Your Hunger Games VI - O Retorno Interativa
16 Charlie Belcourt
Notas iniciais
Charlie Belcourt
A manhã era avassaladora. A luz do Sol invadia todas as janelas do apartamento onde tinham se hospedado. Não era grande coisa, mas pelo menos eles tinham a vista de um jardim esplêndido. Charlie coçou os olhos, bocejando e logo tirando as pernas de dentro dos cobertores. Estava quente, mas do lado de fora o frio reinava. Embora o Distrito 14 fosse muito aquecedor, de noite ele era a terra do frio, e pela manhã o frio ainda ia embora, dando espaço ao calor delicioso do verão que nunca ia embora. Era uma terra abençoada, de fato.
Charlie viu seu vestido sobre a cadeira do quarto. Ele era curto e por baixo usaria uma bermuda preta. O vestido era roxo escuro, mas tão escuro que poderia ser comparado ao vinho. Usaria botas de cavalgar, não sabia por quê. Penteou os cabelos, como sempre fazia de manhã. O ruivo era vívido, e dentro daquele vestido ela poderia parecer uma menininha da era medieval. Os olhos, sonolentos, eram vidrados no espelho. Prendeu as madeixas vermelhas num rabo de cavalo, deixando a mostra suas sardas em volta do queixo. Ela odiava as sardas.
– Está pronta, Charlie? – perguntou sua representante, batendo três vezes na porta.
– Estou. – a menina respondeu, terminando de prender a franja que teimava em cair.
– Ótimo, nos encontre no salão principal.
Charlie resmungou um “certo” e colocou as luvas, que tinham sido dadas por sua mentora. Charlie abriu a porta, percorreu o corredor e desceu as escadas, indo para o saguão e então para o salão principal, onde havia uma mesa grande o bastante para que todos os tributos comessem lá. Na noite passada eles tinham jantado na Prefeitura, mas parecia que o Prefeito não tinha gostado muito disso, e hoje eles teriam de comer do próprio hotel. A Capital não tinha instalado nenhuma câmera, o que aqueceu o coração de Charlie, enquanto ela identificava Austin no começo da mesa. Percebeu que os lugares ao lado do menino estavam ocupados, mas a cadeira da frente não estava. Circulou a mesa e se sentou lá.
– Bom dia, aliado. – ela pegou um pedaço de pão.
– Bom dia, aliada. – Austin retribuiu. – Ah, Charlie, estes são Alexia e Mason, minha parceira e um garoto do 12.
– Prazer. – Charlie sorriu.
– Igualmente – Alexia respondeu, embora Mason tenha ficado em silêncio, somente devorando seu pedaço de bolo.
– Eles podem se aliar a nós, certo? – Austin a cutucou debaixo da mesa.
– Claro – Charlie o cutucou de volta.
Eles trocaram um sorriso e continuaram a comer. Logo desceram mais tributos, todos escolhendo lugares próximos aos de seus aliados. Já era visível que os Carreiristas tinham unido forças e que uma pequena aliança de somente dois tributos estava bem mais afastada do restante. Embora todos conversassem, tudo era como um sussurro, ninguém ouvia a conversa de outro grupo, somente a sua. Isso transcorreu pelo resto do tempo que tinham para tomar o café da manhã, pois logo apareceu Loe junto com mais dois fortes e altos moradores do 14, para buscá-los.
– Hoje é nosso primeiro dia de treino. Como informei, vocês serão inicialmente treinados para a mente. E, como se não fosse bastar, temos de preparar a cabeça de vocês. A partir de hoje irão comer peixe no almoço, no jantar e quem sabe para a sobremesa. – Loe piscou – No treino nós teremos alguns setores interessantes: Raciocínio, que será supervisionado por minha queridíssima Mensh. – a menina loira ao lado de Loe sinalizou com a mão – Ela é vitoriosa da 163ª Edição e veio do Distrito 1. E também teremos o setor de sobrevivência, que será conduzido por Bryan, vitorioso e nascido no Distrito 2. Eu ficarei responsável pelo setor de memória, não sou vitorioso mas moro no 14 – ele piscou. – Vocês terão uma aula básica e depois poderão escolher qual setor querem ficar. Lembrando que temos três dias e é possível explorar os três setores. Bom, vamos andando. Quero uma fila em ordem de tamanho, meninas na direita, meninos na esquerda.
