Young Blood
28 Estilistas sedentos por vingança
Notas iniciais
Percy.
— Ai, meu Cristo! ACHAMOS ELA— a voz fina surgiu atrás de nós.
Minha barriga roncava, chegamos a Rodeo Drive. A rua mais conhecida de toda LA. A família Olimpyus só comprava naquela rua. Me sentia pressionado por tanta exorbitância de dinheiro. Em cada loja, a soma do preço dos seus produtos devia ser maior que o PIB do México. Sem exageros, mas só não chegava ao glamour Champs-Élysées. E era naquela rua que encontraríamos os 'estilistas' de Annabeth.
Particularmente, o dia estava glorioso. Nenhuma nuvem no céu, a rua se prolongava colorida, lotada e grifada. Uma leve brisa marítima faziam as altas palmeiras balançarem preguiçosamente, por mais que o mar estivesse a uns 20km dali.
O mar. Sentia muita falta de surfar, sozinho, tentei achar um motivo de não ter ido por tanto tempo. Ela, pensei. Tinha que ser ela. Que nos fez parar duzentas vezes a cada passo pra autografar, ou tirar fotos com fãs ou até famosos. Alguns paparazzi espalhados nos seguiam pela calçada tumultuada.
E o clima californiano nos impregnando deliciosamente.
Nós cinco paramos e viramos, no meio da multidão pude ver duas pessoas, a quem pertenciam as vozes chamando por Annie. Dois adolescentes, 3 ou 2 anos mais novos que eu. Pareciam normais, exceto pelo fato de um ser careca e a menina estar em uma cadeira de rodas, estavam radiantes.
— Eu falei, Mark. Sabia que a encontraria— secou algumas lágrimas, parando na nossa frente. Pude sentir todo o corpo de Annie recuar. Eu e os outros encarávamos encantados o casal.— Você é ainda mais linda pessoalmente.
— Além de cadeirante, a menina é cega— Jason brincou, sem medir o tamanho de suas palavras.
Os dois riram, mas Thalia não levou na brincadeira.
— Tu é retardado!?— deu um puta tapa em sua cabeça e Jay se encolheu.— Seu insensível— lhe deu outro tapa, se possível mais forte.— Peça desculpas dela— começou a socar suas costas, até Nico a arrancar de perto dele.— Babaca, ridículo! Foi a pior piada de todas! Eu devia espancá-lo até a morte— debateu-se sendo abraçada por Nico, e obrigada a parar.
— Qual é o seu problema?— Jason perguntou, vermelho de raiva.
Lia se acalmou, rosnando baixinho. Quer dizer, parecia que a raiva dela havia multiplicado como um vírus.
— Para, Lia— Nico advertiu no seu ouvido, a soltando, lentamente.
Suspirei, olhando o casal, que tentava inutilmente a segurar o riso.
— Família— lamentei.
— Sem cenas, por favor— Annie choramingou.
— Eu devia ter te comido no útero!— Lia assustava todos nós com sua perversidade.
— E eu devia ter te enrolado com o cordão umbilical, sua...— brigavam feito crianças, com punhos cerrados um de frente pro outro. No meio da calçada. Suspirei de novo, era mais fácil Annie namorar comigo do que esses dois pararem de brigar.
— CHEGA! Vocês tem o quê? Merda na cabeça? Dez anos?— Nico explodiu.
Bianca, pensei. Puta merda, eles não pensavam? Eita porra, que agora eu teria que me meter. Annie já havia recuado bem mais.
— São dois egocêntricos babacas... Deuses! Não tiveram educação em casa, não? Perderam a noção... Eu...— Nico tagarelava irritado, eu também estaria. Mas não ia deixar aquilo se desenrolar. Jay e Lia notaram o efeito que seus cortes desnecessários causaram nele, o semblante deles era de pura culpa, com uma pitada de desespero.
— Abraço— sorri falsamente.
Recebi olhares assassinos, mas continuei com a mesma expressão.
— Não te mete, Perseu— Jay falou desdenhoso. Levantei uma sobrancelha.
— Isso não funciona mais— Nico continuou, a criança tentando ser adulta.
