Your window pane
4 Imagine
Notas iniciais
Ravannah conta:
Quando enfim o dia amanheceu,minha cabeça doía tanto que até pensar me fazia mal,eu me lembrava de pouca coisa até desmaiar,com Jade me olhando,desesperada. Eu ainda não sabia o que aconteceu para as minhas costas arderem tanto. Jade iria me dizer,mas dormia um sono tão forte que nem me atrevi a despertá-la.
Entrei no banheiro que era modestamente ajeitado,um espelho não muito grande, uma pia de vidro,com nossos produtos de higiene,um sanitário e o boxe de blindex. Nas paredes decoradas com pastilhas meio desgastadas pelo tempo.
Segui para o banho,Suíça havia acordado gélida, minha pele intensamente branca estava cheia de bolinhas,mas mesmo assim criei coragem enquanto me livrava das roupas que vestia,enfim para lavagem do corpo e alma.
Água quente! -Disse enquanto levantava as mãos e fazia concha com elas.
Dentro de mim,sentia culpa por ter falado aquilo dos meus pais. As freiras vivem dizendo que a honra ao pais, é como uma coroa para a vida. Esperava compreensão,meu coração estava cansado daquele lugar. Assim que terminei o banho,peguei a toalha do pequeno compartimento da pia,era meu único momento sem toucas,para enfim ser eu mesma,sem medo das críticas,assim que a minha imagem encontrou o espelho,senti uma sensação estranha mas comum,me lembrando de um rosto daquele menino,me esforçava para lembrar o nome dele,mas nada me vinha a memória.
Afastei o pensamento e comecei a fazer a minha higiene bucal. Assim,que terminei,comecei a pentear os cabelos,pareciam tão vivos e radiantes atenuados pela a minha expressão não tão feliz. Meus cabelos "batiam" quase nos glúteos. Ajeitei o cabelo em forma de coque,não tão simples mas não muito elaborado também.
Assim que terminei de me secar,peguei o pequeno espelho que havia ganhado de presente (daquele garoto para variar), para ver como o penteado havia ficado,virei-me de costas para o espelho maior e dei uma espiada no cabelo.
Meu Deus. -Gritei.
Jade espancou a porta e logo a abriu.
Como isso veio parar aqui? -Perguntei.
Foi ontem. Aquele incômodo que sentiu,foi a formação disso aí! -Jade explicou.
Estava perplexa demais para agir e/ou pensar em alguma coisa.
Meu corpo havia se auto manchado era isso? -Perguntei ainda descrente.
Jade assentia.
Vesti um conjunto de blusa e calça de lã,de cor azulada,me joguei na cama, queria esquecer de tudo nem que fosse por um instante.
Me cobri com as cobertas que ainda estavam bagunçadas sobre a cama. Cobri minha cabeça deixando apenas o meu rosto descoberto.
Amiga,não fica se martirizando assim, para com essa auto comiseração, que não vai te levar a lugar nenhum. -Enquanto Jade falava,eu permanecia de olhos bem fechados, até que escutei o barulho da porta se fechando.
◆◆◆
Eu estava sonhando no dia em que tudo mudasse,numa vida normal, livre de restrições fantasiosas, toucas,gorros e chapéus. Queria ser eu mesma e mais feminina. -Sentei-me numa espécie de sofá sendo que pequeno na parede da janela,estava o clima estava abafado,se não abrisse a janela a sensação era de que morreria naquele mormaço. Quando enfim abri a janela,um vento muito forte invadiu o cômodo,lançando a touca que cobria meu cabelo para longe,fechei os olhos instintivamente,até que tornei a abri-los e vislumbrei a mesma paisagem sendo que o garoto não estava lá. Pulei pela janela para o exterior e andei em direção àquele local,o livro estava aberto no chão,estava curiosa para lê-lo mas não precisei as palavras saltavam do livro,uma por uma em fontes desenhadas e brancas.
" Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje"
Era como se fosse uma mensagem pra mim,agora aguçou mais ainda a curiosidade em ler o livro. Quando abaixei para pegar o mesmo, percebi um vulto. Logo pensei no garoto mistério. Andei até o começo/fim do canteiro e não consegui sair,era como se um campo de força se instaurasse em volta,comecei a bater freneticamente no ar,como se isso resolvesse alguma coisa. E logo as palavras que pareciam flutuar como nuvens naquele céu tão azul, regressavam para o livro,assim que a última palavra "entrou",o livro se fechou. Uma figura curiosa começou a surgir andando por fora que era um ambiente arenoso lembrando as dunas, era familiar,o tal garoto vestia uma casaco verde com capuz de cetim e uma calça branca (Não sei como ainda estava dessa cor já que sempre quando o via,ele estava sentado no chão.) Quando ele me viu,estranhou. Eu me afastei e comecei a chorar incessantemente.
