Your Blood Is My Wine
28 I'm not gonna hurt you.
Notas iniciais
Fazia alguns dias que Zoro havia partido do castelo, deixando Sanji para trás e com uma promessa muda de que voltaria em breve. Ele chegou a sorrir um pouco consigo mesmo, enquanto galopava para longe dali e pensava nas palavras de Sanji que soavam como se não quisesse se separar dele. Ou talvez apenas não quisesse ficar sozinho, já que Zoro havia compreendido há muito tempo que Sanji detestava a solidão daquele castelo. Mas o fato de buscar companhia nele, não em bailes, não em outros humanos quaisquer, o deixava estranhamente satisfeito.
Entretanto, se estava sorrindo naquele dia quando partiu, definitivamente não o estava agora. Já havia rodado por todos os vilarejos mais próximos à procura de uma boa caçada e nada havia encontrado, apenas lugares pacíficos e camponeses vivendo suas vidas de forma pacata e imperturbada. Zoro franzia o cenho irritado, após sair de mais uma busca infrutífera e gastar sua paciência perguntando às pessoas do local se sabiam de alguma coisa.
Diferentemente dele, sua égua parecia de muito bom humor por não ter que se deparar com nenhum vampiro e Zoro a olhava feio enquanto ela trotava pela floresta no escuro como se estivesse bastante satisfeita.
— Mal pode esperar para voltar ao castelo daquele meio-vampiro, mas fica toda feliz por não encontrar mais nenhum deles... Vai entender... — Zoro disse irritado, embora ele entendesse exatamente o comportamento daquele animal. Sanji não era nem um pouco parecido com os vampiros que eles caçavam. Ele a alimentava e a tratava com mais carinho e educação do que Zoro tratava pessoas, penteava sua crina até ficar bonita e lustrosa, e conversava com ela todas as noites sem falta.
Era tão diferente que Zoro sabia que sua comparação era absurda, por isso, quando sentiu a égua se mexer, pensou que estivesse relinchando e rindo das suas palavras idiotas. Até perceber que o animal na verdade estava se tremendo de medo. A égua parou abruptamente, sem querer dar mais um passo sequer e Zoro entendeu que ela certamente havia sentido o mesmo que ele: um vampiro. Imediatamente o humor de Zoro melhorou, ansioso e pronto para fazer o que não teve oportunidade durante aqueles dias, estraçalhar um maldito sanguessuga.
Em pouco tempo sua companheira de viagem já estava escondida em algum lugar na floresta, ela geralmente não aparecia durante uma luta. A batalha foi boa, o vampiro certamente era longevo e forte. Embora Zoro tenha passado tanto tempo sem lutar, ele havia treinado o suficiente quando estava com Sanji para que não estivesse nem um pouco enferrujado, fazendo com que vencesse a luta habilmente. Seu mau humor anterior parecia ter passado completamente, embora sempre odiasse olhar para um daqueles vampiros, dar-lhes o último golpe, decepar-lhes as cabeças nojentas sempre era satisfatório. Vencer, provar sua força, matar.
Já havia decepado outros membros do corpo daquele verme, e, sem sequer perceber, estava sorrindo enquanto a lâmina da espada atravessava o pescoço alvo do vampiro, fazendo chover sangue sobre todo o corpo do caçador. Não que ele se importasse. Estava muito ocupado perfurando o coração do corpo decapitado com a estaca, perfurando o tórax como se fosse manteiga. Matando aquele ser corretamente para que fosse direto ao inferno. Zoro ainda sentia a adrenalina em suas veias mesmo depois de vencer, pensando irracionalmente consigo mesmo que se houvessem mais vampiros teria prazer em lutar com eles até amanhecer.
Sanji achou que aquela seria apenas uma noite normal como todas as outras, não esperava que quando estivesse voltando da vila após comprar alguns mantimentos sentiria Zoro por perto. Automaticamente o loiro foi a seu encontro e não poderia se arrepender mais. O garoto estava lutando, mas o que incomodava o vampiro loiro era a expressão doentia que estava em seu rosto enquanto ele atacava sem parar com as espadas e destroçava a carne daquele monstro. Ele deveria ficar feliz por ser uma aberração a menos na natureza, no entanto, tudo que Sanji conseguiu sentir foi pavor. Os olhos azuis estavam arregalados enquanto observava Zoro ser coberto de sangue e sorrir daquele jeito medonho, continuando a atacar o outro vampiro mesmo que claramente já estivesse morto. Sanji sentiu algo quente escorrendo por seu rosto e quando percebeu, já estava de volta ao castelo sem as embalagens das compras, apenas abraçando as próprias pernas e escondendo o rosto nelas.