— Não temos 10 anos— os olhos de Lia faiscaram. E eu apenas sentia pena das pessoas que estavam vendo essa cena.
Os olhei ameaçador.
— Hora do abraço— as palavras saíram pausadamente. Até eu me assustei.
Murmuraram palavrões e xingamentos, me olhando feio. E se abraçaram em trio toscamente, Lia recebeu dos meninos tapinhas irônicos nas costas. Os de fora, inclusive eu, lutavam contra um acesso de risos. E eu aproveitaria.
— Digam 'eu te amo'— mantive a postura dura.
— Tu é gay, é?— Lia cruzou os braços.
— Uma bichona!— levantei as mãos, em ênfase.— Agora, falem!
— Acho que vão te mataram primeiro— Annie disse ao meu lado.
— Tá de brincadeira!— Jay reclamou, e bufou, sabendo que eu não desistiria.— Eu te odeio, Lia. Nico eu te amo, vamos lutar pelo casamento gay.
Nico passou as mãos no cabelo sedutor, eu ouvi a menina nova suspirar e Annie mordeu os lábios. Revirei os olhos.
— Os Grace e sua paixão por mim.
— O sentimento é recíproco, Jasão— Jay se contorceu em raiva, ele odiava, abominava aquele nome. Lia o olhou vencedora, e virou pra Nico.— Vai lá no 4shared e baixa tua bola, que tu é só uma transa— levantou a mão como se dissesse superiormente stop, bitch.
O garoto, que se identificava como Mark não se aguentou.
— Vocês são uns merdas— Nico falou.
— Onw, nossos bebês, Annie— a abracei, fazendo biquinho fofinho pra eles, que tinham cara de nojo.
— Cresceram tão rápido— Annie se pôs a limpar um lágrima invisível.
— Cara, vocês são mais esquisitos que eu pensei— Mark falou.
— Você não viu nada— Annie sorriu debilmente.
...
— O meu acabou— a loira faminta puxou a força da minha mão o Mocha Cookie.
Cerrei os dentes pra não bater nela. Eu nunca bateria em uma mulher, é óbvio. Mas, porra! Essa é a ducentésima vez que roubava meu café. Do outro lado da mesa gigante pra cadeira de rodas, Trina e Mark me encaravam sorridentes.
— Me lembre de nunca mais vir num Starbucks com você— me levantei pra ir comprar outro, mas alguém me puxou de volta pra mesa.
— Pega, chorão!— me devolveu o copo.
Sorri sarcasticamente, encarando seu rosto decepcionado.
— Obrigado!— tomei da sua mão dando um generoso gole. Nada se compara aqueles flocos de chocolate com café com leite gelado.
— Ainda não acredito que vocês vieram de Seattle por ela— Lia fez uma cara cara de really, bitch?.
— Sou uma superstar, querida— Annie se gabou com a mão no peito.
— Não, Annabeth. Você é a galã— Nico gesticulou como no dia da Exchange LA.
Jay, Nico, Annie e eu rimos, compartilhando essa piadinha interna. Ouvi Lia bufar.
— Também!— Trina, a morena da cadeira de rodas falou. Só agora fui perceber que vestia uma blusa com a cara da Annie.— Como você conseguiu beijar aquela boca só preenchimento labial da Kylie?
Todos nós rimos. Isso era verdade!
— Já beijei melhores— Annie abanou a mão.
— Tipo eu— dei de ombros.
Ela se virou lentamente pra mim, piscando os olhos várias vezes e entortando o pescoço. E ficou me encarando com cara de árvores.
— Não— falou depois de um tempo.— Tipo o Pierre.
Senti o sangue subindo.
Trina suspirou profundamente.
— Aqueles olhos verdes...
— Pera aí! Olhos verdes?— Jason perguntou, risonho.— Você caça imitação genérica do Percy pra se aguentar, é?
A encarei questionador. Bingo! Teria que agradecer Jason depois dessa. Todos caíram na gargalhada exceto por mim, Annie e Nico.
— É cosplay, cara! Repete comigo... COS-PLA-Y— Nico falou.
