Notas iniciais
Muito obrigado a todos que deram uma chance a essa história! Boa leitura!


Na hora em que aquele humano perdeu a luta, Sanji só conseguiu sair das sombras ao notar a presença do outro vampiro sumir e imediatamente correr até o corpo praticamente morto no chão. Suas presas se tornavam maiores a cada passo que dava, sua fome, nem se fala. Seu estômago revirava, ele precisava lamber cada gota daquele sangue, lamber aquele peitoral ensanguentado até sugar tudo. Estendeu a mão para tocar o garoto e viu as unhas enormes e afiadas, prontas para dar o bote. Só conseguiu rir de sua reação patética. No final das contas, mesmo fingindo ser gentil e heróico, era apenas um monstro igual a todos os outros vampiros, nada além disso. Um fraco que cede aos instintos mais primitivos de todos. Apenas um vampiro monstruoso e assassino. Não aguentava agir daquela forma, ele não deveria ser assim, deveria agir como um humano, sempre insistia que sua parte humana era mais presente, era o que ele era, mas aquela era a verdade. Um monstro, nada mais.

Não, ele não era um monstro, se recusava ser igual a sua família. Como forma de tentar se conter, enfiou as unhas em suas próprias mãos ao fechá-las com força e apertá-las, sentindo-as atravessar a carne e aparecer do outro lado. As mãos que tanto valorizava sendo estraçalhadas sem nenhuma dó pelo bem de um humano, mas não se importava. Precisava se acalmar, era só sangue, não havia necessidade daquela reação exagerada. Ele engoliu em seco e abriu as mãos, vendo que suas unhas voltavam ao normal e suas presas diminuíam, aguentaria por mais um tempo, depois poderia sair para se alimentar. Então, Sanji pegou o garoto no colo, percebendo que seu coração ainda batia, mas bem fraco, e o carregou até seu castelo. Possuía um conhecimento básico de primeiros socorros, pois preferia se prevenir caso passasse dos limites e machucasse suas vítimas, além de que outra desvantagem de ser apenas meio vampiro era que seu corpo não se regenerava da mesma forma que o corpo dos sangue puro. Então com seu conhecimento conseguiria fazer alguma coisa para salvar aquele humano. Deu seu melhor para conter o sangramento e costurar o peitoral, fechando o corte e o enfaixando bem apertado. Ainda sentia o coração dele batendo, talvez sua tentativa tenha dado em algum resultado. Ele sorriu para si mesmo satisfeito com seu trabalho. Estava desesperado por sangue, claro, e durante todo o processo seus olhos brilharam em um tom escarlate e a todo instante achou que cederia aos desejos primitivos. Com muito esforço, porém, tudo deu certo e logo depois tomou um banho demorado para tirar todo vestígio do sangue daquele humano.

Mesmo após o banho, parecia que ainda estava com o aroma delicioso impregnado em seu corpo. Era como se aquele sangue fosse o mais doce e tentador que já sentiu, Sanji sentiu medo de tomar uma única gota e não conseguir parar antes de ser muito tarde. Havia deixado o humano em uma cama que ficava em um dos quartos e ido para a cozinha preparar algo para comer e para oferecer ao outro em uma tentativa de ajudar na recuperação. Horas depois, enquanto jantava sozinho, ele pensava no quanto desejava que apenas alimentos humanos pudessem mantê-lo vivo, mas só aquilo não bastava. Sempre que ficava mais de uma semana sem sangue, sentia uma dor sufocante que provavelmente era pior que a morte e ele tinha medo de passar mais tempo e perder o controle, atacando todos que aparecessem em sua frente.

Com um prato bem feito, uma sopa deliciosa e recheada de nutrientes, ele voltou para o quarto que havia um hóspede e deixou o prato no chão ao lado da cama. Havia se virado para sair, mas sentiu uma mão puxando sua capa sem nenhuma força, mas que foi o suficiente para fazê-lo parar. O caçador de cabelos verdes estava até falando, um claro sinal de que estava minimamente bem. Sanji sorriu de leve, sentindo um alívio por aquele humano estar vivo.

