Young Gods - Interativa
12 Capítulo 11
w i n t e r f e l l
Os reis do Inverno tinham por tradição o hábito de manterem cortes parcas. E o povo do Norte preferia estar em seus lares a se amontoarem aos pés do rei como cães obedientes.
Quando Philippa descrevia o modo como a sede dos Lannisters era cheia da nobreza do Oeste, Briar não entendia como eles eram capazes de viver daquele modo, e no fundo ela sabia que a rainha se incomodava da mesma maneira com a placidez que encontrara em Winterfell.
Hoje, no entanto, a jovem esposa de seu deveria estar muito contente, pois parte da nobreza Nortenha se fazia representada no grande salão de Winterfell, esperando para se despedir da princesa que logo partiria para se tornar rainha.
O rei Brandon estava em seu trono, sentado em confortáveis peles, com o filho mais novo em seu colo, e a esposa sentada a sua direita, enquanto Briar e a irmã se sentavam a esquerda – um degrau a baixo no estrado.
A mais velha das princesas Stark, não tinha se incomodado em fazer de si uma visão memorável, ao contrário, ela fazia pouco uso de jóias e vestia um vestido discreto. Aquele era o momento de Alina, e todos estavam ali por ela, a bela moça que logo só se sentaria na parte mais alta do estrado.
Um apos o outro, os vassalos de seu pai – ou seus representantes – ofereciam presentes para a noiva. Alina já tinha recebido baixelas, peles, tapeçarias, jóias, uma besta, e todo o tipo de coisa que parecesse adequada. Depois de apresentados diante do trono, e recebidos com um doce sorriso da princesa, os presentes saiam da salão para serem embalados para o transporte até o Vale. Briar observava encantada e orgulhosa, com quanta graça e dignidade a irmã desempenhava aquela tarefa tediosa.
Quando aquela parte terminou, e Alina aceitou o último presente – um belo espelho de moldura decorada – foi a vez de lorde Locke, se apresentar diante do trono.
Derick Locke, era jovem e de bela constituição. Sobrinho da primeira esposa do rei, tinha se tornado lorde depois que o pai morrera anos antes. Ele e seus primos Stark nunca tinham compartilhado de muito tempo juntos, mas quando o faziam era algo agradável para ambas as partes, pois Derick era um homem de modos afáveis e caráter tenro.
Ele se ajoelhou diante do trono, a capa púrpura descendo pelo ombro direito. Trazia consigo três belos cães de caça brancos, como presente para o rei, pérolas para a rainha, e um macio e luxuoso manto de arminho para Alina.
— Alteza, eu agradeço a honra que me concede.
Derick disse com sua agradável voz ecoando pelo salão. Havia algo nele, algo Locke talvez, que fazia com que Briar se lembrasse de sua mãe, por isso mesmo ela viu muito surpresa quando o pai se levantou sorridente, caminhou até o sobrinho e o ergueu pelo ombro.
— Uma honra muito bem concedida. Você, meu jovem, é um dos mais resplandecentes exemplos da cavalaria Nortenha. – Brandon se aproximou do sobrinho e disse algo que fez o rapaz franzir o cenho, o rei no entanto estava mais sorridente do que nunca, dando dois tapas amigáveis no ombro do jovem Locke – Confio a você minha doce filha que logo será a doce esposa de um rei.
Mas Brandon não olhava para Alina, e dizia ‘filha’ com o mesmo carinho que teria dito ‘maçaneta’.
— Senhor Lantell! – O rei chamou o embaixador do Oeste, que deu alguns passos a frente, fez um reverência dizendo ‘Sim, majestade’ – Não acha que minhas filhas são doces e nobres criaturas?
— Sem dúvida que são senhor.
— Não acha que as duas seriam belos exemplos de rainhas?
— Qualquer nação se sentiria grata em ter tão boas senhoras no trono.
— Até a sua?
