Notas iniciais
Feliz natal adiantado.

Neve gélida e pálida, monótona como o céu cinza, caindo sem parar. Longe de ser emocionante como a chuva de verão, os flocos apenas vêm para tingir tudo com o branco, tornando cada calçada em um amontoado e cada telhado em um pico nevado. Liberando seu frescor que arrepia, se alimenta do laranja do outono, continua crescendo junto de sua geada que se enraíza no clima. As decorações perdem o significado em comparação a musa, um período de festividade é nada mais que uma oportunidade de consumismo. Os outdoors estampam os melhores heróis, o número um é ofuscado pelo glacial que tanto desprezou, suas chamas se apagam naqueles meses frios.

Na avenida principal, caminhando com um semblante frio, Shoto Todoroki continua seu trajeto com as mãos nos bolsos. Seu agasalho é de tons escuros, os cabelos estão cobertos pelo capuz que o impede de ser reconhecido facilmente. Ele para eventualmente na frente de vitrines, observa os inúmeros presentes e não encontra um ideal. Observa a paisagem branca que se destaca com as excessivas decorações, vê famílias felizes que ativam seu âmago. Na porta da loja de brinquedos, um pai sai com seu filho, a criança está em seus ombros sorrindo, ambos se mantêm alheios de todo o resto. O herdeiro das temperaturas se mantinha estoico, em seu interior a vela que o mantinha aquecido derretia com mais intensidade, gotejando a parafina ardente em sua alma e o ferindo. Desejava do fundo de seu coração ter um momento como aquele, parecia tão normal aos olhos dos habituados, mas aos dele era totalmente sobrenatural.

Respirando fundo, tentando se manter em um estado frio, ele ajustava o capuz e abaixava a cabeça, despertando de seu introspectivo momento, típico de datas comemorativas. Lembranças seriam eternamente sua maldição. As dúvidas permeiam em volta de sua cabeça, estava completamente indeciso. Precisava de um presente para a pessoa mais importante de seu mundo, havia pensado em comprar algo relacionado a All Might, ídolo de sua paixão, mas sabia que ele tinha absolutamente tudo relacionado ao antigo símbolo da paz. Bens materiais poderiam ser ofensivos, ninguém saberia reagir corretamente ao receber algo de extremo valor, o entendimento de subjugação inferior era comum nesses casos. Sentia que nunca seria capaz de o dar algo de valor equivalente ao que ele o presenteava diariamente, sua mera presença já valia por tudo. Quando lhe via, até mesmo sua parte gélida era tomada pela chama, aquecia-se e renovava-se com o imaginar de sorrisos calorosos.

Ainda faltava uma semana para a festa natalina, teriam uma organização caprichada na escola, as salas se juntariam e fariam algo coletivo aquele ano. Ter presentes era opcional, mas todos estavam ajudando no desenvolvimento do evento, com trabalho em equipe, decorações, comidas e a certificação de que nada iria errado. Mesmo tendo tempo de sobra para escolher algo, precisaria da eternidade para chegar a uma conclusão do que comprar, não queria algo meramente bonito, buscava significado, uma conexão direta que assemelha o presente ao amor que sentia, mas nada produzido em massa seria próximo disso. Foi enquanto a neve caia sob sua cabeça, que pensou melhor, saindo do distrito comercial. Se quisesse algo que fosse memorável, teria que fazer sozinho. Não era bom o suficiente com trabalhos manuais, não era bom com palavras, não era bom com sentimentos. Namorados se presenteiam com coisas bonitas, um colar para a noiva era um clichê esperado, mas no fim eram apenas objetos, que muitas vezes nada representavam. Precisava ir além.

O rapaz voltava pensativo para a U.A, tendo planos de trancar-se no quarto até o fim do dia e ter crises de ansiedade até estar pronto, tinha certeza que a única coisa produtiva que faria seria ver sua pessoa especial. Cada traço em seu amor era de lhe arrancar suspiros, desde suas sardas nas bochechas rechonchudas aos cabelos bagunçados, sua estatura pequena que o permitia envolver em abraços protetores, seu sorriso inspirador, seus olhos que pareciam preciosas esmeraldas. Era a data de se ver filmes ruins com lições de moral, de usar suéteres velhos dados por avós e beber chocolate quente, e tudo aquilo era melhor em companhia de alguém querido. Todoroki colocou seus fones de ouvido, o deixando alheio as vozes das multidões, o fluxo de pessoas era alto como de se esperar no centro de Tóquio.