— Não se separa o "Y"— Mark o corrigiu e voltou a rir com a cara de bravo do Nico.
— Foda-se.
— Ele era o cara— Trina continuou sobre o ex da Annabeth. Acho que ela percebeu meu incomodo e foi jogar do lado dela.— Pena que era gay.
Soltei uma risinho vencedor, o outro lado da mesa ainda discutia a palavra certa.
— Olhos verdes?— sussurrei a Annabeth, convencido.
— Os mais lindos que já vi— provocou, lambendo os lábios.
Aquilo era uma mentira, via em seus olhos. Será que vi errado? Ergui meu ego com toda força, aguentando o incomodo daquelas palavras. Eu seria seu homem.
— Bom saber disso!
Trina olhava a outra conversa.
— Cuidado com o excesso de loucura, Annie— alertou, apontando para o lado.
Imediatamente Mark parou e falar pra retrucá-la.
— Você é a normal no pedaço, né?— arqueou as sobrancelhas.— Essa aí, me fez dirigir quase 24h seguidas pra encontrar vocês. Eu nem dormi!— os olhando direito consegui perceber a fadiga, olhos vermelhos e fundos, cabelos desgrenhados e a fome.
Tomei mais um enorme gole, acabando com os pequenos flocos, que desciam deliciosamente, pela garganta. Deixei o copo na mesa, junto com os outros sete.
— Por que não vieram antes?— Annie perguntou.
— O que exatamente vocês são? Irmãos?— Lia continuou o interrogatório.
— Eu tirei minha carteira a poucos dias— Mark deu de ombros, sabia... ele devia ter 16.
— Também! Namorados...— Trina respondeu Lia, que arregalou os olhos.
— Pega teu irmão?— virou pro Nico, eufórica.— Tem gente pior, amor!— o abraçou, infantilmente.
Nico riu.
— Acho que falaram irmãos no sentido melhores amigos— deu um beijo na sua testa e a aconchegou.
— Morri de diabetes, mas fui expulso do inferno— Annie sorriu vitoriosa da minha imitação de Lia, que só fez me mandar língua e abraçar mais o namorado.
— Alguém troca de lugar comigo? Não consigo ficar perto deles— Annie chorou, mas ninguém se prontificou.— Eu to com medo acesso de carinho Thalico.
Nico revirou os olhos.
— Sem querem ser indelicada...— Lia mudou de assunto, soltando um pouco Nico. Ela pareceu hesitar muito.— Mas, Mark, você tem câncer?— perguntou cautelosa e educada. A pergunta atingiu todos em cheio.
Jay bateu forte na mesa assustando todos.
— SUA BRUXA! QUEIME NO INFERNO... AH, É! DIABO NÃO QUER CONCORRÊNCIA— gritou-lhe, reproduzindo o mesmo ataque de hoje cedo.
Eita, que Jason teve seu ataque cri-cri com todo mundo hoje. Vi as mãos de Mark e Trina se entrelaçarem fortemente.
— Nós vencemos essa— respondeu com naturalidade, e com muito orgulho.
Instintivamente senti um arrepio correr meu corpo e aboca abrindo um pouquinho. Era difícil acreditar nisso. Alegrei-me 100% mais, por eles. Eu estava embasbacado. Por Poseidon... Ele era tão novo pro câncer. E ele venceu. Puta merda, e eu reclamando aqui da minha vida.
— É isso aí, cara! Bate aqui— Annie e Mark trocaram um toque, sorridentes.
Eu ainda não tinha digerido.
— Meu ursão foi muito corajoso— Trina o beijou na bochecha e ele corou.
— Ursão?— perguntei.
— Deve ser uma tortura ser chamado de ursão— Nico demonstrou compaixão.
— Eu estou ficando com medo— direcionei meu olhar a ele.
Annie me cutucou os encarando e tomou distancia deles, me levando junto.
— Eu to falando!
— Continuando— Jason falou do outro lado da mesa.— Teve em que parte do corpo, Mark?
Ele riu como se não aceitasse algo. E isso teve um efeito enorme em mim.
