You're an asshole but I love you
4 Luzes vão te guiar para casa.
Notas iniciais
Emma acordou às oito e meia ao som do despertador, adormeceu depois de ouvir Regina retornar ao andar de cima depois do que ela acredita ter sido para jantar, não ousou descer. Sentiu um par de olhos nela outras duas vezes depois que a morena chegou o que creditou a Regina. Acordou duas ou três vezes assustada, retomando o sono logo depois, dormira mal. Apesar da cama que agora repousava ser um luxo em que não teve nos últimos meses, na verdade teve poucas vezes nas casualidades em que era levada a uma família diferente, seu sono fora perturbado.
Emma sentou-se, espreguiçando e reparou nos papeis que Kathryn deixou pra ela, tinha esquecido-se deles.
—SQ—
“Emma?” Disse Regina impaciente no pé da escada. “Senhorita Swan?’’ Disse aumentando 1/3 o tom de voz.
“Aqui no fundo!’’ Gritou de dentro da casa.
Regina encontrou Emma na área de serviço vestindo uma calça jeans, botas e de sutiã. Seus cabelos loiros caiam em cascata por suas costas, Regina sentiu-se corar.
“Senhorita Swan, o que pensa que esta fazendo?” Disse, sem alterar a voz, apesar de estar desconcertada. Parecia que o ambiente tinha se tornando um pouco mais quente. Ou era ela.
“Molho Shoyu...’’ Respondeu sem jeito mostrando-lhe a blusa manchada.
“Onde você achou isso? Na minha despensa certamente não foi.” disse em tom duro.
“Comprei. Como deve saber tem um mercado aqui perto” Falou, imitando o tom da mulher.
“Você não leu os documentos?” Emma olhou-a, arregalando suavemente os olhos. “Certo, estamos atrasadas. Vista-se logo e vamos. Conversaremos outra hora”
Emma suspirou fundo e viu na mesa a direita algumas blusas da mulher mais velha e decidiu vestir uma dessas, talvez ela nem reparasse. Pegou uma blusa social azul petróleo e instintivamente a levou ao nariz sentindo sua fragrância e vestiu ignorando o aperto no peito e a agitação suave no estomago que sentiu. A blusa ficou totalmente justa, mas, saiu assim mesmo apressada atrás da outra.
Regina mirou a outra de cima em baixo, retomado aos seus olhos.
“Minha camisa?” Questionou com um sorriso de canto.
“Sim? Você disse que estávamos atrasadas’’ Disse. Que mulher de fases... Eu em!, pensou Emma.
***
Emma e Regina chegaram ao Hospital Santa Cora, faltando quinze para às dez. Fizeram o percurso em silêncio, Regina tinha o pensamento distante, em um fim de tarde a um tempo remoto do seu passado.
A jovem Regina tinha um sorriso nos lábios quando desceu de Rocinante e abraçou Daniel, que selou seus lábios.
“Pensei em ir fazer um passeio pelas colinas... Que tal um piquenique ao por do sol?” Disse ele, contente.
“Eu não posso” Respondeu ela sem jeito ”Tenho que estar de volta em uma hora... Uma dama nunca perde a hora do chá” Disse contrariada.
Ele a libertou do abraço e virou-se de costas, visivelmente irritado “Isso é um absurdo. Roubar beijos entre o almoço e o horário do chá. Quando contara aos seus pais sobre nós?”
“Meus pais não são o problema. É ela” afirmou, aproximando-se do amando e segurando perto de si.
“Eu não entendo. Eu trabalho nos estábulos e ela era filha do moleiro. Não seria ela, de todos, a entender?”
“Ela entende” afirmou a jovem, e continuou “Mas ela acha que as pessoas devam evoluir e...” Regina foi cortada.
“E eu estou por baixo” Disse ele, desapontado.
Ela completou, enquanto acariciava seu braço “Ela acredita que sim Daniel... Eu vejo diferente” Disse, tentando acalma-lo.
“Regina, diga a ela. Ela vai superar isso. O que ela pode fazer?” Ele questionou.
“Você não viu a magia? A verdadeira questão é o que ela não pode fazer.” Disse Regina apreensiva.
“Quem se importa com magia?” Disse o rapaz, enquanto acariciava a bochecha de Regina com o polegar, desarmando-a “O verdadeiro amor é a magia mais poderosa de todas. Ele supera qualquer coisa.”
Todos seus sonhos de ter uma família, um filho, tinham morrido com Daniel. E renascido com Emma, agora ela teria sua família com seu filho. Tudo era diferente do que almejara, é verdade, ela não geraria a criança, mas ela era a mãe. Ela se permitiu e agora ela poderia ser feliz de novo. Daniel ensinou-lhe que a amor supera qualquer coisa e ela amava aquela criança, antes mesmo de conhecê-la. Ela estava em casa, como não ousara se sentir antes.
