Young Bones
2 Propostas
Notas iniciais
O resto (Querido diário não é o meu forte)
Dois anos depois. Antes, morava em New Jersey EUA, porém hoje me encontro na França, estou com dezesseis anos vivendo com o meu bêbado e velho tio Frank.
– Não se atrase hoje. – Foram às palavras da semana, bem, na segunda-feira passada o velho falou a mesmíssima coisa, mas esqueceu de conferir se o dinheiro de sua aposentadoria ainda estaria em sua carteira.
Mostrei o dedo anular para o meu velho tio antes de passar pela porta do apartamento, ele não se importava. Na verdade desde que cheguei à cidade de Toulouse, muito pouco havia visto em meu tio. Pelo jeito Tio Frank ganhava alguma coisa por cuidar de mim, por mais que não exerça esse trabalho com tanto avinco. Cheguei à França sabendo o francês que minha escola me ensinara, e nada mais. Bom, a escola daqui havia me mandado uma instrutora a principio. A senhora Leprince.
Junie Leprice era aquele tipo de mulher que realmente deveria estar trabalhando em um bar-restaurante, servindo mesas e distribuindo sorrisos gentis. Rosto murcho de rugas e marca de anel no dedo anular, indicando que talvez fosse viúva ou simplesmente divorciada. Porém, se chegar a ponto de conversar com a mulher baixa de cabelos grisalhos, notará logo que é viúva e que provavelmente passa as noites ouvindo rádio aos prantos, segurando uma fotografia ou sei lá o que. A remela nos cantos de seus olhos não é agradável e seu sorriso lembra tempestades de verão, as desagradáveis.
O importante é que consegui aprender um pouco de francês com dicionários e outros métodos que não incluíram a senhora Leprice e suas sessões cansativas de aulas. Fugir dela era fácil, desviar algumas ruas e seguir para longe da escola.
Ora, mas algo realmente queria me foder nesse belo e nebuloso dia. Leprice estava na saída do prédio com o que parecia ser uma pasta com o sobrenome “Reaux” em letras grandes e vermelhas sobre a capa amarelada. A pasta parecia estar vazia. Indicando, certamente, que a mulher ou não conseguira tirar nenhuma conclusão sobre os meus estudos, ou que não se dera ao trabalho de me perseguir pelas ruas e avenidas da cidade.
– Bom dia senhorita, tem consciência que perdeu a primeira aula? – A senhora sorriu amarelo, usava um cardigã cor-de-rosa e um coque alto que puxava seus olhos levemente.
– Obviamente, mas não pretendo seguir pelos trilhos dourados que me levam diretamente a Fountaine. – Fountaine é a escola que eu deveria estar frequentando todos os dias.
– E seguiria para a ponte Lopez novamente? Tenho ouvido boatos, boatos nada bons sobre o tipo de pessoa que mora por ali. – Seu tom de voz abaixava-se a cada palavra, como se tivesse receio de mencionar aquele assunto publicamente.
– Boatos não me interessam senhora Leprice. Por que você não pode simplesmente focar em seu trabalho ao invés de ficar tentando descobrir coisas que obviamente não são para seu nariz. – Sorri amarelo e comecei a fazer o caminho, sim, para a escola. Não havia escolha, passar despercebido era uma das primeiras regras. – Sua narina aguentaria pouco do que tem por ali. – Comentei baixo ao passar na frente da velha.
A escola é uma merda, como absolutamente todas as escolas são para adolescentes em qualquer lugar no mundo. Vejam bem, temos pelo quê nos unir.
Um monte de gente inútil ouvindo as mesmas coisas inúteis de pessoas que continuam sendo inúteis por seguirem o caminho mais inútil de suas miseráveis vidas. Têm loucos que adoram esse tipo de coisa, não sou um deles. Mas um pouco da loucura mundana absorvi em meu nascimento.
1,75 de altura. Praticamente uma anoréxica. Cabelos castanhos, apenas castanhos, nada de corte exótico feito por tesoura cega, olhos castanhos que absorve, mas não devolvem absolutamente nada. As maçãs do meu rosto são finas, quase delicadas, assim como meu nariz e curvatura do pescoço. Meu nome é Jazz para todos. E o sobrenome, bem, ele estava na pasta da senhora minha instrutora.