Nos umbrais do colégio de heróis, ele abaixava o olhar desigual, evitando contato com os outros estudantes e tentando ao máximo passar despercebido — o que era quase impossível, ninguém tinha o rosto queimado daquele jeito — o que foi claramente em vão quando começou a ser cumprimentado. Respondia nervoso aos avanços de conhecidos, com um aceno apressado com a cabeça e pequenos sorrisos forçados. Correndo pelo campus, sem olhar para onde ia apesar de ter um local em mente, não conseguia tirar sua cabeça de preocupações excessivas. Tudo de repente ficou branco, com a simples audição de uma voz que penetrou pela música alta, o fazendo semicerrar os olhos em uma expressão de alegria, virando-se calmamente enquanto pausava a música.

Lá estava ele, olhando de baixo para cima, com seus grandes orbes esmeraldas, sorrindo e abrindo os braços, envolvendo o torso do taciturno em um aperto caloroso. Era Izuku Midoriya — Deku para os íntimos — que com um simples gesto curava todos os sintomas do namorado. Shoto retribuía o abraço delicadamente, todas as suas ações com o menor eram excessivamente cuidadosas, como se ele fosse feito de vidro e estivesse prestes a rachar com o menor dos deslizes, seu toque era quase que fantasma de tamanha leveza. O meio-ruivo curvava-se levemente, escondendo o rosto na curva do pescoço de Izuku e deixando a neve alojada em seu capuz cair ao o remover. A temperatura do corpo de Todoroki era irregular, cada metade correspondente a um elemento, a ponta de seu nariz sempre fria gerava arrepios em Midoriya, que em resposta recebia um calor da individualidade de Shoto para o recompensar, o que era sempre reconfortante, era uma das poucas ocasiões em que ele concordava em usar seu lado paterno por livre e espontânea vontade.

— Não te vejo o dia todo, onde estava? — Midoriya falou baixinho, deixando sua respiração tocar a orelha de Todoroki, o abraçando ainda mais fortemente, estava com um tom manhoso e preocupado.

— Eu... — Shoto escolhia as palavras minunciosamente, não queria parecer patético ao dizer que estava procurando um presente, já que estava de mãos vazias, mas sua ansiedade era maior e o fez dizer de uma vez — Fui ao centro procurar algo para te dar de natal, mas não consegui escolher nada — Concluiu sentindo o rosto esquentar, constrangido por soar tão perdido em sua afirmação.

Se afastaram levemente, mantendo contato visual. O verde de Midoriya ia por entre a desigualdade ocular de Todoroki, que parecia quase que completamente albino com a neve cobrindo seu cabelo, ambos estavam em silêncio, o de Izuku era para escolher algo decente para responder, enquanto o de Shoto era um desespero ensurdecedor de ter dito algo errado. Notando a expressão agonizante e ansiosa do outro, Deku pegou sua mão e caminhou para o albergue da turma, que estava atrás deles o tempo todo. Ao entrarem, estavam na sala, e Midoriya logo quebrou o sigilo vergonhoso que os acompanhava.

— Eu também não sei o que te dar de natal, não consigo pensar em nada que você não tenha.

— Você já me dá tudo só por respirar, Midoriya.

Novamente estavam em silêncio. Cara a cara, não ousando quebrando a involuntária competição de olhares, o clima parecia ainda mais pesado. Poderiam ter ficado por horas ali sem dizer nada, apenas alimentando o constrangimento que sentiam, mas para o bem ou para o mal, havia a pessoa certa para acabar com aquilo. Com sua voz alta e estridente, de timbre irritante e agressividade inconfundível, Katsuko Bakugou que até então estava invisível aos olhos do casal, berrou;

— Parem com essa porra seus nerds de merda! Se querem ficar com essa melação vão lá para cima, os quartos não são aqui embaixo! — Clima finalmente estilhaçado, risadas inundando o cômodo, o agressivo estudante estava no sofá com Kirishima, Sero e Kaminari, o quarteto de idiotas número um da sala, especializados em estragar momentos como aquele, estavam todos jogando um eletrônico de luta no console conectado à televisão, enquanto os outros três queriam apenas se divertir, Katsuki estava levando a sério até demais e aproveitou para descontar nas primeiras almas vivas que ousaram entrar, e que por azar do destino eram seus “queridos” nerds.

