ficando de pé na mesma hora:
― Vamos com certeza.
(...)
Chegaram a casa com o dia quase escuro. Passaram um tempo na loja de antiguidades e mais outro na livraria ali perto. Quando resolveram comer já passava das três da tarde e a fome já tinha vida própria. Depois do almoço Will insistiu em algo mais “encontro” e foram assistir a um filme de comédia.
Assim que pisaram no apartamento Nico se jogou no sofá exausto. Ouviu Will rir antes de sumir para dentro do quarto. Ficou um tempo largado ali até ouvir seu telefone tocar. Resmungou atendendo sem muito ânimo:
― Quem?
― Nico? ― chamou a voz do outro lado. Nico se ajeitou melhor:
― Bianca? Tudo bem? ― perguntou preocupado. A irmã suspirou:
― Estou sim. ― falou em um fôlego arrastado. Parecia sobrecarregada: ― Mas a Hazel me ligou de manhã chorando. ― admitiu com a voz cansada. Nico retesou-se.
― Por que? Ela está bem? ― insistiu vendo Will reaparecer na sala com o semblante curioso.
― Está, mas passou por um susto. Foi assaltada enquanto ia pra faculdade resolver alguns assuntos hoje de manhã. ― respondeu num suspiro: ― Levaram sua mochila com tudo dentro. Parece que estavam armados.
Nico respirou fundo controlando o pequeno desespero que estava sentindo. Droga! Era sua culpa.
― Por que não me ligou mais cedo? ― perguntou em tom baixo. Will se sentou ao seu lado.
― Ela viu a foto de vocês dois logo de manhã no parque. Não queria atrapalhar o encontro, mas achei que você pelo menos deveria saber. ― respondeu direta.
― Valeu por ligar. Vou falar com ela. ― disse se despedindo e desligando o telefone.
― O que houve? ― Will perguntou segurando a mão de Nico com firmeza.
― Hazel foi assaltada a mão armada hoje. ― respondeu buscando o contato da irmã caçula. Will o impediu:
― Se acalme primeiro, está tremendo. ― pediu aumentando o aperto nas mãos gélidas do namorado.
Nico respirou tentando se acalmar. Era sua culpa. Normalmente sua "maldição" atingia mais o Will do que as meninas, mas os dois estavam se divertindo então claro que ia sobrar para uma das duas carregar o karma. Sua felicidade sempre vinha com um rastro de destruição por onde passava.
Mordeu o lábio com força pela sua estupidez. Sempre fazia isso, sempre se esquecia da maldição quando estava muito perto do Will. Libertou sua mão da do doutor e se levantou.
― Vou ficar quieto um pouco. ― disse em voz baixa entrando no quarto deles se sentando na cama arrumada.
Patético.
Era isso que ele era. Patético. Ele não tinha o direito de ser feliz? Aquilo era tão injusto! Injusto com ele, com as irmãs que eram afetadas sem nem saberem de nada e com o Will. Fechou os olhos fortemente ao senti-los queimar.
Odiava chorar. Aquelas lágrimas de culpa e desespero. A ansiedade borbulhando dentro dele sempre que essas brechas apareciam.
Idiota.
Idiota.
Idiota.
Por quê? Qual pecado ele cometeu para ter um julgamento tão cruel? Qual deus ele irritou para sentir uma punição tão árdua?
Quando foi a última vez que sua felicidade durou mais de doze horas?
As lágrimas já desciam sem controle assim como sua respiração rápida e descompassada. Tapou a boca com as mãos evitando os soluços teimosos e altos. Não queria que o Will o visse daquela forma, que se preocupasse com sua hipocrisia.
Vinte e dois anos vivendo esse pesadelo, já não deveria ter aprendido a lidar? A engolir a maldita ansiedade? A aceitar sua infelicidade?
Então por que doía tanto?
Respirou fundo pela milionésima vez antes de pegar o telefone e ligar para o fixo da casa que ela divida com as amigas. Tocou algumas vezes até uma das meninas atender.
Nico pediu pra falar com Hazel disfarçando ao máximo a voz embargada. A irmã caçula voou para o telefone em segundos.
― Neeks! ― ela falou animada: ― Sinto sua falta, irmão. ― falou ela antes de qualquer coisa.
― Também sinto. ― admitiu sorrindo sem emoção: ― Como você está?
Hazel suspirou: ― A Bia te ligou né?
― Claro que ligou. ― respondeu sério: ― Por que não me ligou? Moramos na mesma cidade praticamente, já a Bianca mora em outro estado.
― Eu sei, mas eu tinha visto a foto que o Will postou de vocês antes de sair de casa. ― respondeu tristonha: ― Quando cheguei à delegacia pra denúncia precisava de um número de emergência. Não pensei muito nisso.
Nico suspirou limpando os olhos com a manga da blusa:
― Tudo bem. ― falou: ― O importante é você estar bem.
― Estou sim. Não reagi ao assalto. ― comentou menos tensa: ― Vou ficar sem celular um tempo, então me liga por aqui qualquer coisa. ― o barulho de algo na casa soou pelo telefone. Hazel gritou algo antes de voltar à atenção pro telefone: ― Tenho que ir Nico. Te amo!
― Te amo também.