— No diafragma! Eu nem sabia que existia câncer no diafragma! QUEM TEM CÂNCER NO DIAFRAGMA?— perguntou incrédulo.
A curiosidade foi mais forte que o bom senso. Virei para a morena, ela tinha queixo de coração.
— E você Trina?— olhei bem nos seus olhos... Dourados? Ganhei um sorriso com lindas covinhas, ainda não tinha percebido toda sua beleza. Fui incapaz de não sorrir.— Como ganhou a cadeira de rodas?
Estranhamente eles me lembravam Frank e Hazel, a Annie também, percebi. Eram simples e felizes, como se nunca tivessem sofrido. Uma áurea boa emanava deles. Comecei a considerar aqueles estranhos em bons amigos.
— Culpa do Mark— franzi a testa. Ainda mais curioso.— E do seu jogo de Mitomagia...— abanou a mão.
A primeira coisa que veio a cabeça foi Nico. Acho que na de todo mundo, pois o encaramos.
— Eu amava esse jogo! Deuses! Era muito legal— Nico riu, comendo um pedaço de brownie.
— Eu te dei a última estatueta, depois você nunca mais brincou— falei triste.
— Sai daí! Foi Bianca que conseguiu— Thalia a defendeu.
— Eu lembro que só o Leo brincava contigo...— Jay suspirou.— Saudades do McManeiro, badboy supremo— sabia que a falta que Leo fazia não era a que Jason demonstrava. Eles tinham um bromance muito significativo.
— Caralho! Você jogava Mitomagia? HÁ!— Mark ia explodir de tanta felicidade.
— Nerds— Annie sussurrou. Eu queria voltar ao assunto mais foi impossível.
Mark e Nico começaram uma conversa sobre o poder das cartas do Minotauro e da Medusa. Povo estranho.
— Lê-se a melhor aluna do 1º ano em toda Paris! E ainda era escola pública! Uma das melhores...
Melhor aluna é? Eu e Lia soltamos risinhos contidos.
— Como você sabe?— Annie desconfiou.
— Prazer, líder do maior fanclube da Annabeth Chase da East Cost— ela estendeu a mão, simplesmente.
Oi?
Arregalei meus olhos sem entender. Fanclube? Sabia que Annie era muito famosa por causa do canal. Mas ao ponto de ter fanclube? Ainda dividido em áreas...
— Você é bem mais do que pensa... Acho você bem modesta. Ouvi rumores que a própria Google quer fazer um contrato contigo— colocou as mãos na bochecha sonhadora.— Depois que voltou ao YouTube... Deuses!
A alegria na voz de Trina fazia sair embargada. Ela parecia saber até o nome que Annabeth dava pros pentelhos dela. Não duvido que ela faça isso.
— São só rumores, então... Eu não ouvi falar nisso— Annie parecia analisar o que a menina falava.— Eu só sou uma garota normal, com problemas normais... Não isso que você tá falando!
— Até eu iria negar, Annie— Mark falou.— Mas você, definitivamente, não é normal. Olhe pras janelas— apontou e todos atendemos seu pedido. Uma horda de paparazzi estavam tirando fotos nossas. Ou da Annie.— Eles te seguem em todo lugar. Você não vê?
— Sorte a deles que você é problemática... Sempre vão ter um assunto seu pra falar— Annie mandou um belo dedo do meio para Jason.
— Depois que veio a Califórnia, tudo mudou. Já ouvi de cinco revistas querem você como capa. O neto da Coco Chanel e seus amigos estilistas querem te transformar no seu ícone, não sei em que mundo tens vivido... Você tem o maior canal de toda internet! O TCA já é seu! As portas vão se abrir mais ainda com você na América— Trina continuava, completamente alucinada em suas próprias palavras.
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A primeira coisa que queria depois de muita comida e risos era minha cama.
Trocarmos telefones, rimos mais um pouco, combinamos de nos encontrar de novo. Annie explicou que viajaria hoje... Bláblá, saímos em direção a gigantesca Chanel da Rodeo.
De novo, eu queria minha cama, não gritos sobre atrasos de um gay. Nem uma horda triplicada de paparazzis. Ok, sempre tinha alguns quando saia na rua com ela. Hoje parecia que todos tinham de concentrado naquela rua.