O que poderia ser a quebra de gelo ideal, apenas acumulou o constrangimento do casal. Deku tentava se desculpar pela “inconveniência”, tropeçando nas palavras e recebendo ainda mais xingamentos de Bakugou, até Todoroki o puxar para o elevador e impedir que aquela humilhação continuasse. As portas metálicas fecharam-se, o som do valentão ficou abafado junto dos risos, mas a tensão continuava. Shoto apertou com mãos trêmulas os botões para o andar do quarto de Midoriya, era melhor que irem para o seu que sempre tinha uma aura depressiva. Sem saber o que dizer, o pensamento de comentar sobre o clima passou ligeiramente pela mente perturbada de Todoroki. Quando finalmente aquele transportador chegou no andar, respiraram livremente, deixando os casacos no cabide da entrada. Caminharam juntos até a porta do quarto de Deku, que destrancou e deixou Shoto entrar primeiro, o acompanhando e sentando na cama, ainda constrangido.

Todoroki sentou-se ao lado de Midoriya, com as mãos apreensivas quase que suando e o rosto de quem havia visto um fantasma. O meio-albino estava em uma confusão de sentimentos, queria sair do próprio corpo, parar o tempo, pensar por milênios e meditar até se acalmar, estava tão ansioso que jurava estar prestes a desmaiar. Sua mente clareava aos poucos, até se tornar um vazio completo que preencheu-se rapidamente com novas inseguranças. Tendo um impulso de seja lá o que, teve a coragem de se aproximar ainda mais do garoto ao lado, beijando suavemente sua bochecha. Izuku virou o rosto lentamente para o confrontar, sentindo seus narizes se encostarem e inclinando levemente o rosto para encaixar seus lábios. Ao selarem o dócil afeto, podia-se sentir o doce gosto do constrangimento amoroso, delicadamente aprofundava-se o osculo, suas línguas pediam passagem e tocavam-se calorosamente, massageando lenta e calmamente uma a outra. As mãos do maior percorriam a silhueta menor, encostando seus peitos com o abraço e transmitindo o calor corporal. Os dedos curtos de Izuku mexiam delicadamente nas madeixas úmidas de Todoroki, as colocando em seus devidos lugares, penteando meticulosamente em um cafune carinhoso.

Pequenas pausas ocorriam conforme perdiam o fôlego, Midoriya estava quase que completamente deitado com Shoto por cima, este que apoiava seu peso no braço direito e inclinava-se contra o outro. Deku deixou um gemido sufocante escapar, o que fez Todoroki parar carinhosamente, se afastando o suficiente para o dar espaço. Seus rostos corados estavam próximos ainda, os olhares eram trêmulos e claramente constrangidos. Sempre que tinham aquelas interações mais íntimas, acabavam parando na metade do caminho, simplesmente não era a hora de irem para os finalmente. Shoto sentia-se ainda mais constrangido por estarem em cima de um cobertor do All Might, seu maior medo era ter uma primeira vez naquele quarto lotado de figuras de ação e pôsteres o encarando, sequer conseguia beijar Midoriya direito sem sentir o olhar sanguinário do vigia em todo seu ser, era tão desconfortável que jurava ter a possibilidade de eventualmente o próprio All Might recuperado entrar voando pela janela e o repreender por ter aqueles impulsos.

Era hora de parar, não provocaria Deku até o ponto que seria constrangedor demais continuar. Quando começaram aquele relacionamento, era mais difícil terem excitações tão rápidas, mas com o passar dos meses estava se tornando cada vez mais precoce, ao ponto de que simples beijos e mãos bobas eram suficiente para desencadear situações que não estavam prontos para enfrentar, e não havia nenhum problema naquilo. Ambos se sentiam extremamente gratos por terem um parceiro tão compreensivo, a regra era de que se gerava algo negativo, deixava imediatamente de ser bom. Apressar as coisas apenas estragaria aquela primeira experiência de amor que estavam tendo, havia sido um ano cheio de surpresas.