Abaixou o telefone deixando-o no colo. Pelo menos ela não estava ferida.
Will bateu na porta entrando cautelosamente. Nico terminou de limpar os olhos discretamente encarando o chão sem coragem de olhar para o namorado.
Will sentou-se ao seu lado abraçando-o afetuosamente. Não disse nada, não o reconfortou como muitos fariam. Só ficou ali como apoio, seu suporte. Sua ajuda silenciosa.
As lágrimas voltaram e se permitiu chorar de novo. O gosto salgado da culpa e da miséria. Lágrimas que Will nunca compreendeu, mas sempre o ajudou a limpar. Era tão injusto não poder contar a ele. Ele merecia saber! Por Deus ele era o mais afetado de todos! Ele tinha de saber...
Ele tinha que ficar bem.
Nico suspirou derrotado.
Ele nunca ficaria bem.
(...)
― Nico você está me ouvindo? ― resmungou Will enquanto se ajeitava na frente do espelho.
― Hum? ― Nico murmurou emergindo metade do rosto do travesseiro.
― Tenho uma cirurgia para acompanhar hoje. Ela vai levar de seis a oito horas seguidas. ― explicou se aproximando da cama: ― Vou ficar incomunicável pelo resto do dia praticamente, mas chego cedo.
― M’okay. ― concordou voltando a dormir na sequência. Will rolou os olhos descrente daquilo.
Caminhou até a mesa deles destacando uma folha de anotações e escreveu a mesma informação que acabara de falar para Nico já que ela seria deletada de sua mente quando acordasse. Colocou ela sobre a mesa de cabeceira, depositou um beijo em sua testa sorrindo:
― Te amo, Nico.
(...)
Quando Nico acordou algum tempo depois e leu a nota deixada por Will praguejou-se amargamente. Odiava vê-lo sair e ficarem horas incomunicáveis sem ter tido ao menos alguns minutos com ele antes. Pelo menos desejar um “boa sorte”. Bufou irritado devolvendo o papel para a mesinha.
Espreguiçou-se cansado e foi se arrumar para a entrevista de emprego. Tinha duas opções válidas: deixar as coisas fluírem como devem ser ou Nico se sabotar como sempre para garantir o sucesso na cirurgia que Will acompanharia. Esfregou o rosto sem saber o que fazer.
Havia tempos que algo igual ao caso do assalto não acontecia e isso assustou o rapaz em níveis catatônicos. E se algo assim acontecesse novamente? Ou pior? Nico fechou os olhos ao se lembrar de sua mãe.
Era uma lembrança dolorosa, de uma época de descobertas cruéis. Sua mãe que ele mal lembrava além da frieza costumeira e raros sorrisos amorosos, sua mãe que morreu misteriosamente em um acidente de carro.
Um enterro que não se permitiu chorar de tristeza. Só culpa.
Espantou os pensamentos voltando à realidade. Não tinha motivos para pensar assim. Estava tudo bem. Hazel estava segura, Bianca feliz na Califórnia e Will crescendo na residência. Tudo normal. Todos a salvo.
Como deve ser.
Aprontou-se adequadamente adorando a roupa. Odiava vestir social. Trazia lembranças ruins de sua infância depois que sua mãe morreu. Seu pai tinha um jeito peculiar de demonstrar compaixão e amor. Depois que Maria faleceu Hades se tornou um pai ausente, mas exigente. Nada era bom o bastante. As roupas sociais eram obrigatórias na igreja; nos eventos familiares; nas festividades da cidade.
O maldito terno era importante, certo? Nico odiava aquele tipo de roupa, mas tinha de admitir ele estava ótimo nelas hoje. Sorriu para seu reflexo no espelho orgulhoso do resultado.
Saiu de casa sem tomar café ― que Will não desconfie ― e caminhou até o museu. Teria de pegar o metrô e andar mais alguns quarteirões pra chegar lá, mas pelo horário teria tempo de sobra. Desacelerou o passo aproveitando o tempo aberto e confortável de começo de Abril. Parou no farol encarando chão sem motivo aparente encontrando no chão uma nota de cinquenta dólares.
Pegou ela observando. Parecia que haviam perdido recentemente. Nico apiedou-se da pessoa que provavelmente sentiria falta daquele dinheiro. Sem ter como devolver ― ou gritar perguntando de quem era ― colocou no bolso da calça e atravessou a rua em direção à entrada do metrô.
Estava calmo e vazio. Muito diferente do usual em um meio de semana corrido.
Curioso.
Sentou no banco vago mexendo no celular. Nada de novo ou interessante para ler, nenhuma rede social que valia a pena vasculhar. Então abriu sua galeria de fotos e um sorriso se alastrou por seu rosto. Várias das fotos haviam sido tiradas por Will. Uma foto surpresa, sorrisos sinceros, beijos desajeitados, abraços afetuosos.
Will se tornou sua melhor parte em pouco tempo. Sua âncora para tantas coisas; tantas decisões. Ele o completava como ninguém nunca conseguiu; não se assustava com a má sorte que sempre o acompanhava, sequer associava isso a Nico como muitos fizeram no passado. Ele estava lá, sempre presente com um sorriso que dizia que tudo ficaria bem.