— Vamos lá pra dentro...— Michael falou. Annie e ele tinha uma grande intimidade pelo visto.
Cocei a cabeça um pouco incomodado, assim como meus primos. Não tinha ninguém na loja, a não ser por nós e o dono da grife. Era muita pressão à perfeição ali, o que me enjoou um pouco. Tive medo de esbarrar em alguma coisa ou falar algo errado. Lugares como aqueles me davam nos nervos.
Respirei fundo e segui o cara até o balcão dourado e branco, atrás dele, na parede, haviam dois gigantes cês opostos e laçados. Ele abriu uma porta de madeira nobre ao lado e nos mandou entrar.
A sala era pouco iluminada. Parecia aqueles galpões de mafioso. Uma mesa verde grande ocupava boa parte do local. Desenhos e fotografias estavam penduradas ao que parecia varais. Haviam um homem e uma mulher vestidos de modo muito elegante fumando e escolhendo tecidos e ornamentos.
— Chegaram— Michael bateu palminhas. Os dois viraram os rostos rapidamente em expectativa.
Marc, como eu indetifiquei, sorriu perversamente.
— Vamos detonar com a LVMH.
— Eu quero esfregar na cara de Bernard! Aquele merda! Eu estou ficando muito inconsequente?— Marc fumava um cigarro inquieto.
A mulher meio loira, Miuccia, bufou, aparentava estar de saco cheio desse papo. Resmungava palavrões em espanhol.
— É por isso que te obrigamos vir— procurou algo na bolsa Prada que parecia ser feita de ouro. Annie quase pulou da cadeira quando viu seu convite roxo e prata.
— Precioso— falou como o Smigol, agarrando o envelope e o cheirou.
— Eu sabia que você vinha atrás dele— Michael riu.
Eu me sentia excluído, eu e Lia e Jason e Nico, que olhavam perdidos a conversa. Tomei um gole de água e continuei calado e encolhido, esperando que aquilo acabasse logo. Era sombrio o clima ali. Tive a impressão que tinha muita coisa não falada, por mais que eu não entendesse muita coisa e sentisse uma pitada de medo.
— Annie,— sussurrei— podemos esperar lá fora?
Tentei deixar meu desconforto a ela visível.
— Não mesmo, vão todos ficar aqui!— Miuccia falou me encarando em desafio.— Será rapidíssimo o que temos pra falar.
Percebi, o olhar de Michael em Lia. Era um olhar admirado.
— É tão linda quanto sua mãe me disse— Marc imediatamente concordou com a cabeça.
— Essas sardas... Combinam tanto com o seu estilo! É como se tudo fosse projetado pra dar certo em você...— seus olhos mel brilhavam.
Thalia apagou o cigarro no cinzeiro ornamentado de prata da mesa e os olhos questionadora, porém continuava calada.
— Voltando— Michael bateu palminhas.— É uma longa história...
— Não ia ser rápido?— Jay perguntou, e levou um chute de baixo da mesa por Nico.
— Calado!
— Posso?— Michael falou.
Assentimos nervosamente. O clima daquela sala era estranho. Olhou Annabeth, parecia perfurar sua alma. Um retroprojetor foi ligado, deixando a sala com uma coloração azul, mais iluminada.
"Coco teve um relacionamento com Christian Dior. Você sabe! Dois pioneiros em moda... Na França, nos anos 70... Foi uma coisa intensa. Terminada em desgosto e muita amargura. Minha querida vozinha e Christian criaram uma rixa horrível, que é tradição pra mim. Marc teve problemas com a associação LVMH, que na verdade não é lá exemplar e filantropa, fundada pelo Dior, assim como Miuccia. Enfim, os podres são infinitos. Desvios de verbas para caridade, carregamento de mercadoria defeituosas e ilícitas, principalmente, dizem que a LVHM é só uma máscara pra algo bem maior e perigoso, e com tal nome ninguém pode de verdade exercer poder sobre eles... Bernard Arnault é um bosta, pior raça! E temos que acabar com ele!"
