You are the Bullet
3 O que importa agora
Notas iniciais
Vou lhe dar alguma paz, Joan.
Eu preciso de você.
E eu preciso ir embora.
Repassou a conversa em sua mente, como vinha fazendo com todas aquelas lembranças nos últimos meses. Não era um tipo de sofrimento que causava em si mesma, apesar de doer algumas vezes, era apenas um meio que encontrara para reforçar as decisões que tomara. Nunca colocara em questão perdoar Sherlock Holmes, porque achava – e se forçava a pensar assim – que não havia o quê perdoar. Muita coisa havia acontecido e Joan tentava compreender que o detetive tinha o direito de ficar confuso, principalmente com relações que não conhecia ou sequer queria. A relação entre eles estava uma bagunça antes de Holloway, tornara-se um caos quando esse surgiu e não melhoraria magicamente com o surgimento de um filho. Joan tentou ser compreensiva, tentou mesmo.
No entanto, toda vez que se olhava no espelho, quando sua percepção se alternava entre seus próprios olhos cansados e sua barriga nada discreta, concluía que jamais conseguiria ser tão compreensível. Naqueles momentos percebia que não se importava com nada que o Holmes tenha feito nesses últimos meses, se havia ido para achar Andreia ou se falhara, Joan só conseguia lembrar que ele não entrara em contato e perdeu o foco com Irene Adler.
Isso era, de alguma forma, irracional? Bem, também não importava com isso.
Joan estava cansada, cada vez ficava mais difícil levantar da cama e sabia o motivo. Março estava chegando e com ele o seu nervosismo, seu filho poderia nascer quando bem entendesse. A gestação sugava suas energias, a ansiedade não a deixava dormir e a calma parecia se esvair sempre que precisava interagir com qualquer outro ser humano.
Repentinamente batidas a despertaram e ela olhou para a porta sem qualquer emoção. Sabia que somente uma pessoa poderia estar do outro lado.
― Algum problema? ― questionou ao abri-la.
Sherlock hesitou, parecendo não ter certeza se deveria ou não falar.
― Eu estava pensando... talvez seja apropriado visitarmos seu médico hoje.
Joan estreitou os olhos com desconfiança, sem entender o motivo daquela sugestão. O que se passava na cabeça de Holmes dessa vez?
***
― Seu menino está ótimo, Joan, assim como você ― Dr. Wood afirmou sorrindo enquanto reorganizava os exames que tinha em mãos. ― Mas minhas recomendações permanecem. Nada de estresse e esteja na absoluta calma até o dia chegar, ou o bebê pode vir bem antes do esperado.
― Garanto que ela seguirá todas as recomendações ― Sherlock garantiu forçando um sorriso.
― Assim espero, Sr. Holmes.
Ambos saíram do consultório em silêncio, sem ter realmente o que dizer. Os exames foram feitos e tudo estava bem. Sherlock não quis acompanhá-la na ultrasson e Joan nem se esforçou para insistir.
Tudo entre eles, mais do que nunca, parecia incerto e frágil.
Joan não insistia em avançar e melhorar a comunicação entre eles, não queria e nem sentia que estava preparada para isso. Aquela raiva que a cercava desde o dia o anterior ainda não a abandonara e qualquer aproximação da sua parte provavelmente se limitaria a uma violência que futuramente seria classificada como gratuita e desnecessária. Não que ela concordasse completamente com essa última parte.
Por outro lado Sherlock claramente tinha sentimentos opostos. Temia ultrapassar qualquer barreira delicada e causar mais problemas do que já causara. Seria cômico, se não fosse estúpido. Em que momento perdera o controle da situação? Estava certo de que se afastar seria a melhor solução e ali estava tentando exatamente o contrário do que planejara.
E ambos sabiam que poderiam prolongar isso, que poderiam fingir que aquela relação atual não era problema e que não atrapalhariam suas noites de sono ou suas vidas. Mas Joan não tinha mais paciência ou fôlego para fingir qualquer coisa, então assim que saiu do hospital parou abruptamente e o encarou.
― Algum problema? ― ele questionou se aproximando.
― Por que está fazendo isso?
Observou a confusão durar apenas alguns segundos no rosto do outro. Sherlock não era idiota, apesar de tudo, e não podia fingir ser um diante das circunstâncias.
― Fala sobre arrastar você até o hospital?
― Sobre tudo. Aquele bolo, o hospital, essa preocupação. Você não precisa fazer isso. Eu não quero que faça.
― Não me importo ― Sherlock respondeu sem hesitar. ― Se você quer ou não, não me importo. Enquanto eu não estiver causando mal a você ou ao bebê, continuarei agindo dessa maneira. E se acha que estou fingindo preocupação, não estou. Watson... eu falhei com você. Eu nunca quis ser pai e usei isso como desculpa e falhar ainda mais. Não vou interferir na sua vida ou nas escolhas que fizer para essa criança, mas nada vai me impedir de ajudar no que for possível.
