Felicity tremia e chorava nos braços de Oliver, com o rosto escondido em seu peito como se fosse uma criança assustada. Ele não queria pensar no que teria acontecido se tivesse demorado mais dois minutos, muito menos se tivesse decidido esperar os dois voltarem. Olhava com raiva para o homem no chão enquanto este, aos poucos, retomava a consciência. Como ele tivera coragem de fazer uma coisa dessas? Era repugnante, detestável, baixo... Mal conseguia encontrar palavras para descrever!

— Você está bem? — Oliver falou acariciando a cabeça da mulher. Ela apenas assentiu com um movimento, sem conseguir falar. — Ray, acho melhor você ir embora. — Disse olhando para o homem que se levantava.

— Ela vai comigo. — Ele se aproximava com passos incertos, pronto para puxá-la pelo braço.

— Não se atreva a encostar um único dedo nela ou eu juro que sairá daqui em uma ambulância. — Havia uma raiva mal contida em suas palavras que ele não sabia quanto tempo conseguiria segurar. Poderia chamar a polícia naquele exato momento e mandar aquele desgraçado para trás das grades, mas sabia que esta deveria ser uma decisão de Felicity.

Ray não gostou daquelas palavras, mas também não parecia disposto a ir embora.

— Felicity, venha comigo. Podemos conversar em casa. — Era uma voz fria, como se ele estivesse dividido entre deixar o orgulho de lado e pedir desculpas, ou partir para cima de Oliver para recuperar sua mulher.

Ela nem ao menos virou-lhe o rosto. Continuou encolhida contra o peito de Oliver, que a abraçava com um ar possessivo.

— Então é isso? Vai me deixar por um desconhecido? — Falou com raiva, sem obter resposta. — Tudo bem. Eu vou embora, mas isso não vai ficar assim, você verá! Espero que recupere a razão antes que seja tarde de mais.

Com isso ele saiu do local, deixando os dois sozinhos. Oliver continuou na mesma posição, esperando por alguma reação de Felicity. Ela estava abalada, por isso deixou que colocasse tudo para fora, chorasse o que tivesse que chorar, e encontrasse as palavras em seu próprio tempo.

Após alguns minutos ela parou de soluçar e se afastou minimamente, o bastante para olhá-lo nos olhos.

— Obrigada. — Seus olhos eram os mais sinceros que Oliver já havia visto.

— Não precisa agradecer, fiz apenas o que era preciso fazer. — Ele tocou seu rosto, secando algumas lágrimas que ainda caíam. — Venha, vamos entrar. — Envolveu a pequena mão na dele e já estava andando, mas ela parou, parecia aterrorizada com a ideia. — O que foi?

— Não quero voltar. Minha mãe ficará horrorizada, fará perguntas que não quero responder agora... Isso vai arruinar a noite dela. Por favor...

— Eu quis dizer entrar na casa, não no salão. É melhor você sentar um pouco, trocar de roupa, e depois pode falar com ela, se quiser.

Havia muita coisa naquela frase que ela queria contestar, a começar pelo fato de entrar na casa de Oliver Queen a sós com ele, mas acabou concordando. Ela realmente precisava de roupas e um sofá.

A casa era gigante, parecia um verdadeiro castelo, com lustres e obras de arte por todos os cantos. Eles subiram as escadas e entraram em um quarto que sem dúvida alguma tinha dona, e Felicity se sentiu desconfortável.

— Oliver, de quem é este quarto?

— Da minha irmã, Thea. — Ele remexia no armário procurando alguma coisa que fosse apresentável para emprestar a Felicity. — O que acha deste? — Lhe mostrou um lindo vestido azul rodado com detalhes em dourado nas mangas.

— Você está louco? Eu nem a conheço, não posso pegar suas roupas assim! Acho melhor eu ir para casa...

— De maneira alguma! Thea tem milhares de vestidos, jamais se importaria de emprestar um. E como você irá para casa exatamente? De táxi? Desse jeito? — Olhou-a sugestivamente da cabeça aos pés e ela subitamente teve noção de que o que restava de seu vestido estava desempenhando um papel muito ineficiente em cobrir seu corpo. Havia uma enorme fenda que começava no alto de sua coxa e devia ser resultado do que Ray arrancara há alguns minutos atrás, além de uma das mangas do vestido estar rasgada, e as costas estarem praticamente nuas. Felicity sentiu o rosto queimar. Engoliu em seco e tomou o vestido das mãos dele, se encaminhando para o banheiro no outro lado no quarto. Após alguns minutos Oliver a escutou chamar.

— Oliver, quantos anos sua irmã tem, doze??? Ela é minúscula! Isso nunca vai entrar em mim! — Oliver abafou o riso e torceu para que ela não pudesse escutar através da porta fechada.

