You're Driving Me Crazy!
2 Capítulo 2
São Paulo
Era um lindo dia.
Elisabeta não conseguia se lembrar quanto tempo fazia desde a última vez que tinha acordado com um humor tão bom. A claridade do sol e uma deliciosa brisa invadiram seu quarto naquela manhã de sábado, tornando o clima tão agradável que, aliado às conquistas que vinha tendo em sua vida profissional, fez com que ela se sentisse genuinamente feliz.
Era um lindo dia.
E seria impossível que qualquer coisa o estragasse.
Ela se sentou na cama para se espreguiçar e Austen, seu cachorro, ao perceber a movimentação de sua dona, correu em sua direção e recostou sua cabeça nas mãos de Elisabeta para ganhar seu carinho.
— Ei, mocinho. Bom dia! — ela brincou com ele por alguns minutos antes de ir para o banheiro se arrumar.
Quando voltou para o quarto, Austen estava em frente à porta e segurava sua coleira na boca. Elisabeta riu, pois ainda se surpreendia com a inteligência de seu cachorro. Ou esperteza? De qualquer forma, ela não conseguia resistir a ele, e por isso tomou um breve café da manhã para que pudesse levá-lo para passear.
Enquanto colocava numa bolsa seus documentos e um pouco de dinheiro, Elisabeta olhou para sua escrivaninha e sentiu uma sensação de dever cumprido. Já tinha escrito as colunas que seriam publicadas durante a semana seguinte nos dois jornais para os quais trabalhava e, por isso, ela teria um tempo para se dedicar inteiramente ao livro que estava produzindo.
Quando já estava pronta, Elisabeta pegou a coleira de Austen e os dois saíram do prédio onde havia ela alugado um apartamento, caminhando sem rumo pela cidade e se deliciando com a primavera. Do lado de fora, tudo parecia ainda mais encantador.
Havia menos carros nas ruas, as árvores estavam floridas, as pessoas conversavam animadamente sobre os planos que tinham para o fim de semana, as crianças tomavam sorvete alegremente e anúncios sobre eventos culturais estavam sendo fixados em outdoors.
À medida que andavam, Elisabeta observava as vitrines das lojas que já estavam abertas, e um cinema que ficava localizado na avenida principal de seu bairro chamou sua atenção quando ela viu o cartaz de um filme chamado “O Garoto”. Ela se aproximou para conseguir mais informações: direção, roteiro, música e atuação de Charles Chaplin. Hmmm, ela tinha vontade de assistir um filme dele, pois tinha lido diversas críticas favoráveis. Elisabeta considerou comprar um ingresso para a sessão das 20h, pois assim teria tempo de realizar as tarefas que planejou para o sábado. E à noite relaxaria indo ao cinema. Ótima ideia.
Era um lindo dia, ela pensou novamente.
E seria impossível que qualquer coisa o estragasse.
Exceto que algo — ou melhor, alguém — aparentemente poderia, sim, estragá-lo.
— Elisabeta Benedito.
Ela fechou seus olhos e respirou fundo, se odiando por reconhecer aquela voz sem nenhuma dificuldade.
— Darcy. — ela sussurrou, sem que ele pudesse escutá-la.
Ela se virou e encarou-o. Darcy não havia mudado em nada desde a última vez que se viram, há mais de um mês no Vale do Café. Seus olhos continuavam irritantemente verdes.
— E este seu amigo? — Darcy olhou para Austen, que começou a balançar o rabo ao perceber que ganhou a atenção de alguém.
Elisabeta ficou em silêncio por um tempo. Aquela devia ser uma das coisas mais bizarras que já lhe acontecera: Darcy encontrá-la em São Paulo e parar para cumprimentá-la, quando poderia tê-la ignorado. Era o que ela teria feito.
— Austen, meu corgi. — Elisabeta respondeu friamente.
— A senhorita tem certeza? — Darcy franziu o cenho. — Eu já tive um corgi e ele não se parecia muito com isto. — Quando pronunciou a última palavra, os olhos de Darcy repousaram nos dela e brilharam, indicando que o pronome fora deliberadamente escolhido para provocá-la.
Ora, quanta ousadia!
— Isto... — Elisabeta disse, ironicamente. — … é um corgi, sim.
— De verdade? — ele insistiu. — Corgis não são tão magrinhos e geralmente têm duas cores ou mais.
Elisabeta bufou.
— Eu não havia sido informada da sua recém-adquirida formação em medicina veterinária e especialização em identificação de raças.
Darcy deu de ombros e colocou as mãos nos bolsos antes de responder:
— Conhecimentos gerais.
— Saber insultar um cachorro faz parte de conhecimentos gerais? — Ela perguntou.
— Eu não sei se insultar seria a palavra apropriada. — Darcy falou calmamente e adotou uma expressão pensativa.
— Discordo. — Ela tentou soar tão tranquila quanto ele.