Era impossível não relacionar o que viu com todas as vezes em que Zoro o ameaçou com aquelas espadas, quando sentiu a lâmina atravessar seu pescoço. Então era isso que ele queria, afinal. A realização daquele fato machucava mais do que todas as vezes em que fora agredido pelo outro. Estava claro o quanto aquele jovem se enojava por ser um vampiro, Sanji sempre enxergou ódio, nojo e desprezo em seus olhos, mas ver com seus próprios olhos era bem mais difícil. Ele queria desaparecer.
Seu medo o impossibilitou de pensar, então só conseguiu passar pela porta do castelo e se abaixar na parede mais próxima, temendo o que aconteceria com ele quando o outro estivesse ali. O prazer que Zoro parecia sentir enquanto decapitava aquele vampiro deixava Sanji com medo. Estava tremendo e queria fugir outra vez como o covarde que era.
Não sabia quanto tempo permaneceu na mesma posição aos prantos, mas assim que sentiu a porta a seu lado se abrindo, ele encolheu mais o corpo e parecia estar tremendo mais que antes. O calor que ele tanto amava se aproximava e diferente do normal que se sentia bem e confortável com aquilo, apenas se desesperou.
— Encontrei um pacote de comida abandonado no meio da floresta e roubei para você cozinhar. — Zoro disse ao abrir a porta, carregando a embalagem em seus braços.
— Fica longe de mim! — Sanji gritou antes que pudesse ser tocado, antes de Zoro ficar tão próximo que sua mente passasse a enganá-lo e iludi-lo, fazendo-o achar que estava seguro ao lado do outro. Não estava. Com Zoro ali era mais perigoso do que qualquer coisa.
— Como assim? — O caçador escutava as palavras, mas não entendia porque eram dirigidas a ele com tanto desespero. Sanji estava se encolhendo ainda mais em direção à parede, como se a presença de Zoro fosse a pior coisa que existisse.
Zoro não conseguia compreender. Só se afastou um pouco de Sanji como ele havia pedido, até voltar para fora do castelo e clarear os pensamentos um pouco. Zoro tentou se lembrar se havia feito algo errado quando foi embora da última vez, qualquer coisa que Sanji consideraria rude ou até mesmo cruel, mas não conseguiu pensar em nada. Ele observou suas botas surpreendentemente limpas com amargura, até mesmo estava "apresentável" como dizia o vampiro, sem sujar todo o castelo de lama como sempre reclamava.
Só estava tão limpo porque antes de chegar no castelo, Zoro gastou parte do dinheiro que tinha numa estalagem, pagando para ter sua roupa lavada e tomar um banho. Ele geralmente não se importaria com isso, nunca se importou. Mas ao ver seu estado no espelho, sangue cobrindo todo seu corpo, lembrou de todas as vezes que havia chegado assim e de como Sanji o olhava com preocupação e, principalmente, com pavor no olhar. Então ele tomou banho, deixou seus cabelos verdes novamente, o pano úmido retirando cada mancha de sangue que ainda tinha em seu corpo.
E ele achou que talvez fosse uma boa surpresa, que Sanji gostaria que estivesse assim. O que ele não esperava era aquela reação. E fazia Zoro chutar pequenas pedras no gramado que rodeava o castelo. O fazia ficar um pouco puto por não ter feito absolutamente nada e receber aquele tratamento quando retornava.
Talvez antigamente ele tivesse ficado calado e com raiva do vampiro em silêncio, mas ele entendia um pouco melhor agora, e eles não funcionavam mais daquela forma. Então ele apenas entrou novamente pela porta, tentando não abrir com muita rudeza, e não assustar ainda mais o vampiro que estava encolhido no chão do mesmo jeito que estava antes. Zoro se aproximou calmamente, mantendo certa distância e se abaixou até o chão onde ele estava.
— Qual o problema? — Ele tentou perguntar, vendo que Sanji ainda não queria sequer encará-lo. — Eu fiz alguma coisa?
— Não toca em mim... — O medo do vampiro ainda era visível, ele permanecia encolhido e tremendo, com os olhos fechados e transbordando.
Sanji sabia que aquele era seu destino, morrer pelas mãos de um caçador, daquele que amava. E por muito tempo ele desejou aquilo, que Zoro terminasse de uma vez com sua vida, que acabasse com todo seu sofrimento. Mas, nos últimos tempos, era o oposto que desejava. Sempre que pensava em passar muitos anos com aquele moleque irritante o fazia sorrir. Era agradável a ideia de vê-lo crescer, mesmo que já fosse um adulto de vinte anos. Queria poder ficar com ele para sempre. Infelizmente, não era visto da mesma forma.