— Espere um minuto, vou ver se acho um maior. — Ele realmente não tinha pensado nesse detalhe. Todas as roupas da irmã eram feitas sob medida, então seria realmente difícil encontrar algo que servisse. Vasculhou por tudo à procura de um que fosse maior, e acabou por achar apenas um rosa escuro que era um pouco mais folgado. — Tente este, é um pouco maior. — Passou-o por uma fresta na porta e esperou que ela saísse.

Ela estava demorando, e quando ele ia perguntar se estava tudo bem ela saiu desajeitadamente. O vestido estava claramente apertado, contornando seu busto e a cintura, mais justo do que deveria, além de estar curto e deixar uma faixa larga de cerca de um palmo de pele nua acima do joelho.

— Se você acha que na frente está ruim espere a ter ver as costas! Essa coisa não quer fechar. — Ela virou-se mostrando o zíper que ia só até a metade do caminho, assim como a pele clara de suas costas. Oliver, que momentaneamente havia perdido as palavras, fez um esforço para encontrá-las novamente.

— Posso tentar?

— Por favor.

Ele se aproximou, colocando uma mão em seu ombro. Não resistiu e roçou levemente o polegar na região logo abaixo da nuca, fazendo-a congelar com o toque. A pele dela era perfeitamente macia e ele teve vontade de continuar, mas sabia que não podia. Tentou puxar o zíper para cima repetidas vezes, mas ele não se movia mais que alguns milímetros, e na última vez q tentou conseguiu ficar com um pedaço na mão.

— Ops. — Felicity se virou, olhando-o assustada.

— Ah não!! Isso não pode estar acontecendo! Nem conheci sua irmã e ela já tem motivos para me odiar. Não que eu queira conhecê-la, ou não queira conhecê-la, ah, você entendeu.

Oliver sorriu levemente e colocou as mãos em ambos os ombros dela.

— Fique tranquila, ela provavelmente nem notará a falta deste vestido. Eu vou dar um jeito, está bem? Espere aqui. — Saiu do quarto, deixando-a sozinha com o medo de que a qualquer momento Thea entrasse e reagisse de mil maneiras diferentes àquela estranha em seu quarto que tinha acabado de estragar seu vestido.

Felicity se sentou na cama, pensando no que faria com sua vida. Sua mãe em breve partiria em lua de mel, naquela mesma noite, e ela teria que voltar para o apartamento com Ray. Não queria ficar sozinha com ele, não queria mais vê-lo nem ser sua esposa. Ela pediria o divórcio, por mais difícil e ruim que isso fosse. Teria que voltar para Starling definitivamente, onde ninguém saberia sobre sua história e tinha sua mãe para apoiá-la. Seria difícil, é claro, mas ela nunca fora uma mulher fraca, e sabia que conseguiria passar por isso. O único medo que ainda tinha era o de ter que confrontar Ray sozinha quando voltasse ao apartamento. Temia que ele não aceitasse e a obrigasse a voltar com ele. E ainda tinha Oliver... Mas porque Oliver estava na equação? Ela mal o conhecia, não deveria estar pensando nele. Mas por outro lado, ele havia sido tão gentil. Os momentos que os dois passaram juntos tinham sido maravilhosos, ele estava lá quando ela precisou de ajuda, e ainda estava agora, se preocupando com cada detalhe para que ela ficasse bem.

Distraída, ela não percebeu quando ele entrou silenciosamente, e acabou levando um susto. Ele carregava uma camisa social branca nas mãos, daquelas de botão, com uma expressão que pedia desculpas em seu rosto.

— É a maior que eu tenho, deve ficar mais ou menos do tamanho de um vestido em você.

Felicity não esperava por aquilo, mas as intenções dele eram boas, e ela não estava em posição de questionar, então aceitou de bom grado, lhe deu um sorriso e foi se vestir. Ele tinha razão, a camisa era bem grande e ia até seus joelhos. Ela fechou todos os botões e antes de sair do banheiro não resistiu e cheirou o tecido. A única palavra na qual conseguiu pensar foi "UAU". Tinha um perfume único que sem dúvida alguma era dele. Fechou os olhos por mais alguns segundos, aproveitando o aroma, e só depois abriu a porta. Ele a esperava sentado na cama.

— Pronto. — Ela disse com os restos do vestido em uma mão e os sapatos de salto na outra.

Quando Oliver a viu saindo pela porta não conseguia imaginar uma coisa mais perfeita. Seu cabelo tinha soltado e caía em cachos bagunçados pelos ombros. A camisa folgada cobria suas coxas apenas, deixando o resto das pernas à mostra. Estava descalça, e sem os saltos mal chegava ao seu ombro... Ela era perfeita.

Ele percebeu que estava encarando, então limpou a garganta.

— Vamos então? — Levantou-se, pegando o vestido e os sapatos de suas mãos.

— Onde? E o que vai fazer com isso?

— O vestido vai para o lixo, o sapato fica aqui, e nós... — Olhou-a nos olhos e estendeu a mão para que ela segurasse. Sorriu de lado quando o fez. — Vamos para um lugar que você vai adorar.