Todos se arrumaram. Charlie ficou como a primeira na fila feminina, já Austin era o primeiro na fila masculina. Eles trocaram uma pequena risada e então seguiram Loe, levando o resto dos tributos em direção a Academia do Distrito 14. Como sempre, o edifício não podia deixar de ter flores enfeitando e cercando-o. Era uma estrutura cinza e um tanto morta para um Distrito tão vívido. Não tinha janelas, porém do lado de dentro era bem claro, devido a uma pequena abertura no teto.
– Aqui, todos nessa linha, ainda em fila – Loe indicou. – Vocês treinaram agora o raciocínio, não será nada muito avançado como as aulas de Mensh, mas é necessário. Bom, é somente o básico. Separei vocês nesta ordem para que não fique em desvantagem a altura. Pois bem, os dois garotinhos da fila, por favor, venham aqui.
Charlie obedeceu, embora Austin tenha ficado um tanto quando hesitante. Mas logo o garoto a seguiu.
– Vocês preferem uma luta com armas ou somente uma luta limpa?
– Luta limpa? – ela ergueu uma sobrancelha vermelha.
– Quer dizer luta corpo-a-corpo, somente com os punhos, entendeu?
– Ah, sim. Prefiro uma luta limpa.
– Eu também – concordou Austin.
– Ótimo. Fiquem no centro daquele círculo. – eles obedeceram – Agora dêem as costas um para o outro, isso. Muito bom. A prova de vocês é a seguinte: Terão de raciocinar rápido e defender o seu companheiro. Não se importe com quem vai te atacar, pois o outro estará te defendendo. Isto é uma prova de confiança e de raciocínio, além de previsão. Agora... Bem... Vocês parecem bem jovens... Chamem Andy e Dairo, acho que eles dão conta.
Mensh assentiu, indo buscar Andy e Dairo. Quando os dois chegaram, Charlie teve vontade de rir. Eles eram: Andy, uma menina de aproximadamente dez anos, com cabelos castanhos caindo até os ombros e uma expressão de anjinho. Dairo, um menino de aproximadamente quatorze anos, com cabelos louros e olhos esverdeados, parecia muito maliciador.
– Andy, Dairo, preciso de vocês. É uma questão de ordem. – Loe deu de ombros.
– Claro – Dairo se colocou na frente de Charlie, erguendo os punhos, pronto para atacar.
– Onde você vai, Andy? –Loe colocou as mãos na cintura.
– Vou buscar meu arco – a garota cruzou os braços, lançando-lhe um terrível olhar gélido.
– Não, é uma luta limpa, sem armas.
– Mas arco é uma arma branca.
– O Arco poderia ser uma arma até amarela, rosa, roxa... Mas não, Andy.
Andy suspirou alto, bufando logo em seguida e batendo os pés na direção de Austin. Se colocou na frente dele e ergueu os punhos.
– Não se preocupem. Charlie, você tem de defender o Austin, então sua oponente é Andy. Austin, você defende a Charlie, seu oponente é o Dairo. – Loe explicou novamente. – Espero que não se machuquem muito. Podem começar.
Os quatro adolescentes se encararam por intermináveis quatro segundos, até que Andy resolvesse investir. Com um som quase agudo saindo da garganta de Austin, Charlie entendeu que sua oponente estava indo atacá-lo, e enquanto se preparava para virar, percebeu com o canto do olho que Dairo também estava vindo. Ela empurrou Austin e se abaixou do soco de Andy, acotovelando a menina na barriga. Andy, por sinal, já tinha percebido que este seria seu ato, pois se abdômen estava firme e ela quase não sentiu nada. Contra-atacando, Andy desferiu um soco na nuca de Charlie, que encolheu os ombros. Com a cara enterrada na barriga de Andy, Charlie empurrou a garota até chegar na parede, prensando-a, tentou morder sua barriga, o que fez Andy exclamar de dor. Não foi forte, mas logo Charlie sentiu o sabor do sangue.