O rei riu, mas Briar corou. Seu pai acreditava que o embaixador havia entregue a cruel carta que ele a fizera escrever, mas depois de ter comovido o homem com algumas lágrimas falsas, a princesa conseguiu com que ele concordasse em trocar a primeira carta por outra muito mais gentil. Briar queimou a carta com as palavras de seu pai, não poderia dizer que se sentia envergonhada de ter enganado o rei, e fingido o choro para Lantell, tudo o que ela tinha feito, fez pelo bem do país, e não se arrependia.
Briar viu o olhar gentil do embaixador sobre si, e recebeu o cúmplice e cálido sorriso que ele a dirigiu.
— Acredito que seriamos tão felizes em tê-las como rainhas, como as flores ficam em ver o Sol depois do longo inverno.
Brandon riu e deu um tapa tão forte no ombro do sobrinho, que teria deslocado um homem mais frágil.
— Viu? A felicidade do Sol, é isso que minhas filhas trazem. E é por isso que eu, que o estimo acima de todos os outros, lhe ofereço a mão de minha preciosa filha em casamento. Briar minha querida, venha aqui.
A princesa olhou confusa para sua irmã, mas tudo o que conseguiu foi o olhar ainda mais confuso da irmã, que nervosa segurava os braços de sua cadeira. Do outro lado, o primo delas também as acompanhava na confusão.
Mas independente de seu estado, Briar obrigada a se levantar e caminhar até onde seu pai e Derick a esperavam. Concentrada em não tropeçar nas próprias saias, a princesa conseguiu alcançar o seu destino.
— E você também está feliz, não está meu bem? Diga para lorde Locke o quanto está feliz.
Briar olhou para o pai, impressionada que ele pudesse tê-la posto em um situação tão desconfortável. Ela queria sorrir para o primo mas não foi capaz.
— Sim, meu senhor, estou muito feliz.
Brandon deu o sorriso que a filha não conseguira, alegre e satisfeito, e tomou a mão de Briar e a colocou na mão de Derick, para que os dois se tornassem um casal de consternados.
A cena no entanto agradou ao rei, que bateu palmas. Logo o salão inteiro estava aplaudindo os recentes noivos.
Briar não podia dizer que a ideia de se casar com o primo a deixasse infeliz. Ele era um jovem bonito e gentil, que sempre a tratara bem, alem disso, ser a senhora de Castelo Velho significava que permaneceria no Norte. Seu noivo era tudo o que ela sempre achou que queria. O que a incomodava era perceber o quanto sua vida não lhe pertencia.
◆
Alysane se perguntava como deveria ser uma princesa, e ainda mais, estar a um passo de se tornar rainha. Em Karhold ela era a dama principal, aquela a quem todos obedeciam e queriam agradar, e levaria um tempo até que se acostumasse com sua nova posição.
Quando o pai propusera que Aly fizesse parte do séquito da princesa, ela aceitara apenas porque isso a faria viajar para o Sul, viveria lá, e provavelmente se casaria com um senhor do Vale. Como sua mãe gostava de lembrar, ela tinha o coração de uma Sulista. Mas a posição de dama de companhia não a agradava nem um pouco. Todos diziam que era uma grande honra, mas Aly via como o papel de uma serviçal.
Nem ao menos ela era a chefe do séquito, esse papel tinha ficado com uma nobre senhora que servia aos Starks, e que cuidaria de toda a residência da princesa no Vale.
A primeira tarefa que essa senhora lhes deu foi a de aprontar a bagagem da princesa, com presentes e mais presentes vindo do grande salão para serem embalados.
Alysane terminava de cobrir o manto de arminho mais lindo que já tinha visto em um pedaço de linho, para então acomodá-lo em um baú com outras as outras peles, quando a princesa entrou. Ela tinha consigo outra de suas damas, uma garota que aos olhos de Aly não tinha carisma algum.
A lady Karstark fez uma mesura para sua princesa, ainda chateada que fosse ter de ficar calada, sempre se curvando em reverência até que pudesse se casar.
