Young Blood
35 Onda após onda
Notas iniciais
My face above the water
My feet can't touch the ground
Touch the ground, and it feels like
I can see the sands on the horizon
Everytime you are not around
Percy.
Voltamos a boa e velha Los Angeles, hoje de manhã. Nada como minha cidade natal.
Passara duas semanas desde de a última ligação de Annabeth. E eu não estava mais tão desesperado.
Só um pouquinho.
Ela tinha mandado uma mensagem sobre algo do TCA, que seria hoje no caso, nada muito especificado. Me pediu pra pegar Trina e Mark no aeroporto, mais tarde, e levá-los até a Hollywood Boulevard.
Bem... Eu ainda não tinha entendido porra nenhuma, comecei com minhas suspeitas. Mas eu era um gato mandado, e faria isso por ela. Eu só tinha que saber que o casal que conhecemos acidentalmente à alguns dias atrás compareceriam a premiação por Annabeth, e que ela caso ganhasse talvez seria transmitida em uma videochamada agradecendo. Provavelmente, ela tinha gostado mesmo deles. Com razão.
No dia que Bianca chegou, nos a levamos pra conhecê-los, pegamos eles no inn que se hospedaram e fomos até uma KFC. E no dia seguinte, eles foram embora.
Entrei em um tubo, sentindo o friozinho de sempre, tanto d'água gelada quanto das sensações boas que corriam meu corpo. Vi alguns peixes na água clara, rocei as pontas dos dedos na ondas. O macacão de borracha colado no peito, a minha prancha favorita, o cheiro de mar... Era tudo o que eu mais precisava.
Esqueci tudo. Até mesmo meu nome.
Deixei a cabeça esvaziar, apenas sentindo gotas geladas no corpo, a pressão nos meus pés, a prancha oscilante na água.
Aquela era minha praia. No sentido conotativo e denotativo da coisa. Minha força toda se clareava naquelas ondas, os ombros relaxavam, eu me sentia poderoso ali. Eu me sentia capaz de tudo.
Sai do tubo, e imediatamente as bochechas arderam por causa dos dias de sol forte e da água salgada. Eu não era um Big Rider, só um amador apaixonado por surfe. Rolava algumas manobras radicais, e eu era muito bom, pelo menos, eu considerava, mas não queria me tornar um profissional ou ganhar dinheiro com isso. Surfar não tinha hora, nem compromisso. Eu fazia por puro e delicioso prazer. Era onda após onda. Só eu e o mar. Mais nada.
Uma das grandes se aproximou, vi a crista branquinha no topo da onda, ela devia ter pra lá de seus 5 metros, propicia a um Aerial 360º improvisado. Inclinei pro lado, pegando o início da pororoca e depois pra frente, dobrei mais os joelhos e impulsionei pra frente, subindo na onda. Com todos os órgãos na garganta e suando adrenalina, girei a prancha pro alto, dando uma volta na minha órbita no ar. Senti como se pudesse sair voando dali.
Cai em perfeição, deslizando pra fora da onda antes dela se quebrar. Gargalhei pra mim mesmo, sacudindo os cabelos encharcados, a procura de outra presa. Deitei na prancha, remando um pouco, e aproveitei pra curtir o dia. Ensolarado como nunca, colorido e supersaturado. Normal em Malibu, a areia bege, quase toda em um tapete extenso, se elevava em dunas, as montanhas atrás, dava pra ver o Point Mugu, e as pedras, pessoas e tendas em contraste da paisagem. Era muito impressionante Zuma, a praia que estávamos, não estava lotada. Afinal, era meio dia de um domingo, o comum seria milhões de famílias povoarem aquele lugar. Assim como a minha.
Mamãe tinha passado pra casa de praia esses dias. O que eu agradeci muito. Preferia ela muito mais que a outra. Dava pra ver toda a orla da minha varanda.
— Cansou, mano?— Tyson gritou, a uns vinte metros de distância.
Ele acabara de fazer um Cut back, invejável. Tyson era um prodígio do mar, sem história. O cara era o melhor grommett que eu tinha visto, ele sim, participava de campeonatos e viajava para torneios, de vez em quando. Se não tivesse a ideia louca de ser um tatuador, seria um pro em dois tempos. Cara, ele passou da prancha hot dog pra evolution em dois tempos.
— VOU DAR UMA PARADA, VOCÊ VEM?— sentei-me, e gesticulei para praia, onde estaria nossa mãe.
Meu pai pegava uma série um pouco mais longe e no fundo. Sorri involuntariamente, ele era incrível, isso meio que tava no sangue da família. Fora meu pai que ensinou o esporte pra mim e Ty. A prancha parecia acoplada a ele, era como uma pena flutuando nas ondas.
— NÃO!— deslizou pra longe, abrindo os braços raquíticos e pegando equilíbrio. Fez um zigue-zague, e se afastou mais.
