Felicity estava andando para casa, como fazia todas as noites após dar aulas e exercitar sua paciência por três horas seguidas. Não que ela precisasse, é claro... Tinha se casado com um homem de boa família, e dinheiro não era problema. Mas era algo que ela gostava de fazer. Sentia-se bem ajudando as crianças com suas lições no orfanato da cidade. Ela era particularmente boa com números, para uma mulher, e como Ray a proibia de trabalhar, arranjou uma maneira de fazer o que gostava ajudando os outros. Aquelas crianças alegravam seu dia de uma maneira que nenhuma outra coisa fazia. Quase podia sentir seus olhos brilharem enquanto andava pelas ruas de paralelepípedo, vazias àquela hora.

Ela cantarolava baixinho enquanto tentava não pensar no que a aguardava em casa. A felicidade duraria bem mais, não fosse o medo da possibilidade de se deparar com um Ray possessivo e violento quando chegasse.

Ele nem sempre fora assim. Quando se casaram era um homem bom, um marido exemplar, sem defeito algum. Mas ao longo dos meses se tornou algo diferente. Começou a andar com outros amigos do trabalho, voltava tarde, e na maioria das vezes bêbado.

Certa noite Felicity o confrontou, disse que era errado, e que aquilo não lhe faria nenhum bem. Mas Ray não lhe deu ouvidos. Achou uma afronta que uma mulher falasse com o marido daquele jeito, uma falta de respeito sem tamanho, e a agrediu pela primeira vez.

Na manhã seguinte se desculpou, mandou um buquê de rosas com um cartão lindo, e ela achou que aquele episódio nunca mais se repetiria. Mas duas semanas depois aconteceu de novo, e estava cada vez mais frequente.

O pior de tudo era não poder contar a ninguém. A única família que tinha perto era a de Ray, pois sua mãe, sua única parente viva, morava muito longe, e eles nunca acreditariam nela. Ray sempre fora o filho perfeito, só dava orgulho aos pais, nunca se metia em confusões, tirava boas notas, e depois de acabar a escola arranjou um bom emprego. Se ela mencionasse qualquer coisa a chamariam de caluniadora. Além disso, o que as pessoas da cidade pensariam de uma mulher que faz fofocas sobre o próprio marido? Não seria de bom tom dividir nada com ninguém, um dia as coisas iriam se acertar, e eles seriam felizes novamente.

Felicity pôde ver da rua que muitas luzes estavam acesas em sua casa. Isso só podia significar que Ray estava acordado, mas não indicava nada sobre seu humor.

Ela subiu as escadas da varanda lentamente, e abriu a porta se preparando psicologicamente para qualquer coisa. Mas ele não estava na sala, nem na cozinha. Ela ouviu barulhos vindos do quarto, e chamou por ele.

– Ray? Cheguei querido. — Foi até o quarto, e se deparou com uma cena que nunca poderia imaginar. Havia duas pessoas em sua cama, uma delas era Ray. A outra... era Helena. A mulher alta e morena, com olhos azuis penetrantes e belos lábios que trabalhava no correio. Aquilo não podia estar acontecendo! Não podia ser real! — O que é isso???

Os dois se assustaram com sua entrada no quarto, e em questão de segundos pararam de se beijar, Helena fechando os botões de seu vestido, que graças a Deus ainda estava em seu corpo, e Ray a olhando com olhos arregalados, sem saber o que fazer.

– Felicity, eu posso explicar! Por favor, só me deixe explicar! — Ele se levantou, empurrando Helena para o lado, ainda muda por causa do susto.

Felicity lhe deu as costas e voltou para entrada da casa. Antes que chegasse na porta Ray a segurou pelo braço. As lágrimas já começavam a escorrer por seu rosto, tanto de raiva como de tristeza. Apesar de tudo que tinham passado, ela ainda o amava, profundamente.

– Felicity, espere! Eu... Não sei o que me deu. Me desculpe! Por favor.

–Não me toque! — Ela soltou o braço de seu aperto e continuou andando. Queria ir embora, sumir dali.

– Eu falei para esperar! — Agarrou-a novamente, dessa vez forte o bastante para machucar, pressionando suas costas contra a parede da sala. E ali estava, aquele olhar irreconhecível, o rubor nas bochechas, e o cheiro de álcool. Felicity virou o rosto, sentindo seu hálito quente perto de mais. Não queria seu toque, nunca mais.

Helena passou por eles discretamente, se retirando sem chamar atenção.

– Ray, você está me machucando! Solte-me!

– Não! Não até você me ouvir. Isso é culpa sua, entendeu? Nada disso estaria acontecendo se você não inventasse de sair por aí ao invés de me dar atenção!

– Ray, eu estava trabalhando! Estava ajudando as crianças, você sabe disso! — Ela não conseguia acreditar no que ele dizia. Como era possível que fosse culpa dela?

– Isso é o que você diz! Pode não ser verdade! O que pensa que eu sou, um idiota? Acha que não sei como olha para aquele policial, John Diggle? Se você tem um amante, eu também posso ter! — Ele estava enfurecido, apertando ainda mais seus ombros, com as mãos perigosamente perto do seu pescoço.

– Ray, isso é absurdo! Diggle é meu amigo, foi a primeira pessoa com quem falei quando cheguei na cidade, como pode afirmar uma coisa dessas??? Eu te amo! Nunca faria nada disso!

– Eu não acredito em você! Por isso chamei Helena. Os vizinhos já estão comentando sobre você andar por aí sozinha à essa hora da noite. Não demorará muito até seus casinhos chegarem na boca do povo. E se minha mulher não se faz presente em casa, eu encontro quem ocupe seu lugar!

– Querido! Você não pode estar falando sério, o que pensa que eu sou? Pare com isso! Você bebeu, não está pensando direito. — Ela tocou seu rosto, acariciando-o e torcendo para que ele a soltasse.

– Eu estou bem. Não me diga que não estou pensando direito, a bebida me ajuda a pensar. — Ele finalmente a soltou, andando pela sala como um touro, esfregando as mãos no rosto, como se pudesse clarear a mente desse jeito.

– Ray, me escute, eu não fiz nada! Juro a você. Estava apenas trabalhando, e quando cheguei em casa vi você... Eu não quero nem pensar nisso! Você acabou de quebrar meu coração, consegue compreender?

– Ah, por favor, não fale como se fosse uma vítima!

– Mas o que eu sou então??? — Ela tentou... Tentou se conter, tentou reprimir toda a raiva que sentia, tentou ignorar o fato de que havia encontrado seu marido com outra, mas ele culpá-la por aquilo já era de mais! — Ray! Responda! O que eu sou?

– Você... Você é uma vadia! Não fale comigo desse jeito!

Felicity recebeu aquelas palavras como se fosse um soco. Elas pairaram no ar, em um silêncio mortal, até que ela andou em passos decididos até o quarto e trancou a porta. Ele havia passado dos limites, ela não merecia aquela vida. Não mesmo