Your Eyes
1 Capítulo 1.
O sol de Seattle invadia meu pequeno quarto, estranho pra época do ano que nos encontramos. Abri meus olhos, ainda me acostumando com a claridade e me levantei da cama, lutando com a minha vontade extrema de voltar para ela e passar o dia inteiro deitada. Saindo do chuveiro, procurava algumas roupas limpas no guarda roupas quando ouvi minha mãe gritar do quarto ao lado
— Elisabel, já levantei, venha me ajudar
Bufei já mal humorada e vesti qualquer roupa depressa, indo em direção ao quarto ao lado.
— Bom dia, mãe. — sorri irônica enquanto abria as cortinas do quarto
— Que demora, estava chamando por você há tempos — ela reclamou enquanto retirava as cobertas de cima do corpo
— Estava no banho.
— Pegue a cadeira de rodas ali, anda! — ela ordenou
Ajudei minha mãe se ajeitar na pequena cadeira de rodas velha e enferrujada, enquanto ela resmungava o quanto eu era incompetente. Mais um dia normal. A levei até a sala e estacionei a cadeira enfrente a pequena mesa redonda de madeira.
— Única coisa que temos para comer é bolacha murcha e água da torneira — joguei um pacote de bolacha em cima da mesa e coloquei um copo de água diante dela.
Minha mãe olhou com um olhar de nojo e afastou ambos pro centro da mesa.
— Vou ligar para sua tia, pedir algum dinheiro. — ela se virou com a cadeira e foi indo em direção ao telefone jogado no sofá.
— Até quando você vai ficar se fazendo de coitadinha? Recusando o dinheiro que meu pai nos deixou? — peguei o telefone de suas mãos e ela me olhou feio
— Quem você pensa que é? Você não sabe nada sobre seu pai. Não sabe nada sobre esse dinheiro. Não vamos usá-lo nunca, prefiro passar fome.
— Prefere me ver passar fome?
— Você não vai passar fome se arrumar um emprego e parar de ficar dando dinheiro pro seu namorado de merda.
— Você não sabe de nada. — joguei o telefone no colo dela e sai bufando.
O Sol estava gelado, as ruas estavam cobertas de neve ainda prestes a derreter, caminhei até o ponto de ônibus mais próximo e esperei por alguns minutos.
**
Me sentei em uma cadeira completamente desconfortável e peguei nas mãos uma espécie de telefone enquanto observava James vindo em minha direção algemado, quando se sentou na minha frente ele sorriu sem mostrar os dentes e pegou o aparelho também.
— Oi, gata, espero ouvir boas notícias — ele sorriu esperançoso
— James, não é tão fácil assim juntar cinquenta mil — disse séria e ele bufou
— Vai fazer um mês que estou aqui, estou enlouquecendo.
— Eu sei, as coisas não estão fáceis para mim, eu e minha mãe não temos o que comer, não consigo nenhum emprego.
— Me ajuda a sair daqui e eu te ajudo com essa situação.
— Para você sair daí precisa de cinquenta mil, eu não tenho nem cinquenta reais.
— Você quer que eu faça o que, Elisabel? — ele começou a se alterar e um policial olhou feio para nós.
— Quero que me de seus contatos, não vou juntar essa grana toda sozinha, eles vão te ajudar também, afinal são seus parceiros.
James me encarou sério, parecia pensar na possibilidade, sabia que ele mexia com coisas pesadas e obviamente ilegais, ele nunca demonstrou confiar em mim ao ponto de me mostrar seus negócios e seus parceiros, conhecia apenas a ponta do iceberg, agora preso com uma quantidade enorme de drogas, ele teria que confiar em mim de um jeito ou de outro.
— Não quero te envolver nessas coisas.
— Mais do que já estou envolvida? James, eu passo o maior pano para as coisas que você faz. Fico de olho nos policiais quando você pede, mesmo não sabendo o que você está aprontando, já fui usada como isca e tive que seduzir homens para você poder entrar em lugares para fazer não sei o que. Eu não sei de absolutamente nada dos seus negócios, estamos juntos há alguns anos e já mostrei ser confiável milhões de vezes, e ninguém dos seus amigos sabe que você está aqui, sou seu único portal para o mundo de fora. É pegar ou largar, se depender só de mim, você vai passar anos aqui dentro.
Desabafei completamente, ele me olhou furioso, provavelmente por perceber que tenho razão.
— Eu fui contra as ordens da pessoa que comanda o negócio todo, ele falou para eu não ir e eu fui, por isso estou aqui, deveria ter ouvido ele, ele provavelmente quando descobrir que estou aqui vai me tirar de todos os negócios. Mas você tem razão, se depender só de você vou apodrecer aqui. Tem algum lugar onde anotar um endereço?
Sorri vitoriosa ao ouvir aquelas palavras.
— Sim senhor. — Puxei meu celular do bolso da calça e balancei diante do vidro.
— Certo, você vai pro centro de Seattle, no galpão onde nos encontramos antes dessa desgraça toda acontecer, lá você vai procurar por um cara chamado Paul, vai explicar a situação e pegar um dinheiro com ele. Espero que ele empreste — James me explicou atentamente e eu assenti.
Nos despedimos com um beijo através do pequeno vidro e eu sai da penitenciaria, indo direto ao encontro do tal Paul.
**
Tem alguém ai? — chamei enquanto adentrava no galpão abandonado
O galpão era o lugar onde James encontrava seu pessoal, sempre que vinha até aqui com ele, ficava do outro lado para não ouvir nada. O lugar era grande, algumas mesas e cadeiras e sofás velhos, quando James e seu pessoal estavam aqui, ficava cheio de notebooks e fios espalhados por todos os cantos.