***
Às dez e cinco elas já estavam sentadas em frente ao médico que tinha sido chamado para a cidade para aquela eventualidade, não tinha obstetras na mesma... Não é como se o tempo corresse normalmente para a população.
“Bom dia prefeita Mills, é um honra finalmente conhece-la pessoalmente” Disse apertando-lhe a mão. Regina tinha conversado com ele por telefone e requisitado sua presença na cidade. Ele ficaria por ali até Emma ter o bebê.
“E você, deve ser a Emma, certo?” Disse com um sorriso e repetindo o gesto de outrora. Emma apenas assentiu com um sorriso. “Quero esclarecer que apoio todas as diferenças.” Disse o homem. Emma e Regina se olharem rapidamente. Regina estreitou os olhos, entrelaçando os dedos, surpreendida com a audácia do homem em meter-se em sua vida, ainda que estivesse totalmente errado. Emma apenas deu um risinho sem graça, sentindo se corar. Antes que pudessem corrigi-lo, o homem continuou:
“Vamos para ultra”
***
Emma estava deitada na maca e Regina se encontrava a alguns passos deles.
O Dr. Horowitz passou gel em sua barriga e começou a passar a maquina, enquanto no monitor apareciam algumas imagens distorcidas, pelo menos para os leigos.
“O bebê está de vinte e seis semanas. Está com 27 cm e 515 gramas. Muito saudável. Desenvolvimento perfeito...” Ele focalizou em uma cena, circulando-a de vermelho. “Aqui esta o pintinho do meninão’’ Disse debochado. “O pé, a mãozinha, o rosto, vê o nariz? Ele esta com o dedinho na boca” Dizia ele apontando com a setinha em cada área. Regina olhava tudo atentamente, ainda que não conseguisse entender tudo, ela já considerava-o o bebê mais lindo do mundo. Emma, se mantinha distraída com coisas aleatórias, seu coração se deleitou em ouvir que ele estava bem, mas, vê-lo ela não seria capaz.
“Querem ouvir o coraçãozinho?’’ Disse o doutor por fim.
Regina e Emma responderam juntas. “Sim” “Não”
O médico olhou-as, fixando o olhar de uma para outra, esperando um consenso e ele veio de Emma. “Pode ser”
Então ele colocou o áudio, o coração batia muito forte... Regina sentiu-se como o coração dela acelerasse para se ritmar ao do pequeno. Emma fechou os olhos, temendo chorar, era a coisa mais linda que já ouvira, mas, doía tanto, tinha que parar.
“Perfeito” Disse afastando a mão do doutor, sentando-se, pegando os papeis descartável e limpando sua barriga.
Após imprimir uma foto do bebê com o dedo na boca e colocar em um envelope junto do CD com a gravação da ultra, ele entregou-a Emma que o ignorou, não por mal, sua mente estava em outro lugar; fazendo-o entregar a Regina.
“Vou precisar do hemograma completo... O de glicemia é recente, não vai ser preciso repetir agora” Disse ele para enfermeira, que as encaminhou para outra sala.
Emma sentia cada pelo do corpo eriçado, odiava agulhas, odiava... Fizeram a sentar e vieram até ela, o que a fez recuar o que podia, já que estava sentada... Buscou os olhos de Regina em uma suplica em silêncio para salva-la... Regina sorriu de onde estava encorajando-a. Mas, não foi ao seu encontro.
A enfermeira percebendo sua apreensão segurou sua mão, Emma fechou os olhos e encostou a testa no braço da mulher. Regina por sua vez, observava a cena, quando um leve torpor deixou seus pensamentos vazios, e um vago pressentimento de aquilo não estava certo fez-lhe gelar. O que estava acontecendo com ela?
***
Doutor Horowitz despediu-se das duas na porta, já com um encontro marcado na semana seguinte.
Já passava das onze e meia quando elas entraram na BMW de Regina rumo ao Granny’s Diner para almoçar. Ao saírem do carro, o celular de Regina tocou, era do escritório. Então ela pediu que Emma fosse se acomodando e ela iria em seguida.
Foi o que Emma fez. O estabelecimento estava quase vazio, menos por um homem baixinho que ressonava baixinho com a cabeça aboiada na mesa, sobre a mesma uma xícara de café intocada. Sentou-se em uma mesa em frene a porta de entrada. Emma olhava o cardápio quando uma moça morena de mechas vermelhas veio atendê-la.
“Bom dia, eu sou a Ruby. Você deve ser a Emma” Disse entusiasmada.
Emma levantou o olhar, encarando a moça um pouco assustada, estava na cidade há 24 horas e já era reconhecida. “Bom dia, Ruby” Disse.
