You can be the next Alice.
1 O chapeleiro acordou!
Notas iniciais
Boa leitura!
Abro os olhos.
Estou em uma floresta, tem cheiro de grama molhada, e as árvores não são normais. São meio curvadas e possuem um brilho... meio estranho. A lua está crescente, parece um sorriso.
- Alice? – Um gato chegou perto de mim flutuando com um sorriso doentio estampado no rosto.
Entendi. Isso é um sonho! Não me lembro da última vez que li a estória da Alice no país das Maravilhas, mas ela voltou essa noite.
- Não. – Solto uma risada – Sou Melany, mas posso ser a Alice de vocês, contanto que eu conheça o chapeleiro maluco!
Um coelho pula de trás de um arbusto, é o coelho da Alice, ele está segurando um relógio de bolso, o gato olha para ele e o coelho aperta um botão ao lado do relógio, como se estivesse cronometrando as coisas.
- Tente não fazer como a última Alice, ela tentou roubar o sonho da primeira Alice. – Ele diz olhando-me com aqueles imensos olhos verdes de gato -Aproveite o tempo que lhe foi dado no país das Maravilhas. – Ele sorri e eu posso jurar que vi uma mancha de sangue em um de seus dentes.
Um buraco se abre sob meus pés.
Estou caindo, e sinto-me triste por alguma razão, está tudo escuro aqui, os olhos do gato se destacam no topo do buraco, seu sorriso me deixa apavorada.
Agora que reparei, estou usando o vestido da Alice, um vestido azul com babadinhos e um avental branco por cima.
- Essa Alice precisará de criatividade, para algum dia desse sonho acordar. – É a voz dele, mas ele fica parado enquanto caio, seu sorriso intacto, sua boca não se mexe.
Continuo caindo por um tempo, não sinto nada e ao mesmo tempo sinto tudo.
“É só um sonho” Penso nisso diversas vezes. Mas parece tão real. Pisco.
Não estou mais caindo. Estou em um salão em algum tipo de castelo. O lugar é escuro e vazio, úmido e frio, empoeirado e sombrio.
Não tem nada além de uma porta no salão, o piso é quadriculado, preto e branco, acho que é de mármore.
Esse lugar me deixa tão triste...
- Tem alguém ai? – Corro até a porta e tento abri-la.
Tentativa inútil, está trancada.
- Alice? – Viro-me rápido, é a rainha branca. Abro o maior sorriso e seco as lagrimas de minhas bochechas.
-Sim, sou eu. – Digo me aproximando, mas ela se afasta.
-Você não é a Alice! – Ela grita, sua voz está assustadora – ESSA NÃO É A NOSSA ALICE! – Ela grita olhando para trás de mim.
Ela some... Ela... Virou apenas um esqueleto.
Olho novamente para a porta, tem sangue, sangue escorrendo para dentro da sala por baixo da porta.
- Você é mesmo a Alice? – Um sussurro, a voz do gato ecoa pelo meu ouvido como um sussurro – Prove! – Ele grita, procuro ele pelo salão, mas ele não está em lugar algum.
- Socorro! – Grito – Eu não sou a Alice! – Ouço alguns barulhos, gritos de crianças, risada de adultos, risadas perversas.
- Alice?! – Alguma criança grita, os gritos vem do outro lado da porta. – Sonhe Alice! Nos salve com os teus sonhos! – Seus gritos são de dor. Ouço mais risadas.
- Cortem as cabeças! – Uma mulher grita, tento arrobar a porta.
- Eu não sou a Alice! – Grito – Meu nome é Melany! – Risadas, gritos, choro, tudo de uma vez em minha cabeça, tampo os ouvidos com as mãos, me abaixo e choro.
- Eu não sou ela, droga! – Grito entre um soluço e outro. A porta se destranca e consigo ver uma frecha do que aconteceu ali dentro. O chapeleiro está com um sorriso sádico segurando um machado, sangue, sangue para todo o lado, ele olha para mim, seus olhos amarelos brilham.
- Você queria sonhar comigo?! – Ele grita mais como acusação do que como qualquer outra coisa – Alice, sua danadinha! – Ele ri de forma diabólica, não entendo, as lagrimas continuam descendo pelas minhas bochechas.
- Ele ficou um pouco perturbado depois que a Alice foi embora. – O gato sussurra no meu ouvido, ele sussurra, mas não está lá.
A porta está escancarada agora.
Tem um monte de crianças decapitadas, enforcadas ou mutiladas pelo quarto da frente.
- Não posso deixar que exista mais nenhuma Alice! – O Chapeleiro grita avançando para cima de mim. Sua pele doentiamente branca, seus olhos amarelos, seu sorriso sádico.
- Não sou a Alice! – Grito – Meu nome nem é Alice! Sou Melany! Tenho 14 anos! Moro em Londres! – Ele continua avançando, mas a porta fecha na cara dele.
Estou novamente sozinha no salão. Afasto-me da porta e corro para um canto do lado oposto, me abaixo e forço os joelhos contra o peito e choro, assustada de mais para pensar em alguma coisa.
Tem uma menina do outro lado do salão cabisbaixa, ela é loirinha, e usa um vestido igual o meu, porém o dela é completamente branco.
-Você não sonhou como a Alice! – Ela grita e olha para mim. Ela está chorando sangue e sua cabeça está meio torta e ela abre o mesmo sorriso que o gato.
A menina se transforma no gato.
- Essa Alice não soube aproveitar, resolveu os sonhos de outra Alice roubar. -A voz do gato estava assustadora de novo, ele abriu seu grande sorriso e seus olhos esbanjavam uma felicidade doentia.
O coelho voltou e apontou para o relógio de bolso de antes, o gato evaporou mas ainda pude ouvir sua voz, e dessa vez ela apareceu com um sussurro:
-Seu tempo acabou. — Alguma coisa atinge minhas costas e começo a cair em um buraco sem fundo... Em um nada no meio do universo.
Deveria ficar com o consolo de que vou acordar, mas por algum motivo, sinto que isso não vai acontecer.
Fale com o autor