A manhã nasceu escura. Uma nuvem negra pairava sobre o reino e não era pelo facto de ser o dia da execução de Huttington e dos seus seguidores. Seth desceu as escadas rapidamente. Fazia questão de assistir à execução de Huttington e do seu grupo. Ele estava prestes a sair pela porta do castelo quando um criado lhe barrou o caminho.

— Sua graça, o delfim pede a sua presença nos seus aposentos.

Seth bufou e voltou a subir as escadas indo em direção ao quarto de Vincent. Ele entrou sem bater; ele já tinha visto absolutamente tudo a acontecer naquele quarto e não iria ficar surpreso com nada. Porém, o que viu naquele quarto surpreendeu-o. Esperando por ele estava Vincent juntamente com Jane. Quando Seth os avistou, Vincent disse:

— Mesmo quem eu queria ver.

— Em que posso ajudá-los?- perguntou Seth desconfiado.

— Irei interromper dizendo que tu estás aqui por minha causa.- interrompeu Jane.

Seth levantou uma sobrancelha pedindo para que eles se explicassem e Vincent continuou:

— Eu prometi à Jane que a levava até à cidade mas o meu pai convocou o conselho e eu não posso faltar à reunião.

— E o que querem que eu faça exatamente?- perguntou Seth sem percebendo onde Vincent estava a tentar chegar.

— Eu estava-me perguntando se podia ir contigo…- pediu Jane.

Seth pensou bem no que Jane lhe estava a pedir. Levar uma futura rainha à cidade era, de facto, uma situação complicada mas ele não pode dizer que não perante aqueles olhos grandes dela.

— Claro.- concordou ele.- Eu ia para lá de qualquer maneira.

— Obrigado.- guinchou Jane abrindo um grande sorriso. Jane saiu rapidamente dos aposentos de Vincent indo avisar as suas damas do passeio.

Seth continuou no quarto e Vincent disse:

— Toma conta dela.

— Sempre.- respondeu Seth. E ele ainda não sabia o quão verdade isso era.

Jane estava prestes a sair dos seus aposentos com as suas damas quando Seth foi anunciado. Jane sorriu ao vê-lo entrar no seu quarto. Seth olhou para o quarto como se absorvendo cada pequeno detalhe.

— Sim?- perguntou Elizabeth interrompendo o devaneio de Seth.

— Suas graças talvez queiram usar um agasalho.- aconselhou ele.

Ele próprio usava um imenso casaco de pele com um gorro com pelo de lobo. As damas vestiram um semelhante e todas saíram para o frio da rua. Seth deu a mão para que cada uma delas entrassem na carruagem mas demorou-se mais segurando a mão de Jane. Esta sorriu e disse:

—Obrigado por nos levares.

— Sempre que quiseres.- respondeu ele usando a forma informal pedida pela princesa.

Seth subiu então para o seu próprio cavalo e cavalgou ao lado da carruagem real.

Não demorou muito até que chegassem à cidade. Ao chegarem, as damas desceram da carruagem com a ajuda dos cavaleiros e Seth esperou por elas para as guiar até um mercado. As raparigas ficaram fascinadas com a variedade de alimentos, tecidos e joias que o mercado tinha para oferecer. Isabel olhou para um tecido de um branco puro que ficava lindo nela. Elena fez uma expressão exagerada e Isabel defendeu-se:

— Tenho que começar a pensar no meu vestido de noiva.

— Já escolheram uma data?- perguntou Rosemary.

— Mais ou menos, nós sabemos que irá ser no início da Primavera e antes do casamento da Jane.- explicou Isabel.

— Já não falta muito.- apontou Elizabeth.

— Por isso é que eu preciso de tratar de tudo o mais rápido possível.- explicou Isabel para todas.

— Já conheceste a família dele?- questionou Margaret.

— Ele planeia levar-me às terras da família assim que as coisas na corte acalmarem. Com tudo isto da nossa chegada e do ataque ao Vincent, as coisas andam um pouco descontroladas.- disse Isabel.