“Cidade pequena... Aqui todo mundo se conhece, mas, não conheço você” Completou a outra, sorrindo. “E... Você é a inquilina de Regina... Isso é o assunto da cidade...” Disse receosa.
Emma não entendia o espanto da jovem.
“Você pode vim aqui quando desejar conversar...” afirmou e completou com um sorriso “Você não era de Boston?”
“Sim... Pretende se mudar, Ruby?”
“Desejava” Disse com um sorriso triste nos lábios. A garota a sua frente lhe deixava intrigada. “De onde ela veio? Quem era ela?” pensou.
Ruby pigarreou e continuou “O q-que vai querer?” Disse de súbito.
“Hambúrguer e batatas ...” Emma foi cortada.
“Quer que a prefeita me mate? Trarei o de sempre” Disse afastando-se da loira e cumprimento a prefeita que se aproximava com toda sua elegância da mesa.
Regina sentou-se de frente para Emma que tinha os olhos fixos na garçonete. Regina olhos sob os ombros para a mesma, e logo depois, voltou olhar pra Emma até que a outra a olhou de volta.
“Parece que já fez uma amiga...” Disse com sorriso irônico.
“Acho que ela estranhou o fato de morarmos juntas...” Emma sentiu-se corar violentamente “Digo... De eu estar na sua casa... Entende?”
“Claro, Senhorita Swan. Mas, isso não esta na alçada dela.” Regina emitiu um grunhido e tinha um tom ameaçador ao falar. Ao que Emma tentou intervim.
“Ela só estava curiosa...” Disse rapidamente.
Regina sorriu, assentindo em uma concordância mutua de má vontade.
***
“Tinha um cópia dos documentos no carro... Esse é um contrato que assegura meus direitos como mãe do bebe” Disse, colocando o contrato do lado oposto da mesa. “Esse é mais simples, alguns cuidados que desejo que tenha: alimentação saudável; alguma atividade física, uma caminhada de trinta minutos no parque?!...” Emma não conseguiu esconder a insatisfação em ouvir aquilo. Elas não se conheciam, era verdade, mas, a existência de um contrato que definisse que Regina era a mãe do bebê lhe deixou triste. Sua palavra deveria ser tudo que a outra precisava. Regina continuou a falar sob os tópicos, Emma hora ou outra assentia ou fazia algum comentário.
Ruby chegou com as bebidas, suco para ambas, demorando-se ao máximo que pôde curiosa em saber do que falavam tanto. Regina mirou a outra, encarando-a, o que bastou para que ela não tardasse mais um minuto se quer.
O último documento confirmava que Emma iria sair da cidade assim que o doutor certificasse que ela estava bem para viajar. Enquanto, Emma olhava os papéis que estavam amontoados na sua frente, Regina guardou-o, naturalmente. Não dando importância para o fato. Esses documentos eram escudos falsos que a morena queria manter, sabia que um juiz seria capaz de anular até mesmo a rescisão dos contratos.
Minutos depois Ruby voltou com os pratos, o cheiro que exalavam era incrível e Emma salivou em senti-lo, por fim o prato era delicioso: salmão com crosta de gergelim e salada de lentilha.
***
Já passavam das doze e meia quando Regina deixou Emma em casa. Regina tinha seus olhos nela, nesse momento ela pensou como deveria se despedir da garota, um aperto de mão seria formal de mais, um abraço afetuoso de mais... Tinha os olhos pousados em Emma, quando ela a olhou por breves segundos e despediu-se com um aceno de cabeça
Antes de Emma alcançar a porta, Regina falou:
“Nos vemos hoje para o jantar... E fique longe da minha cozinha” Disse, pois pela manhã encontrou a cozinha uma verdadeira bagunça, pela tentativa frustada de Emma fazer yakisoba.
***
“Boa tarde.” Olhou para o relógio na sala, eram dez para três da tarde “Pensei que não chegariam mais”.
O rapaz a sua frente sorriu e entregou lhe o documento de entrega, ao que ela assinou rapidamente, saindo apressada pela varanda e parando a alguns passos do fusca amarelo roubado, que bem, agora era seu.
Uma despedida rápida e o homem já entrava no caminhão e ia embora, Emma pegou a chave e abriu a porta do carro.
Abaixo do banco do motorista Emma encontrou um envelope com dinheiro que ele havia escondido. Dinheiro para que ela começasse sua vida depois do nascimento do bebê bem longe daquela cidade. Emma sentou-se no banco do carona e não pode deixar de pensar em Neal... Ele havia enviado a chave do carro pra ela ainda na prisão, junto com um bilhete avisado desse dinheiro. Não que significasse algo. Eles pareciam ter sido feitos um para o outro, tinham os mesmos gostos, viviam de forma semelhante, os dois estavam sozinhos até se encontrarem. Eles poderiam ser uma família, mas, o rapaz tinha traído ela, por isso nunca saberia do bebê. Não era inocente. Ela tinha ajudado-o a pegar os relógios roubados de onde guardara, mas, não podia pagar por um crime que não era dela, não era justo. E mais que isso, ele nunca deveria ter cogitado isso, ele nunca apareceu, nunca disse que ele era o culpado, ele poderia. Se ao menos se importasse...

