Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
35 Sanderson Cutner
Notas iniciais
Sanderson Cutner
Os sons ao redor de sua cabeça eram semelhantes a medo e pavor. Enquanto sentia a umidade e o segurar de ar dos outros tributos, ele só conseguia sentir o quanto seus pés estavam vulneráveis, pisando naquele chão de pedra frio e sujo. No canto das paredes uma água corrente suja e altamente preta escorria. Algumas goteiras ao longo do corredor largo. Enquanto isso, as janelas na parede a direita tinham barras firmas protegendo de qualquer tentativa de fuga. Do outro lado a parede ela lisa e sem nenhuma porta. Ele escutou o cronômetro contanto os sessenta segundos de cima para baixo, e então teve certeza de que logo ficaria louco.
º º º
As correntes que o prendiam na cama eram invisíveis, mas Sanderson insistia consigo mesmo que elas eram reais. Não queria se levantar de jeito nenhum, o sono ainda estava em seus olhos, que pesavam. Ele tinha acordado inúmeras vezes durante a noite, suspeitando que alguém estivesse observando-o ou prestes a matá-lo. Os instintos de que logo seria uma vítima eram assustadores. E Sanderson geralmente não estava habituado com o medo. Enquanto se revirava na cama, com o lençol se prendendo em suas pernas e o imobilizando (aquele era realmente um oponente digno), Sanderson ouviu passos no corredor, e não se arrepiou quando percebeu que as vozes vinham junto.
– Ele não acorda já faz mais de cinco horas do programado – disse a voz pesada do mentor, que Sanderson tinha estranhamente se familiarizado. Talvez por lembrar seu irmão mais velho. – E eu consegui colocar você na aliança.
– É exatamente sobre isso que queria falar – Ariel deveria ter encolhido os ombros, pois a voz diminuiu a medida que as palavras eram alinhadas em frases. – Não acho que eu serei útil numa aliança. Sinceramente.
– Você... – o mentor estava ligeiramente irritado – Não é sobre você ser boa com armas ou não, a questão é: Seu pai me mata se eu não te colocar numa aliança boa o suficiente pra ele achar que a menininha está salva.
Um suspiro longo e infeliz veio dos lábios de Ariel.
– Eu não me importo mais. Diga a ele que estou na aliança. Durante o banho de sangue eu me matarei. Ninguém vai perceber e será mais eficiente do que fazer amizade sabendo que só sou um fardo.
– Você não é um fardo – pela porta entreaberta Sanderson vislumbrou seu mentor colocando as mãos nos ombros de Ariel, como um verdadeiro amigo íntimo. Talvez eles fossem, afinal Ariel era mais “enturmada” com os mentores. – A verdadeira habilidade só é descoberta quando realmente se precisa dela. Talvez você ainda não achou o verdadeiro motivo para atirar uma faca ou manejar uma espada. Está dentro de você, Ariel. Está dentro de todos. Desde o primeiro sangue derramado no primeiro Jogo. Somos assassinos. E agora que uma história de duzentos anos se formou, não queira dizer que não é capacitada. Pois todos são. As verdadeiras armas são aquelas que usamos, e não aquelas que foram feitas para usarmos.
Sanderson já conseguia imaginar o rosto desolado de Ariel, e se levantou da cama, sem se preocupar com colocar os chinelos. Assim que seu pé tocou o carpete, se lembrou da sensação de ter seus pés em musgo e grama, relva, do Distrito 10.
Abriu a porta, fazendo os dois virarem os rostos para ele, mas nada surpresos. Na verdade é como se já esperassem por ele. Sanderson deu bom dia para o mentor, enquanto somente acenava com a cabeça em direção a Ariel que, ruborizada, estava olhando por cima do ombro de Abbra, o mentor. Sanderson tocou seu braço, despertando-a de um transe.
– Não se mate, nós precisamos de você na aliança. Afinal você disse que era boa com armadilhas e sabia identificar veneno, não?
– Meu ouvido também é muito aguçado, pois toco música frequentemente e minha mãe diz que sou muito boa para tocar de ouvido (ou seja, não ler a partitura) – ela sussurrou a última parte, como se Sanderson fosse idiota o bastante para não saber o que era “tocar de ouvido”. Bom, talvez ele fosse um pouquinho idiota, pois não sabia mesmo. O mentor o repreendeu por só ter saído da cama àquela hora, mas mais nada disse, como se estivesse fazendo um favor em troca de um favor.
“Você a conforta, eu não te dou sermão”, era o que seus olhos diziam, enquanto ele lhe encarava pela última vez e então dava as costas, deixando os dois sozinhos.
– Vieram conversar na porta do meu quarto de propósito? – foi a única coisa que Sanderson conseguiu pensar para dizer. Se arrependeu no mesmo instante, aquilo não era exatamente o que Ariel estava precisando ouvir, nem o que ele realmente queria dizer. Algo quando Abbra disse “A verdadeira arma é aquela que usamos”. Independente de se for física ou psicológica. Não importa se for a dor ou o medo. Sempre é possível usar uma arma. Não importa se você está nu no meio de um oceano. Sempre haverá uma arma.
