Young Blood
34 Último dia de festival
Notas iniciais
It's my party I'll do, do what I want
So while you sit and watch me
I'll keep dancing alone
Annie.
Corria pelas barraquinhas de comida listradas, neons, estampadas. Aquele lugar todo era uma confusão de cores. Vestia só um biquíni preto, uma coroa de flores azul e o colar de Percy. Eu tinha perdido meu óculos no primeiro dia. Não arriscaria perder mais nada, por isso estava vestida promiscuamente... Ok, não era só por isso, tinha tanto gatinho lá que eu andaria nua pelos campings pra conseguir um.
Mentira. A verdade de que tinha que fugir de alguns fã bêbados psicopatas perseguidores. Mas fora isso...
Minha barriga doía pelo esforço, simultâneo, de correr e rir. Muffin, a menina inglesa que conheci e que dormia do chalé ao lado, rasgava na prancha do skate, logo atrás com uma vela-faísca. Olhei em sua direção e vir molinhas marrons voando. Abríamos caminhos pela multidão, várias pessoas apontavam pra mim, gritando meu nome. Mas eu estava um pouco ocupada demais me divertindo. Segurava a minha antiga GoPro que estava toda detonada, com o cabo encolhido, caso que quisesse filmar ou tirar fotos.
Eu estava suada e cheirava a cerveja e maconha, o barro laranja sujava meus All Star cano alto preto. Esbarrava em pessoas de todos os tipos, asiáticos e indianos; russos e gregos; brasileiros e havaianos. Aquela ilha era um mundo. Colorido, drogado, bêbado e estranho. Muito estranho.
Não dava pra descrever. Era muita gente esquisita, mulheres seminuas e caras exibindo seus tanquinhos sexys, às vezes fantasiafos, uma roda gigante, um lago e muito verde, árvores e flores em todo canto. O palco principal pulsava ao som de alguma música eletrônica, brilhavam em lizes laser e soltava fumaça colorida. A Dreamville cheia de barracas, a áreas dos chalés... Era dia, quente e frio. A atmosfera era leve e curtida. Caras com filmadoras enormes registravam tudo. Tinha até sido entrevistada ontem. Roubei uma bandeira da França que estava com um cara no meio no caminho e levantei os braços, a deixando flutuar.
Era o caos. Era o paraíso na terra. Nunca tinha ido a lugar melhor. Sério. Aquele lugar era mágico, meio cósmico e supernatural. Contra as leis seca e de gravidade. Nada se comparava. Talvez só a California. Haviam muitas tendas montadas, algo como a sala de jogos imensa, piscina e uma sauna. Uma sauna.
O bracelete assava meu pulso, era o rosa. Do pacote mais completo, tínhamos acesso a tudo que quiséssemos. Corria em direção oeste do terreno, bem no meio de tudo. Entre a estrada e a arena. Tudo cheirava a putaria. Sexo, álcool e cigarro, mas mesmo assim ainda era agradável e sustentável. O que era o objetivo do festival, lógico, a preservação do ambiente.
Parei, cansada. Tomei o restinho de energético na latinha que tinha na mão e joguei numa lixeira. Amarrei a bandeira na cintura sendo atraída por um cara com inglês muito embolado, devia ser alemão, sorri, sem pensar muita coisa, além que que ele era um tesão.
— Você é a Annabeth dos vídeos, né? Eu to te procurando desde sexta...— nem consegui olhá-lo direito, muito menos responder, e me senti culpada por deixá-lo sozinho. Mãos me seguraram e me arrastaram pra longe.
Troy, o escocês, vizinho de chalé, colocou o indicador no biquinho em seus lábios. Ele era a o cara mais engraçado que já tinha conhecido. Principalmente, bêbado.
— Faça silêncio— olhou para os lados, como se escondesse de algo.— O FBI está a nossa procura— esgueirou-se pelos estranhos, andando de maneira esquisita.
— FBI é a Muffin? Ou a Stella?— perguntei, zonza. O deixei me arrastar pra onde quer que fosse.
— Stella tá ficando com aquele brasileiro estranho... O Daniel... Sei lá— fez uma careta e entrelaçou nossos dedos.— Foi pra sauna.
Nós rimos, maliciosos. Só coisas boas aconteciam na sauna. Muffin apareceu remando ao nosso lado. E me lembrei de Hazel, elas eram tipo sósias. Eu iria mandar uma foto de Muffin pra ela.
