Notas iniciais
mais um capítulo

Capítulo 19

Meus pais não haviam chegado ainda, Tobias demorou a se despedir, nem eu queria que ele fosse embora, mas era necessário.

Subi a meu quarto depois de um logo banho, pus meu pijama e deitei. Coloquei meus fones de ouvido, meus olhos estavam pesados, eu ainda queria falar com Tobias, porém estava cansada demais.

Deixei um recado dizendo que esperei até onde aguentei, fiquei mais um tempo acordada, porém o sono me venceu.

Acordei com a claridade da janela que me esqueci de fechar, os meus fones estavam enroscados em meus cabelos, deduzi que meus pais chegaram tarde, pois minha mãe sempre verificava esses detalhes, cortinas janelas, fones...

Olhei em meu celular e nenhuma mensagem de Tobias, eu achei estranho, mas talvez ele estivesse cansado assim como eu estava.

Depois de trocar minha roupa, afinal era domingo, eu desci animada encontrando minha mãe tomando remédios.

— Quer dizer que está de ressaca?

Sorri olhando minha mãe.

— Não comece Hazel, minha cabeça vai explodir e eu nem bebi.

— Deixe isso aí, hoje eu faço o café.

— Você?

— Mãe, há dezessete anos eu vejo você fazer panquecas, acho que devo ter aprendido algo.

Coloquei o pó de café na cafeteira enquanto minha mãe puxou a cadeira se sentando, debruçou-se em cima da mesa.

Peguei o pacote da massa de panquecas despejei na travessa acrescentei ovos, e leite, bati, e fiquei lembrando detalhes do dia anterior, sorria sozinha.

Foi simples e fácil fazer o café da manhã. E minha mãe ficou feliz e orgulhosa, até eu mesma estava orgulhosa com isso.

Meu pai pela primeira vez levantou da cama depois das dez da manhã.

Eu estava preocupada com Tobias porque não tinha me ligado ainda e nem chegado, pensei se era o certo ligar para ele.

Peguei umas cinco vezes no celular e desisti, mas quando eu finalmente subi decidida pela sexta vez, que ia ligar para ele.

Alguém bateu a porta, imediatamente dei meia volta, Tobias havia chegado, cheguei à porta e abri sorrindo, mas não era Tobias, era a senhora Prior.

— Olá Hazel!

— Senhora Prior.

— Desculpe incomodar, é que... Posso entrar?

— Entrar? É que...

— Hazel querida, quem é? — minha mãe perguntou.

— Entre.

Ela me seguiu até a cozinha onde minha mãe começava a fazer o almoço.

— Mamãe, esta é a senhora Prior.

— Somente Natalie. — ela falou.

— Olá, você estava na festa ontem, a Everlyn nos apresentou.

O clima ficou estranho, eu não sabia o que ela queria.

— Senhora... Quer dizer, Natalie, pode me falar o porquê desta visita?

— Hazel, não seja grosseira! — minha mãe me repreendeu.

— Deixe-a, eu sei que é estranho estar aqui, e se meu marido souber desta visita ele vai ficar muito bravo, disse que eu teria de parar com isso.

— O que houve? — minha mãe deixou as panelas e se aproximou de nós, colocou a mão no ombro da mulher.

— Eles dizem que estou ficando louca, mas eu realmente precisava saber, Hazel querida, você se sente bem?

— Sim, por que a pergunta?

— Vocês já sabem que minha filha morreu, não é mesmo?

— Sim morte trágica, — minha mãe falou. — e achei nobre da parte de vocês doarem os órgãos dela. Hazel sabia disso?

— Fiquei sabendo ontem quando estava na casa de Tobias. — respondi vagamente, estava analisando a situação e as ideias.

— Sim, e ontem na festa sua mãe já havia falado de você, e depois te vi lá, mas eu tinha que vir aqui.

— Sabe que por pessoas como a senhora, que autorizam o transplante dos órgãos, que minha Hazel está viva!

Se minha mãe não estava ligando as coisas até aquele momento, minha mente, porém começou a fervilhar, meus pais nunca foram em festa nenhuma, chegaram muito tarde, tarde o bastante para minha mãe não passar em meu quarto, acordar com ressaca, e meu pai acordar depois das dez, já os pais de Tobias que sempre estavam nessas festas, chegaram cedo, trazendo o senhor e senhora Prior até a casa deles. Lembro vagamente de que os rostos deles não estavam muito animados, mas o olhar de Natalie Prior em minha cicatriz se iluminou, e a mãe de Tobias o forçando a me chamar de amiga, ele havia dito que a senhora Prior estava à beira da loucura em busca de onde foram os órgãos de sua filha. Estava na cara, só juntei as peças, eu estava com o coração de Beatriz, a filha dela, a ex-namorada de Tobias.

— Mãe, pode nos dar licença, queria conversar com Natalie.

— Tudo bem, eu vou ver se seu pai está bem.