Nunca se sentira tão bem quanto agora e queria que durasse o máximo possível. Até onde seu Karma permitisse.
Ouviu o nome da sua parada no alto-falante. Bloqueou a tela e desceu duas quadras antes do museu. Passou por uma praça que havia ali perto e sorriu para a pequena feira que estava acontecendo ali. Will teria adorado ver cada uma das bancas.
Decidido a chegar atrasado para a entrevista atreveu-se a vasculhar as dezenas de bancas espalhadas na praça. Desde tapetes a bijuterias feitas à mão. Algumas coisas, claro, eram obviamente de marca e possivelmente contrabandeadas pelo preço que cobravam, mas ainda assim chamavam a atenção.
Parou em uma banca de perfumes observando as mais variadas marcas e tentando descobrir quais delas eram falsas e quais eram reais. A atendente sorriu para ele sugestivamente oferecendo um fraco de Halston sem cobrar nada por ele. Junto da caixa tinha um papel com um telefone colado nele. Nico riu da situação e se afastou da banca arrancando o número e jogando na primeira lixeira que viu.
Continuou a caminhar pela feirinha fazendo compras banais: algumas pulseiras coloridas que gostava de usar, colares de contas que Will adorava colocar sempre que ia pra Califórnia e um óculos de sol marrom. Acabou tendo de carregar uma sacolinha de compras para o Museu, mas não se importou muito com esse detalhe.
Assim que entrou no Museu sentiu o ar forte do ar condicionado contra seu rosto. Era agradável ao ponto que não querer mais ir embora. Inspirou profundamente e foi até a atendente se anunciar.
Não teve que esperar muito e o seu avaliador apareceu ofegante pela porta giratória do Museu:
― Desculpe o atraso, a Avenida estava fechada. Tive de cortar caminho e dar uma volta enorme até chegar aqui. ― explicou-se para a moça olhando Nico com um sorriso: ― Sou Jonathan Maloy, pesquisador do Museu.
― Nicolas di Angelo. Estou aqui pela vaga de pesquisador. ― disse um pouco receoso. Esperava que sua vaga não implicasse na demissão daquele homem.
Jonathan sorriu largo: ― Estava te esperando. Vou ser seu avaliador e mentor se passar comigo hoje. Vamos, pode vir comigo já estamos atrasados.
Nico o seguiu e respondeu todo o inquérito que o Maloy lhe perguntou. Termos, datas, formas de pesquisa mais utilizadas nos dias atuais e suas pretensões depois do Museu. Depois de parecer satisfeito e de uma boa hora de conversa Jonathan o chamou para um tour pelo Museu.
Insistiu para que ele explicasse sobre a espécie de fóssil que estava em exposição para uma excursão de crianças. A moça que os acompanhava sorriu meiga quando Nico terminou de falar. As crianças saíram empolgadas e Jonathan acenou satisfeito com o resultado. Nico abriu um sorriso orgulhoso.
Voltaram para o RH:
― Eu normalmente gosto de entrevistar mais que meia dúzia de pessoas, mas devo dizer que de longe você foi meu melhor candidato em meses. ― falou apoiando o quadril na mesa: ― O que acha de já começar na Segunda?
Nico piscou em choque:
― Desculpe?
Jonathan riu: ― Estou te contratando, Di Angelo. Gostei de você e tenho certeza que será muito útil tanto para o museu quanto para o conhecimento que as crianças daqui podem adquirir por você. ― estendeu sua mão para o rapaz: ― Seja bem-vindo à equipe.
Nico pegou a mão dele e retribuiu o sorriso.
― Obrigado senhor.
Depois de assinar a papelada Nico voltou para casa eufórico. Queria poder ligar para Will, mas não tinha certeza se ele iria atender. Resolveu passar na livraria para tomar um pouco do seu tempo. Comprou uns dois que estava namorando a alguns dias recebendo um bom desconto neles.
Quando chegou em casa mandou uma mensagem para o Will avisando sobre o emprego e que esperaria pela sua ligação. Sentou no sofá satisfeito. Estava radiante naquele dia que realmente aquecia seu peito.
O telefone tocou:
― Nico di Angelo. ― falou sério.
― Senhor Di Angelo, sou Angelica Sandrez. Trabalho no sítio paleontológico do Colorado. ― disse a moça sem rodeios. Nico retesou-se:
― Sim, o que seria?
― Gostaria de informar que o senhor foi escolhido para começar suas pesquisas sobre os fósseis da região o mais breve possível. Peço para que entre em contato com o RH para mais informações da sua área de pesquisa e a escolha de uma equipe. ― falou a moça profissionalmente.
Nico arregalou os olhos antes de sorrir animado:
― Obrigado, senhorita Sandrez. ― agradeceu segurando uma histeria que se formava dentro dele.
― Eu quem agradeço senhor Di Angelo. ― ela desligou e Nico simplesmente soltou um urro de vitória.
Aquilo era surreal. O emprego e depois sua pesquisa em um sítio paleontológico? Era simplesmente incrível, maravilhoso. Precisava tanto compartilhar essa pequena centelha de felicidade com ele. Era o dia perfeito.
Nico congelou no lugar.
Dia perfeito?
