A cerimônia tinha sido linda. Lágrimas não haviam sido poupadas, principalmente as de Feliticy, que quase chorou como um bebê ao ouvir a mãe dizer "sim" com os olhos brilhando.

Depois de os noivos se beijarem e saírem felizes pelo altar de baixo de uma chuva de pétalas de rosas, todos se dirigiram para o salão da mansão Queen, um espaço grande e luxuoso, para apreciar o jantar que estava maravilhoso. Agora que a festa estava iniciando de fato, e não iria acabar tão cedo. Casais dançavam pelo salão com suas roupas chiques, o que fez Felicity imaginar que se um dia fosse a algum baile da realeza, certamente se pareceria com aquilo.

Walter andava com Donna agarrada ao seu braço, apresentando-a a todos e recebendo os parabéns. A maioria dos convidados conversava animadamente em suas mesas, outros ainda estavam comendo. Ray e Felicity estavam sentados, discutindo.

– Ray, você me prometeu! Não vai beber esta noite. — Ela soava brava, muito brava.

– Felicity, é um casamento! Apenas uma taça e prometo que paro. Vamos apenas brindar aos noivos, o que acha? Posso me controlar. — Ele segurava suas mãos e a olhava, praticamente lhe implorando.

– Só uma! — Ela cedeu, devido à falta de paciência para discussões. Eles brindaram, e Ray disse que iria conversar com alguns possíveis parceiros de negócios. Alguns minutos depois ela se levantou e começou a andar pelo salão, se sentindo extremamente sozinha e rezando para encontrar alguém que conhecesse.

Estava parada perto de uma mesa cheia de drinks, cada copo decorado com um morango, e ela não resistiu. Não gostava muito de bebidas, mas pegou uma apenas pela fruta, e em seguida, discretamente, os morangos de todos os copos começaram a sumir. Estavam divinos!

– Desistiu de atacar mercados indefesos para virar uma promissora ladra de morangos? Você tem um futuro brilhante! — A mulher levou um susto, dando um passo para trás e batendo o quadril na quina da mesa. — Não precisa se assustar, sou bom em guardar segredos.

Oliver estava parado na sua frente, e um maravilhoso terno cinza, com um olhar divertido em seu rosto e uma taça de vinho na mão.

– Ai meu deus, você é cara do mercado! Aai isso doeu. — Falou, passando a mão onde havia se machucado. O homem tinha um sorriso travesso em seus lábios.

– Oliver. É um prazer reencontrá-la. — Tomou sua mão na sua, e lá depositou um beijo leve. Felicity sentiu o corpo inteiro arrepiar.

– Felicity, e o prazer é meu. Quer dizer... Você já me conhece, não preciso falar meu nome de novo. A não ser que tenha esquecido, é claro, neste caso... Bom, você já sabe. — Ela sentiu seu rosto queimar. — E eu não estava roubando morangos, estava apenas... hmm...

– Roubando morangos? — Ele completou antes que ela arranjasse alguma desculpa. Não conseguia parar de observá-la desde que a viu se esgueirando para a primeira fileira de cadeiras durante a cerimônia, bem perto de onde estava. Ela aparentemente não o vira, mas ele... Não conseguia desviar seus olhos da loira. Ela estava linda, de um jeito que nenhuma mulher conseguiria estar. Seu vestido revelava uma boa porção de pele, os cabelos estavam presos em um coque bagunçado e com pequenos cachos, e a boca carregava um divino batom vermelho.

– Bom, é. Mas você não vai contar pra ninguém. — Ela trazia um olhar de superioridade em sua feição, como se soubesse de algo que ele não sabia.

– Como pode ter tanta certeza? — Ele tomou um gole de vinho, sem tirar seus olhos dos dela.

– Você disse que é bom em guardar segredos, lembra?

– Ah, certo. — Ele mal lembrava do que tinha falado segundos atrás. Estava distraído pelo seu rosto, seus olhos, sua boca... Balançou a cabeça, clareando a mente. — Então, o que te trás aqui?

– Sou filha da noiva. E você?

– Sou filho da dona da casa.

– Faz sentido...

Estavam ambos escorados contra a mesa, observando o andamento da festa. Havia tanto para saber um sobre o outro, mas nenhum dos dois parecia saber como continuar a conversa, que parecia ter morrido ali. Um silêncio constrangedor se instalou entre os dois, deixando Oliver quase maluco. Inexplicavelmente, ele queria ficar perto dela, ouvir sua voz...

Felicity comia mais um dos morangos em suas mãos, sem saber o que fazia ali, ao lado de um quase desconhecido, que aparentemente queria mudar este rótulo. Geralmente ela se sentiria desconfortável em uma situação assim, quando Ray não estava por perto e um outro homem tentava flertar com ela, mas não agora. Não sabia nada sobre ele, mas sentia-se confortável em sua presença, como se fosse alguém com quem convivera uma vida toda. Exceto por aquele silêncio esquisito.

