Notas iniciais
Enjoy

Ele estava no parque onde, há quatro primaveras, tinha-a visto pela primeira vez, a brincar com crianças. A rapariga violenta e egoísta que o tinha “acordado” e deixado para trás, depois disso.

Haviam crianças a brincar e as cerejeiras já estavam em flor, mas ela não estava lá. E, apesar de ter continuado em frente, ele nunca tinha ultrapassado a dor que tinha sido perdê-la. A uma rapariga com quem tinha interagido apenas por um ano.

Com 18 anos, Kousei estava a um dia de deixar o Japão para trás e mudar-se para o exterior para continuar a sua carreira como pianista.

Já lhe tinham dito há muito tempo que ele já tinha dado tudo o que tinha para dar no Japão e que devia mudar-se para o exterior, mas ele tinha adiado o máximo possível, não só pelos amigos, mas porque também sentia que a ia deixar para trás no processo.

“Não me culpes a mim por ainda não teres feito a coisa certa para ti.”

Ele sorriu e olhou para o seu lado, onde a Kaori de 14 anos se encontrava com os braços cruzados, a olhar para as crianças que tocavam músicas para atrair os pássaros. As mesmas crianças com quem tinha brincado, há quatro anos atrás…antes de morrer.

É claro que mais ninguém a via, para além dele. E claro que ele nunca tinha dito a ninguém que tinha conversas prolongadas com ela.

Tinha começado a vê-la, num dos concursos onde tinha participado. Tinha chegado até às finais, mas, minutos antes de ter de ir para palco, estava-se a afundar outra vez.

Foi aí que ela aparecera, para o motivar à maneira dela e tinha ficado com ele desde então.

No entanto, daquela vez em particular, a conversa não estava a seguir de uma maneira normal…ou pelo menos como costumavam falar. Parecia ser uma última conversa.

“Tens treinado?”

Era uma pergunta que ela fazia sempre que falavam, apesar de já saber a resposta.

— Eu já passei no exame. – respondeu ele, numa voz baixa – Não preciso de treinar 24 horas por dia.

“Eles vão querer ver do que és capaz, quando lá chegares.”

— Eu estou pronto. – garantiu-lhe.

“Então e o teu inglês?”

— Porque é que falamos sempre das mesmas coisas, quando nos encontramos?

“Do que é que queres falar?”

— Porque é que te vais despedir, no fim desta conversa? – perguntou ele.

Kaori esboçou um sorriso triste.

“Já não precisas de mim. Já não precisas de mim há bastante tempo.”

— Vais desaparecer numa das partes mais cruciais da minha vida? – perguntou Kousei.

“Não sejas lamechas!”

— Então, porque é que ficaste durante tanto tempo? – perguntou ele – É por causa dos meus medos?

O sorriso dela desapareceu completamente.

“Eu não estou apenas na tua cabeça. Eu estou aqui para ti” ela sentou-se no chão “A razão pela qual fiquei foi para ter a certeza que não te tinha quebrado, outra vez.”

— Também dizes isso sempre que conversamos. – ele também se sentou – Mas eu sinto que há mais razões para além dessa.

“Toda a gente precisa de um beijo de despedida” murmurou e sorriu para ele, antes de desaparecer.

Tal como fazia sempre, quando alguém se aproximava. Ele olhou para trás de si e viu Tsubaki a aproximar-se.

— Já fizeste as tuas malas? – perguntou ela, enquanto ele se levantava – Levas alguma comida? Podes não gostar da comida italiana.

— Já estou preparado. – garantiu Kousei, que agora era uns bons dez centímetros mais alto que ela – Tu própria ajudaste-me, lembras-te?

Ela suspirou na mesma, ainda um pouco aborrecida e preocupada. Apesar de ela ter admitido que gostava dele outra vez, dois anos depois de Kaori morrer, não deu tempo a Kousei para responder e disse que deviam ficar amigos até ele já não precisar dela como amiga.

Dois anos depois disso, e Kousei ainda não tinha dito mais nada sobre o assunto. Tsubaki também não tinha dito nada. Ele pensava que era a rapariga que ele amava que estava mais frustrada com aquela situação. Mas ela estava morta, por isso ele decidia ignorá-la quando ela falava no assunto.

Ele tinha de estar no aeroporto, algumas horas depois do sol nascer no dia seguinte, por isso era apenas Hiroko que o ia levar.

Kousei despediu-se da amiga e voltou para casa, para confirmar que tinha tudo o que era necessário. Porque Tsubaki tinha entrado dentro da sua cabeça, tal como era o habitual.

Dos três, ela era a única que ia ficar no Japão. Ela ia partir para Itália no dia seguinte e Watari já estava em Inglaterra desde os 15 anos. Visitava-os todos os anos, mas claro que não era a mesma coisa. Tinha entrado numa liga de futebol e entrado em pânico quando soube que iria ter de falar inglês.

Tinha implorado para que os amigos lhe dessem aulas de inglês e, durante a semana que lhe restava até ter de ir para Inglaterra, Kousei e Tsubaki tinham-no torturado nas aulas particulares.

Estava a sair-se bem e Kousei estava feliz por ele. Tsubaki queria mudar-se para os Estados Unidos. Já tinha tido algumas ofertas. Mas primeiro queria certificar-se que o futuro de Kousei estava no caminho certo.

Ele sentia-se um bocado mal por a estar a empatar e era por isso que ia para Itália no dia seguinte. Caso contrário, ainda podia adiar mais 3 anos e ficar no Japão.

“O teu piano está a ficar com pó, outra vez”

Kousei olhou para Kaori, que olhava para o seu piano, enquanto dava passos pequenos.

— Vou mudar-me para Itália e o meu pai está sempre fora. – lembrou-lhe Kousei – O piano ainda vai acumular mais pó.

“Tenho pena dele” murmurou “Abandonado”

— O que é que disseste? – perguntou ele, enquanto fechava a mala e a punha de lado.

“Disse que devias levá-lo contigo”

— Levar o piano, comigo?

Ela sorriu e anuiu com a cabeça.

“Lembraste…tu prometeste que nunca te ias esquecer de mim” o sorriso desapareceu outra vez “Mesmo que se passem muitos anos”.

— Claro. – garantiu ele – Porquê isso, agora?

“Tal como prometemos, tocamos juntos em palco uma última vez. Mas, tu tinhas tanta certeza que a cirurgia ia correr bem, que não quiseste despedir-te.”

Ela esticou o braço em direção dele e sorriu.

— É por isso que ficaste? – perguntou ele mas, uma vez que ela não disse nada, ele limitou-se a esticar o braço e a encostar a mão à dela. Sabia que ela não estava mesmo ali, mas podia jurar que conseguia sentir o calor da sua mão e os calos derivados a anos de aulas de violino – Isto não é um “adeus”.

“Eu não vou voltar, outra vez” ela deixou cair o braço “Nem vou voltar à vida. Tens de ter coragem e continuar a caminhar em direção ao teu sonho. Tudo o que pudemos fazer é isso!”

— Porque somos músicos… — murmurou ele, deixando cair o braço, outra vez.

“Eu vivi os quatorze anos que me foram dados como quis e lutei até onde os meus sonhos estavam. Agora é a tua vez de lutar…porque eu já não o posso fazer ao teu lado”

— Isto é mesmo uma despedida.

“Só porque não quiseste despedir-te há quatro anos atrás”

— Obrigada, por tudo. – murmurou ele.

Ela sorriu e levou a ponta dos dedos aos lábios, antes de desaparecer pela última vez.

“Ainda queria aquele beijo de despedida.”

Notas finais
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