Inspirou profundamente soltando o ar com força. Negou com a cabeça descrente. Não, não era perfeito só bom. Bom, era isso. Um dia bom, o que significava que alguém estava tendo um dia horroroso.
Respirou fundo perdendo o ânimo de segundos atrás.
Perfeito.
A última vez que teve um dia perfeito...
Seu telefone tocou e um frio percorreu sua espinha. Não identificando o número atendeu:
― Alô?
― Senhor Di Angelo? ― perguntou a moça do outro lado.
― Sou eu.
― Estou ligando do hospital em nome de Bianca di Angelo. Você é o número de emergência dela, certo? ― a mulher perguntou um pouco enérgica.
Nico se sentiu sem chão. Respirou entrecortado sem saber como responder:
― Senhor?
― S-Sim, sou o número de emergência dela. ― falou levantando-se atrás do telefone: ― O que aconteceu?
― Um acidente de carro. Ela bateu de frente com outro carro na Avenida. Disseram que ela perdeu o controle do veículo. ― explicou brevemente: ― A senhorita está estável, mas preciso que venha assinar alguns papéis.
― Qual hospital? ― perguntou pegando o telefone fixo para ligar para seu pai na Califórnia.
― Grand Hospital Columbus, senhor. ― respondeu. Ele estacou:
― Columbus? Ela está aqui em Ohio? ― repetiu sem acreditar. O que ela estava fazendo ali sem nem mesmo avisá-lo?
― Sim. Posso contar com o senhor aqui para a papelada? ― repetiu ela mais impaciente.
― Estou a caminho.
Desligou o telefone, pegou as chaves de casa e saiu apressado. Ligou para Will deixando uma mensagem no correio de voz. Ele precisava urgentemente do namorado.
Estava tudo dando errado.
De novo.
(...)
Nico entrou às pressas no hospital parando no balcão ofegante.
― Estou aqui pela Bianca di Angelo. ― disse em um único fôlego.
A atendente o encarou com um sorriso solidário antes de checar o nome no computador. Confirmou com a cabeça digitando algo antes de se levantar buscando alguns papéis recém-impressos.
― Preciso que assine alguns papéis como responsável dela. ― avisou a moça reunindo a papelada e a entregando por cima do balão. Nico os pegou:
― Tivemos de fazer uma transfusão de sangue assim que ela chegou. ― avisou lhe emprestando uma caneta: ― Ela estava inconsciente durante o processo, mas já deve estar acordada.
― Tudo bem. ― As mãos de Nico tremiam enquanto assinava a ficha. Terminou a papelada e entrou na emergência acompanhado de uma enfermeira: ― Como ela está?
― Quebrou a perna esquerda e três costelas. Um pequeno trinco coluna, mas nada que a prejudique, mas terá bastante dor em sua recuperação. ― explicou sucinta parando em frente a uma maca separada das outras por uma cortina azul: ― Tenha paciência com ela, esses tipos de traumas são difíceis de lidar.
Nico concordou com a cabeça. Entrou pela cortina vendo Bianca deitada de olhos fechados. Seu rosto estava inchado com roxos nas pernas e braços; sua perna esquerda estava suspensa no alto envolvida pelo gesso; em seu braço o soro pingava vagarosamente.
Ela estava um caos.
Respirou profundamente se aproximando da irmã. Bianca abriu os olhos lentamente franzindo o cenho para o rapaz. Ele segurou sua mão de forma reconfortante sorrindo meigo. Ela estava bem e isso bastava.
Subitamente ela arregalou os olhos e lágrimas grossas começaram a descer por sua face machucada. Repuxou o rosto pela dor apertando a mão de Nico com força.
Ele afagou seus cabelos beijando-o amorosamente: ― shhh! ― exclamou: ― Você está bem, está a salvo. Não chore assim vai se machucar.
Ela não parou. Negou com a cabeça incrédula com soluços escapando por seus lábios cortados. Nico apertou o botão chamando a enfermeira.
― Bia fique calma, por favor. ― pediu cautelosamente: ― Por que está desesperada assim?
― Mi-Mi-Minha-a-a... ― gaguejou soluçando forte. Suprimiu um grito de dor. Nico saiu de perto da maca atrás de alguma enfermeira.
Topou com uma delas no corredor e outras três se aproximaram de Bianca. Deram a ela um sedativo antes que se machucasse ainda mais. Nico esperou observando aflito a irmã se debatendo. Depois de alguns minutos ela se acalmou. Nico se aproximou da enfermeira:
― Foi um ataque de pânico? ― perguntou preocupado. A moça afirmou com a cabeça:
― Acidentes sérios assim sempre deixam sequelas emocionais, mas ela ficará bem. ― assegurou: ― Melhor ficar com ela enquanto o sedativo funciona. Vai ficar mais calma, e talvez um pouco aérea.
Nico concordou e voltou para o lado da irmã. Bianca respirava mais tranquila, mas seus olhos ainda compartilhavam dor e amargura. Segurou sua mão com cautela fazendo a irmã o encarar dolorosamente.
― Nico... ― falou em um sussurro doloroso. Ele sorriu levando sua mão até seus lábios beijando seus dedos com carinho. Lágrimas voltaram aos olhos dela:
― Me desculpa. ― pediu tremendo um pouco. Nico franziu o cenho preocupado com outro ataque.
