You're Beautiful
1 I've got a plan
Notas iniciais
Ou seja, tô estressada e não vai ter textinho fofo de "estou de volta". Eu só tô aqui, fofos, lidem com a saudade e leiam aí, por favor. Obrigadinha.
Agora,
boa leitura!
Aquele dia começaria como todos os outros da minha rotina: levantar às seis, tomar banho e, logo em seguida, preparar o café da manhã. Após uns quarenta minutos, eu vestiria minhas roupas e seguiria para o trabalho. Sim, tudo isso teria acontecido normalmente se eu não tivesse dormido mais meia hora, sujado a camisa de café e, obviamente, me atrasado. Mas logo que terminei de abotoar uma camisa limpa, apressei-me em ir ao terminal do metrô que costumo pegar. De fato, aquele dia estava conspirando contra o meu sucesso, pois, ao chegar à estação, além de estar lotada, um frio nada simplório reinava pela cidade e eu havia esquecido o sobretudo em cima da mesa da cozinha. Ótimo.
A cada dois minutos e meio passados, eu olhava pacientemente para o relógio em meu pulso. Nem um sinal do meu transporte. Por fim, após quase dez minutos de pé em frente a linha, percebi que não havia razões para eu esperar ali, sendo que um banco vazio me observava chamativo e o trem só chegaria em quinze minutos. Algumas linhas estavam atrasadas. Resolvi que sentar parecia uma atitude sensata.
Procurava sempre me movimentar para que meu corpo ganhasse calor. Mas de quase nada adiantava, aquela cidade conseguia ser infernalmente fria quando resolvia. Imaginei que mesmo com o sobretudo estaria um gelo, e que apenas um aquecedor portátil me traria a felicidade quentinha. Engano meu.
Até que eu finalmente virasse as vistas para o painel de horários, eu não havia percebido uma beleza que se aproximava. Ela andava calmamente. Bolsa marrom cruzando seu corpo; um casaco relativamente grande, pois ela parecia bem esguia lá dentro; cabelos castanhos e ondulados levemente contidos dentro de um gorro azul e um olhar inquieto. Talvez ela estivesse procurando algo. Ou alguém. Não havia como saber.
Não demorou dez segundos para que ela chegasse mais perto de onde eu estava, mas cada passo desfilado era como o melhor dos séculos, um lindo filme sendo reproduzido bem a minha frente. E, de repente, ela parou e se virou em minha direção. Imagino que meu sangue tenha descido todo para os pés e voltado como um turbilhão de suco de tomate, pois sentir o rosto aquecer tanto assim não poderia ser normal. Tive certeza de que estava completamente vermelho. Eu simplesmente não sabia se ela estava olhando para mim. Ela fazia algumas caretas, como se não enxergasse direito o que estava bem a sua frente. Pouco tempo depois, dei graças a Deus ao constatar que estava enganado quando ela andou mais para a direita e sorriu ao finalmente achar o que queria.
Procurei olhar na direção contrária a sua e esperei até que eu saísse por completo de seu campo de visão. Virei discretamente em cima do banco e a vi caminhando em direção à lanchonete do metrô. Suspirei fortemente. Como você é idiota, pensei de mim mesmo. Ri internamente.
Olhei para o relógio novamente e ainda faltavam dez minutos para o trem chegar. Ótimo, era tempo suficiente para ir até a lanchonete e tomar um café. Pelo menos essa era uma boa desculpa para ser um stalker esquisitão. Ainda assim, não hesitei mais nem um segundo e fui até lá. Quando cheguei à frente do pequeno estabelecimento, pude vê-la pelo vidro, sentada na mesa perto do caixa. Adentrei rapidamente e observei de rabo de olho o que ela havia ordenado. Um café simples, aparentemente. Talvez eu conseguisse chamar sua atenção pedindo o mesmo.
Perguntei bem baixinho à balconista o que a moça havia pedido e ela prontamente riu de mim. Envergonhado, eu chiei pedindo que ela falasse baixo. Ela riu mais um pouco e me serviu. Mas, como toda velhinha danada, ela fez questão de dizer em alto e bom som “café puro com duas colheres de chocolate no capricho” só para que ela escutasse. Não sei se foi verídico, mas senti um olhar rápido vindo da mesa onde ela estava. Procurei não olhá-la nos olhos. Se eu estivesse de óculos escuros, certamente fingiria ser cego.
Agradeci à (nojenta) senhora e saí de lá o mais rápido possível. Como fui idiota. Sentei-me novamente no mesmo banco e pus-me a pensar o que diabos se passava na cabeça daquela velha. Levei o copo quente em minha mão próximo aos meus lábios. Não estava muito confiante no gosto daquela garota, mas eu não poderia simplesmente deixar aquilo ali para estragar. Era um dinheiro sem devolução. Pus uma pequena gota na ponta da língua com o maior desgosto e, mesmo que parecesse ruim, depois de saborear melhor, era muito bom. Enfim, tomei-o prazerosamente.