— Já está tudo pronto? Senhora Pole, não acredito que tenham feito tudo com tanta rapidez.
A princesa disse com um sorriso, mas ela não parecia tão leve e contente quanto quando as deixara mais cedo.
— Vossa alteza é muito gentil, estamos todas ansiosa por servi-la.
Com o pesado vestido de veludo caindo atrás de si, Alina foi até sua leal serva e beijou o rosto dela.
— Espero que os deuses nos façam muito felizes em nossa nova vida – Pole sorriu concordando – Mas agora acredito que eu deva repousar, enquanto isso minhas damas podem sair e tomar um pouco de ar. Se uma, no entanto, pudesse ficar e me auxiliar...
Alysane foi rápida em se por como voluntária. O ar gelado de Winterfell não recompensaria mais do que a chance de se tornar amiga da princesa. E ela não poderia ter ficado mais feliz em ver todas as outras damas saindo. Quando estavam em conjunto Aly sentia que era só uma, mas agora estando sozinha com Alina, era mais fácil pensar que as duas eram iguais.
— Acredito que nunca tenhamos conversado, não é mesmo milday Karstark?
A princesa perguntou enquanto Alysane tirava seu vestido.
— Infelizmente não alteza.
Quando a mão dela encostava na pele de Alina, Alysane se impressionava. A princesa não somente era belíssima, ela também tinha a pele mais macia que a jovem Karstark já tocara.
Alina saltou para fora do vestido que se amontoara aos seus pés, e vestiu por cima da combinação, o robe que Aly lhe oferecia.
— Venha aqui, quero lhe mostrar uma coisa.
A princesa a puxou pela mão até sua cama, mas não sem antes pegar uma caixinha no aparador ao lado da mesma.
Aly se viu sentada na cama de Alina, com a princesa reclinada bem ali ao seu lado.
— É aqui que iremos morar – A princesa disse depois de ter tirado um desenho de dentro da caixa – Meu irmão Rodrick viveu no Ninho durante muito tempo, ele me garantiu que o meu futuro marido é um jovem alegre e bonito, e eu espero que esteja certo.
— E seu outro irmão agora vive em Dorne, não é mesmo alteza?
— Sim, meu doce Elric, papai o mandou para Dorrne, o mesmo lugar de onde veio sua bastarda. Acho que Thomas será o único filho que ele não mandará para longe.
Alysane viu a mão da princesa repousando no colchão, e se atreveu a usar seu dedo para traçar um caminho na pele dela.
— Eu jamais pensei que o rei teria prazer em se afastar dos filhos.
— Há muita coisa sobre o meu pai que ninguém jamais pensaria. Vou lhe confessar algo, milady Karstark, parte de mim está mais do que feliz por partir. O rei é um homem muito cruel, e que agora brinca com o destino de minha irmã.
— Vossa majestade faria algo para prejudicar a própria filha?
— Ele a deu em casamento para lorde Locke. Enquanto ela é uma respeitável e nobre dama que poderia se casar com um príncipe e se tornar rainha, o rei oferece a mão dela para um vassalo. Não me parece justo, e só encontro consolo em saber que Locke fará minha irmã feliz, eles tem temperamentos parecidos.
A jovem Karstark já tinha ouvido todo tipo de drama e escândalo familiar, mas os da família real raramente saiam dos muros de Winterfell. Agora ela tinha ao seu lado uma princesa sufocada e desesperada por compartilhar suas aflições.
— Em nossa nova vida – Alysane disse pondo sua mão sobre a de Alina – Eu prometo que farei de tudo para afastar a senhora de pessoas cruéis. Detestaria vê-la magoada assim de novo.
