Notas iniciais
Como prometido, três comentários, um capítulo.

Charlotte Brown

Quando começou a caminhar, sentiu que estava faminta. Era manhã e durante a madrugada alguém havia morrido. Ela logo voltou a dormir quando tomou certeza de que o morto não era ela própria. Seu esconderijo era seguro, e isso a deixava mais tranqüila. Mesmo assim, um bom observador, poderia descobri-la a qualquer momento. Isso a assustava.

Agora que estava sozinha, percebia o quanto sentia falta do distrito 11, principalmente, de Lício. Queria voltar para ele. Queria ter a certeza de que iria voltar, mas isso era impossível. Restavam dez tributos na arena. Logo seriam oito, depois seis e então quatro. Ela teria muita sorte se chegasse dentre os cinco finalistas. Mas... Precisava de uma motivação...

Um páraquedas cor de esmeralda voou e pousou entre os galhos da árvore mais próxima. Ela foi até ele e o pegou. Abriu-o e lá dentro encontrou um colar, um colar com um pingente em formato de coração. Abriu o pingente e encontrou uma foto de Lício. Aproximou a foto de seu rosto. Era um pedaço de papel dobrado cinco vezes, mas de uma forma boa não amassou a foto. Lício e seus cabelos louros estavam radiantes, como sempre. Queria sentir novamente as mãos deles passando entre seus cabelos.

- Logo estarei de volta.

Disse a si mesma e a ele. Com um fio de esperança, saiu de seu esconderijo, andando lentamente em direção a Cornucópia. Lá não havia sinal de Carreirista algum. Deveria ter abandonado o lugar. Uma fogueira estava bem apagada, o que queria dizer que tinham partido há muito tempo. Charlotte se aproximou, cautelosa, mas não havia ninguém. Passou a mão pela grandiosa Cornucópia. Quando entrou dentro dela, percebeu que todas as armas tinha sido quebradas e simplesmente sumiram dali. Era evidente. Deveriam ter dado cabo de tudo. Ela piscou várias vezes. Bem que aquela fogueira era grande demais para uma simples fogueira... Ela correu até a fogueira. Vestígios do que tinham sido arcos, lanças, e qualquer coisa que pudesse queimar ainda estavam lá. Ela entrou novamente na Cornucópia. Nada, nada... Não havia comida alguma! Nem água, nem cobertores, ou ao menos uma mochila intacta... Gritou de raiva para si mesma e derrubou um móvel que servia como suporte para adagas. Quando o mesmo tombou, sem nenhuma arma sobre si, ela colocou a mão na cabeça. Então observou novamente o lugar onde estava o móvel. Piscou algumas vezes para ter certeza de que não estava sonhando. Era uma zarabatana! Intacta! Charlotte a pegou com cuidado, não queria quebrá-la, se isso era possível.

Haviam dois dardos dentro dela. Mas se ela quebrasse as pontas das flechas, poderia usá-las como dardos, também. Era só aprender a fazer veneno... E agora? Charlotte suspirou e se sentou sobre o móvel caído no chão. Tinha uma arma e duas munições. E quando acabassem? Ela observou a parede da Cornucópia. Era lisa por dentro. Seguiu a cor neutra até o final, onde ela entrava em contato com a grama. Há viam quatro cogumelos azuis fincados ali. Ela piscou mais ainda para ter total certeza de que não era uma alucinação. ÓTIMO! Tinha armas, munições e sabia como produzir mais caso acabasse.

Sorriu para si mesma, satisfeita com aquilo, quando ouviu um barulho suspeito vir de fora da Cornucópia. Se encolheu atrás da parede e ficou observando com o canto dos olhos. Havia um menino vasculhando a fogueira. Ele olhou para dentro da Cornucópia. Depois olhou em volta. Sem hesitação, como se já soubesse que o lugar estava deserto, ele entrou dentro da Cornucópia. Charlotte tentou manter o corpo imóvel.

Quando ele se virou para sua direção, ela já havia assoprado o dardo. Este atingiu o braço do rapaz. Ele tirou-o de si e correu para cima dela. Charlotte se xingou e saiu correndo para fora da Cornucópia. Ele estava próximo. Tropeçou em algo, assim caindo. Quando se virou para cima, ele já estava sobre ela. A segurou com força no pescoço, enforcando-a. Suas mãos se fechavam e ela sentia o canal de respiração sendo bloqueado. Tentava sugar o ar, porém não havia nada de oxigênio para lhe abastecer. Aquilo lhe causava uma loucura extravagante. Se debatia e, já perdendo a força, deixava o rosto ficar roxo.

Assim que o ar entrou para dentro de seus pulmões, ela começou a tossir e a respirar aceleradamente. O rapaz caiu para o lado, se contorcendo. Parecia estar em meio a uma convulsão. O veneno tinha entrado em contato com o sangue. Charlotte sentiu como se a sorte estivesse mesmo á seu favor. Se não fosse aquele disparo no começo, talvez agora fosse o seu canhão a disparar.

Quando recobrou a consciência, tomou conhecimento de que estava afundada na neve. Estava nevando e o sol já se punha. Havia dormido um dia inteiro. Com a zarabatana em mãos, ela entrou na Cornucópia e lá arrastou os móveis até a entrada do lugar. Assim fez uma barreira para que ninguém entrasse ou saísse. Mas, é claro, antes disso tinha arranjado bastante água e algumas frutas por ai.

Lá dentro, no escuro total, ela experimentou abrir o pingente de seu colar e de repente tomou um susto ao perceber que seu interior brilhava. Era como uma lanterna. Charlotte sorriu e desdobrou a foto de Lício. Aquilo a fazia sentir em paz, e no momento era a única coisa de que precisava. Tinha matado três pessoas.

Esse garoto que havia morrido agora, ela se lembrava do nome, Bernardo, ele era mais velho, como ela. Dezoito, deveria ter. Mesmo assim ela o julgava um menino, não um homem. Ele tinha sido burro e ignorante. E veio sozinho. Talvez estivesse na mesma situação que ela, solitário, e por isso nem prestou atenção em entrar preparado para uma luta. Isso a fez repensar que, se caso tivesse um aliado, estaria tomando o dobro de precaução. Era assim que funcionava: Quanto mais membros em uma aliança, mais precavido e seguro você estará. Porém, quanto mais membros em uma aliança, mais brigas acontecerão e confusão. Pessoas demais geram perturbação.

Por isso alguns optavam por ficar sozinhos. Mas estes nunca tomavam o cuidado necessário.

Notas finais
Vamos comentar que tem mais capítulo!