Your eyes
1 Capítulo 1
Estou te escrevendo isto porque não sei quanto tempo ainda tenho. Pode me julgar, dizer que eu sou uma idiota, mas desde de que eu o vi eu sabia do perigo que estava correndo, e nem por um minuto pensei em hesitar. Agora já é tarde demais para voltar atrás. Eu costumava ter tudo o que queria, e quando queria, meus pais me mimavam tanto, eles queriam que eu fosse a filha perfeita deles. Que entrasse para uma boa faculdade, que só estudasse, e não me metesse em problemas. O que parece ser fácil, na prática é muito mais difícil. Até eu atingir a maior idade, eles se importavam com as minhas notas escolares, e pode-se dizer que eram um pouco próximos de mim, mas não me conheciam de verdade. Comecei a sentir que não estava vivendo, e sim sobrevivendo dia após dia, com toda aquela rotina entediante, eu estava me sentindo sufocada, cansada daquela pressão de ser a filha perfeita.
Na época eu estava cursando filosofia. Durante as aulas via todos os meus colegas descrevendo suas aventuras noturnas, falando sobre festas, e quantas pessoas haviam ficado. Ouvir aquilo, só me fazia lembrar o quão patética a minha vida era. Você sabe que eu sempre gostei de tocar violão e cantar, apesar de nunca ter gastando tanto tempo tentando aprender. Então um dia tive uma ideia maluca, e se eu começasse a cantar a noite em alguns bares locais, só para lembrar dos velhos tempos, onde eu fazia aquelas pequenas apresentações nos nossos encontros entre amigos. Nem contei aos meus pais, em uma sexta-feira peguei o meu velho violão e sai. Havia conseguido convencer o dono do Redwall de que eu era capaz de cantar, após mostrar um dos meus vídeos no youtube.
Eu nunca tinha me sentido tão nervosa e alegre em toda a minha vida, quando comecei a cantar não queria parar mais, estava adorando todo aquele mix de emoções. Haviam umas trinta pessoas ali, não eram muitas, mas na minha cabeça eram muitas. Entre elas eu vi um par de olhos verdes que me olhavam fixamente, era como se eu conseguisse ver tudo dentro daqueles olhos, que tão brilhantes e novos ao mesmo tempo tinham muita sabedoria. Ele havia me escolhido, e eu escutei o seu chamado. Depois do show, sai de dentro do local e fui até a rua pegar um ar e tentar acalmar a minha euforia. Ele estava lá fora, como se estivesse me esperando, se aproximou de mim, seus passos eram suaves, mal conseguia ouvi-los.
“Belo show.” Disse ele.
Fiquei sem dizer nada enquanto ele me olhava nos olhos.
“Tenho uma proposta para lhe fazer.”
“Você é um produtor, ou algo assim?” Perguntei entusiasmada.
“Quase.” Ele disse com um meio sorriso. Estava cada vez mais curiosa sobre aquele ser misterioso a minha frente. “Sei que você anda insatisfeita com a sua vida atual, e está à procura de alguma emoção, ou até algum motivo maior para viver. E se eu lhe desse esse motivo, você aceitaria?”
“Sim” Eu disse sem pensar, eu não estava pensando nas consequências que aquele sim me traria no futuro.
O seu sorriso se transformou em algo cruel, seus caninos ficaram maiores, queria correr, contudo minhas pernas me impossibilitavam de tais ações. Fechei os olhos e senti aqueles dentes cravarem na minha pele, não lembro de mais nada depois disto, ele simplesmente sumiu e me deixou ali. Fui para casa, meu pescoço ainda sangrava, mas eu nem me importava tanto, estava absorvendo o que havia acontecido naqueles cinco minutos mais longos que já tive. Eu precisava encontrar aquele homem de novo, não sabia na época que ele não apenas tinha tomado o meu sangue, também tinha me marcado, eu agora pertencia a ele. Você deve pensar, nossa que coisa bizarra, mas acredite em mim, cada palavra do que digo nesta carta é verdade. Depois daquela noite eu não conseguia mais comer, nem dormir, toda a minha atenção estava voltada para ele, era como uma paixão doentia adolescente, só que eu mal o conhecia.
Na segunda noite em que o vi, ele entrou no meu quarto, e eu fiquei com uma expressão boba ao vê-lo. Ele estava vestido elegantemente, como um lorde inglês moderno. Aqueles olhos verdes eram hipnotizantes e difíceis de resistir, eu caminhei até ele, esperava levar outra mordida, ao invés disso ele aproximou seus lábios dos meus, eu congelei. Ele havia levado a minha alma, eu pertencia a ele, e o meu único desejo era ser como ele. Tinha o desejo de morrer, de ser imortal. Os dias demoravam para passar, tudo melhorava quando a noite vinha, trazendo o meu amado vampiro junto a ela. Meus pais achavam que só estava passando por uma fase ruim, que logo melhoraria e sairia do meu quarto.
“Quando serei como você?” Perguntei em uma daquelas noites.
Estávamos sentados na minha cama, ele apenas me abraçou e disse.
“Logo, minha querida. Assim que eu ter certeza de que você é digna disto.”
“Eu sou” Eu disse.
“Veremos. Você tem que se entregar totalmente a mim, sinto que você ainda não fez isto por completo.”
Não entendi o que ele queria dizer com aquilo, por vezes ele tinha aquele tom enigmático em suas frases, algo que só me fazia ficar mais apaixonada por ele. Eu queria me entregar totalmente, mas algo me impedia, o meu último suspiro de consciência sã dizia para mim que tudo aquilo era loucura, onde eu estava com a cabeça. Sabia que aquela parte ainda sã de mim, tinha que sumir, e eu me esforçava ao máximo para que ela fosse embora, mas não conseguia. Ontem ele fez a sua tradicional visita, para checar o quanto eu havia evoluído, sua expressão de decepção era notável, mesmo com todo o meu esforço, eu ainda não era boa o bastante. Ele bebeu o meu sangue até me deixar inconsciente. Ao acordar notei que havia me deixado um bilhete, onde dizia: Aproveite o seu último dia.
Agora estou aqui no meu quarto esperando ele aparecer, não sei o que irá acontecer comigo, por precaução te deixo essa carta, caso eu me torne como ele, você nunca mais irá me ver. Escutei um barulho na minha janela, acho que ele chegou, adeus.
Olá meu caro, sabia que a sua amiga se foi, ela não era digna da imortalidade, fora apenas mais um dos meus brinquedos. Não fique triste por ela, estava tão feliz quando se entregou totalmente a mim, finalmente teve algum motivo para viver a sua miserável vida. Agora prepare-se, porque estou indo atrás de você, será que você é digno da imortalidade? Não sei, mas veremos.
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