Dos dez minutos que restavam, gastei cinco para comprar aquele bendito café. E, no final das contas, nem consegui observá-la mais um pouco. Mas, após pensar que havia perdido meu tempo, a menina reapareceu ao lado do banco, como se procurasse um lugar para sentar. Naquele assento cabiam três pessoas. Eu estava lá e havia um senhor também. Eu não gostaria que ela sentasse ao meu lado. Provavelmente eu faria alguma besteira ou algo pior. Então, sem mais devaneios, coloquei minha pasta no lugar vazio e virei o rosto para não encará-la. Sim, aquilo havia sido uma atitude bem imbecil. Mas quem é você para me julgar? Eu sou hipertenso, imagine. Talvez ela tenha me olhado com uma cara revoltada e aquilo seria um ponto a menos. Mas e daí? Eu nunca mais a veria, de qualquer forma.
Então, ela não teve escolha a não ser ficar de pé em frente à linha, exatamente como eu havia ficado pouco antes, para esperar um trem. Ela pegaria o mesmo que o meu, deduzi. Nossa, que droga.
A vi pegar um livro dentro de sua bolsa e, quando começou a ler, tentei descobrir qual era, porém estava longe demais para enxergar o que havia na capa. Mas perto o suficiente para apreciar seu rosto angelical.
Fiquei ali, sentado, observando-a como eu queria. Era engraçado e ao mesmo tempo reconfortante vê-la sorrir empolgada a cada quinze segundos de leitura. E pouco me importei em segui-la com alguns sorrisos. Talvez aquilo soasse psicótico ou, sei lá, estranho. E, de fato, era estranho. Mas eu não pretendia sequestrá-la. Apenas me encantava como era visível a qualquer um que aquelas linhas, aquelas páginas, a levavam à outra dimensão. E como ela me levava à outra dimensão.
Pouco tempo depois, fui tomado de meus pensamentos pelo som dos trilhos rangendo. Os cinco minutos de perfeição acabaram e uma multidão encobriu a garota, entrando nas pequenas portas do trem e me irritando, pois eu passaria maus bocados para entrar também. Levantei-me rapidamente pegando minha pasta e corri até a porta antes que ela fechasse e eu me atrasasse mais ainda.
No meio daquele monte de gente dentro de um vagão minúsculo, eu tive que ficar de pé, obviamente, e me esfregar em uns três ou quatro homens suados que ficaram a minha volta. Rezei aos céus para que aquela viagem durasse pouquíssimo. Rezei mesmo. Mas, não muito após quase um terço de orações, eu pude ver um gorro azul-escuro em meio a algumas pessoas, pouco distante dali. Na outra porta, para ser mais exato. Sim, era ela!
A garota era tão perfeita que nem parecia se incomodar com aquele esfrega esfrega perto de si. Então, após enxergá-la de fato, comecei a rezar para que aquela viagem demorasse o máximo possível. E, como se já não bastasse uma penca de fedidos ao meu lado, aquele terço foi tão rápido que ela já se preparava para descer uma parada antes da minha. Que droga, pensei. Procurei sair de dentro daquela barreira oleosa para tentar vê-la melhor uma última vez. E foi aí que começou a maior mudança da minha rotina: quando o metrô estava estacionando, ela virou em minha direção, olhou em meus olhos e sorriu lindamente. E, então, ela foi embora. Eu não consegui me mexer nem um mísero milímetro. Não sei nem como estava respirando. Só sei que aqueles dois segundos pareceram o paraíso para mim. E aquela mania de cronometrar tudo ao meu redor só me deixava mais certo que, no dia seguinte, eu cronometraria todos os seus sorrisos que eu conseguisse.
Mas como engano de rotina, a minha sorte estava mesmo contra mim. Pois, justo no dia em que eu provavelmente perderia meu emprego, fiquei perdido e não sabia exatamente o que fazer. Eu acabava de me apaixonar por uma completa desconhecida.
No outro dia, o despertador tocou às seis. Mas eu já estava de pé. A rotina continuou a mesma, apenas adiantada e mais rápida. Pelo menos até a parte de ir ao metrô, pois, chegando lá, fui direto à cafeteria em vez de ficar de pé em frente a linha. A bendita atendente do dia anterior não estava lá, o que era muito bom. Aquele momento não seria constrangedor. Então, ordenei o mesmo pedido e sentei num dos bancos do balcão. Como eu estava adiantado, relaxei. Quase meia hora ainda me restavam.
