You are my sunshine

5 Quanto tempo até o tempo parar?


Milhões de pensamentos habitavam a cabeça de Quinn.

Nenhum deles era positivo.

Mas o que ela poderia esperar? Acabou de voltar de uma consulta, e o médico disse calmo e com todas as letras que havia um nódulo acima do seio esquerdo e que exigia uma mamografia, para analisar o resultado com calma.

Ela tinha 23 anos, uma saúde aparentemente perfeita, e mesmo assim estava tremendo por dentro.

Temia por Beth... sua pequena miniatura, que com seis anos era tão sapeca, interativa e amável. Temia por Rachel, a mulher que amou mais que a própria vida, que a fez descobrir o que era se apaixonar de verdade, que ama sua filha como se dela fosse... temia por tudo.

E agora, por esse cachorro que viajava no banco da frente do carro, com a cabeça parcialmente para fora. Sua língua caia da boca e o vento entrava, ele parecia gostar disso. Sinatra... Quinn poderia se acostumar com esse nome. Até colocou Fly me to the moon pra tocar no carro enquanto voltava pra casa. Havia chorado o suficiente no estacionamento, e agora as lágrimas teriam que parar. Não derramaria uma única na frente de Rachel, Beth, Santana ou qualquer um de seus amigos. Nem do fofo animalzinho que agora insistia em lamber sua mão que trocava a marcha do carro.

Chegou em casa no horário de sempre, colocou o carro na garagem. Rachel e Beth já haviam chego, como de costume.

“Rach?”, ela abre a porta de casa, com o cachorro nas mãos. Ele não parava quieto e Quinn riu do quanto ele parecia desesperado para entrar e conhecer a nova casa.

“Oi, amor”, a morena saiu da cozinha, já sem a roupa do trabalho e com o cabelo preso, levemente desarrumado.

Rachel sorriu, e antes de pegar o cachorro olhou fundo nos olhos da loira. Quinn sentiu um arrepio que fez suas pernas tremerem... A morena a beijou devagar, abraçando seus ombros. Quinn sentiu vontade de chorar por um momento. Sentiu medo, pavor, terror de alguma coisa estar realmente errada a ponto de ela não ter mais isso: Rachel, sua casa, sua família. Suspirou.

“E-Eu trouxe o Sinatra”, Quinn colocou o cachorro no chão e Beth saía da cozinha.

“Um cachorrinho!!!”, ela gritou, animadíssima.

“Ele é tão lindo, Q”, Rachel ficou de joelhos para brincar com o animal, “Bulldog?”

“Bulldog Francês é a raça correta”, Quinn se ajoelhou também, tentando fazer o cachorro parar de lamber o rosto de Beth, “Ele estava no canto dele, parecia triste até. Mas bastou alguns carinhos pra ele se folgar comigo”

“Eu amei, mamãe”, Beth abraçava o cachorro, acariciando sua cabeça, “Como é o nome dele?”

Rachel olhou para a loira, pedindo ajuda silenciosamente, “Bom... você tem algum nome em mente, docinho?”

“Hmmm”, Beth colocou o dedo no queixo, pensando, “Ele é menino?”, perguntou com inocência.

Quinn sorriu, “É sim, meu amor”

“Então, não sei”, a pequena respondeu rapidamente, “Se fosse menina eu queria Coralina”

As duas mulheres gargalharam.

“Podemos chamá-lo de Sinatra?”, Rachel perguntou esperançosa. Havia gostado do nome, ele combinava com a carinha do cachorro.

Beth analisou o animal por um momento, “Pode ser”, ela se levantou e foi até as escadas, “Sinatra!”

O cachorro demorou um pouco ao perceber que Beth queria sua atenção, mas finalmente se rendeu aos chamados da pequena. Corria de uma maneira estabanada e engraçada, que fez Beth gargalhar abertamente. Quinn e Rachel observavam a cena suspirando, com um sorriso de leve nos lábios.

“Vamos ter trabalho?”, Quinn perguntou baixinho, brincando.

“Você vai ter trabalho, amor”, Rachel respondeu rindo, se abaixando novamente para brincar com o cachorro, “Ele pode dormir na nossa cama?”

A loira segurava uma gargalhada, e olhava fixo para os olhos de Rachel. Ela não sabia se a morena estava brincando ou não.