Enquanto isso, Austin estava no chão, se desviando de todos os ataques de Dairo. Embora tivesse quase sua altura, Dairo era mil vezes mais forte e mais preparado. Austin só conseguia vislumbrar Charlie e Andy com o canto olho. Quando percebeu, já era tarde demais. Dairo estava sobre ele, com os joelhos prendendo os braços do menino contra o chão. Levou três socos no nariz, até ficar incapacitado. Com isso, Dairo se levantou e começou uma lenta caminha na direção das duas meninas, que se atacavam como cão e gato. Não dava para saber quem tinha a vantagem, pois Charlie e Andy sempre conseguiam acertar golpes intercaladamente. Dairo jogou Charlie para o lado, tirando-a se cima de Andy e libertando a menina da parede.
Com um olhar ameaçador, ele se preparou para pular por cima da ruiva. Este era o objetivo, não? Atacar o agressor do outro... Andy queria bater em Austin, Dairo queria bater em Charlie. Sua missão era proteger Charlie, enquanto ela o protegia. Ele confiou em Charlie e Charlie confiou nele. Até ali tudo tinha ido bem. Mas Austin não foi capaz de protegê-la, e assim Charlie tinha dois agressores, e não apenas um. Andy estava com raiva nos olhos e pouco se importava com Austin, que se encontrava deitado no chão, incapacitado de levantar. A dor no rosto era tanta que ele nem conseguia tirar as mãos do nariz.
Quando vislumbrou que Andy tinha resolvido atacar primeiro, e que Charlie a tinha chutado na boca do estômago (bem no lugar da mordida), ele quase sentiu o prazer. Mas isso não era nada. Andy vacilou, pressionando a cintura e fez um movimento com a mão, como quem disse “Acabe com ela você”. Enquanto se apoiava na parede, sentindo a dor, Dairo por sua vez estava mirando um chute em Charlie, que desviou, como Austin tinha feito tantas vezes até ser apanhado. A garota, porém, conseguiu se levantar e logo ele percebeu que Charlie tentara acertar um soco no peito de Dairo, que se defendeu com o ombro, virando-se rapidamente e segurou a mão da garota, virando o braço da mesma e colocando-o atrás de suas costas, imobilizando-a. Charlie não conseguia se livrar.
Andy não fez questão de nada. Dairo começou uma série de chutas no estômago de Charlie, fazendo-a arquear mais. Mas Charlie não podia se ajoelhar, se não o braço sairia do lugar, quase se levantasse, iria doer. O jeito foi ficar curvada para a frente, sem poder se defender dos chutes. Austin sentiu raiva e com a raiva veio a fraqueza. Ele era um fraco? Como podia ser protegido por Charlie mas não conseguir protegê-la? Ele se levantou, cambaleando, e com muito esforço correu na direção dos dois. Nisso os mentores e o resto dos tributos já estavam muito atentos a cada movimento. Andy gritou para Dairo que Austin estava chegando, o que o fez largar Charlie e se virar, preparando-se para agarrar o garoto. Mas em vez de ir direto para o brutamontes, Austin deu meia-volta e pegou os pés de Charlie, arrastando-a para longe. Nisso, Andy e Dairo estavam recuperados e prontos para bater.
Não podia obrigar que Charlie se defendesse naquela situação, e nem ele poderia lutar contra os dois. Decidido, ele se ajoelhou sobre o corpo tremulo da ruiva. O primeiro soco que levou foi de Andy, bem no ouvido. Austin pegou a cabeça de Charlie e a levou até o peito, para que ninguém a atingisse. Abraçando-a forte, levou socos, pontapés e cotoveladas. Tanto nas costas, como na cabeça.
– Chega – disse Loe, após demorados cinco minutos de puro sofrimento de Austin. – Já bateram o bastante. Obrigado, Andy, obrigado, Dairo.
– Que isso, Loe, é sempre um prazer cooperar nos treinos – Andy sorriu.
– Por nada, Loe. – respondeu Dairo, com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco e já se preparando para ir embora.
– Por favor, Mensh, recolha o corpo dos dois e os coloque no banho, eles precisam estar novinhos em folha para quando a Capital vier. Quem são os próximos?
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