Com um suave suspiro Alina colocou a testa sobre o ombro de sua dama, e quando voltou a encará-la foi para dizer:
— Minha futura sogra pediu para que eu só tivesse damas bonitas em meu séquito, consigo entender porque escolheram você.
t o m b a s t e l a
Conforme os dias passavam, Stephen o tratava mais e mais como um servo e menos como escudeiro. Mas Elric não fazia mais reclamações, pois da última vez que o fizera foi ao escrever ao pai sobre suas insatisfações, e tudo que teve como resposta foi
“pare de agir como uma garotinha”
Por isso ele se via resignado quando Stephen o mandava servir de lacaio ou de mensageiro. Nem mesmo o fato de acreditar que o príncipe dornês nunca o consagraria cavalheiro lhe chateava. Afinal ele gostava de Dorne, e principalmente, ele gostava de Tyella.
Ele e ela eram membros da realeza, e havia pouca coisa que tornasse impossível uma união, entre elas o fato de que Elric era um segundo filho. Mas se havia alguém que poderia intervir em favor deles, o príncipe estava agora diante dessa pessoa.
Argos havia lhe pedido um instante enquanto terminava de escrever sua carta, o que dava a Elric tempo para observar como o príncipe tinha arrumado seus aposentos em Tombastela. Argos tinha um gosto sofisticado mas pouco extravagante, e ao contrário da princesa Sarella não fez nenhuma mudança nos quartos oferecidos a ele pelos Dayne.
Sarella odiava o sobrinho, ele era o filho de sua irmã – concebido em condições das quais Elric nunca teve conhecimento – que tinha sido legitimado pelo falecido príncipe Mors.
O jovem príncipe Stark não tinha motivos para desgostar de Argos, e certamente não o fazia, para ele toda a história a seu respeito era fascinante. Alguns diziam que ele tinha sido criado por piratas, outros por mercenários, mas o que todos sabiam era de como ele voltara para Dorne, para brigar com a tia para se tornar co-regente, e depois expulsou a ocupação Gardener nas montanhas vermelhas.
— Alteza, no que posso ajudá-lo?
Argos perguntou ao por a pena de volta no tinteiro. Elric tinha perdido o costume de ser chamado de alteza.
— O príncipe Stephen, está solicitando autorização para uma guarda, ele quer voltar a Lançassolar hoje a noite.
O dornês soltou um rizinho. Co-regente era uma palavra lisonjeira para o que Argos era, já que a família de Sarella tinha se tornado mais prisioneira do que realeza.
— Ele está zangado por não ter sido convidado para o baile? Gostaria de lhe dizer para que não ficasse, mas é claro que ele não me escutaria. Meus convidados, são gente de Essos, principalmente parentes de minha amada e falecida esposa. Se a noite não for tediosa ela será perturbadora. Minha família devia estar aliviada que eu os tenha poupado disso.
É claro que Sarella não via daquele modo, para ela e seus filhos – e para o restante de Dorne – Argos estava apenas dando uma grande e luxuosa festa, da qual deliberadamente excluía seus rivais. Mas todo o drama dos Martell não era da alçada de Elric, que se contentou a entregar a ordem de autorização para que ela fosse assinada pelo príncipe.
Enquanto Argos assinava, o olhar do jovem Stark foi capturado por um crânio de passarinho que repousava na mesa de Argos. Entre tantos objetos luxuosos e ricamente decorados, Elric achou no mínimo curioso encontrar algo tão simples e triste. Seu interesse não passou despercebido.
— Eu o trouxe de Essos, é um dos meus bens mais antigos.
— O senhor era apegado ao animal?
Argos sorriu ao lhe entregar o papel assinado.