— Troy— falou ela, seca, nos seguindo, bem devagar em cima do skate. Ela não gostava muito de Troy, a história foi que eles transaram, na primeira semana, e ele vomitou no quarto dela.
— Cupcake!— sorriu, galanteador.— Continua queimando pobres coitados com fogos de artifício?
— Velas-faíscas— rosnou.
Eu ria, vendo o casal brigar.
Continuávamos à oeste, em direção ao lago. O caminho era um pouco íngrime, e comprido, mas valia o esforço. Era bem mais tranquilo ali, um cantinho fora da muvuca. Comecei a ouvir murmúrios e não demorei a ver uma fogueira crepitante para o céu. Faltava poucas horas para o anoitecer. Dali a batida tecno não era tão alta.
— Arrumem um quarto!— gritei, jogando as mãos pro alto. Me desvencilhando dos dois brigões.
— Não o meu! Não quero ele vomitando de novo!— ela desceu da prancha, carregando debaixo do braço.
— Supera, mulher!
Avistei Thalia, sentada em um tronco que rodeava a fogueira, conversando com Bennet, o companheiro de Troy. O loiro, na verdade, e ironicamente (desculpe o preconceito) era da África do Sul.
E eu estava ficando doida com tanta gente, de todos os lugares em um lugar só. Era confuso demais!
Ri, sozinha da minha doidice.
— To querendo um cigarro— cocei a barriga. Também tinha muito mosquito naquelas bandas.
— Todos queremos— Muffin sussurrou.
— Cupcake! Quando você nasceu... Seus pais tinham algum tipo de fetiche por bolinhos?— Troy perguntou, na maior inocência. Ou talvez não, né?
Nós paramos por conta da garota dos cachinhos. Ninguém na fogueira nós vira ainda, eles estavam debaixo de uma árvore gigante, parecia uma castanheira. Vi Pierre e seu bofe novo, um espanhol chamado Dimitri, juntos, e o segundo dedilhando um violão preto. Havia mais rostos conhecidos. Nenhum que lembrasse o nome tão facilmente, agora.
Muffin lançou um olhar perigoso a Troy, que saiu correndo, gritando por socorro. Estava preparada para ri e Muffin passou por mim perseguindo o ruivo estabanado. Abanei a cabeça, negando suas existências. Eles eram bons demais pra ser verdade.
Olhei o céu, solitária. As nuvens pareciam algodão doce, eu ainda queria tocá-las um dia. Era um sonho especial e secreto. Tudo era tão supersaturado que a vista doía, vi cores que nem sabia que existia, até o céu fazia questão de aparecer esplendidamente nos dias do festival. Alguns ônibus passavam na rua além do lago, e mais pessoas desciam em direção ao festival. Um arrepio correu meu corpo todo, foi do jeito gostoso e esquentou. Eu estava pisando, exatamente na terra do amanhã, onde as coisas podiam ser verdade, bastava eu querer.
Senti, definitivamente, os pesos saírem das minhas costas. De uma vez por todas. Quase pude ver a insegurança e a dor indo embora junto com o vento. A vibe do no ar me fazia isso. Eu sabia que aquilo era pra sempre. Eu podia ser pra sempre, bastava eu querer.
E eu quis. Eu quis que a dor fosse embora. Eu quis, realmente, com todas as minhas forças vitais, ser feliz e esquecer. Poder olhar o passado e ri. Me libertar das correntes ardentes que me prendiam a coisas dolorosas. Pegar todas elas e contar para meus filhos como um velho ensinamento. E eu podia fazer isso.
Eu me senti como naquele dia no carro de Percy, mas cm o sentimento multiplicado. O mormaço queimando o coro cabeludo, eu senti que ia explodir, a pressão do meu corpo aumentara e meu coração pulava na batida da música tocando ao fundo. Eu me sentia infinita. Eu queria sair voando por aí. Caçar mais da felicidade, em pequeninas coisas.
Ri, anestesiada.
Estava curada.
Por tempo indeterminado.
Mas, pelo menos, dessa dor eu me livrei.
Os olhos marejaram um pouco em alívio. Puro alívio. Eu suspirei algumas vezes, girando no meu próprio eixo.
Tinha mais lugares pra conhecer. E talvez eles me ajudassem mais ainda. Eu fiquei tão acostumada com a dor presente, que eu nem sabia o que era estar bem.