Jane perdeu-se na conversa visto que não conseguia tirar os olhos de Seth. Tudo nele a fascinava desde a forma como o seu cabelo desregular parecia perfeito nele e na forma como ele ficava tenso cada vez que via algo que não gostava. Jane viu isto acontecer quando uma mulher insultou um dos seus filhos. Ela pensou que ele ficava incomodado com isto devido à natureza do seu pai. Que tipo de homem punha a sua família em perigo por um trono que não lhe pertencia? Isto era algo que Jane pensava repetidamente tal como pensava na forma que isso teria afetado a vida de Seth. Ela continuou a observá-lo e viu quando ele olhou para o relógio gigante que se encontrava perto do mercado. Ele falou algo para um dos soldados, colocou o seu capuz e foi em direção a uma rua. Com curiosidade com o que ele ia fazer, Jane repetiu os seus atos e foi atrás dele. Ela seguiu-o até uma praça e viu quando ele ficou parado detrás de um pilar olhando para algo. Jane aproximou-se, colocando-se atrás dele. Depois disso, por cima do ombro dele, pode ver o que ele estava a assistir. No meio da praça encontrava-se um homem de joelhos que ela conheceu como sendo Huttington. Seth já notara a presença dela e tinha colocado o seu braço em volta dela como forma de a proteger. Porém ela adorava o calor que Seth exalava do seu corpo. O executor disse algumas coisas a Huttington, que Jane achou que eram as acusações. O povo que assistia gritou algo e ela viu quando o executor se preparava para dar o golpe. Sentindo Seth ficar tenso, ela entrelaçou os seus dedos nos dele sentindo-o ficar um pouco mais relaxado. Porém quando o executor executou o golpe, Jane escondeu-se no peito de Seth impedindo-se de ter aquela imagem da cabeça de um homem sendo retirada do resto do corpo. Já Seth permaneceu com os olhos em Huttington até ao fim. Um homem que tinha lutado pela sua família merecia isso. Após a execução, a multidão começou a dispersar e Jane pôde reconhecer alguns nobres.

— É melhor irmos andando.- aconselhou Seth também vendo os nobres.

Jane seguiu Seth de perto de volta ao mercado. As suas damas ficaram confusas quando a viram com Seth e logo vieram para cima dela com perguntas.

— O que estavam a fazer?- perguntou Isabel.

— Fomos assistir à execução de Huttington.- respondeu Jane como se não fosse uma grande coisa ela ter ido sozinha com Seth para outro lugar.

— Foram fazer o quê?- exaltou-se Elizabeth.

Jane pediu que ela baixasse o tom de voz e ela lançou-lhe um olhar de descrença completa. Elas continuaram a andar com Seth e os restantes soldados no seu alcance quando chegaram a uma espécie de arena romana. Na entrada, um homem disse-lhes:

— Uma moeda de ouro para assistir à execução de alguns traidores do reino.

— Sua alteza não tem de pagar nada para assistir a algo organizado pelo seu sogro, sua majestade o rei.- interveio Seth.

— Peço imensa desculpa, sua alteza.- pediu o homem ajoelhando-se em frente a Jane.

— Não tem mal.- respondeu ela, dando ordem para que o homem se voltasse a erguer.

Ele deixou-as passar e Seth juntamente com outros dois soldados seguiu-as para o interior da arena. Elas encontraram lugares perto de um grupo de nobres e sentaram-se. O espetáculo estava prestes a começar e elas esperaram ansiosamente.

— O que é isto, exatamente?- perguntou Jane a Seth que estava do seu lado.

— O reino não pode cortar a cabeça a cada um dos criminosos então organizam estes espetáculos como forma de ganhar dinheiro.- respondeu Seth aproximando-se de Jane para que ela ouvisse através do barulho da multidão.