Pensei em como a vida era engraçada. Os horários do metrô eram bem acessíveis, já que passavam de cinco em cinco minutos. Mas, justamente ontem, um dia em que eu estava extremamente atrasado, as linhas atrasaram mais de quinze minutos e o resto da história vocês sabem. Era incrível como essas coincidências nada oportunas só acontecem comigo em momentos muito pouco favoráveis.
Eu queria muito encontrá-la novamente, mas não conhecia seus horários e tampouco poderia me atrasar mais uma vez para o trabalho. Felizmente, eu já tinha cronometrado uma hora máxima até a qual eu poderia esperar e logo ela havia chegado. Para o meu desafortuno, ela não apareceu. Provavelmente eu só a vi pois estava num horário além do meu. É, coisas do tipo acontecem. Parece que eu não vou mais poder vê-la mesmo.
O trem havia chegado e eu não pude me lamentar mais por não ter dormido quinze minutos além do horário. Adentrei o transporte e, como de costume, não havia lugares para sentar. Mas, pelo menos, não estava lotado. Então, apenas me apoiei em uma barra e me pus a devanear por alguns segundos até que começássemos a andar. Para a minha surpresa, eu enxerguei um ponto azul em frente a cafeteria. Sim, era ela. Era ela! Eu reconheceria aquele gorro em qualquer lugar.
Mas, calma, tinha uma coisa muito estranha naquela cena. Ela estava com alguém. Um cara. Gente, ela estava com um cara. Como eu deveria reagir após ver a pessoa pela qual me apaixonei há exatas 24 horas com um cara que não era eu? Sim, certamente eu entrei em desespero. E eu nem podia simplesmente me jogar no chão e chorar em posição fetal. Não havia espaço suficiente para isso.
Ainda assim, milhões de coisas passavam pela minha cabeça. Será que era namorado dela? Mas talvez fosse um irmão, um primo, um amigo. Qualquer coisa que não precisasse, necessariamente, me atrapalhar. Ok, talvez essa menina estivesse me transformando numa pessoa altamente religiosa, pois o tanto de vezes que eu já havia rezado num espaço de um dia era incrível.
Depois desses momentos de dor e sofrimento, o dia passou arrastado. Ah, que inferno. Odeio, odeio, odeio me apaixonar, porque é esse tipo de coisa que me acontece. Um verdadeiro saquinho. Não me concentro, só penso na bendita pessoa, fico improdutivo, as pessoas me brigam, eu brigo com as pessoas, ficamos com raiva, xingamos um ao outro e quase sempre minha pressão sobe. Eu já mencionei que sou hipertenso? Quase certeza que sim.
Enfim, o dia acabou e eu estava em casa, jogado no sofá, tomando uma cerveja e assistindo séries. Era Friends. Mais especificamente, o episódio em que a Rachel finalmente decide ir atrás do Ross e contar para ele sobre seus sentimentos. Seria cômico se não fosse trágico o fato de que isso me inspirou profundamente a ir atrás da garota e ao menos tentar conversar com ela; e que o Ross já estava com outra pessoa antes que a Rachel pudesse revelar seus sentimentos a ele.
É, essa era minha brilhante ideia. Ir atrás de uma desconhecida e tentar chamá-la para tomar um café sem que ela achasse que eu era um psicótico doidão. Um plano maravilhoso, sim. Inacreditável. Rir não é uma opção, então, é melhor parar, leitor. Eu não estou aqui de brincadeira. Estamos tratando da minha vida que, não por acaso, está prestes a mudar completamente, já que, dando certo ou não, esse plano fará eu ser demitido por chegar atrasado pela milésima vez. Sim, eu tô cagado. E aí?
De repente, o despertador tocou novamente e, de novo, eu já estava de pé e quase pronto. Deixei, inclusive, para tomar café na estação. E foi o que fiz. Pedi o mesmo dos outros dias, porém, dessa vez, acompanhado de um pedaço de bolo de cenoura. Ok, uma delícia. Mas eu não tinha (tinha, sim, mas estava nervoso) tempo para ficar fazendo nada, então, fiquei rodeando a área enquanto não dava a hora de ela chegar. Afinal, que hora era essa? Eu só a havia visto duas vezes, não tinha como eu saber seu horário. Pensar nisso me deixou mais nervoso ainda e eu não conseguia parar de andar de um lado para o outro, olhando as horas desesperadamente. Resolvi sentar. Estava tão frio quanto nos outros dias, mas minhas mãos suavam. Que porcaria, eu nem conhecia a garota e estava daquele jeito. Isso até me envergonha, pensando agora. Detestável.