Todoroki podia lembrar claramente de quando se declarou, estava em uma crise de ansiedade intensa, aquele peso platônico pendia em seus ombros a muito tempo, iria desmoronar se não dissesse logo, havia guardado tanto para si que estava acumulando e se tornando um fardo. Era um dia de verão, oposto aquele, quando Midoriya recebeu um “eu te amo” tão direto e repentino quanto um tiro, estavam em um “encontro” como amigos, fazendo uma trilha pelas extensões do interior, Shoto estava estranho a semanas e acabou dizendo tudo que sentia em um choro que se tornou alegria ao ser correspondido, então acamparam e no fim da noite, sob o céu estrelado e o aroma da vegetação — com a sinfonia de corujas piando — tiveram seu primeiro beijo, que foi tão desajeitado e estranho como poderiam imaginar, mas aquilo era o que tornava primeiros beijos tão especiais, principalmente quando eram com alguém que se ama. Todas as vezes que ereções involuntárias ocorriam, mãos iam para lugares errados e uma tensão sexual se formava, era a mesma sensação daquela noite estrelada, uma sensação de dúvida e medo, somada com preocupação e insegurança.

— Eu te amo. — Todoroki disse em um suspiro, dando uma almofada para Izuku cobrir o volume vergonhoso que já estava evidente em suas calças.

— Eu também te amo — Sorrisos surgiram em ambos os rostos — e honestamente não sei como reagir a isso, é tão novo. Acha que eu deveria começar a fazer anotações sobre?

— Anotações sobre... isso?

— Realmente não é uma boa ideia...

E novamente voltaram ao estágio inicial de silêncio absoluto e constrangimento. Midoriya sentia que sempre dizia a coisa errada, mas para Todoroki aquilo era uma grande qualidade, estava cansado de coisas certas demais em sua vida.

— Acho que vou para meu quarto, tenho dever de casa incompleto.

Entre tantas desculpas, aquela era a melhor que havia pensado para fugir daquele casulo da vergonha, sendo que as aulas já haviam acabado a uma semana. Deu um beijo na bochecha de Deku e fugiu, o deixando para resolver aquele pequeno grande problema sozinho. Meio-a-meio foi para o elevador — pegando o casaco na entrada — pressionando com força para o quinto andar onde seus aposentos ficavam, estava realmente feliz pelo pouco movimento naquele dia, a última coisa que queria era pegar o elevador com alguém. Ao chegar em seu quarto, imediatamente retirou os sapatos e se jogou na cama. A iluminação era perfeita para seus olhos, era a luz natural do dia nublado que entrava pelas brechas das cortinas, fazendo sombras dançantes no chão de tatame e o cobrindo com formas invisíveis.

A reflexão constante tomou conta de seu ser, tinha medo de estragar tudo. Sua ansiedade se manifestava tão intensamente que sentia o estômago revirar, não havia comido nada o dia inteiro graças a seu desconforto emocional, seu intestino parecia estar se mastigando. O misto de sensações negativas preenchia o vazio entalhado em sua alma, sentir algo era um privilégio, mesmo que fosse negativo.

Se perguntava os motivos de ter ficado assim, a causa principal para sua insegurança. Havia sido privado de toda alegria durante sua vida, passando a buscar conforto na isolação, acabou por não sentir nada. Eram em situações simples como aquelas que sentir-se pior, almejando o mínimo de adrenalina, era algo para o despertar do estado vegetativo.

Sua dependência emocional com Midoriya não era saudável, todo seu mundo cairia caso terminassem, por isso dava seu melhor para nunca errar, era como um príncipe encantado, incapaz de falhar. Em meio a tantos sentimentos, sua mente se ausentou por fim, viajando para uma terra distante.

Os olhos fechados transmitiam tranquilidade, a expressão era de pura paz e os lábios entreabertos ressonavam o beijo do sono, um torpor induzido como válvula de escape, capaz de o reconfortar e trazer lucidez.

Nos sonhos mais profundos, via aquele olhar rígido de Endeavor, as chamas infernais ao redor, era diabólico. Sua mãe aparecia presa em uma cristaleira, angelical e pacífica, exposta como um troféu na estante de um megalomaníaco. Em volta do cadáver frio da mulher, estavam seus filhos, enfileirados e congelados, com expressões de dor. Quando sua visão se ampliou, se viu flutuando em um espaço invisível, acima de toda aquela cena fantasmagórica, era como se estivesse invisível. Sentiu seu corpo ser sugado para baixo, arrastado violentamente contra os corpos frios de sua família, os quebrando em mil pedaços, como um cometa destruindo o solo.

