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6 Capítulo 6
O primeiro dia de viagem, apesar de ter sido tranquilo, não serviu para melhorar a relação de Felicity e Ray. Ao longo do caminho eles mal conversaram. Mesmo com todas as tentativas dele de ser agradável e puxar conversa, Felicity não correspondia, não estava no melhor dos humores. Tentava perdoá-lo e seguir em frente, prometia a si mesma que tentaria ter paciência e ser tolerante, mas pensar era infinitamente mais fácil que agir.
Ela passou o caminho todo observando as belas paisagens que se estendiam pelo horizonte, não apenas porque eram lindas, mas para não precisar olhá-lo nos olhos. Sabia que Ray estava se esforçando, mas toda aquela situação a estava deixando maluca. Ela simplesmente não queria mais estar perto dele, não queria ouvir sua voz, nem mesmo sentir seu cheiro.
Quando chegaram ao hotel em que passariam a noite pediram o jantar no quarto, e comeram em silêncio. Ray já não aguentava mais aquilo. Viu Felicity sair do banho com os cabelos molhados encharcando as costas do seu pijama, e ela nem ao menos lhe dirigiu o olhar.
Decidiu ele mesmo tomar um banho, e enquanto a água morna se derramava por seus ombros chegou à conclusão de que falaria com ela. Pediria desculpas novamente, se declararia, e a beijaria como se fosse a primeira vez. Ele sabia que não devia ser fácil perdoá-lo depois do que fez, mas ele estava dando o seu melhor, e não era justo ela não reconhecer isso.
Quando saiu do banho percebeu que ela dormia profundamente, e não teve coragem de acordá-la. Sentou ao seu lado na cama e a observou dormir, toda encolhida, com a face serena, como se estivesse tendo bons sonhos. Parecia totalmente frágil e indefesa, mas ele sabia que por trás daquela fachada havia uma mulher forte e decidida, principalmente devido à tudo o que já vivera.
Às vezes Ray desejava que ela não fosse assim. Queria que precisasse mais dele, que respeitasse suas vontades e opiniões sem bater o pé e impor o que achava, e que não fosse tão teimosa e independente, mas sabia que isso era impossível. Talvez fosse esse seu charme, que o encantou desde a primeira vez que a viu.
Ele sempre fora o tipo de pessoa que faz de tudo para ter o que deseja, desde criança. Mas o prazer estava em obter, depois disso perdia a graça. Talvez tenha acontecido isso com Felicity. Não que ele não a amasse, apenas não estava acostumado a manter o desejo, a continuar querendo aquilo que já tinha. Ela não era um objeto que pudesse jogar fora, era sua esposa, e ele a queria para sempre, mas não sabia como se expressar. Sentia que estava andando no escuro, sem saber o que fazer nem para onde ir. No tempo em que tentava conquistá-la as coisas pareciam bem mais naturais, qualquer coisa era capaz de arrancar um sorriso daqueles lábios, mas agora ele não sabia mais como fazer isso, todos os seus recursos tinham se esgotado.
Ele não resistiu e passou a mão em seus cabelos, acariciando seu rosto levemente, enquanto pensava em alguma alternativa. Ele não podia perdê-la.
Felicity se mexeu e abriu os olhos lentamente, seu rosto se transformando em uma carranca quando se deparou com Ray a poucos centímetros de distância.
– O que foi, Ray? — Ela falou, com aquela voz de sono que ele achava adorável.
– Nada, estava apenas te observando dormir. Você é linda. — Falou apaixonado, e pela primeira vez em muitas horas viu um sorriso surgir no canto de sua boca.
– Venha, vamos dormir, amanhã temos muita estrada pela frente e precisamos descansar. — Ela se virou novamente e fechou os olhos.
– Sim, vou só pegar uma coisa que esqueci no carro e já volto. — Disse, dando-lhe um beijo na testa enquanto ela murmurava um "está bem" e voltava a dormir. Ele saiu do quarto silenciosamente e foi até o carro, abriu o porta-malas e encontrou uma garrafa de Whisky ainda cheia.
Ele sabia que era errado, e que o objetivo daquela viagem era ficar sóbrio de uma vez por todas para poder se redimir com sua esposa, mas ele simplesmente não conseguia. Era uma tentação ficar sem o álcool, uma coisa que o deixava maluco.
Abriu a garrafa e tomou um gole, prometendo a si mesmo que seria o último, mas não conseguiu fechá-la. Poderia tomar mais alguns, que diferença faria? Era a última vez que bebia... Pelo menos era nisso que queria acreditar.
...
Pela manhã Ray acordou com o Sol batendo em seu rosto. Estava em seu carro, com uma garrafa vazia nas mãos, e uma dor de cabeça terrível. Subiu para o quarto e graças a Deus viu Felicity ainda dormindo. Tomou um banho para tirar o cheiro da bebida e foi acordar sua esposa. Embora se sentisse culpado pela noite passada não podia lhe contar o que acontecera, ou sua última chance voaria pelos ares.
Depositou pequenos beijos em seu pescoço, e ouviu ela resmungar e se mexer, com os cabelos embaraçados e o rosto marcado do travesseiro.
– Meu amor, hora de acordar. Se quiser chegar ainda hoje precisamos partir cedo. — Ele falou em seu ouvido, lhe provocando pequenos arrepios.
Podia ver que ela ainda estava grogue de sono, pois murmurou uma sequência de palavras desconexas, levantou-se subitamente, e depois de agarrar uma toalha pelo caminho se dirigiu em passos incertos até o banheiro. Ray se flagrou rindo sozinho daquela cena.
Depois de se prepararem para mais um dia de viagem e tomarem café, eles embarcaram no carro novamente, seguindo para Staling City de uma vez por todas. Felicity não suspeitava de nada, e depois de uma noite de sono seu humor melhorara cem por cento, de modo que neste segundo dia a viagem fora bem mais agradável para os dois.
Ray, por sua vez, deixou toda a culpa de lado quando percebeu Felicity mais falante e alegre do que no dia anterior, e sentindo-se bem mais esperançoso, fingiu que a noite passado nunca acontecera.
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