Notas iniciais
Lembrando que a história não é minha, é da minha colega que não tem conta.

Dois anos depois...

Naquele sábado já passava do meio-dia quando acordei de um terrível pesadelo. Meu coração acelerado e meus instintos em mode on. O que estava acontecendo comigo? Minha cabeça doía e latejava freneticamente, pesando quase duas toneladas; se eu pudesse bateria ela na parede até que ela pudesse gritar por vontade própria para que parasse, mas pensando bem isso seria muita estúpidez, por que eu devia prejudicar QUEM estava me prejudicando e não a eu mesmo... E quem estava me prejudicando era aquelas lembranças rancorosas no meu insconciente. Se pudesse as esqueceria, mesmo que sacrificasse a parte principal da minha vida. Naquele pesadelo, eu sofria um acidente de carro -numa van lotada — e como você pode perceber não era o de dois anos atrás, mas sim aquele que matou meus irmãos e minha mãe por MINHA culpa há dez anos atrás. Não acredito que agora eu, com meus vinte e cinco anos, tinha que aguentar tamanha pressão psicológica e fúria. Droga, se eu não tivesse sido tão imprudente de dirigir bebâdo... Eu ainda poderia sorrir, eu ainda poderia sentir o meu coração bater, mas não havia saída porque eu já estava morto. Ainda fiquei algum tempo na cama, rolando de um lado para o outro, tentando retardar o inevitável reencontro com aquele flash de memória peturbador. Gritos no meu ouvido, mãos me empurrando do banco do motorista e tudo se finalizou quando o carro capotou, como se tudo o que meus olhos pudessem ver fosse a escuridão. Não era justo, passar toda a adolescência num sanatório sendo chamado de louco, por algo que você não fez e muito menos sentiu. Eu não era louco, apenas tinha surtos de raiva, mas quem não tem essa merda? Em um determinado momento, cansei daquela enrolação e resolvi levantar. Tomei um banho rápido e vesti uma roupa qualquer – afinal, não planejava sair de casa –, e então desci as escadas, já ouvindo um múrmurio que parecia uma discussão. Fiquei surpreso ao entrar na cozinha pequena e encontrar meus irmãos caçulas rosnando um para o outro. Nossa casa de madeira era minúscula (contanto com os dois quartos dividos pelos irmãos e pai, cozinha com uma televisão pregada no alto da parede ao canto, e um único banheiro sujo) situada num vilarejo cercado por cercas de aço extremamente inquebráveis que impediam nosso contato com o restante da cidade de Londres. Todos sabiam que nós erámos perigosos, todos sabiam que não deviam se aproximar. Eu sentia ódio de cada cidadão daquele lugar miserável, cada rostinho bonito e falso. Eu tinha vontade de torturá-los lentamente.

Desci as escadas, em tempo de impedi-los.

- O que deu em vocês? — Perguntei corrosivo, de braços cruzados na beira da porta. Percebendo o silêncio, repeti. — Respondam!

Edward meu segundo irmão, o mais novo de todos, talvez cheio de problemas em controlar sua vontade de sair do vilarejo e destruir nossas vidas e sua autoconfiança que me tirava do sério. Ele achava que por ser um dos alfas do seu pequeno bando inútil, poderia mandar naquela casa... Mas não! Eu recebia ordens do meu pai adotivo Miguel de que deveria botar ordem enquanto estivesse fora. Miguel era o único de nós a sair do vilarejo para ir tratar de acordos na cidade, inutilmente tentando provar de que não éramos monstros. Eu sentia pena dele, por ser tão ingênuo a ponto de pensar que aquelas pessoas de mentes fechadas iriam algum dia nos deixar andar livremente figindo muito bem adorar seus descendentes. Que se foda a Inglaterra! Maldita Rainha! Maldito governo! Bufei, esperando uma resposta.

- Vocês vão ficar mesmo em silêncio?

- Não, na verdade estavámos esperando você sair dos seus devaneios e prestar atenção — Jackson respondeu, cruzando os braços. Ele era mais velho que Nigle.

Será que eu havia ficado tempo demais hesitando, a ponto deles perceberem que fiquei parado no meio da cozinha?

- Diga, me explique! — Abri a geladeira e peguei o leite, servindo um pouco em um copo que peguei no escorredor de louça. Peguei a lata de Nescau no armário e com uma colher coloquei um pouco do pó dentro do copo, misturando-o ao leite já servido.

Esperamos que Nigle deixasse a casa pela porta dos fundos para podermos conversar melhor. Já que ele era só uma criança, não podia ouvir certos assuntos do vilarejo, ainda mais se soubesse de que havia um perigo a solta. E como eu tinha tanta certeza disso? Lendo o rosto de Jackson; sua testa franzida, seus olhos caídos e um suor de preocupação. Sua expressão o denunciava com covardia. Olhei seriamente para meu irmão aguardando uma resposta firme. Ele estava amedrontado, como um menino de sete anos ao dormir pela primeira vez em seu quarto sem luz.