Ele se sentiu tonto enquanto refletia sobre o assunto, enquanto isso Ariel se corroia.
– Às vezes penso que sou somente uma amargura e decepção para meu pai – ela soltou, de repente.
– Não, não é verdade – Sanderson tentou soar amigável, mas não foi muito bem isso o que aconteceu – Ele se preocupa com você. É visível que ele não concorda com sua entrada na Arena.
– O que ele poderia fazer?
– Bom, olhe o tamanho dele. Poderia dar uma boa surra em quem escolheu você para substituir minha parceira e...
– Dar uma surra em Travis? É bem difícil, levando em consideração que ele é o prefeito do Distrito 14, presidente do Conselho e Idealizador-Chefe da Revolta. Se Travis quisesse, os ossos dos vitoriosos honrados seriam usados para palitas seus dentes.
– Vitoriosos honrados?
– Os vitoriosos que caíram em batalha, em busca de liberdade. Estão enterrados na campina. Dizem que a relva lá é mais verde e as flores mais cheirosas, mas eu só consigo sentir nojo das plantas de lá.
– Imagino.
– Não imagina, não – Ariel encarou-o – Você não imagina, Sander.
Era a primeira vez que ela o chamava de Sander. Aquilo gerou uma certa irritação e desconforto em Sanderson, pois ele não imaginou que ela lhe daria um apelido num momento como aquele.
– Você nem imagina o quanto o Distrito 14 é importante para mim.
– Não entendo o que isso têm a ver?
– Ele será destruído. E junto com ele todas as memórias. É óbvio, não? Nunca haverá uma... Uma vitória contra a Capital. Jamais. Mesmo que Travis reconstrua o poder, ele... Afundará todos novamente. Ele é doente. A ambição o cegou. Ele vê o Distrito 14 como sua base militar, como um lugar com privacidade onde ele treina seus futuros soldados e ganha a confiança deles, não mandando seus filhos para a Arena ou expondo-os ao perigo. É tudo manipulado... Ele não consegue enxergar o Distrito 14 do mesmo jeito que eu. Ninguém que tenha nascido em outra terra consegue. Você mesmo não conseguiria. Eu nasci e cresci naquela campina, junto com todos os outros. Todos... O Cemitério do Triunfo não é apenas um local onde nossos habitantes são colocados, lá existem memórias, lá existem almas que ainda esperam pelo dia em que verão seus netos e bisnetos livres das amarras da Capital... Mas isso jamais acontecerá. Eles definharão e nunca poderão ver isso.
– Pois estão mortos – completou o menino.
– Não – ela levantou os olhos para ele – Porque Travis não irá acabar com o governo de Snow. Ele irá dar continuação.
º º º
Sentia a tontura, como se algo o tivesse atingido bem no meio da testa. Suor e muito calor... Todos ofegantes e parecendo desnorteados. Não havia uma alma lá dentro que estivesse em sã consciência, mas aquilo era apenas por... Pelo quê? Sentiu logo a garganta se fechando e a vontade desesperada de beber alguma coisa tomando-o. Se xingou mentalmente por ter recusado o suco que seu mentor tinha oferecido alguns minutos atrás. As roupas que vestia eram brancas, totalmente brancas, e de todos os outros tributos também, o que formava os borrões de sua visão uma espécie de televisão em preto e branco. A pedra das paredes era deformada e irregular, acumulando poeira, mofo e limo. A umidade só aumentava a sensação de calor. Era como se algo dentro dele se derretesse. Seus ossos virando um líquido cor de papiro, os órgãos virando suco dentro de um liquidificador... Os olhos revirando... Apoiou-se na parede, sentindo farelos tomando seus dedos e um calafrio o fez recolher a mão rapidamente. Limpou-a. Odiava a sensação de que coisas pequenas e pontudas estavam entre os vãos de seus dedos. Algo mais estava a ponta da mão. Algo negro, algo que a manchou e logo secou... Sangue.
º º º
Não tinha como se livrar da sensação de que alguém o observava atentamente. Suspeito, ele sempre olhava por cima do ombro, esperando encontrar um rosto aterrorizante, com uma faca na mão, cortando seu pescoço, assim como ele fizera com tantos animais na fazenda... Enquanto engolia em seco, ele sentiu as pernas de Ariel batendo contra as suas. Ela estava ansiosa e muito insegura. Não sabia ao certo como demonstrar que era boa em suas ervas medicinais, veneno ou tentar algo como reconhecimento através da audição. Tudo era muito bom, mas com certeza não ganhava de machados partindo cabeças ou mãos grandes e de tamanha força, capazes de quebrar o crânio de alguém.
Enquanto ele engolia em seco novamente, lembrando-se do breve café da manhã que teve, logo descendo, sentiu a comida ainda revirando dentro de seu estômago e então teve vontade de vomitar. Mas não o fez. Logo seria sua vez, após uma demora cansativa. Os tributos do Distrito 1 tinham se apresentado demoradamente, diferente dos do 2, que foram breves e logo voltaram para a sala e saíram pelo corredor que os levaria até o elevador. Depois disso foi rápido e entediante ficar observando os outros tributos se apresentando. Nenhum deles com uma expressão muito boa, como se em seus rostos estivesse “Eu poderia ter ido melhor”. Mas na apresentação você só tem uma chance.