O coração de Todoroki acelerou imediatamente, o fazendo despertar assustado e ofegante. Olhando para o relógio, ainda era cedo, mas havia dormido quase cinco horas, seu sonho fora tão rápido que sentiu ter dormido menos de um minuto, tendo como resultando ainda mais cansaço.

Sua vida não seria tão interessante sem o sofrimento, sem problemas ou sem dor, seria no mínimo tediosa e clichê, podia ser uma espécie de masoquismo, mas agradecia muitas vezes pelas coisas ruins, pelo menos era algo.

O resto do dia seguiu-se deprimente, isolado e em intervalos de pensamentos dissociativos, cochilos e um estômago roncando. Quando já era noite, não aguentou mais, tinha que descer para comer algo, mesmo que fosse vomitar tudo depois.

No andar prIncipal haviam poucas pessoas, quase todos estavam em suas casas com a família. Os alunos que continuavam no Colégio em dezembro eram em sua maioria retidos, estavam de recuperação e teriam que pagar com serviço comunitário ou trabalhos acadêmicos. A outra pequena parcela de estudantes ali, eram rejeitados, pessoas com famílias péssimas ou órfãs. O que realmente importava é que a U.A abraçava todos que não tinham uma casa, em uma comunidade de estudantes frustrados e sem teto.

Na geladeira apenas pegou leite, no armário biscoitos, e assim subiu de volta para sua torre da perdição. Estava sendo exageradamente dramático. Passar despercebido era como sempre difícil, mas por sorte Sero, Kaminari e outros colegas estavam ocupados com os trabalhos de recuperação.

Todoroki comeu devagar, mastigando cada pequeno pedaço com calma, tomando o leite puro após cada mordida, seu estômago agradecia. Após uma pequena porção de biscoitos e meio copo, começava sua briga interna para manter a comida, era sua luta diária contra a ansiedade. Um ponto a mais para Shoto, ganhando com dificuldade de seu distúrbio, conseguindo não ebulir toda a refeição. Foi bem sucedido, não deixando nenhuma migalha para trás, era revigorante.

Aquela havia sido a primeira — e última — fonte de energia no dia, que logo virava noite. Sem sono e perdido em dúvidas, Todoroki se revirou na cama por horas, até conseguir finalmente dormir.

Quando a luz adentrou os aposentos tristonhos, Shoto acordou em um espasmo. Os lençóis estavam ao chão, suas costas doíam e as pálpebras se contraiam com o estímulo repentino, o fazendo cobrir os olhos com as mãos. Após longos momentos na cama, com o corpo mole e muita preguiça, Todoroki levantou.

Foi diretamente tomar um banho quente, na tentativa de relaxar um pouco. A ducha foi rápida, mas suficiente para apaziguar os músculos tensos. Ao sair, apenas com a toalha na cintura, ele secava os cabelos, não se incomodando com a brisa fria típica do inverno, seu corpo aguentava.

Foi quando a porta se abriu, e um constrangimento mútuo ocorreu. Midoriya havia acabado de entrar. Encararam-se em um silêncio típico, até que Deku começou a tentar se explicar.

— Eu bati! Mas não teve resposta, então fiquei preocupado e…

— Tudo bem. — Todoroki disse, ignorando a situação.

Midoriya se perdeu na visão angelical do outro, algumas gotas d'água escorriam de seus cabelos, indo por seu peitoral e abdômen definido, e então descendo ainda mais para a toalha, não podia evitar imaginar até onde iria sem aquele pedaço maldito de tecido o cobrindo.

— Você está bem? — Todoroki perguntava, acordando Izuku de seu transe, e então ele percebeu que o meio-ruivo estava perto demais.

— S-Sim! — Gaguejava sem reação, com a visão ainda no corpo de Todoroki.

— Meus olhos são aqui. — Shoto brincava, erguendo o queixo de Midoriya para que estivessem cara a cara.

— C-Claro, eu não esqueci!

— Eu sei. — O deu um selinho caloroso, mantendo contato visual após este.

Então Deku finalmente lembrou, havia ido ali para falar algo importante, algo que havia passado a noite se perguntando sobre.

— Você quer passar o natal na minha casa? — Perguntou de uma vez — Com minha família e tudo mais, você me disse que não queria ter a ceia com seus parentes.