E consegui me lembrar naquele momento.
— Ei, perturbada— a voz de Thalia me chamou. E eu virei pra ela, não muito distante. Corri para seus braços, me jogando nela. Passei as mãos no cabelo azul em trancinhas de ganster, e lhe beijei o rosto.
Bennet ria de nós duas no chão, a grama pinicava, mas era o de menos.
— Está tudo bem, Beth?— Thali tentava voltar a sanidade por mim. Isso me alegrou ainda mais.
— Estou ótima, irmã— a abracei mais forte.
Sentamos, ela me aconchegando em seus braços tatuados, vi escrito na beira do pulso, Pertenço a NDA. Ela era minha favorita.
— Eu e Tiff estamos pensando em ir pra Dreamville antes da meia-noite. Queríamos dar uma olhada... Você vai com a gente?— Thalia perguntou, sorridente.
— Mas é claro! Stella vai também?— puxei meus joelhos para perto do corpo.
— Acho que sim. Ela vai me ajudar a escolher uns narguilés novos— sorriu, perversa. Suas pernas estavam estendidas na grama, o short cinza que usava estava todo sujo e a blusa com a borboleta símbolos do festival deixava um pedacinho dos seus seios a mostra. Junto a tudo isso, tinha uma bandeira dos USA desenhada na bochecha.
— Será que a gente acha um bong com formato de pênis?— criamos nossa bolha.
Thalia riu.
— Espero que sim!
— Annie!— Pie me chamou, gritou seria mais apropriado. Vi que ele segurava meu celular. Onde é que ele tinha achado?
Recordei que tinha deixado com ele ontem, depois do surto de ciúmes por causa dos meninos. Esses merdinhas.
Os olhos dele estavam arregalados, e provavelmente, era sobre alguma coisa que leu no IPhone verde. Ele gaguejou antes de suas palavras saírem claras.
— Você ganhou o TCA!
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— Faria isso por mim?— batucava os pés, incansavelmente. Arrancava tufos de grama, sentada um pouco mais afastada da fogueira na roda.
A pressão no coração o fazia doer. E a cabeça e garganta ardiam demais. Isso tinha uma explicação plausível. Eu gritei muito. Quando quero dizer muito... É muito mesmo, assim, gritei hoje mas do que falei a vida toda. Acho que mais um berro eu teria que retirar as cordas vocais inúteis.
Eu estava nervosa, respirando descontroladamente, e um pouco desconfiada. Não por a mensagem ter sido fraude, eles tinham, realmente, me falado que terminaria mais cedo a votação para vloguer desse ano, mas não seria divulgado publicamente. Um dos motivos era por eu não estar presente (mesmo eu não sabendo que sairia tão rápido, e que eu ganharia).
Estava desconfiada do universo.
Aquilo tudo era bom demais.
Queria que durasse o resto da vida, mas era uma esperança utópica.
Tirei esses pensamentos depressivos da cabeça.
O inquietude me voltou de novo. A sensação de ganhar o prêmio (a prancha gigante) eram bem melhor. Bem mais verdadeira. Ser reconhecida por fazer as pessoas rirem e as alegrarem era a melhor coisa do mundo. A última vez que fui a Vegas, ganhei também, o prêmio da Company Blogger Awards. E os mesmos calafrio me voltaram.
Só podia ser sonho, depois de tanto esforço, tantos vídeos e fãs malucos, era um pouco irreal. Quis viajar para cada canto do mundo pra abraçar meus cafonas, mas ainda não era hora. Eu não podia acreditar que aquela era minha vida. Se algum falasse pra mim isso, quando fosse postar meu primeiro vídeo com Hazel, Frank e Pierre, eu ia rir tanto que o deixaria sem graça.
Além de aquilo abrir novas portas pra mim. Tudo culpa dos meus fiéis inscritos e seguidores. E eu me sentia tão triste por não comparecer.... Então, ninguém mais merecedor que uma pessoa tão louca e estranha o suficiente para me ver todos os dias pela internet e viajar de madrugada pra me encontrar.
E eu deixaria com ela. Em homenagem a todos aqueles que me fizeram estar onde eu estava, mas ia fazer uma surpresa, não agora. A minha cadeirante favorita. Depois de duas horas em estado de negação e afobação eu resolvi ligar.
— Trina?— chamei, tremendo um pouco.— Será que você pode me responder?— minha voz quase não existia mais, estava muito áspera.