“V-Você quer que ele durma na nossa... cama?”, Quinn gaguejou e Rachel soltou o animal para ficar de pé outra vez.

“Claro que não, amor”, ela gargalhou alto, “Mas a sua cara foi impagável”

Quinn revirou os olhos, abraçando a morena pela cintura. Beth ainda brincava com o cãozinho, que insistia em lamber seu rosto e mãos. Não que Quinn odiasse cachorros, ela os achava bonitinhos e tal. Mas pensava no trabalho que iria ter, em monitorar Beth e o cachorro para não compartilharem comida, saliva e mostrá-lo como não fazer suas necessidades dentro de casa. Seria uma guerra a principio. Mas com o tempo tudo se ajeitaria.

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Quinn estava na frente da porta do laboratório onde faria o exame de mamografia.

Ela sabia que deveria entrar logo, pois tinha hora marcada e depois ainda visitaria seu médico para levar os resultados. Mas seus pés não se moviam. O dia inteiro ela estava protelando suas ações, como se isso fosse adiantar algo, fazer suas responsabilidades desaparecerem. Era a forma que seu cérebro encontrou para não entrar em colapso – algo que aconteceria dependendo do resultado desse exame.

Parte de si começou a se culpar por esconder isso de Rachel. Ela nunca sequer hesitou em esperar ou não contar algo para a morena. Confiava nela com sua própria vida, confiava para cuidar de Beth como ela própria. Porém, Quinn estava sentindo que algo estava errado, e não queria que Rachel se sentisse assim também. Não sem provas e certezas. Era uma situação atípica e Quinn estava a odiando com todas as suas forças.

“Boa tarde”, Quinn chamou a recepcionista assim que conseguiu coragem para entrar, “Meu nome é Lucy Quinn Fabray, eu vim fazer... a mamografia”

“Ok, senhorita Fabray. Aguarde alguns instantes e eu já irei chamá-la”, a recepcionista responde gentilmente.

Quinn se senta e olha ao redor. Algumas mulheres olhando revistas aleatórias, outras prestam atenção à TV e uma tem uma criança pequena no colo. Nenhuma delas parece ter a mesma idade de Quinn ou mesmo próximo: a maioria tem seus cabelos brancos e o resto parece estar na casa dos trinta anos. Outro arrepio gelado corre sua espinha. Eles haviam se tornado frequentes de um tempo pra cá.

“Quinn Fabray”, ouviu a médica chamá-la. Pegou sua bolsa e foi até a porta onde a mulher indicava.

“Boa tarde, Quinn”, a médica disse assim que Quinn se sentou, em uma cadeira de frente para ela.

“Boa tarde”

“Eu sou a doutora Julia. Essa máquina aqui”, a mulher se apoiou no aparelho enorme e estranho, “É o mamógrafo, e ele parece um raio-x, porque ele age como um. O raio-x atravessa a mama e o sinal proveniente da ampola é transformado em imagem que vai direto para o meu computador”, ela aponta para o notebook em cima da mesa, “Essa imagem detecta lesões, até mesmo as lesões minúsculas”

“Oh...ok”

“Você está pronta para o exame agora?”, a médica pergunta com delicadeza.

“Sim”, Quinn se levantou, deixando sua bolsa na cadeira. Tirou a blusa e o sutiã, um pouco constrangida. Recebeu um sorriso acolhedor da médica e se moveu para perto da máquina.

“Você pode chegar mais perto”, a médica sorriu, tentando ser simpática. Ela sabia como esse exame era ruim física e psicologicamente.

Quinn colocou o seio esquerdo entre as duas placas indicadas, e sentiu dor quando a médica fechou a placa de cima, para “esmagar” mais o seio.

“Eu sei que isso é desconfortável, mas dura apenas alguns segundos. Apertar a mama é necessária para que ela fique com a espessura uniforme”, a médica falou enquanto Quinn ouvia atentamente, tentando esquecer a dor no seio, “Ao natural, a mama é mais espessa próxima ao tórax e mais fina próxima ao mamilo. Se o exame fosse realizado assim provavelmente daria resultados imparciais ou negligentes”

“Tudo bem”, Quinn engoliu seco, rezando silenciosamente para aquilo acabar logo.