Era naqueles momentos que Joan o odiava mais. Quando o conheceu, Sherlock não era nada mais que desagradável e odioso, mas com o tempo, a convivência entre ambos e algumas discussões, Sherlock estava aprendendo a lidar com as pessoas quase tão bem quanto lidava com crimes. Antes ela nem perdia tempo em tentar explicar seus sentimentos, mas então agora ele a entendia sem qualquer explicação?
Estranho. Para Joan soava desesperador, mas não era um sentimento dela. Sherlock parecia desesperado sobre muitas coisas... andar na linha, não ultrapassar nenhum limite, não falar qualquer besteira. Cada ato e palavra parecia ser excessivamente pensado antes de ser feito ou proferido, Sherlock parecia preso em um emaranhado de cordas invisíveis. Estranho, para não dizer não confiável. Joan com certeza estava deixando passar mais detalhes do que esperava.
Então o celular de Sherlock tocou pela primeira vez em solo americano e Joan esboçou um discreto sorriso. Finalmente haveria um caso para distraí-lo.
***
Felizmente ela não o acompanhou. Estava falando sério sobre não se estressar e podia estender essa seriedade para o cansaço desnecessário. Pelo amor de Deus, estava com oito meses de gestação, com certeza não faria o mínimo esforço para os crimes de Nova York naquele momento, nem mesmo se fosse por Andreia Berns e menos ainda para investigar uma simples cena de crime.
Mas, admitia, esperava que Sherlock contasse tudo quando chegasse no Sobrado. O que não aconteceu.
Sherlock chegou calado e permaneceu calado enquanto jogava uma caixa de documentos e alguns livros na mesa.
Joan nunca lamentou tanto em estar errada. Na verdade, provavelmente não era a primeira vez, mas não se importava, cada lamentação como aquela era especialmente irritante.
― Ele parece bem determinado ― Kitty comentou ao seu lado, quase sussurrando.
Joan ergueu os olhos dos papéis que lia e olhou para Sherlock que folheava vários livros com afinco, como se pudesse ler cada um deles naquela velocidade.
― Tem algo errado com ele ― comentou atraindo a atenção de Kitty.
― Como assim?
― Ele parece estar sempre… com medo. Apavorado até.
― Acho que isso é normal depois de tudo o que aconteceu.
― Normal para qualquer um… menos para ele.
― Não acha que está tendo conclusões precipitadas? Ele mudou depois de tudo.
Joan suspiro e voltou a tentar ler os documentos.
― Talvez … mas isso é o que me preocupa. Ele nunca faz isso sob condições normais e nunca reage bem às próprias mudanças.
― Acha que ele está perdendo o controle? ― Kitty questionou lançando um olhar preocupado ao homem na cozinha.
― Acho que está bem perto…
Joan não desviou o olhar dos papéis, mas sua mente já estava bem distante dali. Poderia ser sua imaginação? Não, conhecia Sherlock bem o suficiente para ter certeza. Algo estava errado e não dentro dos limites da normalidade estranha na qual classificava para Sherlock. O ex-parceiro estava agitado, da mesma maneira que ficava quando algo o preocupava ou quando estava escondendo algo que sabia ser perigoso demais. Antes achava que era apenas o medo. O bolo, as tentativas de conversa, levá-la ao médico… Sherlock poderia estar com medo de fazer algo errado, poderia apenas estar tentando concertar alguns dos seus muitos erros, agora ela tinha certeza que havia mais por trás disso.
― Devo falar com ele? ― perguntou de repente.
Kitty ergueu uma sobrancelha, questionando o obvio.
― Não vou me estressar ― Joan garantiu. ― O máximo que pode acontecer é ele não responder nenhuma das minhas perguntas e eu desistir.
A garota maneou a cabeça e em seguida cedeu, dando de ombros.
― Não insista tanto. O bebê em primeiro lugar.
Joan suspirou e abandonou os papeis. Um segundo depois Kitty estava de pé, segurando sua mão, para ajudá-la a ficar de pé. Agradeceu com um sorriso e se aproximou do homem sentado a mesa.
― Sherlock.
Ele parou imediatamente, como se a voz dela fosse um botão que o impedia de se mexer quando acionado, e a olhou com urgência.
― O quê? Algum problema? Está sentindo alguma coisa? Se quiser podemos voltar-
― Sherlock ― Joan o interrompeu confusa. ― Fica calmo. Estou bem. Não há nenhum problema.
Ele suspirou nitidamente aliviado, o que só a deixou mais confusa. Então subitamente ela se aproximou e fechou todos os livros que estavam sobre a mesa, em seguida os afastando.
― O que está acontecendo? ― perguntou com a sua melhor expressão séria.
― Como? ― Sherlock esboçou a sua melhor expressão confusa.