Estava sozinha naquele lugar,presa parecendo under the dome. Só queria voltar para casa. Ele se aproximou do canteiro fez um movimento como se estivesse girando uma maçaneta invisível e entrou dentro do lugar,comecei a me desesperar,o que mais esse menino fazia? -E cada passo que ele dava em minha direção,eu andava para trás.
Quem é você? De onde você surgiu? -Perguntei.
Sou quem você quer que eu seja. Hello!? Toc-toc -Ele dava soquinhos em minha testa como se estivesse batendo em uma porta.
Dos seus sonhos,eu só estou aqui por causa disso. Para de chorar, você não fica tão bonita assim. Ele secou uns pingos que desciam pelo meu rosto.
Funguei. Mas porque estou sonhando com você? -Indaguei.
Simples,você vai descobrir sozinha, mas se quiser a minha ajuda. -Ele foi até o livro e o pegou.
Posso ler?-Pedi.
Não. O livro não quer ser lido por você. Ele te mostrou o que ele queria dizer,ele te proporciona a leitura,não você lê quando quiser.
Estava mirabolante demais,eu tinha 17 anos e ainda estava escutando um garoto que invadiu os meus sonhos me dar uma "lição de moral" só porque eu queria ler? -Pensei.
Eu estou na sua cabeça. Eu vejo o que pensa,então por favor,se quiser a minha ajuda não desconsidere o que falo. -Ele falou com um ar amistoso.
Engoli a seco essa. Conta mais? -Ele me olhou com uma expressão cética.
Por favor! Tô pedindo com jeitinho. -Sorri forçadamente.
O.k. Ele riu.
Não tenho o que te contar. Eu estava peregrinando por muito tempo até chegar aqui...eu vi você me olhando através do livro,tentei falar com você mas não respondia e quando finalmente desisti, porque esse lugar me machucou, ele se tornou meu. -Ele terminou e me mostrou as mãos,tinham muitas cicatrizes de corte,isso explicava as rosas brancas com as extremidades ensanguentadas, me aproximei das flores e elas não eram comuns eram como se estivessem escritas com letras pretas e minúsculas,como se fossem uma espécie de páginas.
Que triste. -Lamentei.
Não sinta,esse é o meu Oásis. -Ele sorria descontraído.
Se diz... -Sorri para ele.
Me deixa fazer uma coisa? -Perguntei.
Sim. -Ele assentiu sem nenhuma reserva.
Ele estava sentado na grama de um verde extremamente escuro. Ajoelhei ao lado dele,ele virou o rosto para me olhar,mexi no cabelo dele e era completamente diferente,era sedoso e preto-azulado Particularmente eu queria ter o cabelo preto. Rimos com esse pensamento.
Como ele podia ver o que eu pensava e ele era uma incógnita pra mim? Isso era injusto. -Pensei e sabia que ele estava observando.
Arrumei o cabelo dele e logo apareceu uma franja que tampava-lhe os olhos.
Obrigado. -Ele agradeceu.
Eu não sei como isso acontece mas,você me é familiar. -Ele disse.
Sentei-me no chão,fiz da árvore um apoio para as costas assim como ele. Eu adoraria escutar, tenho quanto tempo quiser. -Respondi.
É estranho, eu caminhei a minha vida toda pra chegar em lugar nenhum. -Ele falava.
Talvez porque você não atribuiu um propósito para a sua caminhada. Você não traça o seu destino,mas sim propósitos,aonde você realmente quer chegar. -Disse sorrindo.
Ele me olhou e sua fisionomia mostrava surpresa.
O que foi? -Perguntei.
É que eu não vi esse pensamento. -Ele disse.
Não? Estranho e isso é ruim? -Perguntei.
Acho que não. Você tem direito de pensar o que quiser. -Ele comentou.
É a minha deixa. -Falei.
Tudo bem. -Ele se levantou e me estendeu a mão.
Segurei a mão dele e fiz impulso para levantar.
A gente se vê? -Perguntei.
Quando você quiser. -Ele me acompanhou até a "porta".
Tchau.
Tchau. -Ele respondeu.
Quando fiquei um pouco distante,olhei para trás e acenei e ele apenas sorria.
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