A médica arrumou um pouco a direção do raio-x e moveu o seio da loira para acompanhar o aparelho. Sentou-se em sua mesa e iniciou o trabalho no computador. Quinn se sentiu estranha, invadida e triste. Era um exame que, para pessoas acima de 40 anos, deve ser realizado anualmente, pois a chance de aparecer algo é relativamente grande. Mas Quinn não tinha 40 anos, estava muito longe disso. Sua vida era saudável e ela não tinha hábitos depreciativos. Sua gravidez foi tranquila, sem muito stress ou choques. Sua vida não era perfeita, mas ela amava a forma como se encontrava hoje. Não era uma adolescente com medo e incerta sobre o futuro, tinha um emprego, bom salário, estabilidade. Tinha uma família linda e muitos amigos. Tinha boas lembranças de sua vida. Isso não poderia acabar, não assim tão de repente e injustamente.

Quinn estava perdida em seus pensamentos e lutando contra algumas lágrimas. Se assustou quando a médica se posicionou ao seu lado.

“O exame acabou, Quinn”

A loira levou um susto, mas assim que a compressa onde estava seu seio foi aberta, se apressou em colocar o sutiã e a blusa. Queria sair dali, o ambiente estava a sufocando.

“As imagens sairão em 10 minutos. Eu aconselho você a não abrir o resultado, apenas sob a presença de seu médico, tudo bem?”

“Sim”, ela respondeu, com a garganta seca.

Quinn voltou para a recepção, tomou um gole dágua e tratou de se acalmar. Ainda era de tarde, faltava algumas horas até ir pra casa e encontrar Rachel e Beth. Elas combinaram de se encontrar com Brittany para irem até uma escola de dança para crianças. A pequena estava louca para começar a ter aulas, e Brittany havia encontrado a escola certa, que não era muito longe de onde elas moravam e o preço era acessível.

Pouco mais de dez minutos se passaram quando a recepcionista chamou Quinn outra vez. Ela entregou o resultado do raio-x nas mãos da loira, que foi até seu carro segurando-o como se pesasse duzentos quilos. Dirigiu até o consultório de seu médico com o aperto no coração ainda mais forte... seu destino estava ali, e o médico iria interpretá-lo. Se havia algo de errado, como a loira pensava, se era grave ou não. Se mudaria toda sua vida ou se Quinn poderia voltar a viver normalmente como estava fazendo semanas atras...

Engoliu a bola que se formou em sua garganta e entrou no segundo consultório do dia. Se surpreendeu: foi ainda mais difícil do que a primeira vez. Suas pernas pareciam não ter força, uma leve tontura se fez presente e Quinn teve que entrar para se sentar, caso contrário desmaiaria.

Depois de alguns instantes, foi chamada pelo médico.

“Olá, Quinn”, ele cumprimentou simpático, apertando a mão da loira.

“Boa tarde, doutor”, Quinn devolveu, se sentando em frente a ele.

“Vejo que fez a mamografia que indiquei”, ele fez menção de pegar a pasta que Quinn carregava.

“Sim, sim...”, ela engoliu seco.

O médico se levantou e levou o resultado do raio-x até a parede, onde ligou uma luz para ver o cartão negro melhor. Uma vez que a luz foi ligada e o seio de Quinn apareceu sob o raio-x, o estômago da loira saltou. Estava lá. Estava lá, um pouco acima do mamilo e perto da axila, um maciço círculo branco que era pouco maior que uma cereja. Estavá lá! Por Deus!

“Doutor!”, Quinn se levantou e foi até o lado do médico. Sua mão suava frio, seu corpo estava em choque.

O médico analisou mais alguns instantes em silêncio, ignorando a reação da loira. Ele tinha notícias difíceis a dizer e analisava a melhor forma de dá-las.

Depois de mais um tempo, analisando a placa que tinha em suas mãos, o médico fez menção para Quinn se sentar.

“Quinn, analisando o resultado da mamografia, eu vou lhe explicar devagar e claramente o que pude ver, ok?”

“Sim”, ela respondeu nervosa.

“Quando você tiver dúvida no que eu vou dizer, por favor, me pergunte na hora. Você não deve sair daqui com quaisquer questões não resolvidas, ok?”

Quinn sentia as lágrimas chegando aos olhos, “Sim, doutor”, respondeu, derrotada.

