Your Eyes
2 Capítulo 2.
— Onde conseguiu aquele dinheiro? — minha mãe perguntou quando fechei a porta após os dois homens irem embora
— Não interessa — respondi curta e grossa
— Se vierem procurar por você eu vou te entregar, seja bandido ou polícia, não me importo com o que você faz da porta para fora, mas aqui dentro não quero coisa errada
— Da para calar a porra da sua boca? O dinheiro não era para eu usar ao meu favor, era para outras coisas e agora eu estou completamente fodida, pode só agradecer por não irmos para o meio da rua? — eu despejei todas as minhas frustrações em cima da pobre coitada, que respirava pesado de ódio de mim.
— Era para o James, não era? Estamos passando fome e aquele dinheiro era para o James! — ela gritou, seus olhos fuzilavam, ela estava vermelha como sangue
— Estamos passando fome porque você se recusa a usar a merda daquele dinheiro que meu pai nos deixou! Eu não sei qual o seu problema, prefere se humilhar para sua irmã do que usar o dinheiro.
— Você não sabe de nada, Elisabel. E se soubesse também não ia querer usar o dinheiro, se soubesse o motivo dele existir.
— Então me conta, me conta mãe. Quem sabe eu não entenda mesmo. — Segurei os braços da cadeira de rodas a fazendo me encarar, agora ela não teria como fugir.
Minha mãe abaixou a cabeça e começou a balançar negativamente.
— Não é hora para termos essa conversa. — foi a única coisa que ela conseguiu dizer
— Nunca é hora. Incrível.
Alguém começou a bater na porta, nos livrando da conversa mais uma vez.
— Oi Emma — sorri alegre ao ver minha vizinha parada na porta
Emma morava na casa frente a minha, a ajudei na mudança quando ela veio para o bairro, há 3 anos, desde então mantemos uma amizade, não somos próximas como amigas de ensino médio, mas sei que posso contar com ela para muitas coisas.
— Tudo bem? Vi o carro de despejo e ouvi gritos, vir saber se estão precisando de algo.
Fechei a porta atrás de mim para impedir que ela entrasse, Emma percebeu e se afastou um pouco.
— Consegui resolver o problema da casa, mas a situação financeira não está fácil, são 14h e eu ainda não comi nada, acredita?
— Elisabel, por Deus, por que não me disse nada, por que não me pediu algo? — Emma pegou em minhas mãos e me olhou com conforto.
— Estou com muitas coisas para resolver, problemas com James estão ocupando a maior parte do meu tempo, fora as buscas por um emprego.
— Vamos comer em um fast-food que tem aqui perto, agora. Antes que você desmaie.
Não consegui dizer não a essa oferta, com esses turbilhoes de problemas nem tinha focado na fome que eu estava. Eu e Emma caminhamos por alguns minutos até chegar em um restaurante de fast-food próximo à rodovia. O local estava um pouco cheio, várias famílias e trabalhadores, como policiais em horário de almoço, motoristas em pausa e turistas. Nos sentamos em uma mesa próximo a janela e fizemos nossos pedidos.
— Sinto que não como há meses — disse enquanto mastigava o hambúrguer como se ele fosse sair correndo dali.
— Alias, qual foi a última vez que você comeu? — Emma perguntou
— Uma pizza ontem à noite
— Menos mal, achei que fosse literalmente há meses — Emma riu e eu a acompanhei.
Terminamos de comer e Emma me fez aceitar levar mais um lanche para mim e para minha mãe, no caminho de volta me convidou para jantar em sua casa, e mais uma vez eu não pude recusar.
— Então te vejo na minha casa às 19h — assenti e nos despedimos
Quando entrei em casa, minha mãe estava lendo uma revista qualquer, jogou no sofá quando me viu.
— Eu gostaria de sair para comer também, acabei comendo aquelas bolachas
— Eu trouxe para você, ainda não me tornei tão ruim — joguei o saco com Hambúrguer e fritas em seu colo, que logo foi devorado.