- Você sabe muito bem do que estou falando...

- O que farejou desta vez? — cheguei logo ao assunto principal.

- Pode não ser real! Eu não tenho pleno domínio sobre meus instintos, você sabe que...

Eu o interrompi, antes que seus menosprezos me fizesse perder a vontade de caçar o perigo.

- Não faz mal tentar — Levantei-me da cadeira, deixando o achocolatado de lado. Estalei meus dedos e cheguei até um velho armário debaixo da escada, pegando um dos charutos de Miguel e pondo-o entre meus lábios apenas por capricho, depois o tirei e fiquei segurando

- Não conseguiria descrever o que é, mas vocês não vão gostar disso — ele sacudiu a cabeça, frazindo os lábios.

- Onde viu? — indaguei.

- Perto do lago principal da colina, você sabe qual é!

- Então vamos até lá!

- É perigoso, fica muito afastado de nosso povoado — Avisou Miguel, fechando a porta para tentar nos impedir.

- Nada é perigoso para um Leard — Disse com o peito estufado, saltando a janela e correndo por entre o campo, enquanto meu irmão Jackson vinha ao meu lado.

Não precisávamos dispensar a forma humana hoje, e nem conseguiríamos, por que a próxima lua cheia seria apenas mês que vem, e além do mais ninguém precisava ficar em forma de lobisomem andando pelos becos do vilarejo. Não saímos da reserva, nem poderíamos, nós tínhamos uma espécie de mandado do governo para que não saíssemos de nosso território se não quiséssemos que o resto da população soubesse sobre nossa existência e começasse o show de horrores por Green Vale. Nosso modo de se transformar era contagioso, qualquer ser humano que ficasse muito perto em mais de uma semana teria suas células automaticamente mutadas para um DNA anormal, o que faria deles um de nós, um lobo. Para mim aquilo era um dom, uma benção, algo que não substituiria nem por dinheiro. Embora houvesse as desvantagens é claro, havia poucas mulheres na reserva, maioria delas comprometidas e virgens, orando para algum santo que nem ao menos as abençoava.

Quando eu e Jackson chegamos ao lago agachamo-nos naquela vegetação alpina. Olhei para todos os lados, aquele lugar era assustador, mesmo que nada me amedrontasse, não poderia deixar de admitir isto. Árvores podres, e sem sequer uma folha pendurada. Lugar infértil.

Ele começou a falar.

- Nós andamos por aqui à noite, achamos uma coisa horrenda na água, parecia uma cabeça decepada — fez uma expressão de repulsa.

Quem faria tal ato de crueldade contra pessoas indefesas? Pelo menos deixasse seu corpo na grama e não boiando no lago.

- Será que ela ainda está aí?

- Só se alguém a retirou — Ele sugeriu, levantando-se primeiro que eu, e colocando a mão pela água escura.

Tentei me levantar e, com muito esforço fiquei de pé. Apesar de meu corpo extremamente esculpido, a dor entre eles era terrível. Conseqüência de uma noite em Green Vale. Aproximei-me também. Jackson puxou pela perna aquele corpo ensangüentado, ferido e estraçalhado, coisa que apenas uma criatura com enormes dentes faria, mas só existíamos nós que poderíamos fazer isso. A menos que...

- De onde essa merda saiu? — Perguntei, e quanto mais me aproximava, mais eu sentia o cheiro de água suja e alguma coisa podre entrando pelas minhas narinas.

- Eu não faço idéia — Jackson negou com a cabeça e se abaixou analisando os cortes assim como eu fazia. — Está vendo aquele perto da costela? — Ele apontou. — Parecem dentes, não creio que alguma ferramenta humana faria tamanho estrago -

- Se fosse uma serra elétrica... Talvez fizesse.

- Acha que foi um de nós?!

- É recente e estava todos em casa a semana inteira — Eu informei. Face do corpo virada para baixo, impossível de se reconhecer de qualquer jeito, já estava desfigurada.

Ficamos em silêncio, relembrando se faltava alguém nos quartos na noite passada. De falto, faltava alguém, um garoto, mais velho do que eu, mais responsável, mas suspeito a partir daquele momento. Entreolhamo-nos e o silêncio foi quebrado com uma resposta.

- Condy! Aquele filho da mãe — Informei. — Eu sabia que o irmão da vadia da Lilith não prestava! Sabe quantos problemas teremos se ele fora para a cidade?