O coração de Todoroki pulou uma batida, escapou de seu controle e acelerou imediatamente. Não podia acreditar, estava sendo convidado para conhecer os pais de seu namorado e passar a noite de Natal em sua casa.Queria realmente aceitar, aquilo seria seu maior presente.

— Eu acho que é melhor não…

— Mas…

— Você sabe, seus pais podem não gostar de mim e…

— Shoto, eu te amo e isso já basta. Eu aposto que meus pais vão te adorar também!

— Mesmo?

— Mesmo.

E era por isso que amava Midoriya, ele era capaz de mudar sua mente em segundos, sempre que pensava em arruinar a própria vida, ele estava lá para o mostrar o outro lado das coisas. Já estava imaginando dezenas de tragédias no jantar, desde o apartamento sendo incendiado a ser expulso pelos pais de Deku, ou acidentes domésticos envolvendo facas, mães e mais fogo.

— Vai dar tudo certo! — Izuku o afirmava, fazendo o planejamento em sua mente — Nós podemos vir para o festival, e ir para minha casa na hora do jantar, você pode até dormir lá se quiser! — Concluía, programando cada momento.

— Eu confio em você. — Todoroki sorriu — Mas agora se me permite… Eu preciso me vestir.

— Não precisa! — O que estava falando? Não tinha a mínima ideia do que havia dito, apenas queria enfiar a cabeça em um buraco e morrer. — Vou indo!

Midoriya correu para a saída, fechando a porta e saindo com a maior vergonha de sua vida. Shoto realmente não sabia o que pensar, então apenas se vestiu. Colocou um par de calças de moletom pretas, uma camisa de gola alta e mangas longas, calçou seus sapatos e pegou um casaco.

Não sentia frio de verdade, mas em temperaturas muito baixas precisava de um agasalho, era o necessário para que não pegasse um resfriado. Saiu, trancando seu quarto e descendo para o saguão, tinha que ajudar nas decorações.

O dia passou rapidamente, assim como o resto da semana. Quando o natal se aproximava, a ansiedade de Todoroki aumentava ainda mais, estava empolgado para finalmente tornar o namoro oficial, e não havia jeito melhor de fazer isso que conhecendo a família de Midoriya.

Quando menos esperava, já era véspera de natal, e lá estava junto de toda a escola no festival. As árvores foram decoradas com centenas de adornos, se iluminavam e davam vida para o ambiente. Havia um banquete para todos os estudantes, o aroma agridoce do prato principal infestava os corredores. Debaixo de viscos os estudantes trocavam beijos, o espírito natalino estava em tudo. A organização era de cair o queixo, e até mesmo os professores estavam participando. Aizawa dormia encostado no ombro de Present Mic, tendo o rosto rabiscado por Midnight com caneta, enquanto todos os outros superiores seguravam o riso da situação.

No refeitório, os grupos se formavam naturalmente, amigos riam e suas vozes se aglomeravam no espaço, era um barulho contagiante que seguia o ritmo da música no palco principal, onde a banda de Jirou tocava músicas de amor incorrespondido.

Longe dos olhos curiosos, alheios quanto aos comentários maldosos, e absorvidos na essência do amor, o romance gótico do passado os abraçava, Todoroki e Midoriya compartilhavam um sentimento único. Seus lábios deslizavam um contra o outro, em um escorregadio beijo no lado exterior do colégio, tendo a brisa fria os rodeando.

— Você está pronto? — Midoriya perguntava, atencioso como sempre.

O bicolor acenou positivamente com a cabeça, segurando em sua mão e a aquecendo. Andavam lado a lado, o silêncio entre ambos era confortável, falando mais que mil palavras. Eventualmente trocavam olhares, tinham beijos roubados pelo outro e riam de comentários inapropriados, tudo parecia tão perfeito que era quase um sonho.

— Sabe, é meu primeiro natal com alguém que amo. — Todoroki contou de repente, lançando um olhar carinhoso para Deku.

— Eu fico feliz por ser comigo. Eu também te amo.

Apesar da reciprocidade, Midoriya tinha uma dúvida, qual não queria expor. Era uma pergunta sensível demais, indelicada e provavelmente um gatilho emocional para Shoto, queria o perguntar sobre sua família. Preferiu manter aquilo para si.

O percurso até o prédio em que Midoriya morava foi longo, mas chegaram tão distraídos que sequer notaram a demorada caminhada. As ruas naquele horário estavam pouco movimentadas, todos deveriam estar com suas famílias festejando aquela altura.