O neto da lendária estilista colocou tanta emoção nas palavras que fiquei tonto. E confuso, mas Annie fez a pergunta pra mim.
— E onde eu me encaixo nisso?— tamborilava seus dedos no convite, tão misteriosa quanto os já presente ali. Desejei um cigarro, mas aguentei firme.
— Coco conseguiu uma vez humilhar Christian. Sua coleção parecia ser costurada pela própria deusa da moda— Miuccia falou, acendendo outro cigarro.— Até meu avô a ajudou.
Se calou e tragou, deixando solto no ar a meia história.
— E o que exatamente ela fez?— minha boca se mexeu involuntariamente.
Marc apertou o botão num pequeno controle e a parede se iluminou em uma foto em preto e branco. Nela tinha duas adolescentes muito bonitas, os vestidos pretos iguais e uma série de adereços que não consegui identificar. A elegância era completamente notória. As duas morenas sorriam abertamente, como se tivessem rindo de uma piada. O fundo era borrado.
— Atena e Afrodite Parthenos aconteceram.
Annabeth engasgou com o ar. Troquei olhares com Jason, tentando confirmar o que ouvira. A mãe da Annie? E quem era essa tal de Afrodite, a irmã de Atena?
— Por isso todo esse carinho que temos a sua família, Annie. Nana e Coco foram grandes amigas, por mais a menor idade de sua vô. Agora, precisamos da sua ajuda— o rosto de Michael suplicava por auxílio.
Olhei Annie, que se afogava em confusão. Li a dúvida nos seus olhos. "Minha mãe era modelo?"
— Querem que eu desfile no Fashion Week? Não vai rolar mesmo!— sua respiração estava acelerada.— Só se você quiser que tudo dê errado!
— Annabeth, você é famosa. Soubemos que a Vogue caiu matando em cima por uma sessão de fotos sua e de seu amiguinho— Miuccia apontou pra mim em desdém.— Vai daí pra cima! Se sair na rua com uma bolsa Prada ou um relógio Marc Jacobs... Isso já é uma vitória.
— E eu?— Michael perguntou ofendido.
— Tanto faz— Marc abanou a mão.— O negócio é uma seguinte— fez uma pausa dramática.— Queremos uma participação especial. Usando nossas marcas, lógico. Preparamos algo em especial, exclusivo só pra você— indicou um canto, onde tinha várias caixas malões chiques.
A loira olhou pra lá, mordendo o lábio inferior. Talvez se avaliando. Valia a pena? Seu olhar pousou em mim. Havia mais confusão do que eu esperava. Assenti a encorajando. Acho que seria bom pra ela. Bem, em termos...
— Eu acrescentei um lote extra daqueles batons roxos e laranjas que tanto gosta— Michael não se aguentava. Inclinou o corpo pra frente em busca de uma resposta.
Notei o mesmo nervosismo em Miuccia e Marc.
— Com algum esforço e aliados podemos acabar com a LVMH! E revelá-los— Marc falou.— Se ganharmos esse ano, muitas outras marcas ficaram vulneráveis. Donna Karan, Fendi, Versace, talvez até a Sephora!
— Imagine, Annie... Deixar a família Arnault na falência. O miserável do filho de Bernard! Eu soube da sua história, garota! Você não quer vingança?— Miuccia falou com gana.
Quem era Bernard? E esse tal filho que merece vingança? Senti a mesma interrogação na cara dos meus amigos.
Annie ponderou por mais um segundo e de supetão aceitou.
— Ok! Eu faço— senti que a concordância era mais pra se livrar do assunto. Ouvi exclamações satisfeitas. Mas minha concentração estava perdida na palavra vingança. E por qual motivo?— Mas...— olhares se voltaram a ela.— Sei que vocês sabem da minha tia Afrodite. E eu quero saber o que aconteceu com ela...
— Na hora certa, garota— Miuccia respondeu a cortando.— Mas saiba que elas e suas filhas estão mais próximas do que pensa.
E passei meu dia remoendo e digerindo aquela conversa. Tinha muito coisa ainda pra desenterrar. Coisas que a própria Annabeth não sabia.
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