Naquela manhã Felicity acordou anormalmente cedo, e para seu espanto sua mãe já estava de pé e extremamente animada.

– Querida, já levantou!!! Que ótimo! O que acha de colocar uma roupa e me acompanhar até o mercado? Não estava esperando ninguém, por isso não tenho o que servir de café da manhã. — Ela parecia estar acordada há horas, com o cabelo arrumado em cachos e um vestido vermelho bem marcado na cintura, que lhe descia até as canelas.

– Sim... Pode ser, espere só eu me arrumar e acordar Ray.

– Não, não é necessário minha filha. Ray pode ser seu marido, mas você não precisa de um cão de guarda para ir até o mercado. Só se arrume e vamos.

A menina concordou e voltou para o quarto, sorrindo com o jeito da mãe. Nenhum homem parecia capaz de colocá-la nos eixos, nem mesmo seu pai, e apesar de a maioria das pessoas não ver isso com bons olhos, Felicity achava o máximo. Sempre quisera ser assim, mas era muito certinha, e não tinha coragem.

Ela tinha trazido poucas roupas, apenas uma mala pequena, de modo que não tinha muito o que escolher. Optou por um vestido salmão que ia até os joelhos e tinha um decote canoa que lhe deixava boa parte dos ombros a mostra. Arrumou o cabelo em um coque baixo, deixando a franja solta, e estava pronta. Sua mãe já a esperava impaciente.

As duas foram andando até o mercado, que ficava a alguns quarterões dali, e Donna não parou de falar o caminho todo, sobre a festa, os vestidos, a decoração, Walter... Depois de um tempo Felicity parou de escutar, apenas assentia e concordava quando achava conveniente.

Estava observando aquelas ruas pelas quais tanto andara, e que agora estavam tão mudadas. Havia mais prédios altos, e uma quantidade muito maior de carros nas ruas. Muitas das pessoas que passavam eram desconhecidas, mas as poucas que observava e reconhecia pareciam muito mais velhas. O barbeiro da esquina, onde seu pai ia frequentemente, já estava com os cabelos brancos, assim como o padeiro e o sapateiro. As crianças que antes corriam pela rua agora eram adolescentes que conversavam animadamente e jogavam cartas na praça. Estava tudo tão diferente de quando morara ali! Entretanto, uma coisa continuava igual: o céu de Starling City. Era de um azul turquesa lindo, sem nenhuma nuvem naquela época do ano, e quando escurecia passava para um azul royal, que ia lentamente se transformando em roxo, até estar negro como breu e pontilhado por milhares de estrelas que mais pareciam diamantes.

– Chegamos. — Felicity despertou de seu devaneio com o anúncio da mãe. — Quer comprar algo especial? Lá para o final há um corredor só de doces, sei que você gosta. Vou pegando o que preciso enquanto isso.

– Ah, sim... Quer alguma coisa?

– Não, pegue apenas o que você e Ray gostam.- E saiu com o carrinho de compras pelo corredor.

Felicity andou até o corredor que sua mãe havia mencionado, e realmente havia uma boa variedade de doces, das mais variadas cores e tamanhos. Ela adorava doces!!! Foi enchendo as mãos a medida que andava, até que viu o pacote que desejava, eram jujubas de iogurte! Todos os domingos ela e o pai iam até a beira do lago e comiam aquelas jujubas até passar mal, e depois voltavam para casa de bicicleta. Aquele pacote tinha virado uma necessidade! Mas estava tão no alto...

– Droga, por acaso eles acham que todas as pessoas que vêm aqui têm um e oitenta de altura? — Falou a loira, largando tudo o que tinha nas mãos no chão. Não havia ninguém ali para pedir ajuda, então teria que pegar sozinha. Apoiou um pé na primeira fileira de prateleiras e estendeu a mão, tentando alcançar. Ainda não conseguia.

Tudo bem, ela podia tentar a segunda, não era tão alta e aguentava o seu peso. Passou o pé para a segunda prateleira e estendeu a mão novamente. Quando conseguiu encostar no pacote sentiu que sua sandália deslizava pelo suporte de ferro, lhe tirando todo o equilíbrio. De repente ela estava caindo, junto com mais pelo menos uns dez pacotes de jujubas, e já podia sentir a dor antes mesmo de atingir o chão.