“Quando eu fiz o exame de toque em você eu havia percebido um crescimento exacerbado de um ducto na mama, que era inchado demais pra estar ali. Mas literalmente poderia ser qualquer coisa”, ele explicava com calma, “desde leite empedrado até um vaso sanguíneo estourado. Com esse raio-x, eu pude ver que não era algo tão simples”

Quinn ouvia atentamente ao médico. Tentava organizar todas as palavras que ele dizia para fazer sentido em sua cabeça, em seu coração.

“O que você tem, Quinn, é algo chamado Carcinoma Ductal Invasivo. É o tipo mais comum de câncer de mama. Ele se inicia no duto de leite, rompe a parede desse duto e cresce no tecido adiposo da mama. A partir daí, ele pode se espalhar para outras partes do corpo por um processo que chamamos de metástase, através do sistema linfático e da circulação sanguínea...”

O coração da loira parecia saltar pela garganta. Então era isso. Ela tinha algo, e esse algo era gravíssimo. Ela tinha uma droga de nódulo em um duto dentro do seio, que talvez se espalharia para o resto de seu corpo. Ela tinha câncer. Câncer, pelo amor de Deus...

“Doutor”, ela retomava a consciência, “Câncer?”, Quinn perguntou, levando a mão ao coração para tentar se acalmar. Sua voz era um resquício e as lágrimas já fluiam em seu rosto.

“Existem vários tipos de câncer, Quinn, mas para simplificar, podemos separá-los em invasivos ou infiltrantes ou não invasivos. A diferença entre eles está na capacidade de invasão ou infiltração em tecidos adjacentes ao tumor e assim eles atingem órgãos distantes do local original do câncer. Você tem um tipo que não é raro, pelo contrário, é comum. Apesar de ser invasivo, isso não quer necessariamente dizer que haverá metástase do nódulo, principalmente agora que descobrimos cedo”

“C-Cedo?”, Quinn consegue perguntar entre as lágrimas.

“Seu nódulo está no estágio 2, Quinn. Isso quer dizer que ele invadiu a região local, mas possui entre dois e cinco centímetros. Isso é considerado cedo, patologicamente falando. Estamos em vantagem contra isso, Quinn”

“Como... como eu tenho isso?”, Quinn se ajeitou na cadeira, “Eu quero dizer... eu não fumo, não uso drogas, tenho uma vida saudável, sou jovem...”

“Você é um caso fora das estatísticas, Quinn. O câncer de mama é muito raro antes dos trinta e cinco anos. A mamografia é indicada para ser feita anualmente após os quarenta, mas dos trinta e cinco até lá é mais comum. Antes disso é raro, mas pode acontecer. Não sabemos as razões para isso, já que toda a lógica aqui está contra nosso favor para entendermos. Porém, detectamos isso cedo, e isso é bom. Os nódulos crescem ao longo do tempo, e geralmente as mulheres só percebem quando estão grandes demais e já invadiram outros tecidos. No seu caso, você sentiu alteração de superfície e viu que tinha algo errado. Isso foi imprescindível, Quinn”, o médico explicava com a voz esperançosa. Ele odiava dar notícias como essa, simplesmente era a pior parte de seu trabalho.

“Eu...”, Quinn suspirou, chorando forte, “Não sei o que dizer”

“O que eu aconselho a você agora, Quinn, é procurar sua família. Você é casada?”

“Eu moro com a minha filha e namorada”, ela consegue responder, entre os soluços. Estava envergonhada por chorar copiosamente na frente de seu médico, mas não conseguia evitar.

“Então eu sugiro que você conte para sua família, quando se sentir segura, e para seus amigos mais próximos. Eles lhe darão a força que você está precisando. Eu sei que não é fácil receber uma notícia dessas, e particularmente, eu odeio essa parte do meu trabalho”, Quinn olhou para o médico e viu que ele estava sendo verdadeiro, “Mas agora que detectamos o que está lhe causando mal, devemos iniciar o tratamento correto e decisivo”

“Qual tratamento eu devo fazer? Eu... não sei muito sobre isso”

“Eu recomendo a quimioterapia para você, Quinn. É a arma mais potente para essa batalha antes da cirurgia. Ela é realizada através de drogas injetadas na circulação que matam as células cancerosas alojadas na mama e também aquelas que alcançaram outros órgãos por metástase. É uma tentativa de diminuir o volume do nódulo para proporcionar uma cirurgia menos agressiva”

“Cirurgia?”