"Você me liga... Duas horas da manhã, do outro lado do mundo... Me dizendo que ganhou o TCA, que eu falei que ia ganhar, e querendo me comprar passagens para eu receber o prêmio no seu lugar?"— questionou, sonolenta.
— Isso aí!— assenti, sem que ela pudesse ver. Sua gargalhada contagiante me atingiu como milhões de confetes coloridos. Aquela risada devia passar no rádio de tão gostosa que era. Abri um sorrido imenso.
"Mais é claro que eu aceito"— gritou, histérica.— "Eu disse que você ganharia"
Me obriguei a ser cautelosa. Por mais que não quisesse.
— Você não pode contar a ninguém, ok, Trina?— cocei a testa, incomodada com minhas palavras. Odiava ser responsável.
"Positivo. Palavra de escoteira"
— Eu vou comprar passagens pra você e Mark! Mas não conte a ele, diz que eu quero que vocês estejam lá pra uma entrevista... Sobre qualquer coisa relacionada a mim... Inventa— soquei o solo, ansiosa e impaciente.— Falo com o Percy pra pegar vocês... E...
"Annie! Calma!"
Rimos juntas.
— Você deve estar pior que eu!— entrei na defensiva.
"A gente acostuma"
— É muita emoção pra uma bunda só, colega!— justifiquei.
"Vê se não enfarta antes da hora"— alertou-me.
— Pode deixar!— zanzei os olhos por todos os cantos. Virei para trás, olhando novos meus amigos. O sol começava a se pôr, e Davi Guetta fecharia a noite, com direito a queima de fogos especial. Eu queria correr para a arena, provavelmente, entupida de gente.— Eu tenho que ir. Quando chegar a Bruxelas, eu te explico tudo direitinho. Vou ficar por aqui até amanhã de julho, mas vou tentar resolver isso antes, falow?
"Muito mais que falow, Annie"
— Tchau, Trina. Se cuida— sorri, esperando que ela soubesse.
"Juízo, aí"
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DONT LET THE BASS GET YA
THE BEATH GOES HARD TROUGH
PUT THE PUSSY IN HIS LIPS
Era uma mistura tão sem nexo de músicas e batidas que ficava confusa. O som atingia meus ossos, e fazia eu sacudir o corpo inteiro. O céu estrelado se estendia infinito e iluminado por infinitas cores linda dos refletores do palco, assim como fumaça, confetes e fogo. Os telões rodeados por flores e folhas também ajudavam a manter o nível da festa.
Pierre teve a brilhante ideia de nós levantar em um bote inflável, só que ele não aderiu muito bem...E lá estávamos nós, passando em cima de cabeças de milhares de pessoas desconhecidas, indo pra qualquer lugar. Thalia estava do meu lado, rindo e sacudindo os braços pro featuring da Sia. Segurava o cabo da GoPro, nos filmando, e com a outra mão, uma garrafa de vodka, que derramava mais que bebíamos, já que o bote vermelho vacilava violentamente. Alguns gritavam, cantavam, outros sorriam, jogavam tinta colorido, outros xingavam.
Uma voz remixada remexeu meus miolos os reduzindo em pó.
I said why does it feel so good?So good to be badGetting what I want, boyWhy does that make you so mad?
I said, why does it feel so good?So good to be bad'Cause if it's trouble that you're looking forOh, baby, here I am
Oh, baby, here I am
I said why does it feel so good?So good to be bad
Bad, bad, bad
I said why does it feel so good?So good to be badGetting what I want, boyWhy does that make you so mad?
You see, why does it feel so good?So good to be bad
'Cause if it's trouble that you're looking for
—OH, BABY, HERE I'M AM— Thalia e eu gritamos juntas, nos olhando. E ela estava linda com os aqueles grandes olhos azuis.
Ela entendeu o que eu queria. Colocou as mãos nas minhas bochechas e me beijou, profundamente.
Dos dois lados opostos, o palco e o início do estádio explodiu em fogos. Olhamos pro céu, com rostos próximos, e parecia que um arco-íris tinha sido estourado. Eram faíscas de todas as cores imagináveis riscando o azul escuro noturno.
Voltei a olhar Thali, que me encarava em puro desejo. Fui jogada em cima dela, por causa dos movimentos do bote.
Cinza no azul.
E ela tomou meus lábios mais uma vez.
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