— Quando eu era bem pequeno e vivia em Essos, um dia estava me deslocando com uma caravana pelo continente. O dia era quente e seco, e em dado momento passamos por um pequeno incêndio causado pelo sol. O capim ressecado queimava, e logo o fogo se alastraria para as árvores, não havia esperança para nada que fosse vivo, mas mesmo assim alguns passarinhos voavam sobre as chamas, pareciam ansiosos, iam na direção do fogo sem medo. Eu olhei comovido para a cena, e me voltei para um dos homens que viajavam comigo e disse “pobrezinhos, devem estar tentando salvar seus ninhos” mas ele riu, e me explicou. O fogo fazia com que os insetos e pequenas criaturas saíssem de seus esconderijos, era o banquete perfeito para os pássaros. Mas você consegue pensar em algo assim? Se jogar no meio das chamas porque está faminto? Aquelas criaturas que deixavam seus abrigos na esperança de se salvarem, o que elas encontraram além de outra ameaça? Eu fiquei apavorado e exclamei “isso é cruel” mas o homem me respondeu “Não, a natureza é perfeita”. Por isso dias depois de termos chego ao nosso destino, quando um vendedor passou oferecendo todo tipo de amuleto e ingredientes para simpatias, eu comprei esse crânio para mim, para me lembrar que a perfeição requer crueldade.
— Mas o castelo de madeira que o senhor está construindo é perfeito, e não há nada de cruel nele.
Argos deu mais um sorriso que iluminou seu rosto dourado.
— Bem, eu suponho que para tudo haja uma exceção.
Elric resolveu por se contentar com a resposta do príncipe, e quando tomava seu caminho para fora da sala ele foi interrompido pela voz de Argos lhe chamando pelo nome.
— Garanta que Stephen vá para Lançassolar, eu não o quero rondando minha festa, e falo sério.
◆
Era uma noite terrivelmente quente, e pela primeira vez Elric sentiu inveja das roupas frescas que os dorneses usavam, talvez até uma libré Martell fosse melhor.
É claro que Stephen não lhe dera atenção quando alertado sobre ir para Lançassolar. A guarda que ele solicitara não passava de uma distração, e suas verdadeiras intenções se resumiam a ir à mascarada para qual não fora convidado. Ainda que Elric tivesse repetido para ele o que Argos dissera, aquilo só serviu para atiçar ainda mais o príncipe dornês.
Elric imaginava que Stephen fosse encarar algumas conseqüências por suas transgressões, mas não podia dizer que se importava, na verdade ele estava aliviado que o príncipe o tivesse poupado de segui-lo, ao invés disse o deixou para servir a mesa da mãe e da irmã.
— Isso é ridículo! – Sarella exclamou exasperada depois que o segundo prato de seu jantar já tinha sido servido – Um príncipe não deveria servir de lacaio, se não respeitamos sangue real, então todos seremos dragados para o buraco da anarquia.
Lá fora o som do baile invadia os aposentos da princesa, e Tyella levava um cálice aos lábios para disfarçar o riso.
— Largue esse jarro de vinho, é um pecado contra a ordem natural que você sirva uma mesa, venha sente-se conosco.
O príncipe obedeceu e se sentou de frente para Tyella, com quem ele trocou um sorriso cúmplice.
— Eu imagino que você deva sentir falta de casa.
Sarella perguntou fingindo se importar.
— Sim senhora, eu sinto falta de meus irmãos, mas devo confessar que gosto de Dorne.
— E como não gostaria? Você foi concebido aqui, quando seus pais viajaram para o sul. Parte de você é dornês.
Elric concordou com um maneio de cabeça, mas negou em seu coração. Ele sabia muito bem que de corpo e alma era um nortenho.
— Também sinto falta de meu irmão – Tyella falou brincando com as frutas em seu prato – Quando Koldor volta?
— Espero que ele demore, assim não poderá ser humilhado do modo como estamos sendo. Nós deveríamos ter ido para Lançassolar com Stephen, ao menos eu teria o direito de mostrar claramente a minha indignação.
Para Sarella era inacreditável que os lorde de Dorne não tivessem se rebelado para tirar seu sobrinho do poder. Mas porque eles o fariam quando todos diziam que Argos era um escolhido pelos sete? E ainda mais importante, quando ele tinha melhorado a economia do país além de toda a medida?
— Não me chateia não ter sido convidada, e além disso a senhora sempre declina de todos os convites que Argos lhe faz.
Tyella lembrou.
— Por favor querida, não busque justificativas para as ações daquele bastardo.