Entrando no local, Todoroki percebia que era muito simples, imaginando que Midoriya provavelmente cresceu em uma família comum, sem muitos privilégios e com uma boa educação de berço.

— Eu estou levemente desesperado. — Todoroki admitia ao entrarem no elevador, suas mãos suavam frio.

— Vai dar tudo certo. — Izuku sorria, ajustando seu cachecol vermelho.

Quando chegaram no apartamento em questão, Todoroki precisou de um momento respirando fundo antes de entrar, mexendo em sua touca e se preocupando se seu suéter de rena natalina era ridículo, mas acalmou-se com as palavras motivadoras de Midoriya, ele era quase um coach.

Midoriya pegava o casaco de Todoroki, o pendurando, segurando sua mão firmemente e indo até a cozinha, onde sua mãe estava sozinha, organizando a comida e claramente desanimada.

— Mãe! — Exclamava Midoriya, vendo a expressão de alegria se formar na mulher.

— Querido, você veio! — Ela foi em direção ao casal — E esse deve ser o rapaz que você tanto falou sobre!

— É um prazer a conhecer, senhora. — Todoroki fazia uma reverência exagerada, tentando ocultar sua vergonha.

— Não seja tão formal, você pode não me conhecer, mas o Izuku já me contou tudo! — Ela dizia com um tom amoroso — Sentem-se, eu vou servir o jantar.

Sentados lado a lado na mesa, os dois rapazes entreolharam-se, Midoriya tentava constantemente acalmar Todoroki, pois ele parecia estar pronto para sair correndo a qualquer momento.

— Sua mãe é muito gentil…

— Sim… Eu falei bastante de você para ela, então ela meio que sabe das suas dificuldades, vai ser mais fácil assim. — Contava Izuku de maneira dócil, transmitindo confiança.

A comida era servida calmamente, tendo a visível aprovação de Todoroki, que sentia-se estranhamente acolhido. Não estava acostumado a jantares tranquilos, em sua casa todos discutiam constantemente, os jantares eram todos campos minados, em que eventualmente alguém se machucava.

— Obrigado. — Agradecia Shoto, a olhando com brilhantes orbes de um cachorro de rua, como uma criança vendo seu tio preferido.

Ela juntou-se a refeição, sorrindo para ambos, mal podia acreditar que seu garotinho já estava namorando, não podia negar que estava emocionada com aquilo.

— Seu pai teve que fazer uma viagem de última hora, infelizmente não pode vir. — A mãe contou, olhando para o filho

— Tudo bem, não é a primeira vez que ele faz isso. — Midoriya queria ao máximo evitar o assunto família, ainda mais perto de Todoroki. — O meu pai trabalha muito, Shoto, sabe como é!

— Compreensível. — Todoroki afirmou monótono, realmente não queria falar sobre aquilo.

O jantar foi silencioso, mas confortável. As conversas foram sobre assuntos aleatórios, triviais, como a escola e o que pretendiam fazer no futuro. A impressão que Todoroki havia causado era boa, mas ainda assim de alguém muito tímido, o que fez a mãe evitar assuntos pessoais. Quando terminaram o jantar, Todoroki e Midoriya subiram para o terraço do prédio, olhando os fogos de artifício na noite escura.

Sentaram-se nas bordas do edifício, com as pernas pendendo no ar, a sensação de perigo era estranha mas contrastava com a paz do momento. Estavam tão altos, tudo abaixo parecia insignificante, tudo que importava naqueles instantes era que estavam juntos.

— Eu acabei não comprando nada, você sempre me dá tanto… — Todoroki suspirou, frustrado por não ter conseguido escolher nada.

— Como você mesmo disse; Você já me dá tudo só por respirar. — Repetia o que havia lhe sido dito, lembrava-se perfeitamente por ter ecoado tanto em sua mente.

Pela primeira vez na eternidade, Todoroki sentiu-se seguro, nada mais importava, Endeavor, os presentes, seus traumas, para o inferno tudo isso. O que realmente importava era que amava Midoriya, e nunca poderiam lhe tirar aquele sentimento. Aquele foi seu primeiro Natal com alguém que amava, com alguém que teria orgulho de dizer que era sua família.



Notas finais
É isso, caso tenham gostado, peço por favor que comentem, me motiva a continuar escrevendo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!