“A cirurgia é uma parte do tratamento curativo, Quinn. Ela consegue retirar o tumor com uma boa margem de segurança. Analisamos o tamanho do tumor e o tamanho da mama para fazer uma mastectomia, que é a resseção completa do seio, geralmente seguida imediatamente de uma cirurgia de reconstrução. Cabe a você decidir, mas aconselho não pensar nisso agora. Alguns sintomas devem aparecer, mas como sabemos o que há, eu vou te indicar remédios para enjoos e fraqueza. Seu apetite deve ser alterado, você deve emagrecer alguns quilos com o passar do tempo. Seu cabelo vai ficar quebradiço e liso demais, por isso eu te indicarei outro remédio para fortalecer o sistema imunológico. Mas o que eu quero, Quinn, é que você consiga força psicológica e afetiva. Você não deve e não pode passar por isso sozinha, está bem?”

“S-Sim...”, a loira respondeu, limpando as lágrimas.

O médico receitou os remédios, disse para Quinn marcar novas consultas para eles iniciarem os exames antes de expôr a loira na quimioterapia. Quinn saiu do consultório pouco depois de meia hora. Seu corpo parecia estar no automático; ela não sentia muito bem as coisas ao redor. Fechava os olhos com força, rezando para que as últimas semanas não passassem de um sonho ruim. Que ela acordaria com Rachel fazendo carinho em sua cintura, e a puxaria para um gostoso beijo de bom dia. Que a possibilidade de Quinn ter um câncer naquela idade era apenas uma piada de mal gosto.

Ela entrou no carro e chorou outra vez. Chorou audivelmente, sem se importar com quem passava no estacionamento. Ela merecia aquelas lágrimas, era sua forma de rendição. Ela iria lutar com as armas que tinha, mas seria forte o suficiente? Ela passaria por essa fase? Venceria contra algo que poderia matá-la?

Quinn pegou o celular que estava dentro da bolsa e colocou na agenda. Seguiu até a letra J, onde o nome de sua mãe estava anotado. Limpou as lágrimas que caíam e ligou.

Levou o telefone até o ouvido e ele começou a chamar. Seu coração dava saltos dentro do peito, sua respiração artificial parecia confundir seu cérebro ainda mais. Ela conseguiria falar com sua mãe? A mulher que a criou, que era amável e boa avó, pelo menos no tempo em que Quinn não namorava com Rachel. Se ela soubesse... Se Judy conseguisse vencer seus próprios preconceitos e formar uma opinião verdadeira, baseada em fatos reais. Se visse como Beth era a criança mais feliz do mundo com suas duas mães amorosas e cuidadosas...

Sete chamadas depois, e Judy continuava não atendendo. Ela sabia que era Quinn, caso contrário atenderia. Quinn já ligou uma vez de um telefone público e sua mãe atendeu, mas assim que ouviu a voz da filha, desligou. Ela não queria passar por isso de novo, não hoje. Seria como chutar alguém que já está no chão, e Quinn não precisava dessa auto depreciação. Se sentiu tão sozinha... como nunca havia se sentido antes, mesmo quando foi chutada de casa por descobrir que estava grávida. Sentiu uma solidão intensa e perigosa. Queria manter isso em segredo, mas que consequências isso traria? E por quanto tempo? Nem ela sabia mais quanto tempo tinha...

Quinn precisava pensar. Arquitetar como seria sua vida a partir de agora. Organizar seus pensamentos. Administrar seus próximos passos. E pra isso, Santana iria ser a pessoa certa.

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“Oi, B”, Santana respondeu assim que seu telefone tocou, “Tá tudo bem, amor. Eu estou com a Quinn aqui...”, ela olhou em volta, “perto do trabalho dela. O carro da Q quebrou outra vez”

Quinn se sentou na cafeteria onde chamou Santana. Era em um bairro afastado de casa e do trabalho, e as chances de encontrar algum conhecido seria pequena. A loira não conseguiu ligar para Rachel, pois sabia que no instante em que ouvisse a voz dela cairia em um choro audível e teria que explicar o motivo. Preferiu mandar uma sms dizendo que o carro quebrou outra vez e para Beth e ela irem com Brittany até a escola, porque Quinn chamaria Santana para ajudá-la. O que não deixava de ser verdade. E desligou o celular, alegando que sua bateria havia acabado assim que conseguiu chamar a latina.