― Não me faça insistir, Sherlock. Não quero me estressar ― Joan franziu o cenho e o olhou de forma sugestiva.
Como um estalo, a confusão sumiu do rosto de Sherlock e foi substituída por algo que parecia... culpa.
― Sherlock...
― Eu estou me esforçando, Joan. Watson. Eu juro ― ele subitamente se levantou, começando a andar em círculos e gesticulando furiosamente as mãos. ― Procurei por aquela maldita mulher por meses, em todos os lugares! Simplesmente não sei como ela voltou... bem embaixo do meu nariz! O que mais ela quer de nós? Não já nos tirou o suficiente? Não foi o suficiente?
Joan se limitou a ficar na sua frente e segurar suas mãos, forçando-o a parar. Sherlock estava ofegante e com os olhos vermelhos, por um motivo que ela não conseguia identificar com clareza. No entanto, o problema agora era claro como o responsável pelo crime pelo o qual ele fora chamado mais cedo.
Tudo se tratava de Andreia Berns.
― Quem ela matou? ― perguntou suavemente.
― Gillian Boston, mas não importa. O que importa é que elas morreram por incompetência minha!
― Você fez tudo o que pôde.
― Sabe que não.
Sherlock suspirou e Joan sentiu a derrota no outro, curvando seus ombros e seus olhos. Compreendeu o sentimento, em parte, e sentiu pena. Não era sua intenção sentir algo naquele momento, mas era inevitável, estava tão envolvida na história quanto ele, até mais se parasse para pensar em tudo o que tinha acontecido. Como poderia ignorar?
Respirou fundo e o abraçou, da melhor maneira que conseguiu.
Para o seu assombro escutou um soluço, sentindo o homem tremer em seus braços. Sherlock estava chorando.
― Me perdoe... ― ele pediu com a voz falha contra seu ombro, abafada por causa da posição em que se encontrava. ― Me perdoe, por favor, me perdoe. Eu... eu prometi paz e... agora, merda, eu não capaz...
Joan se afastou e o encarou com os olhos arregalados, assustada com a reação. Segurou o rosto deles entre suas mãos e o forçou a encará-la.
― O que está deixando você assim, Sherlock? O que viu lá? O que tinha na maldita casa em que visitou?
Sherlock rapidamente negou com a cabeça e voltou a segurar as mãos delas, afastando-as de seu rosto.
Subitamente a mente de Joan processou algumas palavras anteriores dele.
― Elas?
― O quê? ― Sherlock questionou.
― Me deu um nome, mas você disse “o que importa é que elas morreram”.
Os olhos de Sherlock cresceram com a compreensão e ele ainda segurou as mãos dela, tentando impedi-la, mas Joan já estava se afastando.
― Não... não precisa ver isso.
Joan voltou a se aproximar da mesa e alcançou a pasta do caso mais recente em um segundo, jogando seu conteúdo sobre a mesa.
Paralisou sentindo algo despencar dentro de si.
Sherlock não havia mencionado que Gillian Boston estava grávida e agora Joan encarava as fotos da cena do crime sem realmente precisar. A imagem da mulher desfalecida no chão com a barriga ensanguentada e o bebê ao lado, com o cordão umbilical ao redor do pescoço, já estava gravada em sua mente, possivelmente na parte mais profunda.
― Joan? Tudo bem? ― a voz preocupada de Sherlock a chamou e logo as mãos dele agarraram seus braços com firmeza para afastá-la da mesa.
― Sente aqui. Você está pálida. Respire.
Ela sentou no mesmo sofá onde estava somente minutos antes com Kitty, que logo apareceu com um copo de água nas mãos.
― Vamos, beba.
Joan obedeceu tomando metade da água e respirando fundo em seguida. Tube bem. Estava bem.
― Estou bem, não se preocupem ― garantiu devolvendo o copo para Kitty e olhando para Sherlock. ― Foi apenas... desculpe, eu devia ter escutado você. Não devia ter visto aquilo, não agora.
― Esqueça, o importante agora é se você está bem. Ainda está pálida.
― Juro que estou bem, acho que só preciso descansar.
Em silêncio ele se ofereceu para ajudá-la e em silêncio eles caminharam até o quarto. Sherlock segurou seu braço como se ela fosse desmaiar a qualquer momento e, lado a lado, caminharam lentamente, tomando um cuidado excessivo com as escadas e evitando a bagunça que encontravam pelos corredores.
― Pronto, tente descansar ― Sherlock pediu enquanto a ajudava a sentar na cama.
― Acho que preciso de um banho...
― Pode tê-lo depois, agora descansa. Mais tarde irei trazer seu jantar.
Quando a porta se fechou e Joan se encontrou sozinha no quarto, apenas revirou os olhos e se ergueu com a mesma dificuldade de sempre. Não adiaria o banho.
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