Corremos de volta para a casa de madeira, Miguel nos esperava pés na bancada, chapéu na cabeça. O vento soprava para o Oeste, o que não era um bom sinal, sinal de que o dia estava terminando, e as investigações começavam. Agora precisávamos contá-lo, de que nosso habitat não era mais tão seguro e que assassinatos estavam acontecendo durante o período de Lua Cheia e precisávamos ficar de olhos bem abertos e desconfiarmos até de nós mesmos, de nossa própria criatura. Subi as escadas, estava um nevoeiro danado lá fora. Era só o que faltava, um de nós sairmos da reserva para investigarmos pelos arredores fora da fronteira de nossas terras, nos trairia muito problemas por que tínhamos um mandato, e devíamos cumprir, mas a partir do momento em que matanças aconteciam sem razão alguma isso era de nossa responsabilidade, as autoridades não precisavam saber, sabíamos guardar segredo e resolveríamos isto com rapidez. Vesti uma camiseta branca, e saí da casa, todos dormiam. Havia saído para fumar. Não necessitava me agasalhar, pegar uma doença estava fora de cogitação para eu, já que aquela própria transformação era um vírus. Licantropia, escondido da humanidade por todo esse tempo. Joguei aquele resto no chão e pisei, apagando-o.

- Você está... Não posso acreditar... Espere! — Uma voz atrás de mim quebrou o silêncio.

Vir-me-ei duma vez. Deveria suspeitar que aquela sensação não fosse por acaso, e que de fato ela estava me espiando.

- Lita, volte para cama agora, não é hora de crianças estarem acordadas — Provoquei, de pé no meio do campo.

- Você está fumando! — ela apontou, impressionada.

- Oh, Sério? Pensei que fosse uma luz saindo da minha boca — murmurei sarcasticamente, ficando parado e encostado ao pedestal de madeira.

- Prometeu que tinha parado Dustyn.

- É perigoso ficar aqui fora, é melhor entrar lá pra dentro — Interrompi na mesma hora. Não precisava que alguém decidisse o que era bom ou não, acho que eu mesmo fazia este papel de decidir minhas escolhas.

- Corta essa, Dustyn Leader, não é por que sou mulher que significa que sou fraca. — sorriu, me dando um murro no braço que nem ao menos fez cocéga.

Balancei a cabeça com meu machismo dominando meu cérebro, num modo de ignorá-la enquanto sua voz ecoava por todo vale àquela hora da madrugada.

- Por que está aqui fora? — Ela me perguntou com as mãos na cintura afinada. — Pensei que fosse perigoso... E agora olhe! Você está aqui fora esperando algo acontecer -

Olhei-a, com um sorriso irônico.

- Não me diga que... Não! Você não pode fazer isso! Está se garantindo demais, se você morrer eles irá matar todos nós, há algo acontecendo na reserva. Green Vale não é mais um lugar seguro — contestava bastante frustrada.

Significava que se importava comigo.

Ela colocou as mãos no bolso, injuriada e entrou para a cozinha, fechando a porta, deixando-me sozinho novamente. A razão por entre suas palavras se espalhava gradativamente. Talvez de verdade a única saída fosse se um de nós saísse da reserva, e esse alguém seria eu. Mas não hoje. Talvez. Lilith continuava a me encarar, esperando algo.

- O quê você quer? Seja honesta — eu semicerrei os olhos.

- O que aconteceu com você? – ela perguntou em um tom de voz tão baixo que eu supus que ela estivesse falando sozinha. Todavia, resolvi responder.

- Ué, nada.

Ela respirou fundo, rolando os olhos e fazendo eu me sentir como se fosse um perfeito imbecil.

- Você sabe do que eu estou falando. – Lilith disse. – O que aconteceu com você? Onde está aquele cara que você costumava ser?

Dessa vez fui eu quem respirou fundo.

- Aquele Dustyn se foi há muito tempo. – eu respondi friamente. – Ele está morto e enterrado.

Eu dei a volta na casa, pronto para sair dali.

- Por quê? – eu ouvi o sussurro de Lilith e parei no campo, de costas para ela.

- Não se faça de tola, porque eu sei que você não é. – eu disse por entre os dentes. – Você sabe muito bem o porquê.

- Dustyn...

Dei as costas e entrei na cabana. Não queria conversar sobre quem eu era e nem ouvir sermões de pessoas que nem ao menos conheciam seu próprio ponto fraco. Sentindo cheiro de comida no fogo, notei que Miguel estava cozinhando. Nossa! Havia chegado cedo, não faziam nem duas horas. Sua mulher havia falecido há dois anos, assassinada por alguém da cidade claro que pelos habitantes da cidade hipócritas e medíocres, e esta casa só aumentava suas saudades, era meio árduo, se fosse Miguel já teria abandonado aqui há muito tempo. Éramos três irmãos, Condy, Jackson e eu Dustyn Leader, tínhamos que resguardar o que ocorria por trás das cercas de aço e não permitir que a situação fugisse do controle e um de nós se descontrolasse na noite de Lua Cheia, nenhuma pessoa deveria sair sem autorizações ou sem necessidade, aqui era uma vila e todos podiam viver muito bem somente aqui. Será que só eu achava essa idéia uma tremenda bosta? Miguel foi quem se arriscou a sair da reserva no dia do meu acidente de moto, e me transformou em um deles para salvar minha vida, seria grato pelo resto de meus dias.

Notas finais
Tentei, ok.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.