― Não tem do que se desculpar, Bia. ― afirmou: ― Acidentes acontecem.
Ela negou, as lágrimas descendo como cascata por seu rosto.
― Eu sinto muito. ― pediu tapando o rosto com a mão livre: ― Eu não prestei atenção e nós batemos e... E...
― Nós? ― Nico perguntou preocupado: ―Quem mais estava no carro? ― prendeu a respiração com medo da resposta dela.
Bianca parou olhando para ele com uma culpa enorme em seus olhos:
― Ele me alertou. Ele gritou para eu olhar para frente, mas não deu tempo. Eu sinto tanto, tanto. ― ela continuou e Nico sorriu para ela solidário. Ia dizer algo, mas ela continuou aos prantos:
― Ele me pediu para irmos comprar algo bom para o seu aniversário. Eu estraguei tudo.
Nico ficou tenso. Olhou para ela escondendo no fundo de sua mente o pensamento terrível que o estava embalando. Soltou o ar devagar:
― D-De quem está falando? ― sussurrou com o medo já se instaurando em seu peito.
O olhar da irmã foi o suficiente para fazer Nico soltar sua mão em puro choque. Abriu a boca, mas não conseguiu formar palavras.
Não.
― W-Will...
Nico sentiu-se nauseado. Abaixou a cabeça piscando os olhos repetidas vezes:
― Onde ele...? Qual ala?
― Nico... ― ela parou o olhando embalada em arrependimento: ― Ele morreu no acidente.
Bump-Bump
Seu cérebro parou de funcionar naquele exato momento. A voz de Bianca ficou distante, o som dos aparelhos, sua própria respiração se tornou muda. Tudo se silenciou, exceto a pressão em seus ouvidos que pulsava dolorosamente.
Bump-Bump
Aterrou suas unhas com força em sua pele sentindo seu corpo gelar. Esse era um de seus maiores medos escondido no fundo de sua mente. Sua boca amargou e sua vista embaçou consideravelmente, ardendo febril.
Bump-Bump
Deveria ter percebido. O dia havia começado perfeito demais para ser um acaso. Deveria ter se sabotado melhor. Deveria ter tentado mais. Deveria...
Bump-Bump
Deveria ter trocado de lugar com o Will.
Bump-Bump
Era sua culpa.
Bump-Bump
Sua.
― Nico. ― Bianca chamou novamente segurando seu braço: ― Me escuta ok? Se-Sei que não quer me ouvir agora, mas talvez não queria saber o que aconteceu depois que deixar esse quarto. Quer ouvir?
Nico negou lentamente sentindo as lágrimas descerem por seu rosto sem que percebesse. Seu coração pulsou dolorosamente contra seu peito e quando deu por si estava correndo para fora do hospital. Para longe de Bianca.
Para casa.
(...)
Não se lembrava de ter andado até sua casa, nem de ter aberto a porta ou de sentar no tapete da sala de estar se abraçando com força enquanto as lágrimas desciam impiedosas. Seu corpo tremia sem controle, deixando-se embalar pela angústia e frustração. A dor vertiginosa que o acariciava carinhosamente.
O sussurro do desespero em seus ouvidos surdos.
Nico chorou e chorou, seu corpo gelou e suas pernas adormeceram pela posição fetal no chão. Sua vista embaçou com as lágrimas e seu pescoço latejava reclamando da falta de conforto.
Seu peito pulsava pavor e desespero.
Nico resmungou sôfrego. Diante de todas as coisas que já lhe aconteceram nos últimos anos podia dizer que tinha poucos medos em sua vida.
Odiava ficar em locais fechados e escuros pois tinha a impressão de estar preso e sem ar. Muitas das vezes que se encontrava nesses lugares tinha um princípio de ataque de pânico.
Andar de avião lhe aterrorizava, sempre só conseguindo na companhia de alguém, muitas vezes o Will.
Nunca admitiria a ninguém em voz alta, mas morria de medo de aranha e já tinha quase queimado o apartamento uma vez tentando se livrar de uma.
E a morte.
Era irônico seu medo da morte, já que ela estava mais envolvida com sua vida do que era possível. O sentimento de perda e desespero misturado com o pútrido da morte que carregava em suas costas. Um acidente, um pensamento, um ato.
Uma tentativa.
Nico compreendia a beleza da morte de várias cores e formas. Entendia o peso dela e a tentação que emanava de suas facetas. Nico sempre adorou coisas relacionadas a isso, nunca teve medo dela.
Não consigo mesmo.
Se tinha uma coisas que ele temia com todas as forças era seu Karma. A morte silenciosa e pecaminosa que provinha dele. O castigo que recaia contra aqueles que Nico mais amava.
Sim, Nico nunca teve medo de morrer, mas tinha medo de perder alguém.
Sempre se apavorava toda vez que essa possibilidade acontecia. Um acidente, uma briga, uma discussão, um ataque de pânico. Ele temia pelo dia que alguma dessas coisas lhe roubaria as pessoas que ele mais amava.
Como havia roubado sua mãe.
Ele temia e temia. Rezava para que isso nunca recaísse sobre eles, mas a vida é cruel. Sempre foi e sempre seria. Não discrimina, não julga, somente lhe tira.