— Não me mate... — Implorou pateticamente por sua própria vida, levantando o rosto e reunindo toda a coragem que um dia teve para encarar o único olho verde que restava no rosto moreno que tanto amava passar horas admirando. Seu rosto pálido estava inchado e vermelho, parecendo até amassado de tanto chorar. — Eu não quero isso...
Mais que em suas palavras, Zoro podia ver em seus olhos cheios de lágrimas, que não era a ele que estava rejeitando. Ele ainda o olhava com a mesma ternura de sempre, apenas maculada pelo medo que transbordava, o mesmo medo que sempre via naqueles olhos quando chegava ensanguentado. Ele ainda não entendia, mas não poderia ficar com raiva. Mesmo que Sanji não tivesse realmente respondido suas perguntas e mesmo que estivesse agindo de formas que não compreendia.
— Eu não vou te machucar. — Zoro disse, embora realmente não soubesse por que precisava dizê-lo, por que Sanji acharia que faria algo assim se sua relação estivera tão estável nos últimos meses.
Ele colocou a embalagem com os ingredientes calmamente no chão, levantando posteriormente uma das mãos morenas e estendendo até o loiro, que se afastou um pouco como reflexo, mas Zoro apenas manteve a mão parada, indicando que não iria usá-la para feri-lo. Com a outra mão, sem tirar o olho dos de Sanji, ele desprendeu as espadas da cintura e colocou as três no chão, as afastando para longe com um leve empurrão. Sanji ainda parecia inseguro, mas Zoro experimentou se aproximar um pouco mais e ele não fugiu. O jovem caçador se sentou propriamente no chão e passou os braços fortes pelo corpo que tremia, parecendo estranhamente pequeno enquanto estava encolhido no chão, embalando o corpo frio com a sua quentura, esperando que isso pudesse ser melhor que as palavras pouco eloquentes que poderia oferecer.
Sanji ainda tinha muito medo e sua mente insistia em lembrar da cena aterrorizante que presenciou antes, se imaginando no lugar daquele vampiro, enxergando o prazer que Zoro tinha em matá-lo. Ao mesmo tempo, seu corpo se sentia acolhido pelos braços fortes e quentes que tanto amava, pelo calor agradável que emanava de seu peito, até mesmo a respiração calma em contato com sua pele e ele preferiu se agarrar àquele pequeno fio de esperança que existia e confiar em Zoro, na promessa de que não o mataria, por mais que isso existisse apenas por um pacto de sangue.
Demorou para que ele se acalmasse, as lágrimas continuaram escorrendo por algum tempo, assim como a tremedeira no corpo e os soluços causados pelo choro excessivo. O fato de Zoro continuar apertando seu corpo com tanta força, deixando que Sanji roubasse todo seu calor, transmitia ao vampiro que estava tudo bem, que poderia confiar nele, que por mais que fosse um caçador, não iria caçá-lo. O cheiro daquele humano era tão bom que de pouco em pouco o loiro começou a se agarrar nele, apertando de volta seu corpo e sendo acolhido direitinho. Sua cabeça descansava em um dos ombros largos, enquanto uma das mãos estava apertando o ombro oposto e a outra colocada em uma fresta na roupa do jovem, pousada em suas costas.
— Sua mão é gelada. — Zoro disse, sentindo o vampiro fazer menção de tirá-la de dentro de sua roupa. — Não precisa tirar, idiota. Não disse que era ruim.
Sanji sentia o cheiro dele, o sangue circulando nas veias do pescoço tão próximo parecendo clamar por suas presas e isso o fez rir baixinho e aproximar a boca até a curva do pescoço para beijá-lo demoradamente, sentindo os lábios quase queimarem de tão quente que Zoro era.
Zoro permanecia o abraçando, sentindo os beijos continuarem incessantes em seu pescoço. Sanji o beijava assim como cozinhava, com amor e delicadeza, e uma habilidade ímpar de dissolver Zoro completamente, mesmo que tudo que estivesse fazendo fosse beijar sua pele com seus lábios gelados. Sentia o vampiro o farejando, respirando todo seu cheiro profundamente enquanto o beijava e sabia que ele obviamente tinha notado, mas queria dizer mesmo assim.
— Eu tomei banho. — Anunciou como se fosse um feito extraordinário. Bom, se tratando dele realmente era. Ou como uma criança que faz algo certo e deseja a aprovação dos adultos. Não que ele pensasse em tamanho absurdo.