— Você não acha que a palavra insulto seria adequada apenas se ele... — Darcy apontou para Austen. — … se sentisse insultado?
Elisabeta olhou para Austen, que estava pulando na perna de Darcy como se o carinho dele fosse a coisa mais importante que poderia ganhar.
— Ele está se sentindo insultado. — Elisabeta disse sem convicção. — É que ele tem uma maneira pouco usual de demonstrá-lo.
— Estou vendo. — Darcy se ajoelhou e começou a brincar com Austen, que retribuiu o gesto lambendo sua mão e parte de seu braço. Darcy resmungou e vê-lo contrariado fez com que Elisabeta mudasse de ideia novamente: sim, aquele era um lindo dia. Mas então Darcy riu, e Elisabeta se perguntou o que havia de errado no mundo.
Darcy Williamson não era do tipo que brincava com cachorrinhos.
Ele era uma das únicas pessoas com quem Elisabeta não se dava bem. Ela gostava de ser amigável e se esforçava em manter um bom relacionamento com todos, mas com Darcy isto não era possível. Desde que se conheceram, era como se o universo conspirasse para que os dois se desentendessem.
A gota d’água fora quando ela o ouviu aconselhando Camilo a desconfiar das intenções de Jane.
Mesmo depois de ele explicar que tudo não passou de um mal-entendido, Elisabeta nunca seria capaz de esquecer o olhar desolado que viu em sua irmã quando Susana e Darcy a encararam com uma expressão acusatória. Ela tinha uma visão muito romântica do mundo, e descobrir que Darcy — uma pessoa que que ela estimava e respeitava — desconfiava de seu caráter tinha sido um choque.
Na época, Jane afirmou a todos que estava bem e o relacionamento com Camilo apenas se fortaleceu, mas Elisabeta sabia que a irmã nunca conseguiu superar aquele acontecimento. Ela se tornou ainda mais reservada em público e agia espontaneamente somente quando estava junto às pessoas que amava e conheciam a pureza de sua alma: os Benedito e Camilo.
Por isso, Elisabeta não conseguia mais olhar Darcy com bons olhos. Por mais que tentasse perdoá-lo, como Jane fez, Elisabeta sabia que a natureza dele era arrogante, orgulhosa e preconceituosa. Assim, ela preferia manter-se afastada. Quando não era possível, no entanto, era comum que eles discutissem por qualquer motivo, embora tentassem fingir que era apenas uma saudável discordância de opiniões.
Mas não era. Todo o ar ficava carregado quando estavam no mesmo ambiente.
E mesmo se isso não fosse tudo, agora Darcy estava sendo amigável com seu cachorro mesmo após ter sido lambido, e ela podia jurar que ele fazia isso apenas para provocá-la. Era um tipo de abordagem que ele nunca tinha usado antes. E ela se sentiu desconfortável.
Quando ele se levantou, começou a desabotoar os botões do punho de sua camisa e dobrou esta parte, pois o dia estava quente para quem vestia trajes formais como ele. Elisabeta se deu conta que nunca o viu em roupas casuais.
— O que te traz a esta parte da cidade? — Ela não conseguiu guardar a pergunta para si.
Era muito estranho vê-lo em seu bairro. Ele morava no Vale do Café e seus caminhos nunca tinham se cruzado quando ele estava em São Paulo. A cidade era grande demais e ela duvidava que os dois fossem se encontrar por acaso, especialmente perto de onde ela morava.
Ele pensou demais antes de responder, e por isso Elisabeta desconfiou quando ele disse despretensiosamente:
— Eu estou aqui para comprar um ingresso para assistir um filme hoje à noite. E você?
— Eu? — Elisabeta perguntou, tentando soar inocente. Nem por um milhão de dólares ela revelaria que tinha planos de fazer o mesmo que ele. — Eu estava apenas caminhando.
— Li críticas muito boas em relação a “O Garoto”. — Darcy disse e sinalizou para o cartaz do filme.
— E você já comprou seu ingresso? — Elisabeta perguntou.
— Ainda não, mas comprarei agora. — Darcy começou a se virar para entrar no cinema, mas Elisabeta o impediu. Ela segurou seu braço e quando ele parou, ela se sentiu estranha. Era a primeira vez que o tocava, e ele não fez nenhum esforço para se mover nem se afastar. Ela preferiu nem tentar compreender aquele momento, e por isso soltou-o imediatamente e limpou sua garganta antes de dizer:
— Antes que você faça isso, poderia me dizer o que o senhor realmente veio fazer aqui? — Ela questionou.
Elisabeta sabia que assistir o filme não era o motivo pelo qual ele estava ali, uma vez isso não fazia sentido nenhum. Tinham diversos cinemas em São Paulo, por isso ele não precisaria ir justamente naquele que era tão distante das propriedades que os nobres possuíam na capital.
— Eu estou sozinho na cidade e queria companhia. — ele revelou.