Mas ela chegou, finalmente. Amém, amém, amém! Lá estava ela com seu gorro azul, a bolsa a tiracolo e o livro na mão. Linda como sempre, estonteante como sempre, desconhecida como sempre. E eu não conseguia parar de observá-la. Dessa vez, ela já estava com o café em mãos. Por um minuto, eu esqueci da minha verdadeira missão. Mas assim que me toquei, não pude evitar um nervosismo maior ainda. Principalmente quando ela virou em minha direção e minha única reação foi virar de costas.
Um tempo passado, eu voltei o olhar para ela vagarosamente. Infelizmente, para mim, ela estava com um cara, mais uma vez. Não consegui identificar se era o mesmo do dia anterior, mas provavelmente era. Eles estavam abraçados. É, provavelmente era seu namorado e minhas chances estavam zeradas. Eu perderia o emprego por nada. Mas, ah, de qualquer forma, aquele trabalho era um saco mesmo.
Então, cansei de assistir nossos momentos hipotéticos na minha cabeça enquanto os via abraçados. Àquela altura, resolvi sair da estação, comprar uma cerveja e ler o jornal na padaria. A rotina de pressa não me possibilitava mais isso. É, beber a essa hora da manhã pode ser estranho, mas eu já estava ferrado mesmo. Que mal faria? Até mesmo porque fazia um bom tempo que eu não ia à padaria de perto do metrô. Os ares dali eram muito bons. O movimento relativo e o cheiro de pão recém-tirado do forno… Tudo muito maravilhoso. Inclusive a vista privilegiada que o local tinha para a parte ao ar livre do trem que acabara de sair. Dava para ver as pessoas de dentro e vocês certamente não acreditariam que, naquele momento, o único rosto que me interessaria dentro daquele vagam seria de um alguém específico. Sim, esse mesmo. Era o rosto do cara que estava com a minha garota na estação. E ele estava com outro cara! Beijando-o! Meu Deus, ele não era namorado dela. Ele era gay, por todas as glórias!
Droga, droga, droga, pensei. Levantei-me e corri o mais rápido que pude de volta para a estação. Tudo e todos a minha frente eram invisíveis, pois eu só queria tentar encontrá-la novamente. Que droga, eu achava que tinha perdido minha oportunidade de pelo menos vê-la uma última vez.
Assim que cheguei ao hipotético ponto de encontro, não a vi. Fui à lanchonete, ao corredor dos banheiros, à banca… Em lugar algum ela se encontrava. Já havia perdido as esperanças, não fazia mais sentido procurá-la. Acabou, já era, deu ruim. Minha derrota havia sido decretada. Sentei no banco, apoiei os cotovelos sobre os joelhos, a cabeça sobre as mãos e a consciência no chão. Suspirei forte e fiquei ali por alguns segundos. Sentia uma vontade tremenda de chorar e tudo me estressava naquele momento. Queria chutar tudo. Até a pessoa que sentou ao meu lado. Eu já não aguentava mais tanta insatisfação e meu rosto coçava de agonia.
Meu coração estava extremamente acelerado devido à corrida exaustiva e minha pressão devia estar mais alta do que poderia, mas finalmente comecei a me acalmar. Respirei fundo e finalmente levantei a cabeça. E era isso que eu pretendia fazer dali para frente: levantar a cabeça e seguir. Mas, antes de seguir, eu resolvi olhar para o lado. Incrivelmente, meus queridos, a pessoa que eu queria chutar há poucos segundos era a bendita a garota. A bendita garota!
Ela me olhava meio assustada, meio risonha. Não dava para dizer ao certo se ela estava sendo educada ou se só estava constrangida. De qualquer modo, eu era a única pessoa ali que gostaria de ter um infarto naquele momento.
— Olá — proferiu educadamente.
— O-olá — respondi ainda um pouco ofegante e muito, muito envergonhado.
Ela sorriu brevemente. Gente do céu, era incrível como ela conseguia ser maravilhosa nos momentos mais inoportunos(para mim).
— Você… — ela pareceu hesitante e até desviou o olhar, mas logo concluiu — Você gostaria de tomar um café?
É, pessoal… Nesse momento, só uma coisa veio a minha cabeça: abaixa que é tiro.
Notas finais
Deixem a opinião de vocês sobre os stalkers da vida e não temam em me xingar por ter sido uma cavala lá em cima. Eu estava realmente chateada. #upset
auheauea
Enfim, eu só gostaria de dizer que essa one vai ter uma continuação com base em uma outra música do James Blunt. Mas eu não vou dizer qual é, pq eu sei que vocês são espertos e vão sacar a história logo de cara. Hahaha
Pois é, obrigada por ter chegado até aqui sem furar os olhos. Beijinhos da fofa,
Vic.
Fale com o autor