Jane estava prestes a perguntar algo mais quando um homem entrou na arena. Jane olhou melhor e pode perceber que esse homem era Edward. Ela ficou chocada tal como as outras damas, incluindo Isabel.

— O que ele está a fazer aqui?- perguntou Jane chocada.

— A maioria dos nobres lutam na arena, têm a possibilidade ganhar mais terras e é um bom treino para as batalhas.- respondeu Seth como se não fosse nada de especial.

Na arena, Edward cortou três criminosos de uma só vez e a arena explodiu em euforia. Ao lado de Jane, uma rapariga nobre disse:

— Mal posso esperar para encontrar o Edward de Borgonha num baile, vou montá-lo como ele monta o seu cavalo.

A outra rapariga riu concordando. Isabel, que ouviu esta conversa estava prestes a ir chamá-las à atenção para o facto de que aquele era o homem dela quando Jane falou bastante alto para que elas pudessem ouvir:

— O teu noivo é um excelente lutador, não achas Isabel?

As raparigas olharam para a princesa franzindo o sobrolho. Isabel riu agradecendo silenciosamente.

— Acho que já vimos o suficiente.- comentou Jane, saindo do seu lugar.

No caminho para a saída, Isabel pisou fortemente no pé da rapariga que tinha feito o comentário sobre Edward que se queixou. Isabel apenas lhe acenou deixando a rapariga a encarar as suas costas perfeitas.

De volta à carruagem, a conversa sobre os preparativos para o casamento de Isabel continuavam. Todas as damas falavam de forma entusiasmada à exceção de Rosemary. Elena que percebeu o que se estava a passar interferiu:

— Vais-nos contar o que se está a passar contigo?

— Comigo?- perguntou Rosemary tentando fugir ao assunto.

— Sim, estás um pouco desligada.- comentou Adele.

— Eu não sei se poderei assistir ao casamento.- desabafou Rosemary.

— Porquê?- exclamou Isabel incrédula.

— Recebi uma carta do meu noivo.- começou.- Ele quer que eu me junte a ele até ao final do mês.

— Como assim?- perguntou Elena.

— Eu devo casar por procuração com o filho dele, Robert, e depois disso devo partir imediatamente para as terras dele.- explicou Rosemary.

— Mas vocês nem se conheceram.- apontou Isabel.

— Isso não importa, é um contrato.- explicou Jane.

Rosemary concordou com a cabeça. Ela estava muito abalada pelo facto de ter de casar com um homem que já tinha idade para ter netos ou mesmo bisnetos e pelo facto de ter que abandonar as suas amigas para ir morar num castelo em que não conhecia ninguém.

— Vai tudo correr bem.- disse Adele, abraçando a amiga.

Todas as damas se abraçaram. Estariam ali umas para as outras independentemente do que iria acontecer.

Vincent ouvia atentamente tudo o que era falado na reunião. O tema principal havia sido a melhor forma de trazer nobres que apoiavam os Bourbons para o seu lado. Um homem com uma imensa barba e grande barriga que aparentava os seus cinquenta anos disse:

— Penso ter encontrado uma boa maneira de trazer Gideon Benoit para o nosso lado.

— Fale.- ordenou Vincent.

— É conhecido que o senhor Gideon é apaixonado por caça mais do que pela sua mulher ou amante, portanto seria uma boa ideia organizar uma expedição de caça e convidá-lo.- explicou o homem.

— Consegue fazer isso acontecer?- perguntou o rei.

— Penso que sim, sua majestade.- respondeu o homem entusiasmado.

— Então faça-o.- ordenou o rei.- Enquanto a ti filho, prepara as tuas coisas para partirmos o mais rápido possível. Declaro esta reunião acabada.

Todos os nobres se levantaram fazendo uma vénia ao rei e ao futuro rei e saindo da câmara com as suas cabeças baixas. Vincent saiu depois destes deixando o seu pai com os seus pensamentos.

Notas finais
O que irá acontecer com Vincent fora?