A princesa de Dorne era irredutível quando se tratava de odiar Argos, e como que para provar isso, uma das damas de Sarella apareceu com os cabelos cobertos por um véu negro, e um rosto que prometia notícias.
— E então, você foi a festa, como estão as coisas por lá?
Sarella perguntou para a dama que se afundava em reverência.
— Como imaginávamos, minha senhora, um luxo lascivo e impróprio. No centro de tudo o bastardo pois um trono, e se senta lá com uma máscara de Sol presa no rosto. Não há limites para a sua arrogância.
Tyella tocou a mão dele enquanto a mãe estava distraída, e gesticulou para a janela que a princesa mantivera com as cortinas fechadas até o momento.
Os dois foram até lá enquanto Sarella ouvia os relatos da dama, e por uma fresta aberta por Tyella observavam as luzes da festa, até que algo de maravilhoso acontecesse, e os mais belos fogos de artifício iluminassem o céu, em um impressionante espetáculo de padrões coloridos e brilhantes que explodiam como sonhos no negro da noite.
Tyella sorriu encantada com o que via, procurou a mão dele e a segurou em um aperto cheio de afeto. Elric não sabia dizer ao certo o que estava fazendo seu coração palpitar, os fogos, ou a mão de Tyella. E a despeito da indiferença de seu pai, a distância dos irmãos, ou estar no meio das brigas dos Martell, ele era feliz, e naquele momento mais do que em nenhum.
Seu deslumbre e felicidade eram tantos, que Elric demorou tempo demais para perceber que a luz dos fogos se tornava pálida e diminuída por uma outra, a de uma enorme fogueira que tomava o lugar do caramanchão.
Tudo parecia tão perfeito segundos antes, soava impossível que o baile tivesse se transformado em um incêndio e a musica em gritos.
No tempo que levava uma batida de coração ele se lembrou de todos os inocentes, de Argos, e principalmente de Stephen, o príncipe que não deveria estar lá, o príncipe que ele não deveria ter permitido que estivesse lá.
Elric soltou a mão de Tyella e correu tão rápido para fora dos aposentos que não foi capaz de ouvir os protestos de ninguém. Atravessou o castelo dos Dayne com passos longos e ligeiros que logo o levaram para os estábulos onde o príncipe apanhou o primeiro cavalo selado que viu. Com um trote rápido em um momento ele já estava na clareira, sentindo o calor insuportável do incêndio, e a luz que vinha dele, intensa como o Sol dos Martell. Ele não se concentrava no cheiro, não podia fazê-lo, quando o odor de carne queimada lhe atingisse Elric não seria capaz de mais nada.
Apeou do cavalo e sua empreitada ainda não tinha chego ao fim. Em um momento de clareza ele não saberia dizer o que pretendia fazer, se atirar no fogo talvez? Mas algo o parou no meio do caminho, algo o agarrou e o impediu de prosseguir. Elric lutou, protestou, e argumentou que tinha de ir até o incêndio, mas o que o segurava continuou lhe segurando, não importava o quanto se debatesse.
— Olhe para mim garoto! Consegue me escutar? Consegue?
Seu rosto foi emoldurado por um par de mãos que o sacudiram. Ele conhecia aquela pessoa, e não sabia dizer por quanto tempo ela estivera falando com ele. Koldor era o príncipe Koldor, filho de Sarella, que apenas por uma piada do destino poderia estar ali naquele dia.
— St... Stephen!
Elric balbuciou por entre uma respiração pesada. Koldor olhou para o incêndio e depois para ele.
— Stephen está lá?
No que o jovem príncipe concordou com a cabeça, o dornês o sacudiu pelos ombros.
— Fique aqui! Você entendeu? Fique aqui ou eu juro que vai voltar para o Norte sem um dos braços!
Mas Koldor ainda que tivesse condições de cumprir com a ameaça, pareceu não querer confiar nela, então tirou o punhal de sua bainha e o cravou na terra junto com o gibão de Elric, o prendendo na terra.
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