E ela lhe tirou aquilo que mais amava.
Tapou o rosto com as mãos deixando os soluços escaparem de sua garganta. Deixou seu choro ecoar pelo apartamento e sua dor reverberar pelas paredes.
Doía.
Respirou entrecortado tossindo entre os soluços.
Aquilo não era real.
Não era.
Seu telefone fixo tocou uma, duas, três vezes caindo diretamente na caixa de mensagens.
― Di Angelo, aqui é o professor Tardelli. ― falou o homem na gravação. Nico comprimiu os lábios tentando prestar atenção: ― Nós lemos seu TCC e junto da banca decidimos aceitar ele com 100% da nota ao invés de metade. Ele é digno de um trabalho de final de curso e gostaríamos de mantê-lo como arquivo e exemplo para futuros anos. Você tem futuro garoto, e muita sorte.
A gravação se encerrou com um bip e Nico soltou o ar tombando para o lado encolhendo-se no tapete.
Seu dia perfeito fechou com chave de ouro.
(...)
“― Will estamos atrasados! ― vociferou Bianca enquanto o rapaz descia as escadas de seu apartamento em direção ao carro estacionado no meio fio.
Ele sorriu culpado sentando-se no banco do passageiro. Depositou sua mochila no chão colocando o cinto:
― Seu irmão querido me deu trabalho para acordar. Tive que deixar um bilhete. ― respondeu rindo da situação. Bianca imitou o gesto dando partida no carro e saindo.
― Eu imagino.
― Obrigada por se oferecer em me ajudar, Bianca. ― agradeceu William honesto: ― São seis horas de avião até aqui.
A morena negou com a cabeça, recusando-se a ouvir aquilo:
― É o aniversário de cinco anos de vocês. Se quer fazer algo especial para ele nesse calibre então é claro que vou estar presente. ― admitiu sorrindo meiga: ― Além disso, contar com a Hazel para guardar segredos não é muito bom.
Will riu:
― Verdade, mas impossível ficar zangado com ela. ― confessou encarando a estrada bem movimentada.
― Tem razão, mas continuo ficando frustrada. ― resmungou: ― Qual foi a desculpa que deu pro Nico sobre sua fuga hoje com sua cunhada preferida?
― Disse que acompanharia uma cirurgia de no mínimo seis horas e que ficaria incomunicável. ― respondeu encolhendo os ombros ligeiramente: ― Odeio mentir pra ele assim.
― Eu sei, mas se dissesse que estava saindo comigo ai sim ele iria suspeitar. ― parou no farol aproveitando para olhar o cunhado mais atentamente: ― E eu vou te deixar no hospital depois das nossas comprinhas, pode até pedir pra ele ir te buscar no final do dia.
Will negou:
― Vou direto do hospital pra casa. ― respondeu sorridente: ― Eu raramente tenho o dia livre para passar com ele. Vamos terminar aqui rapidamente.
Bianca concordou ávida saindo com o carro, mas o desviando bruscamente para a direita quando uma moto passa cortante ao lado do carro arrancando o retrovisor. Bianca arfa indignada.
Will sai do carro para examinar a lateral. A tinta foi riscada e o retrovisor estava despedaçado à dez metros no centro do cruzamento. Não tinha como recuperá-lo. A mulher resmungou em choque ao ver o estado do carro alugado.
― Maravilha! O dia começou perfeito! ― ironizou massageando as têmporas: ― Essa coisa era alugada.
― Calma, a gente explica o acontecido. Quem sabe não pegam leve com a gente? ― disse otimista. Ela suspirou não muito convencida.
― Vamos pro centro antes que a próxima moto jogue a gente no meio do cruzamento. ― resmungou entrando novamente no carro.
Will fez o mesmo recolocando o cinto.
Chegaram no centro atrás da loja que Will estava namorando há meses. Seria um grande passo no relacionamento deles e Will não sabia se estavam preparados para isso, mas era a única coisa que pensava nas últimas semanas.
Parecia tão certo.
Will sorriu para a vitrine do outro lado da rua e atravessou junto de Bianca quando o sinal abriu para eles, mas como um sexto sentido paranormal puxou Bianca pelo antebraço bem a tempo de desviar de uma moto que passou direto pela faixa de pedestres buzinando raivosa.
Bianca gelou dando dois passos para mais perto do doutor.
Will resfolegou preocupado. Aquilo não era normal. Segurou na mão da moça e atravessou o resto da rua mais atento. Chegaram no outro lado com ambos corações na boca, mas por motivos relativamente diferentes.
Ela pela raiva da imprudência. Ele pela implicação daquilo.
Sem que Bianca visse Will abriu um sorriso sincero em seus lábios enquanto voltava a encarar a vitrine. Um dia ruim não teria problema. Ele gostava deles.
Respirou fundo entrando na loja com ar-condicionado ligado no máximo e as decorações do mais claro e doloroso branco. Bianca namorava as peças, Will só tinha uma em mente.
Saíram do centro indo até o hotel onde Bianca estava hospedada. Deixaria o embrulho escondido em sua mala até que o dia de entregar ao Nico chegasse. Sentou na mesa dela e começou a escrever uma carta. Honesta e cheia de sentimentos.