– Quer dar uma volta? — Ele perguntou subitamente, a arrancando de seu devaneio.

Ela sabia que não devia, Ray não gostaria, não sabia bem porquê... Era só um convite amigável, certo? Olhou para seu marido, que estava no meio de uma conversa animada com um senhor de meia idade, e parecia ter esquecido completamente dela. Cedeu à sua vontade.

– Sim, pode ser. — Dirigiu um sorriso ao homem ao seu lado, que lhe estendeu o braço, no qual ela apoiou o seu, e os dois saíram do salão.

A noite não poderia estar mais linda. A lua cheia e alta no céu iluminava o caminho de pedras pelo qual seguiam. Ia direto para a fonte com os muros de hera à sua volta, que pareciam muito mais altos de perto. Depois deles não havia muito o que se pudesse ver, estava escuro e silencioso, o lugar se assemelhava a um labirinto.

Felicity se pegou pensando o que estava fazendo ali, com um homem que mal conhecia, no escuro e sozinha. Ela não sentia medo, mas sim uma sensação esquisita na boca do estômago.

– Posso saber onde está me levando? — Ela perguntou, curiosa como sempre.

– É um lugar especial, acho que você vai gostar. — Seu rosto estava sério, mas os olhos brilhavam.

– Tem mesmo que ser tão misterioso? Estou começando a ficar nervosa sabe? Afinal, mal nos conhecemos e você pode ser um maníaco ou sei lá.

– Felicity, você acha mesmo que sou um maníaco? — Ele levantou as sombrancelhas, olhando-a de um jeito que a fez sentir como se estivesse despida.

– Não. — Engoliu em seco.

– Então por que está nervosa?

– Eu... Não sei. Não estou acostumada a sair com homens bonitos assim no meio da noite. Quer dizer... Não que eu esteja acostumada a sair com homens feios a qualquer outra hora do dia, ou da noite. Na verdade eu sou casada. — Ela tinha o péssimo hábito de tagarelar quando estava nervosa.

– Ah... — Oliver sentiu o peito pesar de repente. A feição endureceu, e ele voltou a olhar o caminho que se entendia na sua frente. Não que ele estivesse esperando que alguma coisa acontecesse... Tinha acabado de conhecê-la. Mas o que ela acabara de falar o havia incomodado, mais do que deveria. Ele queria apenas conversar, certo? Talvez virassem amigos.

Felicity notou sua mudança de humor e ficou meio sem jeito, e quando isso acontecia, ela tagarelava ainda mais.

– Sabe, quando o vi naquele mercado nunca imaginei que pudesse morar em uma casa como essa. Não que pessoas ricas não precisem trabalhar. Na verdade elas precisam, certo? Ou não seriam ricas. Mas não como ajudantes em mercados, é o que quero dizer. Por que você trabalha lá mesmo? — Oliver gostava do jeito falante dela.

– É um emprego calmo. Gosto de lá... É melhor do que me estressar todos os dias com os assuntos da empresa do meu pai.

– Ah, certo... Mas se quer minha opinião, acho que trabalhar em uma empresa combina muito mais com você. — Ela o olhou apreensiva, seus olhos eram indecifráveis. — Mas que ideia a minha... É claro que não quer minha opinião, me desculpe. É só por causa do terno sabe? Fica muito melhor em você do que aquele uniforme. — Depois disso ela corou violentamente. — Por Deus! Eu deveria calar a boca.

Ele sorria de novo, deliciado com aquelas palavras.

– Quer dizer que gostou do terno Felicity? Ou gostou do terno em mim? — Ele queria ver ela se enrolar com as palavras novamente, era adorável. Olhou-a de forma penetrante. Era impossível não flertar com ela.

– Dos dois, com certeza. — O sorriso dele se alargou.

– Obrigado. Você também está linda esta noite. A mais bonita da festa, me arriscaria a dizer. — Ele falou a última parte como se fosse um segredo, sussurrando perto de se ouvido. Felicity sentiu um frio na barriga, e arrepios descendo por sua espinha.

– Obrigada. — Corou ainda mais, sem conseguir pronunciar qualquer outra palavra. Ele era a primeira pessoa a conseguir silenciá-la dessa forma.

Continuaram seu passeio, e quando Felicity notou já haviam passado pela fonte e se encontravam em um longo corredor formado por altas paredes de hera.

– Esse lugar é um labirinto ou o quê? — Perguntou por fim, sem conseguir se conter.

– Sim, é um labirinto. Ou quase isso. Foi inspirado nos jardins reais do século XVIII. — Ele sentiu a tensão invadir o corpo da moça ao seu lado. — Não se preocupe, não é difícil encontrar a saída, e já estamos chegando.

Depois de mais alguns passos Felicity quase perdeu o ar. Estava no lugar mais lindo que já vira na vida, seus olhos mal conseguiam processar a imagem.