Elisabeta ficou sem palavras. Ela abriu a boca para dizer algo, mas nenhum som saiu e então a fechou. Abriu a boca outra vez, mas novamente o silêncio reinou antes que conseguisse dizer algo. A terceira tentativa foi a última, pois Darcy riu.
— Você parece um peixinho procurando ar.
Elisabeta o fitou seriamente.
— Você quer minha companhia? Ir ao cinema comigo? — Elisabeta perguntou e então revirou os olhos. — Senhor Darcy, eu exijo saber o que sua mente maquiavélica está planejando. Imediatamente.
— Maquiavélica? — Ele sorriu. — Já me insultaram de diversas maneiras, mas nunca de uma forma tão filosófica. E política.
— Darcy. — A voz dela soou como uma ameaça.
Elisabeta gostou disso.
E então se repreendeu por tê-lo chamado pelo primeiro nome. Era culpa de sua família, que se referia a Darcy como se ele fosse um amigo, e agora ela se esquecia de pensar nele com formalidade.
Não que pensasse nele.
Não mesmo. Ela costumava isolá-lo de seus pensamentos.
— Não estou planejando nada, na verdade. — Ele deu de ombros.
— Nada? Eu não acredito e não estou achando graça. O senhor e eu nem…
— Nem nos gostamos? — Ele completou, sem dar a ela a chance de terminar sua frase. Sua expressão agora era séria e Elisabeta imaginou que estava ficando louca, pois jurou ter visto um lampejo de angústia em seus olhos.
Ela suspirou e tentou se acalmar. Sim, Darcy e ela nunca se gostaram, mas nunca haviam dito isso em voz alta e ouvi-lo proferir estas palavras fez com que ela se se sentisse exposta e, de certa forma, frágil.
Em outra ocasião e em outro lugar — talvez no Vale do Café, onde ela se sentia mais confiante —, Elisabeta teria inventado uma resposta sarcástica que colocaria um fim àquela conversa. Eles se despediriam e continuariam se ignorando, o que era a atitude mais sensata, uma vez que nada de bom vinha de um encontro entre eles.
Mas talvez fosse o azul do céu, talvez fosse o som dos pássaros cantando ou, que Deus a ajudasse, talvez fosse a ansiedade que detectou no rosto de Darcy, mas Elisabeta não teve forças para raciocinar direito. Sem pensar, ela falou:
— Eu não sei viver num mundo em que você procura minha companhia, sorri, brinca e faz carinho no meu cachorro. — Ela engoliu em seco. — Isto não é nada comum. Por favor, me diga o que quer.
Darcy observou-a atentamente por diversos segundos antes de responder:
— É assustador enfrentar algo que está fora da nossa zona de conforto.
Elisabeta assentiu cautelosamente. Era exatamente assim que ela estava se sentindo naquela manhã, lidando com um Darcy que nunca tinha visto. O que ela conhecia costumava ser taciturno, irônico e desinteressado, ou seja, se portava da mesma forma que ela quando estavam na presença um do outro.
De repente, Elisabeta sentiu a necessidade de ir embora, já que não estava conseguindo decifrar as intenções de Darcy.
— Se você me dá licença, preciso ir. — ela começou a caminhar quando ouviu novamente a voz dele.
— Espere.
Ela parou.
— A senhorita tem razão. — Ele se aproximou dela novamente. — Estou aqui por outro motivo também. Você poderia me encontrar hoje à noite? Precisamos conversar, mas agora estou um pouco atrasado.— Darcy olhou para o relógio.
Ah, não.
— Eu comprei um telefone. — Elisabeta forçou um sorriso. — Por que você não me liga? Acho que seria melhor. Ou quem sabe você poderia me mandar uma carta? Posso te passar meu endereço.
— É importante. — Ao notar o olhar de preocupação no rosto de Elisabeta, ele acrescentou: — Mas nem tanto assim. Me espera um segundo.
Elisabeta viu Darcy se afastar em direção à bilheteria do cinema. Neste meio tempo, um misto de sensações conflitantes surgiram em seu interior. Ela estava curiosa para saber o que Darcy precisava conversar com ela, mas ao mesmo tempo não sabia se teria energia para…
Como era mesmo a palavra que ele tinha usado no segundo encontro que tiveram?
Tolerar.
Precisamente. Ela também não sabia se teria ânimo para tolerar a companhia de Darcy durante horas.
Seria desgastante.
E quando ele voltou para onde ela estava, Elisabeta simplesmente não tinha uma resposta para a pergunta dele:
— Te encontro aqui às 20h? — Ele entregou a ela um dos dois ingressos que comprou.
Darcy respeitou o silêncio de Elisabeta e pareceu compreender sua hesitação, pois desejou que ela tivesse um bom dia e entrou em seu carro, que estava estacionado a poucos metros dali, e foi embora.
Demorou horas para que ela tomasse uma decisão.
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