Bianca apareceu por trás dele:
― Não vai fazer isso por carta, certo? ― indagou ela em tom de censura, como se o desafiasse a isso. Will gargalhou:
― Nunca. Isso é outra coisa. ― admitiu guardando a carta no envelope e deixando junto da caixa azul com um laço bem feito no topo: ― Me leva para casa?
― Não ia ser o hospital? ― zombou saindo pela porta da frente.
― Mudei de ideia.
Bianca tamborilou os dedos no volante sorrindo sapeca da última conversa. Will se encolhia no banco imaginando até onde a mente ardilosa de sua cunhada a estava levando.
― Como vai fazer o pedido então? ― perguntou curiosa.
― Vai ter uma exposição no dia na cidade vizinha. Teremos fogos e tudo mais. ― comentou sem graça ruborizando: ― Pretendo aproveitar a oportunidade de um noite sozinhos e pedir ele durante a queima.
Bianca sorriu ainda mais.
― Sei que é bem clichê, mas não achei nenhum museu que me deixasse fazer o pedido em cima de um fóssil de tiranossauro. ― ralhou ele recebendo uma gargalhada gostada dela.
A moça se virou para o Will com os olhos arregalados de excitação.
― Eu posso providenciar isso. ― propôs sorrindo cúmplice.
Will dispensou a ideia. Olhou de relance para frente sentindo um gelo passar por seu corpo.
Bianca invadiu a faixa da contramão. O outro carro buzinou e Will gritou para ela olhar para frente.
Ela o fez.
Tarde demais.
Bianca abriu os olhos sentindo uma dor terrível irradiar por seu tórax. Tossiu sufocada soltando um urro de dor excruciante. Mexeu o braço na tentativa de descobrir o motivo daquela dor tão insuportável.
Foi barrada por ferragens à frente de seu corpo. Sua visão clareou depois de um tempo identificando onde estava. O carro se encontrava em estado calamitoso. Estavam inclinados contra alguma coisa, encostada consequentemente na porta do motorista.
Arfou à beira do pânico.
Virou o rosto para o Will e então gritou.
Uma das ferragens escorria sangue que gotejava nauseante no chão traseiro do carro. Atravessava o banco de um lado ao outro e Will estava no meio do caminho.
Os olhos estavam fechados, mas em seu rosto salpicava o sangue manchando sua imagem angelical de sempre.
Bianca só soube gritar.
Gritar pelo erro que havia cometido.
Gritar pelo futuro que privou a ambos.
Gritou mudo quando sua voz sumiu. Resmungou quando sua consciência começou a perecer e o barulho das sirenes a inebriar.
Culpou-se pela vida que havia ceifado.”
(...)
O enterro aconteceu na Califórnia três dias depois do acidente no cemitério municipal de Los Angeles.
Nico não compareceu à cerimônia. Fugiu de cada familiar e cada amigo durante duas longas semanas. Não queria ver ninguém, ter conversas sobre o quão incrível seu namorado era e o quão terrível sua perda era para todos.
Por Deus não queria ouvir nada disso. Não queria ser obrigado e lamuriar sobre a pessoa que mais amou naquele mundo. Não queria admitir a si mesmo que Will não estaria ao seu lado para se defender quando começasse a falar de seus defeitos.
Não queria acreditar que não ouviria mais sua voz lhe dando broncas sobre alimentação; ouvir suas risadas honestas sobre qualquer coisa; sentir seus lábios quentes em seu pescoço todo dia quando acordava sendo agraciado pelo mais belo dos sorrisos.
Não queria admitir que ele estava morto.
Morto.
À sete palmos da terra.
Enrolou-se em cobertas durante todos esses dias, escondido no fundo do quarto. Empurrou a cama contra a parede e ali se refugiou, derrotado e oprimido. Sofrendo com sua própria mente maldita.
A realidade rasgando-o em dois, quebrando sua vontade de viver em pedaços.
Não possuía mais lágrimas para derramar, ou forças para se levantar da cama. Perdeu peso e coloração da pele; olhos fundos como de um morto conformado com sua situação deplorável.
Nico di Angelo estava morto também.
Bianca entrou no quarto escuro com um olhar triste para o irmão. Se apoiando em uma muleta para não impor peso demais na perna engessada caminhou vagarosamente até a beirada da cama de Nico.
O irmão sequer reagiu.
Ela fungou virando-se para ele dolorosamente. A culpa alastrando-se por seu rosto enquanto via o estado deplorável do caçula.
Ele não falava com ela desde o dia do acidente, não a culpando e muito menos tranquilizando. Não respondia as ligações de Hades, ou aos pedidos suplicantes de Hazel para que comece. Nem mesmo deu uma chance à Apolo de conversar sobre o acontecido.
Bianca queria reparar tudo aquilo. Por Deus como queria.
Retirou o embrulho azul de sua bolsa junto com o envelope o deixando na cama.
― O Will saiu comigo aquele dia para comprar isso. ― falou esperando alguma reação do irmão. Nada: ― Queria ter entregue antes, mas Hazel não me deixou vir. Achou recente demais.
Nico ajeitou-se nas cobertas, não dando atenção. Bianca suspirou derrotada.
― Boa noite, irmãozinho. E perdão.
