— Então... Eu supostamente devo adorar sua cozinha? — Felicity perguntou quando Oliver lhe deu um sorriso triunfante. Ele soltara sua mão e estava indo em direção ao fogão.

— Sim, na verdade você irá amar este lugar. Feche os olhos por favor. — Ele mexia em uma porção de panelas, e ela não tinha ideia do que ele faria.

— Hmm... Acho que não, prefiro mantê-los abertos. Sabe, eu sou muito curiosa, e quando não mato essa curiosidade é quase como se ela fosse me matar!

— Oh, por favor! Não confia em mim? — Ele perguntou sorrindo, e ela apenas cedeu ao seu pedido. Conseguiu ficar quieta por exatos vinte segundos.

— Olha, tudo bem eu ficar de olhos fechados, mas saiba que vou falar o dobro do que falaria normalmente. É o seu castigo.

Oliver a observou, sentada em um dos banquinhos altos na bancada e não deixou de pensar qual seria sua reação se ele falasse que ouvi-la tagarelar tinha se tornado uma das suas coisas favoritas no mundo.

— Eu não me importo, de verdade.

— Bom para você então.

Ela não tinha noção alguma de como estava linda. Seus pés não alcançavam o chão, e balançavam despreocupadamente no ar. Quando ela sentou a camisa subiu, revelando mais uma porção daquela pele macia que Oliver ansiava por tocar. Ele desviou o olhar, mas por saber que ela não podia vê-lo se permitiu espiar novamente.

— Espero que saiba o que está fazendo, porque se ficar ruim eu vou falar mesmo, sem rodeios. — Agora ela sorria, uma expressão feliz em seu rosto de anjo.

— Ah, por favor Srta. Smoak, está duvidando das minhas habilidades?

— Talvez.

— Você irá implorar por mais.

— Com esse cheiro, tenho certeza que vou. — Ela corou ao lembrar do cheiro da camisa, e ficou na dúvida se ele entenderia o duplo sentido na frase. Mas não tinha como! Ou tinha? — Oh Deus... E com isso quero dizer que vou implorar por mais do que seja lá o que você estiver fazendo. A comida. O que é mesmo? — Mudou de assunto rapidamente, esperando que ele ignorasse o que acabara de falar.

— É surpresa.

— Aah, por favor, só uma dica! É doce? Tem cheiro de doce.

— Sim, é doce. — Ele fez mais alguns barulhos com talheres, e depois disso silêncio. Quase um minuto se passou e a loira já não aguentava mais, estava louca para ver o que estava acontecendo. — Abra a boca. — Sua voz rouca soou extremamente perto de seu ouvido, a arrepiando da cabeça aos pés. Ela abriu, e sentiu algo em seus lábios.

— Hmm, que delícia!!! — Abriu os olhos sem que ele pedisse. Um Oliver radiante estava sentado no banco ao seu lado, olhando-a em expectativa. — Como você sabia que eu gostava???

— Vi você atacando os morangos da festa e pensei que com chocolate derretido ficariam ainda melhores. Pelo visto estava certo.

— Sorriu e pegou mais um morango, mergulhando-o em uma panela cheia de chocolate derretido e então colocando-o na própria boca. Era impressionante como ele conseguia fazer até aquilo parecer sexy.

— Acertou em cheio. É minha sobremesa favorita. — Ela se sentiu livre para fazer o mesmo que ele, mas não era nem de longe tão jeitosa, e acabou por se sujar toda, mas ele fingiu não ver. Continuaram comendo e provocando um ao outro como duas crianças. Falaram de coisas banais, riram, esqueceram-se momentaneamente de todos os problemas que tinham. Entre um assunto e outro, Oliver se atreveu a limpar um pouco de chocolate no canto da boca dela, o que trouxe um rubor tímido às suas bochechas.

— Ah meu Deus, não aguento mais! Minha barriga diz "NÃO" mas meus olhos dizem "SIM"! — Ela disse mexendo as mãos no ar em forma de garras, como se fosse agarrar a panela. Isso arrancou uma risada de Oliver, que logo se desfez. Ele se levantou, levando os dedos até a boca para limpar todos os resquícios de chocolate que ainda estavam lá, e depois olhou seriamente para ela.

Oliver sabia que mais cedo ou mais tarde precisariam conversar sobre o que acontecera e quais seriam as decisões de Felicity, e planejava fazer isso neste exato momento, mas ao ver que seus olhos brilhavam novamente e que ela carregava um sorriso despreocupado nos lábios, desistiu. Poderia livrar sua mente de preocupações por mais alguns minutos, não faria mal. Então ao invés de estender-lhe a mão para levá-la até a sala, mergulhou um dedo na panela de chocolate. Olhou-a com um sorriso travesso, e antes que ela pudesse compreender pintou seu nariz de marrom. Sua boca rosada formou um "0" perfeito, e em seguida ela riu.