"Fofo" Sanji não pôde deixar de pensar quando o garoto anunciou daquele jeitinho adorável e tão raro de se comportar. Bem mais calmo que antes, ele sorriu e se colocou na frente do outro, apertando a cintura larga e colando mais os corpos até que pudesse beijá-lo de leve, a outra mão indo até os fios verdes na nuca e os dedos se enrolando naquela parte agradável e quentinha.
Havia agido de forma estúpida ao desconfiar do outro, temê-lo. Quando estavam ali com os corpos tão próximos, em silêncio apreciando a presença um do outro, apenas percebia que não precisava ter medo, Zoro era como um gatinho adorável e manhoso, que tentava se esconder atrás da carranca de um enorme tigre feroz.
Ao descolar os lábios, Sanji ficou sorrindo como um idiota enquanto acariciava a nuca alheia e encarava o rosto confuso do outro, teria continuado por um longo tempo se não tivesse notado a embalagem de compras que não se lembrava de ter trazido e ficou encarando em confusão.
— Foram os ingredientes que achei na floresta, eu te disse. — Zoro explicou, vendo a confusão estampada no rosto do vampiro, que não parecia ter prestado muita atenção na embalagem até aquele momento.
Zoro apreciava que ele pelo menos tivesse notado o que havia trazido para ele, mas o que ele não apreciava era que Sanji descolasse seus corpos para ir atrás da embalagem e checar seu conteúdo. Algumas coisas com certeza não estariam mais frescas, mas Zoro ainda achou que valia a pena trazê-las quando as encontrou, Sanji sempre ficava satisfeito quando ele trazia algo do tipo. Mas, o rosto do vampiro parecia estranho enquanto examinava os ingredientes.
— São ruins? — Zoro perguntou inocentemente, achando que talvez Sanji estivesse desgostoso com a qualidade da comida.
Sanji balançou a cabeça em negativo enquanto sorria de forma gentil. Realmente eram os ingredientes que havia comprado, então não sabia se deveria considerar aquilo como Zoro ter achado na floresta, sendo que já era dele desde antes. De qualquer forma, era bom que o garoto tivesse visto, ou teriam que voltar na vila no dia seguinte, já que pelo horário seria difícil encontrar algum lugar ainda aberto.
— Eu te vi... Antes... Esses ingredientes eram meus... — O loiro falou bem baixinho, tentando não se afetar muito pelas imagens que voltavam em sua memória, ainda tão vívidas. — Só consegui pensar que era aquilo que queria fazer comigo, que sentiria prazer em me...
Ele se interrompeu, mesmo abrindo a boca para falar. Não conseguia pronunciar aquela palavra tão assustadora. Instintivamente olhou na direção das espadas e suspirou, lembrando de quando uma delas atravessou seu pescoço e feriu suas mãos. Nem mesmo naquela época era culpa de Zoro, o vampiro que desejava acabar com sua própria existência e fez, clamando para que terminasse. Zoro não o machucaria mais.
— Não. — Zoro disse firmemente sem hesitar, se movendo até onde o loiro estava e segurando o pulso dele.
Então era isso que havia acontecido. Zoro queria pensar que era absurdo, que não havia nenhum motivo para Sanji se assustar daquela forma só por vê-lo matando um vampiro, mas ele sabia que não era verdade. Olhou para a mão de Sanji, a luva que ele ainda insistia em usar cobrindo a cicatriz que existia ali. Sabia que havia sido hostil o suficiente para que pensasse daquela forma, que havia dito palavras cruéis como se não fossem nada. Que em algum momento havia desejado matá-lo. Porque era ignorante e não conseguia enxergar o que estava bem na sua frente. Aqueles olhos azuis que brilhavam para ele e já ameaçavam se encher de lágrimas novamente.
— Você não é como eles. Você é bom. E nunca mataria alguém, eu sei disso. Por isso... — Zoro falou as palavras sem nem raciocinar direito. — Por isso vamos desfazer o pacto.
Aquele contrato nem fazia sentido, de qualquer forma. Não era por causa dele que Zoro continuava voltando, e obviamente não era por isso que Sanji não matava ninguém. Manter o pacto de sangue era somente um símbolo de desconfiança, uma coleira, uma amarra, como se Sanji fosse um vampiro sedento que precisasse ser controlado, que não merecia sua confiança.
— Não. Você está errado. — Sanji afastou as mãos do outro e olhou para as luvas brancas, como se enxergasse todo o sangue que havia derramado quando matou sua única vítima. — Eu já matei.
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