— Natalie, eu sei por que está aqui, e olha não sei se é uma boa ideia.

— Ontem quando te vi na casa dos Eaton, eu fiquei tão feliz, eu te trouxe uma coisa.

A mulher abriu a sua bolsa e retirou uma caixinha preta, ela abriu e saiu uma corrente.

— Essa corrente era de Tris, ela gostava muito.

— Não posso aceitar.

O olhar triste da mulher a minha frente me fez considerar a oferta.

— Tudo bem, eu aceito.

Ela se iluminou, e ainda se ofereceu para colocar a corrente em meu pescoço.

— Minha querida, sabia que posso ver traços dela em você?

— Senhora Prior, acho que devemos conversar sobre isso, eu realmente não sei o que dizer em uma hora destas, mas...

— Minha criança, eu sei que é estranho, eu fiz de tudo para encontrar cada pessoa, mas não tive sucesso, eu fiquei sabendo de um garoto que recebeu as córneas dela, e uma mulher que teve um de seus rins, mas não pude visitar nenhum deles, mas assim que soube o nome da garota que obteve o coração eu precisava te conhecer.

Era doentio o que essa mulher estava fazendo, buscar as partes vivas de sua filha, meu coração, o coração que um dia bateu no peito de outra pessoa estava palpitando, eu sentia uma compaixão enorme por ela, mas o que Natalie queria? O que a senhora Prior esperava de mim? Eu não podia imaginar, eu só temia por estar fazendo mais mal do que bem a uma pessoa perturbada.

— Não acho que devemos ter esse tipo de relação, eu... Eu não sou ela...

— Eu sei.

Seus olhos se encheram de lágrimas, eu fiquei desesperada, queria consolar seu coração aflito, fazer com que ela ficasse bem eu sentia muito em não conseguir tem alguma reação visível, pois estava imóvel diante de tudo, estava completamente sem ação, ela chorava, a única coisa que fiz foi me aproximar e abraçá-la.

— Desculpe-me, eu não queria ser grossa.

— Não, você tem razão, meu marido insiste que estou ficando doente com tudo isso, ontem os Eaton foram tão bondosos e quando eu conheci seus pais e contei a Everlyn sobre você...

Naquele momento outra coisa fez sentido, Tobias, ele não tinha me ligado estava distante e ontem eles estavam lá, com certeza esse assunto veio à tona.

— A senhora falou a eles sobre isso?

— Descobri seu nome há uma semana, mas não tive coragem de procurá-la, entretanto ontem o destino me colocou de frente a seus pais, durante a festa que eu realmente estava tentando ser novamente o que sempre fui, mas contei a Everlyn tudo, ela resolveu que era melhor ir embora, mas lá quando te vi na casa deles, era o destino me mostrando você, mostrando onde ela... Quer dizer, o coração dela estava.

A loucura daquela mulher estava indo além de tudo, Natalie falou ‘’ela’’, como se o fato de o coração de Tris estar batendo agora em meu peito eu fosse ser a sua filha, era triste e doentio, olhei para o lado e vi minha mãe parada sem ação na soleira da porta da cozinha, seus olhos estavam cheios de água, ela ouviu, naquele instante eu me lembrei de quando era criança, de quando eu desistia de tudo, mas via esse olhar em minha mãe, e então me dava forças para continuar.

Foi o que eu tive, forças, a senhora Prior não merecia esse sofrimento, mas ela não tinha o direito de entrar em minha casa e fazer com que eu ou meus pais se sentissem mal por eu estar usando um coração, Tris estava morta, e eu viva.

— Acho melhor a senhora ligar para alguém.

— Posso vir lhe visitar?

Eu queria ter compaixão, e eu tinha, mas a compaixão não podia me fazer sentir-me culpada.

— Pode, mas acho que somente se o seu marido souber e lhe permitir.

Era uma forma de me esquivar sem ser grossa, eu não queria ver aquele olhar tentando encontrar a sua filha em mim, pois realmente eu só estava com um órgão dela, e não era ela.

Minha mãe entrou na sala e a convidou para um chá, eu não quis acompanha-las eu precisava de Tobias, precisava falar com ele.

Subi as escadas e sentia um aperto em meu peito, estava sendo egoísta, não queria confortar àquela mulher, queria ser confortada, queria Tobias.

Chegando ao meu quarto peguei meu celular e liguei para o seu, e nada, até que na quarta vez deixei um recado na secretária, eu fiquei sentada na beira da minha cama segurando o celular, enviei algumas mensagens, mas nada de respostas.

Mas eu precisava dele, naquele momento, o aperto em meu peito ficou mais forte, era o estresse, era a emoção era um conjunto infindável de motivos, porém eu sabia que só me acalmaria se eu estivesse ao seu lado.

Desci correndo as escadas ganhando mais umas pontadas, fui até a cozinha e somente minha mãe estava.