— Você irá se arrepender Oliver Queen! Amargamente. — Suas palavras foram pronunciadas lentamente, e ela levantou, não se intimidando pela diferença de altura, o fitando desafiadoramente. Ele não se moveu, apenas a encarava de volta. Eles estavam muito próximos. — Sabe, uma amigo meu costumava dizer que a vingança deve ser no mínimo três vezes pior do que o que te fizeram, e às vezes eu gosto de fazer uso dessa frase. — Ela estava na ponta dos pés, com os olhos na altura da boca dele, os corpos quase colados. Oliver não conseguia pensar direito, estava petrificado, preso naqueles olhos azuis. — Você sabe o que isso significa? — Ele até tentou responder, mas as palavras não saíam, ao invés disso engoliu em seco. Ela chegou ainda mais perto, uma mão se aproximando do seu rosto. — Que você está três vezes mais sujo que eu!!!

Felicity quase gritou, enquanto espalhava três dedos sujos de chocolate em seu rosto e corria para longe dele, rindo como se aquela fosse a coisa mais engraçada do mundo. Foi para o outro lado da bancada e mostrou a língua a um Oliver totalmente embasbacado. Ele ficara tão perplexo com a proximidade em que estavam que nem notou o que ela fazia.

— É melhor você ser rápida. — Ele tirou o blazer, levantou a mangas de sua camisa branca até os cotovelos e sorriu para Felicity. Estava incrivelmente lindo somente com a camisa e o colete, a loira não pôde deixar de notar, mas então mergulhou as duas mãos na panela de chocolate, e ela soube que era hora de correr.

Iniciaram uma perseguição recheada de gargalhadas e quase tombos. Felicity não conhecia a casa, e como se isso não bastasse ela ainda estava escura, enquanto Oliver sabia de todos os caminhos e era bem mais rápido. Eles foram parar em uma sala grande, com vários sofás e uma lareira. Felicity aproveitou que ele ainda não estava lá para se esconder atrás de uma das grandes cortinas que ia do chão ao teto. Escutou os passos dele dentro do cômodo e torceu para que ele não a tivesse visto. Seu coração parecia que ia sair pela boca a qualquer momento, e ela fazia esforço para que sua respiração não pudesse ser ouvida. Estava tudo em um completo silêncio, não sabia dizer se ele já havia saído. Esperou mais alguns segundos e espiou a sala de seu esconderijo. A falta de luz não ajudava, mas parecia que estava tudo limpo. Deu dois passos incertos para fora, e duas mãos a agarraram por trás, pela cintura, depois passando para o seu rosto. Ela gritou e esperneou, mas ele tinha quase o dobro do seu tamanho.

— Oliver, você me paga! — A risada dele se misturou à dela, e eles caíram deitados no tapete, já com as maçãs do rosto doloridas. Felicity estava toda suja, desde o rosto até a camisa, e Oliver tinha as mãos e as bochechas cobertas por chocolate.

— Você mereceu.

— Você também.

Eles se sentaram, olhando para o estado em que se encontravam.

— Eu até pediria desculpas pela camisa, mas a culpa é sua. — A loira disse, dando de ombros. Oliver foi o primeiro a levantar, e lhe estendeu a mão.

— Sem problemas. Trégua?

Ela pensou um pouco, fingindo não concordar com aquilo, mas aceitou.

— Trégua. — Ele lhe deu um sorriso sincero. Era impressionante como sorria facilmente perto dela.

— Vamos nos limpar, você parece que saiu de um chiqueiro.

— Você não está diferente, Sr. Trapaceiro.

— Eu não trapaceei!

— Você conhecia a casa! — A voz dela estava uma oitava mais alta e aguda.

— E você é uma péssima perdedora. — Saiu andando na frente, escutando-a bufar atrás de si.

Eles foram ao banheiro e disputaram a pia para se limpar. O caso de Oliver fora bem mais fácil que o dela, e Felicity achou aquilo muito injusto. Demorou um pouco mais jogando água no rosto, e então virou para ele.

— Estou limpa? — Ele tocou seu queixo, virando o rosto e analisando com um olhar sério.

— Falta só um lugar, feche os olhos. — Ela fechou, com uma inocência infantil, mas não sem antes ver seu rosto se aproximando do dela.