Pelo azar, ou sorte dependendo do ponto de vista, de fazer aniversário em Dezembro, ainda estou no segundo ano. Estamos no começo do ano, e na metade do período escolar. As coisas eram mais fáceis em New Jersey, a França parecia ser mais rigorosa com o quesito estudo e ainda lutava para exercer minha cidadania.
– Você está atrasada. – O professor de inglês me advertiu, mandando-me sentar em uma das cadeiras sujas e vazias no círculo estranho e mal organizado da sala. A escola era velha, do tipo em que havia patamares mais novos, e outros velhos. Tudo tinha uma leve camada de poeira e cheirava a coisa velha, como uma biblioteca municipal ou ao armário de uma avó. Esta era a terceira vez que entrava na escola desde que me mudara no começo de janeiro.
Joguei minhas coisas na cadeira e ignorei os olhares franceses sobre mim, provavelmente pensando que era injusto, uma americana fazer provas de inglês ou sequer entrar na sala desta matéria já que era sua língua natal. Rabisquei um bilhete e deixei-o na mesa antes de pedir ao professor para ir ao banheiro em trinta minutos contados de aula. Ainda precisava fazer uma coisa àquele dia.
“Estou de saída.”
As ruas estavam cheias, já era tarde para os que cedo trabalhavam. A ponte Lopez rugia e resmungava com barulhos de carros e escapamentos, buzinas e trânsito. Ajeitei meu casaco e esperei-o no lugar onde nos encontrávamos em situações como aquela. Estava preparando meu celular para discar seu número quando o homem saiu das sombras que os pilares formavam sobre a terra batida.
– Jazz. Pensei que não viesse hoje, o que aconteceu para estar tão cedo por aqui?
– Não brinque Simon, eu sei que estou atrasando o pagamento e...
– Você deve isso para a gente, sabe quanta gente eu mobilizei para o seu caso? Muitas. – Simon estava mais perto, era alto, incrivelmente alto. Tinha a aparência exata de um homem de respeito, um francês que nunca iria para aquele lugar. E que nunca mexeria com aquele tipo de coisa.
Seu corte de cabelo parecia ser delicado, levemente inclinado pelo vento e um tom de loiro dourado combinando perfeitamente com seus olhos azuis cristalinos. Combinamos de nos encontrar ali àquele dia, eu estava procurando pessoas, e ele era a pessoa certa para àquele serviço.
– Eu preciso de tempo, enquanto isso eu posso pagar com qualquer coisa, o banco está comendo a aposentadoria do velho.
– Então trabalhe! Se esforce! Não seja uma Deusa suburbana. Combinaria mais Jesus of suburbia, alright? – Simon passou o dedo indicador pelo traço de meu maxilar até o queixo. Seu sotaque arrastando-se no inglês. – Aceite minha proposta, saía disso. Enquanto dá tempo.
– Não. – Virei meu rosto para que meus sentimentos justamente por não gostar de encarar garotos por tempo demais. – Me coloque nessa então, venda minha alma ou qualquer porra que consiga fazer para que eu esteja envolvida em qualquer merda que...
– Os russos estão na jogada, não vai demorar muito para chegar ao seu país. Querida, o que quer que seu pai tenha feito peça clemência pelos seus erros e diga perdoá-los por terem o matado ou qualquer coisa assim.
– Você acha... Acha que a culpa é deles por terem matado meu pai? Quem me dera ter sido algo tão simples. Não tente entender, você não conseguiria Simon.
Ninguém sabia ninguém além de minha avó que acabou me contando algumas coisas em meu último dia em New Jersey. Vovó me contou coisas que nunca alguém comentaria em uma mesa de jantar.
Simon era como o senhor das propostas, tinha um leque de sugestões onde apenas ele mesmo ganharia mais do que as outras pessoas, cobrava caro pelos seus homens e não deixava as pessoas escaparem, mesmo que estas pessoas fossem adolescentes exasperadas. Bom, aparentemente exasperadas.
– Me dê um tempo, ainda tenho a sua outra proposta para considerar. – Dei as costas para Simon, passei as pontas dos dedos no caderninho em meu casaco de inverno. Ora vovó, quem diria que você era a única que nunca mentiu na minha cara?
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