— Quem é você? — uma voz me tirou dos meus pensamentos, quando me virei, um homem alto com a barba falha e meio careca apontava uma arma em minha direção.
Levantei os braços em sinal de redenção e ele começou a se aproximar.
— Meu nome é Elisabel, sou a namorada do James e estou procurando por Paul — respondi com a voz tremula.
Minhas pernas começaram a tremer e pude sentir que meu rosto ficava cada vez mais pálido. O homem começou a se aproximar cada vez mais, com a arma ainda apontada na minha direção. Quando ele ficou frente a frente comigo, abaixou a arma e eu senti como se tivesse retomado o folego. O Homem começou a rir desesperadamente e eu fiquei parada sem entender nada.
— Eu te assustei não é? Me desculpa, James nunca nos apresentou então foi difícil lembrar do seu rosto — ele segurou a barriga de tanto rir e começou a se acalmar, tossiu um pouco e retomou a postura.
— James está preso, a fiança é cinquenta mil, preciso falar com Paul— despejei ao homem tudo de uma vez, sem enrolação, ele me olhou espantado.
— Ok, vamos lá, Paul não está. Mas vou tentar entrar em contato com ele — o homem pegou o celular do bolso da jaqueta e discou um número.
— Obrigada. — agradeci e sorri sem mostrar os dentes.
— Grande Paul! Estou aqui com a namorada do James, sabe? O magrinho moreno, pois é, ele foi preso. Cinquenta mil a fiança... — o homem saiu do galpão ainda falando ao telefone, alguns minutos depois ele retornou ainda mexendo no celular.
— E então? — chamei sua atenção
— Ah sim, sabia que alguma coisa tinha acontecido, na pior das hipóteses pensei que ele estava morto, mas preso... Isso foi uma surpresa. Foi pego com drogas, correto? — Paul começou a caminhar e eu o segui, ele abriu uma latinha de cerveja e sentou sobre a mesa.
— Exato — foi a única coisa que consegui responder
— Paul disse para ele não entregar aquela droga naquele dia, sabia que os policiais estavam de olho, eu avisei também.
Respirei fundo e me sentei em uma cadeira de frente para ele.
— O Paul vai tira-lo de lá?
— Vai... James é muito revoltado e mimado, mas é inteligente e bom para os negócios. Cinquenta mil ele não tem, mas vai te ajudar com trinta, você dá um jeito de conseguir o resto. — não deu tempo nem de protestar, Paul se levantou a caminhou mais um pouco, agachou próximo ao tapete e abriu um fundo falso que tinha lá, tirou várias notas enroladas em elásticos e me entregou.
— Nossa... Obrigada, isso já ajuda muito. — coloquei os rolinhos de dinheiro nos seios e fechei o zíper da jaqueta de couro.
— Me diga, onde este safado está detido? — Paul perguntou enquanto lutava para acender um cigarro
— Centro de Detenção provisória de Seattle.
— Farei uma visitinha intima para ele — ele brincou e riu sozinho
— Vou nessa, obrigada pela grana.
— Toma cuidado com isso, e fale para James que Paul vai cobrar cada centavo.
Corri em direção a minha casa, protegendo esse dinheiro mais que minha própria vida. Quando finalmente cheguei, vi minha mãe conversando com dois homens, na verdade estava quase gritando.
— O que está acontecendo? — perguntei tentando conter a situação.
— Elisabel, eles querem tomar nossa casa! — minha mãe respondeu desesperadamente entre soluços de tanto chorar.
— Senhora, não é bem assim, só estamos cumprindo nosso trabalho. O aluguel está atrasado há meses. Vocês tem uma semana para sair daqui.
Quando o homem disse essa última frase, senti que tudo ficou em câmera lenta, minha boca foi ao chão, o desespero tomou conta do meu interior. Só conseguia ver a boca dos homens se movendo, provavelmente tentando nos consolar de alguma forma, mas não saia som. Senti a mão da minha mãe me puxar para baixo e consegui sair do transe.
— Faça alguma coisa, Elisabel! — ela suplicou enquanto chorava
Me abaixei diante da cadeira de rodas e respirei fundo.
— Ligue para a tia, peça o dinheiro. — ordenei, e minha mãe negou com a cabeça
— Você acha que eu já não fiz isso? Ela brigou comigo, me xingou, disse que não pode mais nos ajudar, que está farta de sustentar a família dela e a nossa.
Merda, droga. Comecei a caminhar de um lado para o outro, era só o que me faltava, não ter o que comer e agora morar na rua.
— Bom, nós estamos indo. Sentimos muito. — o homem pegou alguns papeis que estava sob o sofá e começou a caminhar em direção a porta.
— Espera, eu tenho o dinheiro. — falei, na verdade gritei. Minha mente não parou para pensar antes de dizer isso.
— Elisabel...? — ouvi minha mãe falar baixinho.
— São meses de aluguel atrasado, senhora, junto com os juros. Não é tão barato. Se me permite dizer, aceite a ordem de despejo e pegue esse dinheiro que a senhora diz ter para alugar uma casa mais barata.
Não respondi, sabia que não estava raciocinando direito. Abri minha jaqueta e comecei a jogar as notas de dinheiro para fora da blusa.
— Ai tem trinta mil. O que dá pra fazer?
O homem me olhou de cima a baixo, se abaixou e começou a recolher as nota.
— Consigo manter vocês aqui por mais um tempo. — ele disse e começou a preencher algo em uma folha de papel.
Suspirei aliviada, sentei no braço do sofá e comecei a pensar no que tinha acabado de fazer. Eu estava ferrada, totalmente ferrada.
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