Ela fechou os olhos e esperou, mas nada aconteceu. Mãos fortes a seguraram no meio do caminho, e então ela viu o céu. Não... Espera, não era o céu. Eram olhos azuis, olhos incrível e maravilhosamente azuis, seguidos por um sorriso branco de dentes perfeitamente alinhados, contornados por uma boca rosada, que por sua vez tinha à sua volta uma barba rala e loira.

– Obrigada. — Felicity sussurrou quando percebeu que o estava encarando descaradamente.

– Não há de quê. — Ele respondeu com uma voz rouca enquanto a colocava de pé. — Hmm... Você estava tentando escalar, ou alguma coisa do tipo? Porque acredito que este não seja o lugar mais adequado. — Ele a olhava com os olhos semicerrados, como se estivesse pensando.

– Eu só queria pegar as jujubas. — Ela respondeu sorrindo, meio envergonhada.

– Ah, certo. Bom, agora você pode escolher qual pacote pegar, já conseguiu derrubar todos eles no chão...

– Ai meu deus, me desculpe! De verdade, eu não queria... — ela já estava se abaixando para juntar, quando ele a interrompeu.

– Hey, está tudo bem. Você quer só uma? — Ela assentiu, e ele lhe entregou o pacote.

– Obrigada, de novo.

– Sem problemas. E da próxima vez que precisar de ajuda é só me chamar, é o meu trabalho...

– Vou lembrar disso. Não sabia que pessoas bonitas assim trabalhavam em super-merca... — Ela colocou a mão na boca, impedindo que o resto da frase saísse. Um pequeno sorriso brincava nos lábios do homem. — Ann... Eu vou ali, quero dizer... Tchau. Não, me desculpe! Que indelicadeza... Com licença.

Oliver viu a mulher desaparecer pelo corredor seguinte, rindo sozinho de seu jeito atrapalhado. Já Felicity não poderia estar mais vermelha. O que tinha acontecido com ela??? Qual era o problema em manter seus pensamentos dentro da sua cabeça?

Seguiu andando até achar sua mãe na sessão de frutas e verduras.

– Está tudo bem? Você parece um tomate.

– Não é nada, acho que foi o sol... — Donna a olhou, sem se convencer, mas não fez mais perguntas.

– Felicity, pode pegar algumas laranjas por favor?

– Claro. — Ela começou a colocá-las em um saco, quando, lá pela quinta, a pilha inteira caiu aos seus pés. — Ah não, isso não pode estar acontecendo! — Abaixou-se para juntar, quando viu mais um par de mãos a ajudando. Era o mesmo homem.

– Vejo que as laranjas também foram suas vítimas. — Falou ele com um sorriso.

– Me desculpe, de novo. O dia não começou bem.

– Entendo...

Eles juntaram as laranjas em silêncio por uns bons três ou quatro minutos, enquanto Donna pagava as compras. Felicity queria enfiar sua cabeça em um buraco, como um avestruz, e não sair de lá nunca mais.

– Acabou de limpar sua bagunça Srta. Desastre? Eu estou indo embora. — Escutou sua mãe a chamar.

– Sim mãe, estou indo. Desculpe, mais uma vez. — Dirigiu-se ao loiro na sua frente.

– Posso saber seu nome?

– Felicity, por quê? — Nossa, ele era realmente muito bonito, ela pensou, em seguida se repreendeu.

– Acho que preciso avisar o Sr. Brickwell que uma louca quase destruiu o estabelecimento dele. Talvez fosse sensato te proibir de entrar aqui. — Ela tinha entendido direito? Ele estava a chamando de louca? — Estou só brincando. — Ele acrescentou quando viu sua cara zangada. — A propósito, sou Oliver.

– Muito engraçadinho. — Tentou sustentar um olhar raivoso, mas acabou sorrindo. — Tchau Oliver. — E correu para alcançar a mãe, que a observava com um olhar suspeito.

– Quem era aquele Felicity?

– Oliver. Ele estava me ajudando. — A menina estava meio... Ofegante? Mas por quê?

– Hmm... Rapaz bonito.

– Uhum. — Felicity concordou, corando violentamente. Aí estava, Donna pensou, ela gostou dele! Mas fingiu que não tinha visto nada.

– Está pronta para as compras? Sairemos logo depois de comermos.

– Claro, vamos conseguir um vestido maravilhoso para você! — A loira falou, subitamente muito animada. E as duas partiram para casa, rumo a um dia longo e cansativo.