– Molly Margaroth, por favor comparecer a sala de apresentações.
A menina se levantou rapidamente, enquanto olhava com os olhos brilhantes a porta de ferro de abrir e seu irmão sorridente e corado entrar triunfante na sala.
– O que houve? Como era? Você fez o quê? – ela balbuciava. Sanderson estanhou aquilo. “Como era?”. Era uma apresentação normal, ora!
– Eles aplaudiram de pé e disseram que eu era um excelente boxeador.
– Eu sabia que você conseguiria Ru- — a voz da garota foi cortada com o olhar severo do irmão mais velho – Quer dizer, Stephan!
– Sim. Agora vai lá e arrasa, gatinha. Se eles aplaudirem, você pode ficar com minha sobremesa. Se não, eu te... Mollit.
A menina ficou vermelha da cabeça aos pés, enquanto erguia a mão e desferia um tapa certeiro na bochecha do irmão, o que deixou a marca de três dedos. Sanderson se surpreendeu com a estranha relação daqueles dois. Com certeza ele jamais bateria em um de seus irmãos mais velhos. Independentemente do que Mollit significava, Molly não gostou.
Ela subiu atrás da porta, e Stephan também foi embora, adorando os olhares de preocupação ou surpresa que os outros davam para ele. Sanderson trincou os dentes. Odiava garotos como ele, era do tipo que adoravam atenção, mesmo que fosse de uma forma negativa.
Ele levantou a cabeça quando Molly saiu da sala, suada e completamente ofegante. A menina estava com as mão tremendo e alguma coisa verde grudava no pescoço, na bochecha e cobrindo as mãos dela. As pernas tremiam, enquanto ela se arrastava lentamente para a saída.
– Como foi? – alguém atrás de Sanderson arriscou perguntar para a loirinha, fazendo muitos rirem junto com ele. Era óbvio que a menina deveria estar muito abalada com todas as armas e com tudo o que tinha acontecido na sala. Ela deveria estar arrasada...
Ela ergueu os olhos azuis, que agora não brilhavam, mas sim estavam quase pretos, como o céu em tempestade.
– Onze facas acertadas em doze bonecos se movimentando ao mesmo tempo em um único movimento – ela disse, puxando o ar para o pulmão – Onze porque consegui atingir dois bonecos com uma faca só. Cinco flechas atirada juntas e perfurando as Regiões Mortais – ela disse Regiões Mortais como se fosse uma matéria da escola – uma lança acertei, mas não me sai muito bem com arpoes. Atingi o estômago em vez de o coração. Me desviei de todas as lâminas que o Campo de Agilidade mandou – Campo de Agilidade... Como ela sabia o nome dos equipamentos usados? – No final escalei as paredes do Simulador de Vulcão e desviei de tudo, alcancei o forro do teto e me pendurei lá. Fui até a parede de vidro onde os Idealizadores ficam e acenei. – ela disse num fôlego só, logo puxando mais para dentro de si.
O garoto que tinha perguntado agora estava pálido (embora sua pele escura não permitisse ficar mais pálido que o próprio Sanderson) e resolveu não perguntar mais nada.
– Parabéns – disse Ariel, de repente, assustando Sanderson que esperava que ela ficasse quieta depois da declaração da garota de que era “perfeita” para aquilo.
– Eu sei – Molly revirou os olhos para Ariel – Você não precisa me parabenizar todas as vezes que fico acima de você – os olhos azuis ela faiscaram, enquanto saía da sala.
Levou alguns segundos para que Sanderson tomasse coragem:
– Você a conhece?
Ariel o puxou para perto dela, tão perto que Sanderson pensou que ganharia um beijo. Infelizmente não ganhou.
– Ela é uma substituta, veio comigo do Distrito 14. É Moragana Menshy Vieira, a garota mais detestável do 14. Ela se vangloria sempre que me vê pois quando tinha oito anos conseguiu enfiar três facas no meu rosto com um único ataque.
– Incrível – ele soltou, de repente, logo se arrependendo.
– Eu sei. Infelizmente eu era a filha do Ethan e de alguma forma isso sujou a imagem do meu pai. Ele me obrigou a aprender a arremessar facas, mas no fim desistiu.
– O coração dele é mole em relação a você.
– Não desistiu por causa disso – Ariel estava se segurando para não chorar, era visível – Ele desistiu pois estava cansado de me ver errar o tempo todo. Ele não queria mais se decepcionar. Foi por isso que fez meu irmão ais novo se tornar uma máquina mortífera, igual a ele. Foi uma forma de ocultar seu fracasso comigo.
– Não concordo com isso.
O rosto dela era uma mistura de ódio, raiva e calor. Um calor que invadiu Sanderson. – Estão te chamando. Você tem que se apresentar.
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