— Ela já foi?

O olhar triste de minha mãe me deu mais dor do que ver a senhora Prior chorando.

— Vai realmente usar isso?

Ela olhou a corrente em meu pescoço.

— É somente uma corrente, não quis ser grossa.

— Você fez bem, essa mulher está perturbada precisa de ajuda profissional.

— E eu não sei?! Mas acho que é seu marido que tem que ver isso, mãe eu não quero me sentir mal...

— Filha não se sinta. — ela se aproximou me abraçando, eu fechei meus olhos, senti-me reconfortada, entretanto queria Tobias.

— Mãe eu vou ficar bem, mas preciso sair vou pegar o carro do papai.

— Tudo bem.

Peguei as chaves e saí correndo.

Chegando a frente da casa de Tobias tentei inutilmente ligar para ele novamente, não sendo atendida.

Desci com o único objetivo, ele iria me atender.

Assim que toquei a campainha a senhora Eaton atendeu, ela sorriu.

— Bom dia Hazel!

— Bom dia, queria falar com Tobias.

— Entre, eu imaginei que viria. — ela foi falando assim que fechou a porta atrás de mim, eu fui a acompanhando até a base da escada. — Ele não desceu hoje ainda.

— A senhora Prior esteve lá em casa agora pela manhã.

— Imaginei também que ela o faria, estava conversando com Andrew Ele está pensando em interná-la, ela não está bem Hazel espero que ela não tenha lhe assustado.

— Não, foi inconveniente, mas eu entendo.

— Sim, minha querida. — ela colocou a mecha teimosa de meu cabelo atrás da minha orelha, e sorriu. — Você é especial, eu sabia que entenderia, e me desculpe te apresentar como amiga de Tobias ontem, acho que seria demais falar a ela que vocês dois... São mais que amigos.

— Entendo. — retribuí o sorriso. — Ela está mesmo mal, vou subir se não se importa.

— Fique à vontade.

Subi as escadas como se meus pés fossem feitos de cimento puro, cada passo era firme e decidido, porém meu peito estava aflito, eu não sabia até que ponto era dor física ou emocional.

Ceguei a porta de Tobias, e decidi bater antes de entrar.

Nenhuma resposta veio, então abri a fechadura que estava destrancada, me deparei com Tobias em pé olhando pela janela, estava de costas.

— Olá.

Olhei em volta enquanto estava sendo ignorada, pois nenhuma palavra foi dita, o computador de Tobias estava aberto e fotos de Tris passavam em slides, eram fotos alegres, eram dos dois juntos, dela sozinha, provavelmente tiradas pelo próprio Tobias.

Eu não tinha palavras, eu era egoísta vim atrás de consolo quando ele estava ali precisando desse consolo, mas como dar consolo a alguém que te evita? Arrependi-me amargamente de estar ali, um gosto amargo estava em minha boca, queria sumir desaparecer, um buraco não adiantaria, queria explodir feito uma bomba.

— Olhe, eu te liguei e por que não me atendeu? — tentei não soar grosseira, mas o tom de voz foi acusatório sem querer.

— Eu percebi nas primeiras, acho que deveria entender mais do que ninguém quando alguém quer espaço.

As palavras cortantes igual faca afiada entraram em meu peito e saíram como lágrimas em meus olhos.

— Você é egoísta. Acha que isso não me afeta também?

Mas essas palavras surtiram efeito, ele se virou e pude ver um Tobias arrasado, abatido, ele não pareceu que dormiu bem, olhei em direção a sua cama, a mesma cama que nós a menos de vinte e quatro horas estávamos juntos, mais uma pontada forte em meu peito, era para estarmos muito bem hoje, era para ser o nosso dia, afinal ficamos juntos, eu era dele agora.

— Egoísta? Eu não estou sendo egoísta, querer refletir, entender porque o destino brinca dessa forma comigo!

— É, ou é uma atitude covarde, era para nós nos apoiarmos, lembra, você e eu estivemos juntos aqui mesmo naquela cama uma pequena coisa não era para abalar nada disso!

— Não? — ele veio em minha direção, vi que seus olhos foram diretamente na corrente em meu pescoço, me puni mentalmente de estar usando aquilo.

— Tobias. — eu senti os soluços, a dor foi aumentando, eu não continha o choro.

— Hazel, me dê espaço, olha o que isso fez conosco, tire isso pelo amor de Deus, não torne mais difícil as coisas!

— Desculpe. — retirei a corrente coloquei em meu bolso.

— Me dê um tempo, por favor. — a súplica dele era válida, ou não, mas eu estava me sufocando, estava difícil respirar a pressão na nuca ficou intensa, eu estava vendo um quarto rodar em minha frente.

— Tobias. — eu só consegui sussurrar seu nome antes de tudo ficar completamente escuro em minha frente.

Notas finais
Não me matem, pois ai como vou continuar jkkkk bjs até o prox