Deitei de novo, remando pra praia. Estava louco por uma água de coco.
...
Fiz uma corridinha, com a prancha debaixo do braço, até minha mãe, balancei a a cabeça, secando os cabelos. Eu ainda estava preto e ardido do sol, mas fui obrigado a acompanhar a turma Jackson à praia. Programa de família, mas não demorei muito para aceitar.
Dona Sally bebia de canudinho um coco verde, sentada numa cadeira de sol. Ela vestia um biquíni amarelo, um saião e um chapéu gigante. Uma dama. Sempre.
Cravei a prancha ao seu lado. Abaixei a parte de cima do Long Jonh, sentando na areia, puxando os joelhos pro peito. O sol fazia minha pele brilhar e ficar cada vez mais grudenta.
— Iai?— mamãe me estendeu o coco.— Como tava o mar?
Ri, um pouco, aceitando a bebida. Olhei o horizonte, semicerrando os olhos e franzindo a testa. Lambi os lábios, tirando o excesso de sal.
— Gordo, e gelado— minha voz soou rouca. Senti o docinho descer a goela.
Sentia minha mãe inquieta, lê-se curiosa, desde que falei sobre ir com eles no Fashion Week. O desfile mais diputado do mundo da moda, pelo menos, foi o que os amigos estilistas de Annie falaram. Eu me fudendo pra isso, eu só queria ver minha Annie o mais rápido possível. Mensagens não aquietavam meu coração.
— É pra vê-la, não é?— ela se aproximou, passando as mãos macias pelos meus ombros, apertando-os de leve.
— Por que mais seria?— perguntei derrotado.
Suas mãos saíram rapidamente de mim, e de repente, uma revista foi jogada no meu colo.
— Você viu?— apontou, reiniciando a massagem.
Encarei a revista.
"PUT THE PUSSY IN HER LIPS, HM, ANNABETH?"
A capa era uma foto de Annie e Lia se beijando, em cima da multidão do festival, num bote salva-vidas?, havia fogos de artifício como fundo e a imagem parecia aumentada no centro (GoPro, provavelmente). Olhei o topo da página: BIGGEST GOSSIP.
— Não— neguei, sorrindo um pouco. Essa pegação das duas era o mínimo que podíamos esperar.— Por que me mostrou isso?
Mamãe deu de ombros, mas parecia ofendida. Afagou o cabelo meu molhado, passando as mechas pra lá e pra cá, distraída.
— Achei que se você descobrisse depois ficaria chateado...
Ri, divertido.
— Na verdade não, mãe— olhei pra ela. Capturei as pequenas ruguinhas nos cantos dos olhos, por tanto sorri.— Te incomoda?
Dona Sally bufou, e se recostou na sua cadeira.
— Ah, claro que não— abanou a mão, mas pareceu forçado, continuei com o olhar questionador, a pedindo por mais.— É sério! Ela é igualzinha a Atena... Só muda a cor do cabelo— sorriu, nostálgica.— O que aquela louca me fez fazer... — estancou, como se lembrasse de que estava falando com seu filho. Eita, dona Sally!— Mas ela era um ótima pessoa— os olhos verdes se iluminaram, lindamente e sugestivos.
— E então...— enterrei os pés na areia, bebendo mais água de coco.
— Por que você não a pediu em namoro logo, Percy? Ela iria se aquietar, não que eu queira isso, eu a amo muito do jeitinho dela, mas me preocupo! Com os dois, e fica nesse meio termo chato! Mais que droga, Perseu... Eu não criei homem de meios termos! A pegue pra si, por que é tão complicado? Puta merda— tagarelou, gesticulando tanto que fiquei tonto, e assustado. Mamãe nunca falava palavrão. E nem comentava sobre Annabeth.
Juro que corei. Virei a cabeça pra fora do seu ataque moralista. Eu não merecia ter que ouvir isso até da minha mãe. Senti uma pontadinha de raiva. De Annabeth por ter ido pro outro lado do mundo, de minha mãe por tocar nesse assunto incomodo, de Lia por beijá-la e provavelmente milhões de outras coisas com minha garota e principalmente de mim, por não fazer da minha garota minha.
Eu estava pensando seriamente em desistir, eu estava farto, mas aquela conversa no banheiro matutava na minha mente. E seria incapaz de deixá-la. Completamente incapaz. Droga, faltava mais ou menos vinte dias. Vinte dias pra ela.
Passei a mão pela nova tribal no braço, apertando com força. Deixaria de ser um marica. Ah, quando eu vir aquela garota, finalmente, eu vou tomar a dianteira e ela vai ver uma coisa.
— É por isso que vou pra França com vocês— fiquei rouco de raiva, o sangue pulsava mais rápido.
— Mas vai fazer algo que preste pra consegui-la?— sabia que mamãe me provocava, fazia isso pelo meu bem.
— Eu vou. É claro que vou.
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