“Beth e Rachel estão aí com você?”, Santana pergunta ao telefone, “Então quando elas chegarem avisa que a Q está bem, e que eu vou levá-la pra casa, mas não sei a que horas. O mecânico do carro não especificou um horário”, ela ficou em silêncio alguns instantes, “Eu também te amo, meu amor. Um beijo”

Santana se sentou de frente para a amiga. Elas estavam na rua, embaixo de um toldo. O estabelecimento parcialmente vazio, devido ao horário. Quinn engoliu seco. Ela havia se arrependido de ter ligado para Santana pelo menos cinco vezes desde que a latina chegou. Estava em uma constante guerra em sua cabeça: fazer silêncio, por quanto tempo, para quem, adiantaria alguma coisa... Essas perguntas estava a martirizando.

“O que houve, Q?”, Santana tomou um gole do café que a loira pediu, “Eu sei que tem algo de errado. Você pediu pra eu vir te buscar mas seu carro nem está no mecânico. E eu tenho a impressão de que você está escondendo algo principalmente da Rachel, porque senão aquela tagarela já tinha aberto a boca”, ela olhou fundo nos olhos da loira, “Então, vai... desembucha. Aconteceu alguma coisa, certo?”

Quinn sentiu as lágrimas queimarem os olhos. Ela não queria chorar mais, o que parecia impossível. O tom de voz preocupado da latina fez uma bola se formar em sua garganta.

“Sant, eu...”, Quinn suspirou, “Aconteceu uma coisa, mas eu preciso que você guarde segredo. Eu exijo que você me prometa não contar a ninguém sobre isso, porque eu não estou preparada, S, eu não...”, ela começou a chorar copiosamente e Santana arregalou os olhos, assustada. Se levantou e colocou sua cadeira ao lado da loira, para que pudesse abraçá-la.

“Pelo amor de Deus, Quinn, me conta o que tá acontecendo!”, Santana suplicou, preocupada, “É algo com Beth?”, questionou, sabendo que qualquer coisa com a pequena sempre afetava Quinn até mais que o normal.

“Não, S, é algo comigo...”, Quinn se rendeu e começou a chorar no ombro da amiga. Santana acariciava o cabelo da loira, segurando seu corpo que parecia fraco e frágil. As pessoas ao redor começaram a lançar olhares, mas Santana não se preocupou e tentou ignorá-los.

“Me fala, Quinn... Por favor”, Santana disse baixinho. Quinn chorava como a latina nunca viu em toda a sua vida. Nem quando teve Beth outra vez em seus braços ela chorou assim. Era um pranto diferente, de felicidade. Esse era como se Quinn estivesse sendo esmagada e sufocada.

Alguns minutos se passaram para que Quinn pudesse se acalmar. Santana aguardou pacientemente, mas conhecia a loira. Ela iria querer fugir do assunto. Provavelmente, pensava que chamar a latina para compartilhar o que lhe afligia foi um erro. Mas Quinn não ia fugir dela. Ela só iria para casa depois de contar tudo, com detalhes. Por mais dolorosos que eles pudessem parecer.

“Q...”, Santana buscou os olhos da amiga, “Agora que você está mais calma, me fala. Desde o começo”

Quinn levantou o rosto e viu que Santana não ia deixar passar esse momento. Amaldiçoou o fato da latina conhecê-la tão bem.

“Você se lembra que eu passei mal essa semana?”, ela conseguiu explicar, com a voz ainda fraca, “Eu passei mal há algumas semanas e há alguns dias isso aconteceu no trabalho”

“Eu lembro, Q, eu fui buscar você e você quase vomitou no meu carro”, Santana respondeu séria. Sua atenção estava totalmente voltada para a loira.

“Há algumas semanas eu estava terminando de tomar banho e me olhei na frente do espelho. Toquei no meu seio esquerdo e percebi que havia algo diferente ali. Não sabia dizer exatamente o que, mas... Parecia um caroço. E também a pele ao redor estava diferente”

Santana franziu a testa. Não. Não. Não, não pode ser. Ela não queria ouvir o resto. Pela lógica, o desespero de Quinn antes de contar isso e pelo caminho que essa conversa estava levando... não. Santana engoliu seco.