— Que bom que acordou. — Ele falou em um tom calmo e baixo, feliz por ter conseguido se controlar e fazer o bem uma vez na vida.

Mas, Zoro não pensava da mesma forma. Sobre estar vivo. Ainda não gostava nada do fato do vampiro não ter respondido à sua pergunta e temia o pior. Seus dedos tocaram sua jugular desesperados, esperando não sentir absolutamente nada, esperando ter se tornado uma criatura nojenta. Entretanto, estranhamente ainda estava sentindo seu sangue quente bombeando abaixo dos dedos fracos. Sentiu também sua respiração fraca deixar suas narinas e isso o acalmou um pouco, embora ainda não estivesse completamente convencido.

— Eu estou respirando.

Fazia sentido. Se fosse um vampiro provavelmente não se sentiria tão dolorido. Não que ele fosse admitir tal coisa, mas seu peito queimava de forma insuportável, era apenas com extremo esforço e teimosia que ele se mantinha falando e olhando para o vulto. Não entendia o porquê de aquele ser tê-lo deixado vivo, não imaginava um propósito para aquilo, a menos que fosse virar comida mais tarde.

— Vocês humanos costumam fazer isso. — Sanji respondeu a constatação óbvia do garoto, tratando-o como se fosse idiota. Pela reação dele, seu disfarce claramente fora descoberto e não fazia sentido tentar fingir ser algo que não era. Achava impressionante os instintos daquele caçador para conseguir identificá-lo sem nem mesmo enxergá-lo, era algo realmente raro de acontecer. De qualquer forma, não tinha tempo a perder com ele. — Coma. Vai te fazer bem.

Dito isto, Sanji se retirou, não conseguindo ficar mais nem um instante preso no mesmo quarto que aquele humano. O cheiro do sangue dele estava impregnado em todo o ambiente e para sua desgraça, todo o castelo parecia ter ficado com o cheiro daquele sangue que parecia tão apetitoso. Ele teve que engolir a seco, sentindo sua garganta queimar. Estava faminto e não aguentaria mais conter seus instintos, precisava comer.

Depois que o vampiro se retirou e Zoro ficou sozinho no aposento o rapaz de cabelos verdes ainda se recusou a comer o que fora deixado por ele no chão, ainda que o cheiro estivesse deliciosamente acariciando suas narinas. Tentou se levantar teimosamente, mas a ardência em seu tórax era demais, sentiu-se molhado com seu sangue assim que ficou sentado na cama e em pouco tempo perdeu a consciência.

Naquela noite, o vampiro seduziu uma jovem e a levou até seu castelo, alimentando-se o suficiente para conseguir aguentar mais uma semana. Sem perceber ele sugou mais do que deveria e a moça desmaiou em seus braços e mesmo que ainda estivesse viva, a culpa o atingiu certeiramente. Como de costume, ele usou suas fracas habilidades para confundir as memórias dela, fazendo com que ela não lembrasse do ocorrido e muito menos dele. O vampiro a levou de volta para casa e a deixou em sua própria cama, ela ficaria bem, já ele… Com o cheiro forte daquele humano em todos os cantos do castelo, estava cogitando seriamente abandonar o local ou não aguentaria. O gosto do sangue daquela mulher não chegava nem aos pés só do cheiro do sangue de seu hóspede, era insano. Sanji continuava faminto mesmo depois de se alimentar.

Quando Zoro abriu os olhos novamente, ainda estava no mesmo quarto escuro e frio e notou que havia algo na cama.

Se continuar tentando se mover, vai arrancar seus pontos.

Era o que estava escrito no pedaço de pergaminho ao seu lado, numa caligrafia fina e pomposa. Infelizmente Zoro sequer sabia ler e muito menos conseguia enxergar naquele momento, então apenas amassou o papel e jogou longe de si, frustrado.