Ela se levantou com dificuldades saindo do quarto mórbido. Nico desceu o olhar para a caixa e o envelope. Trincou os dentes escondendo-se debaixo das cobertas.
Nico odiou aquele presente por cerca de um mês.
Ao passar de quatro semanas, depois de muita relutância e discussões, voltou a comer e se cuidar um pouco, com Hazel e Bianca morando com ele na casa pra cuidar de seu bem-estar psicológico.
Mal dirigia a palavra a elas, somente sentava na cama calado, olhando o nada perdido, derrotado.
Bianca chorava todas as noites de remorso. E todas as vezes implorava a ser ela a morrer no acidente, mas ela sempre acordava na cama, confortável, com seu irmão derrotado do outro lado do corredor.
Um dia as duas resolveram sair da casa sufocante e deixaram Nico sozinho por algumas horas.
Ele criou coragem e pegou o embrulho azul e o envelope. Os encarou com desdém e raiva, muita raiva. O que quer que fosse aquilo, era a razão pela qual Will não estava mais ali com ele. Pensava no que seria tão importante que lhe ceifou a vida para conseguir.
Abriu a caixa desinteressado.
Deixou cair no chão num baque surdo ouvindo o tilintar do anel no assoalho antes de parar no tapete do quarto. Caiu de joelhos no chão pela implicação daquilo. Pegou o anel prateado com mãos trêmulas e viu, escrito na parte de dentro, o nome do amado em uma caligrafia perfeita.
Era um anel de noivado.
Will iria pedi-lo em casamento.
Nico chorou copiosamente com a realização soluçando em ofegos desesperados. Ele tinha a intenção de começar oficialmente uma familia com Nico. Will queria casar.
Nico gritou dolorosamente.
Aquilo doia tanto. Era tão injusto. Injusto.
Apertou o anel contra a palma da mão abrindo o envelope.
"Eu sei.
Eu sei já faz algum tempo que você se sabota em prol das outras pessoas. Sei que quando meu dia está bom o seu está péssimo. Percebi isso aos poucos, liguei os pontos com o tempo. Depois de tanto tempo juntos era fácil associá-lo aos eventos incomuns do dia-a-dia. Nunca tive um dia ruim de verdade desde que nos conhecemos e isso sempre me assustou. Desde então sempre almejo por dias terríveis.
Nunca entendi bem o princípio disso, mas só sei que você fazia isso e mesmo assim sempre me recebia com sorrisos reconfortantes como se o mundo fosse bom do jeito que ele é.
Ele não é. Ele é cruel.
Talvez um dia você me conte a verdade, talvez um dia possamos ser felizes juntos ao mesmo tempo sem intercalar. Nem tudo é Ying e Yang; preto no branco. Podemos ser felizes de algum modo? Pois eu desejo a sua felicidade mais do que tudo, mas não tenho a sua coragem para forçar ela. Isso faz de mim uma pessoa ruim?
Sabe, eu amo você mais do que tudo e escrever essa carta é bem difícil, pois sei que estou falando de um assunto que você sempre evitou. Mas vale a pena a tentativa. Você vale a pena, amor.
Se você quiser tentar, de verdade, me deixe colocar esse anel no seu dedo e te fazer feliz?
Porque sua felicidade para mim vale mais do que ouro, pois você é minha jóia mais preciosa.
E eu te amo demais.
Esse não é o pedido oficial, o farei ser incrível. Farei ser inesquecível. E quando você ler essa carta, como meu noivo, te direi mais um milhão de vezes o quanto te amo e repetirei o pedido de novo e de novo, até que as palavras não precisem mais ser ditas verbalmente.
Você confia em mim? Confia que posso te fazer feliz?
Pois se sim te darei o mundo, e ainda será pouco.
Com amor, Will"
Nico abraçou a carta com força deitando no chão gelado de seu quarto e chorou. Chorou e chorou até não poder mais. Ele o queria de volta. Nem que tivesse de suportar toda a infelicidade do mundo, por Deus, ele suportaria. Só, por favor, o devolva.
Nico encolheu-se colocando o anel cintilante no dedo anelar. Abriu um sorriso fraco e desmotivado.
― Pelo menos alguém está tendo um bom dia hoje. ― sussurrou para si mesmo aproximando o anel de seus lábios rachados beijando inutilmente. Fechou os olhos para a claridade do quarto. Apertou a carta contra si com mais força:
― Mas dá para deixá-lo perfeito para ambos os lados, certo Will?
Deu um ultimo sorriso e fechou os olhos pra a luz, pois depois disso a escuridão se tornou sua única amiga.
Notas finais
Além disso o titulo "you're my happy days" significa literalmente "Você era os meus dias felizes", mas isso só descobre ao chegar no final... entaaaaao.... Sad.
Gostaram da história? Da ideia como um todo? Porque o prompt te da somente uma ideia chave e você desenvolve toda uma história em cima disso, então espero que tenha ficado bom.
Obrigada de verdade se chegou até aqui e leu essa one enorme! Significa demais para mim, vocês não tem ideia.
Eu tenho outras duas ones enormes, uma de 16k e outra de 22k (essa dividida em duas partes). Se gostaram sugiro que deem uma passada lá.
Vejo vocês numa próxima!
beijinhos~
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