— Muito obrigada
Entrei em meu quarto e finalmente senti paz e silencio, tudo o que eu precisava para colocar minha cabeça no lugar e pensar no que eu fiz. Peguei dinheiro de um traficante para libertar meu namorado da prisão, acabei usando o dinheiro para não ter que morar na rua, agora estou devendo para um traficante perigoso e não faço ideia do que dizer a James. Poderia nunca mais ir visita-lo, e simplesmente sumir de sua vida, mas disse onde ele estava preso para o homem do galpão, ele com certeza vai visita-lo, e James vai dizer que não apareci com o dinheiro, ele sabe onde eu moro e com certeza vai dizer ao homem, que vai vir até aqui. E depois de eu tentar mentir dizendo que perdi o dinheiro durante o caminho de casa, vou acabar sendo pressionada e falando toda a verdade, e depois disso provavelmente vou morrer com um tiro na cabeça. O plano era guardar os trinta mil e depois juntar os vinte restantes o mais rápido possível, e isso foi pelo ralo, tudo porquê agi por emoção. Acabei adormecendo enquanto pensava se levar um tiro na cabeça deve doer.
Quando acordei era por volta das 19h, já estava atrasada para jantar com Emma, apenas arrumei meu cabelo e sai.
— Achei que não viesse, acabou de ficar pronto — Emma abriu espaço para eu entrar e o cheiro de macarrão invadiu minhas narinas, fazendo minha boca salivar
— Elisabel, quanto tempo! — a mãe de Emma veio em minha direção e me deu um abraço caloroso
— Pois é, ando muito ocupada — sorri tímida e a segui até a cozinha
— Que bom que tirou um tempo para jantar conosco
Nos sentamos na mesa e Emma nos serviu gentilmente, sua mãe me fez algumas perguntas durante o jantar, coisas sobre faculdade, empregos e namorados.
— Estou procurando emprego há meses, e nada. — disse e dei uma garfada no macarrão
— O mercado realmente está concorrido, espero que você consiga algo logo. — sorri agradecendo e continuamos a comer.
Quando o jantar acabou, ajudei a mãe de Emma com os pratos e depois fui em direção ao seu quarto
— Você parecia meio distante durante o jantar — ela disse enquanto mexia no celular
Suspirei e me atirei em sua cama cor de rosa e fofinha
— Acho que me meti em uma situação muito perigosa, e não faço ideia do que fazer — desabafei
— Conta
— Dinheiro, traficantes e drogas, é a única coisa que posso falar — Emma não disse nada, apenas me encarava de boca aberta
— Você vendeu drogas e o dinheiro que era para o traficante você gastou?
— Mais ou menos isso, na verdade, não cheguei a me envolver com drogas
— Meu Deus, isso é muito perigoso, Elisabel
— Eu sei, Emma, mas agora já era, não tenho como sair disso. Não faço ideia de como devolver o dinheiro
— Mais de mil?
— Mais de dez mil — a boca de Emma ficava cada vez maior diante das revelações que eu fazia, seria engraçado se não fosse trágico.
— Nem se você trabalhasse por um ano conseguiria juntar mais que dez mil
— Nossa, muito obrigada pela ajuda psicológica. Não paro de pensar em como eles provavelmente vão me matar. — coloquei as mãos no rosto envergonhada e virei de bruços na cama
Emma afagou minhas costas e ficamos em silêncio por alguns minutos.
— Elisabel? Está procurando emprego, certo?
— Estou, qualquer coisa.
— Minha mãe comentou comigo que uma amiga dela tem um filho cego, e a menina que cuidava dele era ilegal no país e foi descoberta, resumindo, ela foi deportada e agora ela precisa de alguém para ficar com o filho.
— Está falando sério? Ser babá de um cego? — me virei de frente pra ela incrédula com a proposta
— Não é ser babá, ele é bastante independente, aparentemente só precisa de companhia e ajuda quando quiser sair de casa
— Eu esperava algo como garçonete, vendedora, até faxineira, mas não babá
— Bom, ouvi dizer também que eles levam uma vida boa — Emma esfregou os dedos um no outro, querendo dizer que eles tem dinheiro
— E... — dei oportunidade para ela continuar
— E que você pode negociar o salário, ou até mesmo se fazer de coitadinha e eles podem te ajudar mais do que dando só o salário.
— Emma, você é pior do que eu imaginei. — sorri para ela e lhe joguei uma almofada.
— Vou chamar minha mãe e perguntar se ela tem notícias sobre a vaga ainda.
Emma saiu do quarto gritando a mãe pelos corredores, me olhei no espelho enfrente a cama e vi um pingo de esperança ali. Talvez eu não morra com um tiro na cabeça.
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