O prato de sopa ainda estava a seus pés e, embora fosse absurdamente teimoso, Zoro não era tão burro assim. Sabia que precisaria daquilo se quisesse se manter de pé algum dia, então o mais sensato seria comer aquela comida, mesmo que sua procedência fosse duvidosa. O espadachim acabou tomando todo o conteúdo do prato, raspando com a colher o fundo, com a desculpa de que quanto mais nutrientes seu corpo absorvesse, mais forte ficaria.

Todos os dias que seguiram se passaram praticamente da mesma maneira. Eram tranquilos, mas Zoro se sentia absurdamente preso. Não conseguia sair da maldita cama ainda e seu ferimento enorme não parecia querer melhorar tão rápido quanto sua impaciência gostaria. Ele só podia comer e dormir, nem treinar conseguia e sentia seus músculos atrofiando a cada minuto que passava sedentário naquela cama. Também era muito frustrante não saber nem que horas eram, nem se era dia ou noite. Não tinha a menor noção do tempo, não conseguia saber nem há quantos dias estava ali e aquele quarto sem janelas o lembrava mais de uma prisão do que ele gostaria.

Entretanto, Zoro cada vez mais percebia que seu carcereiro talvez não fosse tão péssimo quanto ele julgou a princípio. Depois da primeira interação desastrosa, eles quase nunca se falavam, o vampiro o deixava em paz, se limitando a sempre trazer suas refeições três vezes por dia durante o período em que deveria ser noite. Zoro também havia notado que suas ataduras estavam sempre limpas e novas, embora nunca estivesse acordado para ver o vampiro fazendo aquilo. Talvez o caçador de vampiros tivesse realmente julgado muito cedo aquela criatura, embora ainda estranhasse que uma encarnação de todo o mal tivesse algum pingo de bondade em si.

No entanto, por mais que estivesse grato de certa forma por não ter sido devorado, o que não era nada mais que a obrigação dele, e pela hospedagem, por mais que fosse naquele lugar sombrio e sem vida, ao menos a escuridão fez seus olhos se habituarem e começava a enxergar mais do que antes no escuro, mas o que Zoro realmente queria era dar o fora dali o mais rápido possível. Por isso, todos os dias ele sempre tentava se mover um pouco. Foi testando seus limites até finalmente conseguir se levantar da cama, pegar suas preciosas espadas encostadas na parede e sair daquele quarto. O vampiro tinha deixado o último prato de comida há pouco tempo, então provavelmente não iria checar o quarto de novo tão cedo, o que dava a Zoro muito tempo para conseguir fugir sem ser interrompido.

O restante do castelo era tão frio e mal iluminado quanto aquele aposento no qual ficou confinado por tantos dias. Parecia um local grande demais para alguém que vivia sozinho, ou assim Zoro pensou ao passar por tantos quartos e cômodos diferentes. Não conseguia ver quase nada naquela escuridão, o caminho era iluminado apenas por um castiçal que ele trouxe consigo do seu próprio quarto, objeto que sempre manteve apagado já com a intenção de usá-lo para sua fuga, mas percebia que era como todos os outros esconderijos de vampiro que já tinha tido o desprazer de conhecer, com uma decoração desnecessariamente medonha e velharias por todos os lugares.

Ele caminhava com dificuldade, praticamente arrastando suas preciosas espadas no chão, quase sem forças para se manter em pé. Sentia o corte doer horrivelmente contra as ataduras em seu peito e parecia que já estava caminhando há horas, o quão grande poderia ser aquele castelo? Já havia tentado ir por todas as direções e não encontrava a maldita saída em lugar algum. Chegou até a pensar que não houvesse saída, talvez aquele maldito apenas se transformasse num morcego e saísse voando por uma janela qualquer.

Depois de muito caminhar, Zoro finalmente viu algo que minimamente se assemelhava a uma porta de saída. Mas, seus olhos captaram algo mais chamativo ainda ao lado dela quando se aproximou o suficiente. Ele não quis acreditar em seus olhos, ao mesmo tempo em que concluía que aquilo era mais do que esperado e não deveria surpreendê-lo em nada.