“Eu marquei um médico e... ele fez um exame rotineiro, de toque. Mandou eu fazer uma mamografia para verificar o que havia de errado, porque segundo ele, poderia ser qualquer coisa. Desde uma veia até um caroço de verdade”, Quinn respirava fundo. Estava admirada com sua força ao contar isso para a amiga. Percebia suas reações e sabia que Santana estava segurando para não chorar.

“Quinn...”, Santana suspirou, fechando os olhos.

“Eu fui fazer esse exame hoje...”, Quinn disse com dificuldade, sentindo o choro voltar.

“Quinn, por favor...”, uma lágrima solitária deslizou no rosto da latina, “O que você tem? É algo grave? O que você tem, Quinn?”, ela elevou a voz. Seu coração batia com violência dentro do peito. Isso estava mesmo acontecendo?

“Eu fui diagnosticada com câncer”, Quinn disse baixinho, e se Santana não estivesse prestando completa atenção provavelmente não ouviria, “Um tipo mais comum, que costuma afetar as mulheres mais facilmente”

“Quinn, não!”, Santana respirou fundo e colocou a mão nas têmporas, massageando levemente, “Por favor, diz que isso é mentira”, ela sussurrou, “Diz que é mentira”

Quinn chorava, a dor de dizer aquelas palavras se tornava pior quando ela as dizia para alguém. Santana deveria saber, deveria ajudá-la a lidar com isso. Quinn queria achar alguma maneira de poder falar com Beth e Rachel sobre isso, e a latina era a pessoa que, como forma de gratidão à sua amizade, ajudar. Não importa o quanto Santana se negasse, e Quinn sabia que ela se negaria. Sempre que Santana recebia notícias ruins, sua primeira reação era se fechar em seu próprio mundo. Mas Quinn precisava de alguém, e esse alguém era ela.

“Como você pode ter isso? Você tem 23 anos, Quinn!”, Santana quase gritou, o que chamou atenção das pessoas ao redor, “Como você tem câncer? Isso está acontecendo?”, ela perguntava desesperada.

Quinn a abraçou, sentindo o conforto do abraço quente da amiga. Tantos sentimentos corriam pelo seu corpo nesse momento... Sentiu a latina apertar com força suas costas e molhar seu ombro com lágrimas quentes, as mesmas que Quinn derramava.

“Eu preciso que você me ajude, S”, Quinn sussurrou, ainda abraçada a Santana, “Eu preciso contar para Rachel, Beth e Britt, mas eu não posso fazer isso sem você”

“Quinn...”, Santana lamentou chorosa, “Eu não sei o que dizer...”

Quinn separou seus corpos, mas manteve a mão no ombro da latina. Santana chorava como uma criança, fora atingida em cheio por aquela notícia.

“Eu também não consigo acreditar que isso está acontecendo, S...”, Quinn sussurrou e Santana parou. Um baque a atingiu pela segunda vez naquele dia. Isso era sobre Quinn, não sobre ela. A loira não deveria estar a consolando, e sim o contrário. Se sentiu mal por ser tão egoísta sobre isso.

Santana pegou a mão da loira que ainda pousava em seu ombro e colocou carinhosamente entre as suas.

“O que o médico disse exatamente, Q? O quão grave é isso?”, perguntou mais calma e séria.

Quinn se surpreendeu, “Bom... ele disse algo sobre o ser o tipo de câncer mais comum, que é o invasivo, pode se alastrar para outros tecidos e órgãos. Mas como foi diagnosticado com antecedência, está no estágio 2, com poucos centímetros”, ela limpou algumas lágrimas.

“E o tratamento? Como você vai se livrar dessa coisa?”, Santana fechou os olhos, rezando para não ouvir a palavra quimioterapia.

“Quimioterapia”, Quinn limpou uma lágrima que descia pelo rosto da latina, “Primeiro alguns remédios, depois a quimioterapia, depois a cirurgia para retirar o tumor”

“Eu não estou conseguindo acreditar nisso, Q”, Santana sussurrou, se entregando às lágrimas outra vez.

“Eu também não, S”, Quinn chorou outra vez, sentindo a amiga passar os braços por seus ombros para trazê-la a si.

As duas permaneceram abraçadas, enquanto uma leve chuva começava a cair.

Notas finais
comentem :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.