Sentiu os olhos nublados com as lagrimas não derrubadas. E não derrubaria, tinha prometido a si mesmo nunca mais chorar por ele. Se Neal não tivesse ido eles estariam agora em Tallahassee, comprariam uma casa em algum bairro humilde; se casariam, talvez; teriam o bebê, seriam tudo que não foram. Se ela fechasse os olhos, ela ainda conseguia ouvir as batidas do coração do pequeno. "Me perdoa" Ela disse, levando as mãos a barriga.
Emma se lembrou de todos os meses na cadeia em que passou chorando por ele. Sabia que, quando ele não apareceu no encontro, uma parte de si tinha desaparecido pra sempre; ela tinha amando-o com tudo que tinha e ele tinha desperdiçado isso, tinha fugido. Por medo? Por maldade? Ela, talvez, nunca fosse descobrir.
Ela não conseguia entender como ele foi capaz, queria nunca mais ver aquele rosto ou aquele sorriso que a fazia flutuar, mas outra parte de si queria respostas. Queria despejar toda a frustração e medos nele...
Mas ela tinha aprendido, tinha aprendido que as pessoas são imprevisíveis. Suas expectativas eram suas e não devia depositar em ninguém. Ela saiu do carro depois de um tempo, não tinha certeza quando tempo tinha se passado ao certo. Mas, agora ela sabia; tinha encerrado de vez aquela parte de sua vida. Fechou a porta e lembrou-se da morena, logo ela estaria em casa, e hoje ela não queria mais se distanciar.
Lights will guide you home
(Luzes vão te guiar para casa)
And ignite your bones
(E incendiar seus ossos)
And I will try to fix you
(E eu vou tentar consertar você)
***
Emma vestia um vestido xadrez e uma jaqueta preta de couro e tinha os pés descalços. Ela estava sentada na biblioteca e lia um dos livros de Regina. Sempre teve grande apresso pela leitura e agora estava em uma casa cheio deles, o que a deixou muito contente. Escolheu para aquela noite um livro curto, pois já era hora da morena chegar. O livro era A Metamorfose de Kafka e ela não pode deixar de relacionar isso com sua história, talvez todas as pessoas que entraram em sua vida e a deixaram sem aviso prévio, sejam porque ela não abraçou as expectativas deles; mesmo que ela tenha exercido alguma importância em suas vidas, em longo prazo eles apenas a depreciaram. Ela sentia-se como Gregor, dispensável, sem grande importância para ninguém.
***
Regina chegou a sua casa às sete, e iniciou seu ritual habitual. Graham já tinha a notificado sobre o fusca de Emma; e ao vê-lo, olhou com certo desprezo para o mesmo estacionado quase em frente a sua casa. Ela encontrou Emma no quarto dela sentada na poltrona olhando pela janela que dava de vista para a torre do relógio, Emma não notou sua presença, perdida em seus próprios pensamentos.
Regina preparava molho de tomate para a massa que havia preparado quando Emma entra na cozinha.
“Boa noite” aspirou o ar e continuou “O cheiro está incrível”
“Boa noite, Srtª Swan e obrigada”
“Emma... Como foi seu dia?”
"Bem, Swan" Disse dando ênfase ao sobrenome "E o seu?"
"Bem... Acho que notou o carro lá fora..."
“Suponho, que trouxe aquilo para levarmos para a sucata...” Disse em tom de piada.
“Há-há, adoro seu senso de humor” Disse brincalhona.
"Você não pensa em andar com ele por ai, não é?" Emma não respondeu "Oh, Meu Deus, Emma, vou adicionar uma cláusula naquele documento" Emma sorriu surpresa em ver a outra chama-la pelo nome, ignorando o arrepio que sentiu.
“Por falar neles, já os assinei”
Regina que se mantinha de costas virou-se para encarar a jovem algum tempo depois. Mas, ela já não estava mais na cozinha.
***
Após o jantar, depois de muita insistência Emma convenceu Regina a deixa-la ajudar com a louça, enquanto tirava as peças da máquina de lavar e secava-as, Regina guardava em seus respectivos lugares. Quando acabaram Emma e Regina sentaram-se na sala da tevê, Regina passava os canais procurando algo para assistir, quando ela parou no canal 261, aparentemente alegre, Emma questionou sem esconder a surpresa na voz:
“Você gosta de Star Wars?”
“É um clássico”
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